LIVRO II

I

Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado, tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das suas utopias, é conciliar pelo soccorro-mutuo duas idéas que parece repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo dogma da Associação que é a traducção da fraternidade, que o christianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem attentar contra o rico. Tão sublime idéa, tão grandes factos teem-se operado n'um grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz evangelica por todos os homens.

Enlaçar n'um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar estes dois predicados que luctam rancorosamente no coração da humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los para que o divorcio os não desligue n'um repelão desesperado: tal prodigio, um consorcio assim só na pratica do soccorro-mutuo pela associação póde operar-se, porque é a genuina traducção do Evangelho que Jesus nos deixou recommendado.

O incredulo do christianismo e da associação ao passar na sua carruagem, assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas risadas alegres que lá vão dentro d'aquelle sotão raso com o chão. Tal homem não possue o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a religião e o soccorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende, apenas, que o trabalho é o capital unico do proletario. Julga elle que o artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo ás palhas do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. Não sabe que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia, é quasi um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pae, é esposo, é christão, e possue um thesouro de affectos que o deixam á beira do tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem laborioso.

A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza tinha sorrisos, a resignação um triumpho, e os desgraçados um exemplo. O coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia flores.

--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio, extendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual uma familia alegremente saboreava um parco jantar.

Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se aquelles espiritos ás angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de operarios? A soberba da educação não se rebella contra a lei oppressiva da necessidade?

Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do orgulho não póde tramar as conspirações do ocio contra a familia laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignação, e das esperanças. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da prophecia. E não era calculando eventualidades politicas, nem thronos arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio aventurava promessas. D'onde a inspiração lhe vinha não sabia elle dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticinio mysterioso.

--É o céo que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe, e recortando a folha de um lyrio.

--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a mãe sem levantar os olhos do seu trabalho.

--Queres dar a tua lição, menina?--perguntou frei Antonio, anediando os cabellos negros de Maria.

--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande tarefa. Hoje ha de, permittindo Deus, ficar prompta esta flor; disse-o a mãe... senão... o tio bem sabe...

--Senão o que, minha filha?--perguntou a mãe.

--Senão...--tornou Maria sorrindo com graciosa malicia--não merendo.

--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a mãe, limpando os olhos, e violentamente sorrindo.

--Temos lagrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando ás palavras um tom de risonha ameaça.

--Não, que minha mãe é assim!--tornou Maria.--Não póde mesmo a gente fingir que é infeliz! Permitta Deus que todos se julguem tão venturosos como eu. Tenho pae que amo tanto, e mãe que mais não posso amar! sou tão feliz!... Minha mãe não podia ser tambem assim, se achasse a ventura no meu amor?!...

--Ó minha filha... exclamou a mãe.--Obrigas-me a pedir-te perdão... Castiga-me Deus pelos labios da innocencia... Sim... eu sou muito feliz...

E abraçou-a impetuosamente como impellida por um amor que a transportava.

O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do grupo, em que avultava o padre levantando machinalmente as mãos para o céo, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece scintillar no semblante do justo. E o mais é que as lagrimas vieram solennisar aquelles extremos de alegria! Choravam ambas, mãe e filha, com as almas afinadas pela mesma emoção, pelo mesmo enthusiasmo no amor.

Frei Antonio antevia a nova organisação economica e social que ha de corrigir suavemente as velhas imperfeições da sociedade.

--Mãe, filha, e todos nós--dizia o coronel--seremos felizes com as vossas inspirações.

--O contrario seria um crime, meu irmão!--respondeu frei Antonio, tomando-as ambas, abraçadas ainda, entre os seus braços.

II

A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado em grangear a subsistencia do de ámanhã, promettia a mesma tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam.

Frei Antonio era o mestre de Maria. A educação litteraria, que lhe dava, não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria, frei Antonio affeiçoára o espirito de sua sobrinha aos moldes graves da poesia portugueza do seculo 16.o Fizera-a decorar a historia nos cantos das epopêas; afinára-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle genio, que deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que um poema decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema tornava-se, commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de moralidade. O sabio não se contentava com o amor exclusivo da sua litteratura. Frei Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos de todos os seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e lia, nas horas vagas desoccupadas da noite, com percepção admiravel. As suas lições não interrompiam o trabalho das flôres. Em quanto de entre os dedos lhe brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a flôr, pelo calor nervoso com que expunha episodios de historia, adaptados á sua intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus irmãos, mais velhos que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se feridos no amor proprio, quando a viam voar pelo mundo da intelligencia, defeso á sua. Maria era um prodigio--dizia o pae:--era forçoso reprimi'-la na audacia das suas duvidas sobre motivos religiosos, porque frei Antonio com horror á superstição e fanatismo não tolerava senão a religião na sua maior pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de perder-se por muito energica» accrescentava o mestre.

Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão. Não se lhe difficultavam as entidades ideaes da metaphysica, e leccionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espirito descessem do céo revelações das que encaminham a razão direita ao alvo das verdades eternas. O juizo, porém, essa faculdade, que não tem ainda o nome na sciencia do coração, esfriára-lhe o enthusiasmo, que, dois annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a revelar a sua opinião em objectos de sabedoria. Até não queria ser galardoada com applausos, e córava, se a faziam inveja de seus irmãos. Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia repousar a cabeça, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o, quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a moda pagava caros.

Em casa do coronel de ***, até esta epoca, nunca se reuniram a um chá pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa deliberação forçada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, não foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a felicidade d'aquella familia.

Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes circulos, nos salões do luxo e da moda. A esse nome estava vinculado o prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades politicas. Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da opulencia para a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados pelo gosto da epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio acanhava, em forçada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos Prazeres, ninguem a encontrára fóra da rua por onde ia á egreja; mancebos, porém, que precisavam interessar na sociedade, cançada de logares communs, diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, cinco minutos, maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua eloquencia.

III

O nome de Fr. Antonio dos Anjos vulgarisou-se com o de sua sobrinha. A ligação de mestre e discipula apregoava as duas pessoas com egual elogio.

Um fidalgo de Lisboa quiz conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com attenções e obsequios, que occultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito annos, rebelde aos rudimentos das boas sciencias, mas em demasia versado n'esta alchymia do mundo, em que o libertino devora primeiro o cabedal da sua virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo infeliz d'aquelle prestigio queimava no cadinho a sua subsistencia, e seduzia depois os outros a empobrecerem-se.

Fr. Antonio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvação de um naufrago, acceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia remunerar-lhe o seu trabalho.

O padre considerou-se imprudente em annuir, quando viu a funesta impressão que tal noticia causou em sua sobrinha, particularmente. Roubarem-lhe o anjo da infancia, quando, adulta, mais carecia d'aquelle esteio a que o seu coração se acostumava, era penalisa'-la com saudades inconsolaveis: era uma crueza, não de um extranho, mas de seu tio, que não tinha precisão de assoldadar-se ao pão alheio. Esta sua queixa, justificada com profunda tristeza, e continuas lagrimas, pungia o coração do velho até ao extremo de o lançar no leito da doença. Era irremediavel a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fôra pedida pelo fidalgo: a obrigação que se impoz de arrancar á libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo perdido.

Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o balsamo da ferida. Ella mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que vá repartir com os necessitados o pão da sciencia e da virtude, que, tão farto repartia com ella.

--Era peccaminoso o meu egoismo!...--lhe diz--Não pude vencer-me! O meu coração é impetuoso. Meu tio não quiz remediar-me este defeito, reprimindo-me a dedicação com que, ha seis annos, correspondo á sua amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada. Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do dia!... É forte creancisse, não é, meu tio?

--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre.

--Bem o disse eu! É muito meu amigo... leva a minha imagem no seu coração para onde fôr... tem-me ao seu lado nas suas orações... responde ao meu coração que lhe pergunta a adivinhação d'estes segredos que eu tenho aqui, e só meu tio me adivinha... é tudo isto... sim, meu caro tio?

--Sim, tudo, minha menina.

--Oh meu tio!--continuou ella exaltada--não nos podemos separar. A intelligencia é um fio electrico. Ha vibrações na minha alma, que, se meu tio as não ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa tocadas pelo vento em cima de um sepulchro deserto. Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos, quero-os para o amor, quero-os para o coração, morro pela sua felicidade se m'o exigirem; mas o meu espirito precisa de alimento, a minha intelligencia quer um pasto ideal que não acho aqui, se meu tio me desampara. Não vê que foi um impulso providencial, que o trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraçaram o caminho? Eu não tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mãos todos os dias, reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua sobrinha!... Não me faça persuadir que Deus olha com indifferença as minhas preces...[[2]]

--Maria, interrompeu o padre, tu não pensaste o que dirias antes de vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas ultimas expressões... Não me pareceram tuas...

E Maria arquejava sem desafogo. Parecia não escutar o tio.

[2] Nem sempre é inverosimil a linguagem figurada. Mais de um critico, a estas horas, se indispõe contra as hyperboles de Maria, aos quatorze annos tão espevitada! Pois creiam que não é justo o seu reparo. Se lhes eu tivesse dito que Maria convivera nas salas onde o lyrismo do coração não tem nada a fazer com a vida positivissima que lá se vive, em linguagem chan e desenflorada de figuras inuteis, tinham razão sobeja para dizerem que nunca por cá toparam d'estas donzellas Ciceros ou donzellas Gongoras, como quizerem. Attendam, porém, ao facto, se não teem a experiencia: mulher instruida, ou presumida de instrucção, se lhe falta o trato que precisa o estylo segundo as circumstancias, fala assim, e escreve assim. Aquella filha de Manuel de Sousa e D. Magdalena de Vilhena, que o immortal Garrett faz morrer de vergonha, em Fr. Luiz de Sousa, era, com menos sete annos, muito mais espirituosa, e, se querem, mais desnatural. O inverosimil é algumas vezes verdadeiro, assim como

Le vrai peut quelque foi n'être pas vraisemblable.

(Boileau , Art. poet. c. 3.e).

--Vem cá, minha filha--continuou elle, extendendo-lhe a mão, com um sorriso affavel--vem cá. Que queres tu de mim? Não queres que eu vá fazer um bom filho, e um bom cidadão?

--Vá, vá, meu tio!--exclamou ella, com energia.

--Não achas tão sublime a missão confiada por Deus ao padre velho, que não tem outra herança a legar-te, senão a memoria da sua beneficencia?

--Sim, sim... é o que ha de superior a tudo... ao amor, á vida, á esperança... Sim, sim...dê-me esse irmão em crenças, veja-o subir para Deus, impellido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por elle; trocaremos as nossas orações; elle pedirá por mim, porque a conversão de um perdido enche o céo de alegria e faz exultar os anjos!... Elle ha de, inspirado pelo céo, compreender, como nós já compreendemos, desde que vivemos artistas, o que é o amor de Deus e a virtude do trabalho.

IV

Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este mancebo.

Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e libertinagem, sente a precisão de transmittir a seu filho a herança, qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os primeiros annos lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a sua emancipação dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos do pae que o enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre em todas as suas tentativas de independencia. Quando de seis annos rasgou o A, B, C, na presença de um professor, que o contrariava, seus paes riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo assim brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar a ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam pão, disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e deram-se os parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez annos o ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança, preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro, com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....

Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa, onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam um estigma de opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e pungente, que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna d'uma familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu pae novos credores e novas vergonhas.

E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto, provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo impotente de vingança.

Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a honra, levando-o pela vereda da religião.

V

Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote, apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo. Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este homem?

Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem religiosa?

Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.

Fr. Antonio não conhecia limites á sua confiança em Deus. Convicto das mercês visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se illuminado de uma fé que lhe affiançava um prodigio. A peleja travada, em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado de uma parte da humanidade, revoltada contra um só homem. Exemplos de maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no coração do impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena.

VI

Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas immoralidades do discipulo.

Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no pateo. Orava ainda, fóra do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o repouso, de noite; obrigava-o ás tribulações de um amante desprezado. E, então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a vehemencia de uma esperança infallivel no refrigerio do céo.

A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia, repellira os creados com desabrimento e ficára sósinho trauteando e comendo promiscuamente.

Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu na porta um toque.

--Entre quem é!--bradou elle.

Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antonio, um passo dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo! Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço á cortezia grave com que o sacerdote o saudára.

--Então ainda a pé?!--perguntou Alvaro.

--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as horas da oração. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversação do espirito com Deus... E v. ex.a recolheu-se agora, não é verdade?

--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua extranheza n'estes dialogos.

--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quiz dar-lhe as boas noites. Agora recolho-me pedindo a Deus o seu descanço, como condição da vida, para amanhã abrir os olhos á luz que bem póde não alvorecer para nós. Fique v. ex.a com Deus.

E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgão ainda virgem d'aquellas impressões. Aquelle memento, áquella hora, por aquelle homem, acordára-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projectos do dia seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da morte, que mandava calar os designios humanos na presença do destino eterno.

O abalo fôra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da creança no alarido das turbas amotinadas.

VII

Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia, quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso somno da manha.

Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com o dono da casa pedindo-lhe que entregasse a Deus a regeneração de seu filho.

Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com palmas. Reparou que o papel de estudo não era musica. Esperou. De improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste, profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquelle papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles?

E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os cotovellos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Ás vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o regaço. As suas posturas eram todas afflictivas.

--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella.

Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa.

--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!... Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...

--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo do piano.

--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração? Segredos para o teu mestre, Maria!

--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a linda menina com a voz entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..

--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.

--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria, córando, e procurando fugir de estar presente á leitura.

Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:

PRESENTIMENTO
«Minha paz no infortunio,
Minha alegria na dôr,
Quem m'a déra, qual a tive,
Qual m'a déstes, vós, Senhor!
«Desbotou-se-me nos labios
Meu sorriso tão singelo...
E eu com elle premiava
Tanto amor, tanto desvelo!...
«Tanto amor, que eu vos pedia,
Do que os anjos tem nos céos,
Para amar meus paes, meu tio,
Como vos amo, meu Deus!
«Não scismei outras venturas,
Outros gosos não pedi:
Fui tão rica na pobreza...
Na pobreza empobreci.
«Senti lagrimas no rosto...
Sei que tenho aqui no seio
Escondida uma tristeza
Que de vós, meu Deus, não veio!
«Deu-m'a o mundo?... sim... daria...
Mas que mal ao mundo fiz!?
Serei eu de alguem inveja?
Pois que eu não seja feliz!
«Volva o tempo da penuria,
Quando eu fiz a pobre flor,
Que me dava um pão regado
Com meu pranto e meu suor.
«Dae-me as noites não dormidas
De trabalho e de alegria;
Meu orar na madrugada,
Quando, tão feliz, me erguia.
«Oh meu Deus! se a humilde serva,
Não votaste ao soffrimento,
Abafae lhe a voz, que a punge,
D'um cruel presentimento!»

Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de sentimento não póde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no declamar! Poderia ter-se como uma elegia á innocencia de Maria? Por Deus que não. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era como a luz do relampago que aclara, de repente, um amplo espaço: era a luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do presentimento que quer saír do circulo do mysterio: a adivinhação do futuro.

--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio.

--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.

--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias culpada se fingisses a teu tio as razões do teu soffrimento...

--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento... nunca na minha vida menti a alguem. Eu não sei porque estou triste. O meu coração não m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do coração, esconde-se lá como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote.

Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella revelação confusa.

O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a sua filha, que lh'a não beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, á custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudação; mas a dôr de filha é necessario que seja peccaminosa para esconder-se aos olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de Maria como lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os seus temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou bem tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no coração de uma virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da innocencia, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um instante mysterioso a seus paes. Trabalho e oração--não tinha outro desvelo desde o amanhecer até á ultima benção pedida a seus paes.

Maria, valendo-se da conversação do pae com o tio, retirara-se da sala. O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do espirito, escravisado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões, encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um mysterio para o padre que não sentia acordar em sua alma o echo dos gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as necessidades, responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não é o justo de uma longa vida irreprehensivel quem póde arrancar ao penitente, que se lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo emmudece nos labios. É necessario profunda'-la com a sonda das proprias agonias. É necessario adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de um symptoma que revela outro, de uma palavra solta que vae prender-se á explicação de um longo silencio. E esta dolorosa syndicancia não póde exerce'-la a simples theoria das paixões.

VIII

A arte, que ensina a levantar o véo das paixões silenciosas, era desnecessaria para Maria. A virgem não tinha segredos para alguem. Podesse ella entender a transfiguração da sua alma, a magua confusa dos seus novos pensamentos, que, bem feliz, pediria conselhos e consolações á sua familia.

--Mas aquelle silencio!...--dizia o coronel, replicando ás santas convicções do padre, a respeito da innocencia de sua sobrinha.

--Aquelle silencio...--dizia frei Antonio, consultando a consciencia, que lhe respondia de prompto--aquelle silencio... é a falta de palavras com que possamos fazer sentir aos outros uma idéa, que só a Divindade nos compreende... As horas de tua filha não são empregadas como d'antes na oração, no estudo e no trabalho?

--São, de certo, e mais continuadas na oração. D'antes orava em commum. Agora, encontramo'-la na hora do descanço, ajoelhada no sanctuario; mas vejo-a perturbada, quando reza. Ha lagrimas, e até aqui só lhe viamos o sorriso de consolação... Parece que n'aquelle orar, ha a supplica do perdão para o crime que a accusa.

--É impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--É impossivel... não quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma falta! É uma injuria, meu irmão! Peccaste contra a innocentinha, e feriste-me a mim, que tenho formado aquelle coração, que Deus me confiou para crear-lhe um anjo.

--Meu irmão... não te afflijas... isto em mim é um receio.

A interrupção do coronel era tardia para evitar a exaltação nervosa do padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade. Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse caír á voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mão, collocára em throno tão perto do céo. O coronel, tambem commovido, sentia-se nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja innocencia merecia tão fervorosa defesa. Abraçando seu irmão, parecia pedir-lhe carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe inspirara receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu mestre. O lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma corda, e acalorada pelo mesmo amor, elevava-se até Deus em oração de graças por Maria, anjo que lhes fôra dado como galardão á paciencia de muitos soffrimentos.

IX

Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?

Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma estrella?

Quem póde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada pelas sombras da noite?

O futuro é o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se enlucta, sem lamentar a viuvez de illusões perdidas, veste-se de negro, como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulação futura. É o presentimento.

Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente providenciaes, o presentimento não é uma palavra sem significação.

O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem:

--Anjo, porque soffres?

X

Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio não podia demorar a sua visita. Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia. O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dôr nova. A ultima afflicção de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida n'elle é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo élo. Fr. Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fôra dado em casa de Silveira.

A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da oração em favor d'aquelle, que tão longe de Deus, sem um decreto do céo, mal poderia ser lá encaminhado pela debil mão de um peccador. E, terminada a oração, o padre chamou o creado, que saía do quarto de Alvaro, e mandou a s. exc.a pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta, qual era de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio, insinuante de brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez, ao seu educando.

A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma impressão extraordinaria, como não sentira na presença d'algum homem celebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em riqueza. A distincção da virtude ou do fanatismo, como elle dizia da religião, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para não deixar-se vencer pelo panico da religião, Alvaro da Silveira dava-se uma explicação muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia com a classe dos padres.

Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros, tornando a religião instrumento innocente de uma politica facciosa, tem dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razão illumina o campo da religião que elles pretendem pôr em trevas. Todo o homem sensato e sãmente religioso soffre uma intima dôr quando os falsos religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que elles não sabem discernir da purissima religião do crucificado.

Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e poucas, com que o saudára, continuavam a impressiona'-lo.

--Dormiu v. ex.a socegadamente, não é assim?--perguntou o padre.

--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mão do sacerdote.--E v. s.a como se deu no seu novo quarto?

--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do céo. Uma boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciencia quando francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da paz. Deus defenda v. ex.a de revolver-se um dia nos espinhos, que perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas.

--Então v. s.a--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos é o que se diz por ahi...

--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que olvidados do céo mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta. Em pena de Talião, a politica por elles hostilisada, por todos os meios, tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais pertencer-lhes.

Estava na mesa o taboleiro do almoço. Fr. Antonio pedia licença para servir o discipulo.

--Então v. s.a não almoça?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede uma chavena, não recebida.

--Almocei já, sr. Silveira.

--Com o pae, não é verdade?

--Não, senhor: com a minha familia.

--Então v. s.a tem familia em Lisboa?

--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa.

--Naturalmente pobre...

--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o pão de uma hora. Tem sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os infortunios...

Alvaro, com a chavena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe desejos de ouvir o padre longo tempo.

XI

--A sua familia é conhecida?

Esta pergunta de Alvaro da Silveira é textualmente o inquerito galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar approximar-se por algum desconhecido, duvidosamente inscripto no livro dos costados. Perdôe-se-nos o estylo; mas, desgraçadamente, tudo que é ridiculo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando se farão sérias, quando se approximarão um dia as familias, de modo que não possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pae é conhecido...

--A minha familia--respondeu frei Antonio--foi conhecida; mas não é de lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans regalias da sociedade, que v. ex.a chamou conhecida! Penso que a minha familia não é conhecida.

--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica.

--Creio que sim... O coronel ***...

--Já sei--interrompeu Alvaro--pois não!... é muito fidalgo, e está aparentado com boa gente; mas não apparece. Então v. s.a é tio de uma menina muito falada?...

--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto.

--Sim, senhor, dizem que é poeta, romantica, e muito linda.

--É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que valha a pena de mencionar-se. V. ex.a já viu poesias ou romances, ou o retrato de minha sobrinha?

--Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de virtuosa tambem a tem; se não falei de virtude, é porque não sei verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ella é uma excellente menina a todos os respeitos.

--A virtude, meu caro senhor, é a censura pratica do crime. Sabe v. ex.a o que é crime?

--Tambem não--respondeu Alvaro com uma vaidosa entoação de espirito-forte.

--Eis ahi--disse Fr. Antonio sorrindo--uma violencia que está fazendo á sua alma, sr. Silveira. V. ex.a disse que minha sobrinha era dotada de bellos attributos. Falou pela bôca da fama, e chamou-lhe poeta, romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má irmã, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e talento, para que lhe não vissem os defeitos...

--De certo não.

--Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha sobrinha?

--Creio que sim.

--E v. ex.a?

Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:

--Eu... eu... naturalmente...

--Juntava a sua voz á opinião publica--interrompeu o padre--embora v. ex.a não antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha.

--Assim é sempre--disse Silveira, com uma forçada resolução.

--E assim será sempre, porque ha um juiz incorruptivel, chamado a «verdade». As sentenças d'este juiz, embora fulminem as paixões desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espirito de uma sociedade gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a innocencia é invulneravel ao contagio da corrupção, como a lampada do templo ás exhalações pestilenciosas dos tumulos. A consciencia é o pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.a, insensivelmente, apregoa. Será necessario dizer-lhe eu que sentimento é esse que se serve de v. ex.a, como de uma machina para se exprimir? É a virtude, sr. Alvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não póde encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao principio do bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade...

Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um tão generoso como irrespondivel adversario.

Como se anciasse pela continuação da resposta do padre, quando este se calou, tambem Alvaro não teve uma syllaba, das que se pedem á «philosophia» irreconciliavel, para responder.

--Crê na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com summa bondade e modestia.

--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu o mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que respeita.

--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira. Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.a não podia, sem horror, encarar um filho que matou seu pae; um homem que traíu o seu bemfeitor; um juiz que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.a não póde, com indifferença, apertar a mão a este homem, não é assim?

--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias...

--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou.

--Mas diga-me v.a sr.a... não dizem que ha paizes onde os paes matam os filhos, e os filhos os paes, legalmente?

--Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.a o que é permittido ahi pela lei? É justamente o que é reprovado pelo christianismo.

--Mas a consciencia não se revolta contra taes actos sem que seja preciso que o christianismo os declare criminosos?

--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos tumulos dos maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma familia, que seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada viuva. Os gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei barbara; eram a adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os filhos, que matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre nós a lei faz um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade, contra a virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os braços de um homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se alguem que o homicidio legal, na consciencia do algoz, é um acto de amor e caridade?

--Penso que não.

--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, já que os homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lh'a quizeram aviltar, dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos...

Fr. Antonio fez menção de levantar-se e continuou:

--Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos...

--Não, senhor... pelo contrario tem-me dado momentos de muita satisfação...

--Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser hospede de v. ex.a...

--Mestre...--interrompeu Alvaro com alegria sincera.

--Não posso acceitar esse lisongeiro titulo;--amigo, se v. ex.a me quizer honrar com este parentesco.

--Não me embaraça... Tenho muito prazer em que esteja...--disse Alvaro, apertando-lhe cordealmente a mão.

--Tenho obrigações a cumprir para com Deus: não faltará tempo proveitoso para os meus deveres com o proximo. Não sabe v. ex.a que os padres teem um breviario, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de orar por aquelles, que não cedem alguns minutos á oração? Filhos de Deus, pedimos uns pelos outros; e Jesus Christo beneficiou-nos com a riqueza da prece, com este patrimonio commum a todos os irmãos... E não é isto uma consolação para os que são atheus por contagio e não por convicções; fanaticos e supersticiosos por ignorancia e por estupidez?

--A respeito de atheismo... tenho... minhas... duvidas...--disse Alvaro com palavras entrecortadas por aquella pausa emphatica, semelhante á ironia dos sabios, segundo a moda.

--Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus hade conceder-nos o tempo, que é o desengano de todas as duvidas... Até outra occasião...

E retirou-se contra os desejos de Alvaro. Mas fr. Antonio conhecia o coração do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A força descia-lhe do céo. Não era em si que elle confiava.

XII

Mal o padre saíra, entrou Gonçalo da Silveira. Era o pae que procurava o filho: cumprimentou-o com a sua habitual frieza: mas o que de outras vezes era proposito, poderia então suppôr-se distracção. Alvaro absorvido nos seus pensamentos, quaesquer que elles fossem, parecia meditar uma das suas heroicas façanhas, sobresaltado, como quem recua diante de algum perigo assustador. Julgara-o assim o pae, julga-lo-iam assim os domesticos, e os cumplices, elle proprio, talvez, se se visse n'um espelho.

--Que tens?... pareces-me somnambulo!?--disse o pae.

E Alvaro affavelmente respondeu:

--Pelo contrario: estou acordadissimo... muito accordado, penso eu.

--Falaste com o egresso?

--Sim, senhor.

--Que te pareceu?

--Um homem bom, virtuoso e extraordinario.

--É realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma apparição extraordinaria, e milagrosa,.. Gostaste d'elle?

--Quem me dera ser o que elle é...

--Isso é que é extraordinario, meu filho--exclamou o velho.

--Amar um bem, que não podemos possuir, é tão proprio do homem... Que acha o pae de extraordinario, n'este meu desejo:

--Muito, muito, meu caro Alvaro!... Tu hontem não falavas assim...

--Tambem meu pae não amava a formosura de minha mãe, antes de conhece'-la... A virtude é como a virgem, que um homem estragado vê na vertigem de uma orgia, mas não póde ama'-la sem approximar-se realmente do original d'essa sombra phantastica. Sabe meu pae o que eu amo em padre Antonio? É a transparencia d'aquella face, que deixa vêr um bello coração. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiança com que censura os crimes, sem irritar o amor proprio do criminoso. Amo-lhe a independencia com que falla, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda falar! É um bello caracter! A sociedade, se conhecesse este homem, adorava-o!

O jubilo de Gonçalo da Silveira era um delirio. Parece que lhe não ouvira as ultimas palavras. A emoção sublimára-se até ás lagrimas. Alvaro tocado por uma scena, que nunca elle se julgára capaz de estimular, recebera seu pae nos braços, com vehemencia, com transporte, com amor de filho, sentimento para elle novo!

XIII

Do abalo á conversão vae um grande espaço, eriçado de espinhos, que, primeiro, medram nas lagrimas, e, no fim, se transformam em flores.

Amar a virtude não é esposa'-la. Rainha de dois mundos, com formosura immortal, a sua posse custa muitos sacrificios. No estrado do seu throno, pisam-se as paixões do mundo. Os labios, que a saudam, devem ter sido abrazados pela oração contricta.

Os olhos que a contemplam, devem ter sido manancial de lagrimas purificadoras das maculas hediondas do vicio.

Mas ha muito que soffrer desde o amor á posse.

Alvaro da Silveira enamorou-se do anjo do bem, que lhe transluzira de entre a nuvem com que o ministro de Deus lhe escondia um novo mundo. Agitára-se-lhe o sangue no coração, e, no scepticismo, a esperança, que é a vida do espirito. Sentia-se com mais vida, mais alentos e idéas novas. Aprendera a pensar. Mas o pensamento é o gerador das convicções; e as convicções são absolutamente um dom exclusivo da verdade; e a verdade é a perpetua conversação de Deus com o homem. Para Alvaro existia DEUS!

XIV

A incredulidade tem um sorriso de escarneo para estas transfigurações. Erma do coração, e fistulada nas entranhas pela podridão do epicurismo, ri-se, ri-se, ri-se como um demente a quem ninguem contesta o direito de rir.

XV

Fr. Antonio dos Anjos concluira a sua reza. Gonçalo da Silveira esperava anciosamente o ensejo de visita'-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou. Riam-se-lhe as feições, e pulava-lhe o coração na face. O sacerdote achou-se nos braços do velho pae, que soluçava expressões de reconhecimento.

O padre maravilhava-se.

--Pois a que devo eu esta commoção de agradecimentos?--perguntava elle enternecido.

--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as mãos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa morte. Vós arrancastes meu filho do mau caminho.

Era bem justificado o pasmo de frei Antonio! Gonçalo da Silveira contara-lhe o que vinha de passar com Alvaro. Exagerára, talvez, as suas expressões, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanças da sua boa alma. Frei Antonio, que não podia attribuir-se a rapida mudança do neophito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de graça que fizera baixar ao coração escuro do convertido. Depois, quando a commoção do contentamento serenou em Silveira, o padre, magestoso como um propheta, apontou para o crucifixo.

--É alli--exclamou com uma voz vibrante e pathetica.--É alli, que v. exc.a deve ajoelhar e agradecer.

Gonçalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atraz ajoelhára o padre.

O lance era sublime, o que ha de mais sublime debaixo do céo. Adorar com mais fervor, só os anjos na presença immediata do Altissimo!

Alvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficára meio aberta. Ao ver seu pae n'aquella postura extranha, e mais atraz, o vulto immovel do levita, recuou machinalmente.

Que sentimento o fez recuar? Não saberia elle dize'-lo! Susteve-se irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta. Viram Alvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se vangloriava de um cynismo inalteravel!

--Não quer entrar na sua casa, sr. Alvaro?--perguntou Fr. Antonio, collocando-se cortezmente fóra da porta do quarto.

--Vim perturba'-lo...--murmurou Alvaro, hesitando entrar.

--Não era possivel...--O espirito quanto mais se avisinha de Deus, menos cede ás perturbações... Nós oravamos com fé, e ardor. E, demais, a entrada de v. exc.a não podia distrair-nos para mal.

Alvaro tinha entrado.

Agitou-se uma conversação variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio, que vivera na casa do agricultor nas provincias do norte, falava de agricultura. Gonçalo parecia versado n'este ramo, e applaudia os melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas grandes propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso serio, especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a estação das sementeiras á das colheitas. E não parecia enfastiado, com quanto guardasse um justificado silencio na materia.

Era já outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a attenção do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos.

Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade. Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas encadernações de marroquim douradas, e nos titulos com que os licenciosos Paulo de Kock e Pigault Lebrun assignalaram os seus thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir.

Alvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, não quiz deixar-lhe plena gloria de triumpho, sem uma observação que elle julgava um golpe certeiro:

--Mas sua sobrinha--diz elle--é romantica...

--Que é ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo.

--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...

--Ora ahi está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte, é v. exc.a, sr. Alvaro.

--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admiração.

--Sim, meu caro senhor. Não póde assim fazer-se uma idéa tão singular de uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial, muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance. Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia profana, que eu affeiçoei ás necessidades do seu espirito, é muito pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa mãe, limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra sciencia. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos envoltos nos velludos prateados da eça; mas os seus dedos não levantaram ainda esse envoltorio de podridão. Minha sobrinha fala esta linguagem, senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para falarem a seus paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz de sua familia... É isto que v. ex.a chama «mulher romantica?»

Alvaro demorou a resposta.

--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos seus juizos.

--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos são os do mundo a respeito d'ella?

--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive n'um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não vêem nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pallida á mão direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a febre d'uma paixão indefinivel que a consome, é a esperança de um sonho, de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo.

Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido. Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o mandava pedir uma definição logica de todo aquelle espiritualismo, de toda aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua auctoridade, e transigiu discretamente.

--Serão esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu posso conscienciosamente asseverar a v. ex.a, é que minha sobrinha está tão longe de ser romantica, quão longe de compreender a definição que o meu amigo acaba de dar.

XVI

Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr. conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de enfado, e saíu. Aquelle, pediu licença, e abriu a carta. Gonçalo da Silveira retirou-se menos alegre, mas esperançado na mudança de seu filho.

Em quanto o padre lê a carta, entremos no quarto de Alvaro.

XVII

O conde de *** era um homem de trinta annos, typo de galhardia na libertinagem, esbelto, gentil, apesar de resequido, na face, por certa aridez da dissolução, que requeima o corpo, ao passo que o viço da alma vae fenecendo.

O açor, pairando sobre a avesinha desprevenida, apenas viu que um rapaz de quinze annos transpozera o limiar do grande mundo, abateu o vôo, aferrou-o com as garras das paixões licenciosas, e desappareceu com a presa através de uma atmosphera, onde o veneno se respirava pelo filtro do prazer. Alvaro da Silveira foi a presa.

Muitos dos mais apontados em certa sociedade libertina de Lisboa, mescla de beaterio, hypocrisia, e despejo, quando viram Alvaro da Silveira ligado ao conde de ***, disseram: «está perdido!» E quem o não diria?

O conde tinha uma instrucção mediana, que puzera ao serviço da sua immoralidade. No seu principio, quando a favor do seu nascimento, era bem recebido nos salões de Lisboa, o conde insultava graciosamente a sã religião e a piedade. Lera com pertinacia alguns d'esses livros immoraes e grosseiros aos vinte annos, para grangear um bom cabedal de motejos contra a religião, e emancipar-se com elles de uma leitura a que sacrificava as longas horas da noite, como um sobrinho que se violenta, em noite de orgia, a ficar em casa com o velho tio, porque é esse o preço de uma herança, que deve, á farta, indemnisa'-lo depois.

Aos vinte e cinco annos sabia tudo quanto era preciso para insultar a Deus em nome de uma sciencia impia. Apostolo infatigavel da immoralidade, não respeitava sexo, nem edade, quando vibrava a ironia, pungente como uma frecha de fogo, ao seio da moral christã. A donzellas, a mães, a creanças, a velhas, a religiosas, e a devassas falava sempre no mesmo estylo. Se acontecia ser mal recebido, assumia uma auctoridade pedagogica, dava-se um ar de respeito, e justificava o que dissera em tom de mofa discursando contra o christianismo que elle dizia sepultado para sempre no tumulo que lhe abrira a sciencia.

Alvaro da Silveira descreu espontaneamente. Não deu trabalho ao companheiro, nem quiz profundar uma questão que lhe não importava. A negação formal era a ultima palavra da impiedade constituida em sciencia. A Alvaro bastava-lhe saber essa ultima palavra.

Todavia, a assiduidade da companhia, e o habito de escutar o seu amigo em polemicas, animadas pela fé de uma parte, e da outra pelo orgulho, deixaram-lhe uma tintura scientifica de atheismo.

Alvaro não recebera de seus paes educação religiosa. Esta falta desmentia a classe d'onde viera. A jerarchia dos brazões em Portugal, com quanto viciosa, parece gloriar-se com o seu privilegio de fé, e de virtudes christãs... extra-muros. A educação ahi é mais religiosa que scientifica: é mais para Deus que para o mundo. Não é milagre encontrar cá fóra o representante de oito seculos de heroes virtuosos e bravos, enxovalhando-se na lama das covardias e das torpezas: mas raro encontrareis no colo materno, uma creança de sangue illustre, como lá se diz, cuja primeira palavra articulada não seja DEUS.

Alvaro da Silveira era uma excepção; o instrumento--quem sabe?--de um acto providencial.

XVIII

Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguem. Ponto era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica com mordaça de ouro. Já sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela mão até o ultimo degrau da escada da immoralidade, fôra um conde tão rico e tão nobre como elle.

Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade nunca o maltratára, mas elle dizia que tinha uma vingança solemne a tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina era a calumnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua irmã. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha duvida em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um florete. Se o ancião recuava diante da morte, ou da idéa do abandono em que ficava sua familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe cobarde nas praças, ou nos salões.

Assim como conduzira pela mão Alvaro da Silveira ás bachanaes, mais de uma virgem fôra conduzida por elle á ultima estação da licença. E, depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas á sua liberdade.

Estas linhas, esboçadas á pressa e com repugnancia, traçam a physionomia moral do conde que entrára para o quarto de Alvaro da Silveira.

XIX

A carta que Frei Antonio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu conteudo:

«Pedi licença a meus paes para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram á minha supplica. Como não pude adormecer a noite passada, trabalhei e conclui a ultima encommenda de flôres que tinha. Graças ao Senhor, já vieram novas encommendas; mas eu sinto-me fatigada dos braços, e não posso continuar. No espirito sinto eu muita vida, e não posso nem quero vencer esta consoladora força que o impelle para meu tio. Penso que o não verei hoje; mas... cedi agora á maneira commum de se exprimir a gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e logares... Deixa-me escrever uma verdade, que não teria forças de dizer-lhe?... Deus quer que meu tio seja o prisma por onde eu devo contempla'-lo. Será isto uma fraqueza de razão, ou uma liberdade peccaminosa? Peccado seria eu calar este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender.

«Estou triste, como ha pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me com tanta coragem para ella!... Mas a natureza humana, e especialmente o espirito da mulher, e especialmente o meu espirito, é muito fraco. Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santissima!... e parece que uma voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao combate do infortunio contra a paciencia! Muito triste é isto, meu caro tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque m'as não dizem, se me amam?!

«Persigo-o muito, eu bem o sei! Não o deixo em paz, quando tão necessaria lhe é para estudar a grande lucta em que está empenhado! Não sei as forças do seu discipulo, mas eu admiro mais a conversão de Santo Agostinho que as victorias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me vaidosa e sabia diante de meu tio, que tambem conhece a minha humilde ignorancia!... É que estou affeita a conversarmos como escrevo.

«E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me disse se tinham as syllabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a pena... Adeus, meu extremoso amigo! Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos estão muito saudosos. Não se esqueça um instante da sua familia que o ama tanto como a sua sobrinha

Maria.»

--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--És um anjo!

XX

O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e triviaes.

O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario! Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa, onde por força vem á luz da physionomia sentimentos que a delicadeza quizera algumas vezes abafar.

--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.

--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.

--As dôres do espirito, matam-se com espirito... mas é de vinho... Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz Rousseau.

--E diz Rousseau que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um sorriso motejador.

--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?

--Sim.

--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o Champagne e Bordeus. Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia: esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma solemne pirraça á tristeza.

O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas de um truão, invita Minerva, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O conde não estava affeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Alvaro seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.

--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente chamariamos despejo.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?

Alvaro, nem um sorriso! Era demais para tanto espirito! O conde só agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto. Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade, que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte, uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos, que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que nunca ouviram.

XXI

Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que prostrou o gigante philisteu.

--Que tens tu?--repetiu o conde.

--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse. Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só palavra...

--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer tres palavras conceituosas como as de Cesar...

--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que pudesse estar tão longe de ti como estou agora.

--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de espanto.

--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definição que ha pouco ouvi do que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava romantico.

--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa?

--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição.

--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S. José.

--Então queres saber quem define os homens e as cousas cá em casa?

--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia humana!

--É um padre!

--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos á cabeça--um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!...

XXII

N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.

A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres cavalheiros da força moral do conde.

Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:

--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da verdadeira sciencia.

--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não tem academias cá na terra.

--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.

--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.

--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.

--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com risonha benevolencia.

--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra reverendissima.

--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para depois avaliar a opinião de v. ex.a. Quando eu disse que a verdadeira sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de principios certos, é Deus. Se v. ex.a quizer insistir na primeira intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»

--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com acatamento ironico.

--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignacio, que v. ex.a citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha, por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas como ellas foram recebidas pelos sabios e illustrados doutores da egreja. E como é possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.a esta minha linguagem, buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu não poderei, falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a falsa philosophia emprega contra Deus.

--V. s.a faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a philosophia--disse o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a philosophia não poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade do christianismo.

--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.a concluir que a philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como v. ex.a gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu agora, quaes são os mais reflectidos?

--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada!

--Mas a rasão illustrada não é a philosophia?

-É.

--Logo a rasão illustrada é uma mentira, por isso que a philosophia é uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não passa de uma humana impostura. Póde v. ex.a elucidar-me n'esta grave questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio?

O conde embaraçado, e surprehendido pela argumentação escolastica do padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava bem denunciada no rubor que lhe subia á face. Este rubor era a arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar tão cedo o fragil edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade, tinha feito, dando elle proprio a mão ao fraco contendor.

--Estou como v. ex.a persuadido--disse elle--que ha uma philosophia á qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a razão humana julgára mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religião assim chamada era um encadeamento de embustes desde Moysés até Jesus Christo, desde o Genesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram philosophos, sr. conde?

--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert, Holbac...

--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados philosophos disseram que Moysés era uma impostura, por isso que a philosophia não podia consentir que a relação dos successos da creação do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as academias scientificas, especialmente a sociedade de Calecut, expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de Moysés, declara que é impossivel compreender a cosmogonia, isto é, a formação do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia, escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moysés, ou os segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho recto da sciencia, declararam, após cem annos de progresso em sciencias naturaes, que a narração do Genesis era a unica admissivel em verdadeira philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia é uma mentira, por isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao conhecimento de Deus, tanto quanto é possivel ás indagações da limitada razão do homem.

--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--Á razão do homem é que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforços d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razão do homem é amplissima e immensa com Deus, porque Deus é a razão.

--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.a devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moysés do seu prestigio de legislador inspirado directamente de Deus. Devia provar-me que a sciencia moderna, restaurando as tradições da historia antiga, e restituindo Moysés ao patriarchado das primitivas verdades, era uma nova impostura, ou a continuação d'aquella sordida ignorancia que Voltaire combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v. ex.a vê as cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que v. ex.a ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou responder á apologia que fez á razão do homem.

Não ha duvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. Já vê v. ex.a que eu concedo grandes fóros, e sublimes honras á razão; mas, já que tão opulenta a considero, não terei escrupulo em pedir-lhe que me explique os principios de que ella tira as suas consequencias scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande principio axiomatico da «affinidade». Responde-me v. ex.a em nome d'elles?

--Eu de certo não, porque ninguem soube dizer o que era affinidade.

--Não é tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade é a força que attráe as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque observaram a combinação d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse explicada a natureza d'essa força, o segredo d'esse movimento de corpos inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a «attracção» dizem os physicos, mas o que é a attracção? D'onde vem a força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro globo, que não conhecemos?

--Não temos precisão de conhecer até á evidencia esses segredos da creação.

--Mas v. ex.a concede que o Creador não os ignora?

--Seria um absurdo não o conceder.

--E a razão humana não póde conhece'-los?

--Já disse que não.

--Mas v. ex.a disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento de certas e determinadas verdades como «razão.»

--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.

--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não posso, por mais abstractas que sejam as minhas intuições, imaginar que a emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por tanto, não concebo como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado em si, segundo v. ex.a, é omnisciente, e vê os segredos da sua obra: Deus, convertido em razão pelo effeito da emanação, segundo os mesmos principios, perde os attributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao conhecimento de algumas verdades, por meio das quaes é impossivel conhecer os mysterios, que ha perto de seis mil annos, os homens debalde tentam descortinar.

--Pois v. s.a não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus?

--Não, senhor, não admitto.

--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus?

--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem?

--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.

--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o que sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja a causa de nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas vezes á memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos á operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao Pae, a intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me permittido citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.a invoca os textos de Voltaire. «Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua semelhança, é caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e misericordioso... assim o homem foi creado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança tem com elle. Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e degenera d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade d'estas palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não compreendeu a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e assemelhou-se a elles.»

--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e não me consta que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até Frayssinous, algum orador christão torture a intelligencia do seu auditorio, querendo á força persuadir-lhe que o homem foi creado á semelhança de Deus!

--V. ex.a não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor, conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe conservar a sua felicidade!»

--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da esposa de Jesus Christo.

--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço homens tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que reputára-me blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.

--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade, submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.» «Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem, quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro. Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer, porém, convencer-se d'esta verdade, observe com attenção o modo como a alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o involucro de materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a communicação por intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, esse presentimento que raras vezes nos engana, tudo parece approximar-nos da suprema intelligencia, que abraça de um lance o céo e a terra, as passadas, as presentes e as futuras revelações da humanidade. A alma, quando furiosas paixões a não agitam, é capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e ahi se observa uma, posto que imperfeita, imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os seres. O sentimento que ella tem de sua immortalidade, seu olhar penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além do tumulo, são indicações do seu destino, assignalado por Deus.

--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não está, Deus é um ente bem imperfeito.

--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia dominar-se, dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente com Deus, seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia da alma, para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu posso provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, devemos convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o barro que amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de Divindade, como os antigos egypcios acreditavam: esta supposição levar-nos-ia ao pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus é um espirito, o espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no halito creador uma porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas sim a creação de uma substancia semelhante, isto é, espiritual, mas nunca identica ao Supremo Espirito.

--Não existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma união real?--interrogou o conde.

--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se serve para obter o conhecimento dos objectos.

--Mas qual é a natureza d'essa união?

--Essa questão não póde ser solvida pelos homens: é um mysterio d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil entendimento da humanidade. Se, porém, não é possivel chegar á ultima consequencia d'essa pergunta, não é difficil provar-lhe que uma tal união existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a disposição dos órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e anima as fibras. Sabe, por ventura, v. ex.a explicar-me a natureza de certas operações incognitas, que se passam em si? Sem a degradação produzida pelo peccado, este imperio da alma não acharia estorvos no seu exercicio; mas, no estado actual, a vontade é muitas vezes vencida pela resistencia dos sentidos.

--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril pretenção de querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa tenho eu no peccado de Adão, para estar pagando as suas dividas? Isto parece-me uma flagrante injustiça!

--Deus é soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o peccado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus descendentes; devemos acredita'-lo. São-nos desconhecidos os motivos d'esta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes, alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa semelhante. Diz-se que as faltas são pessoaes, e que a vergonha de uma acção criminosa deve só recair n'aquelle que a pratica. E, quando um crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com odio e com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, até lhe cortarmos os vinculos que a prendem á sociedade. Não quero dizer que Deus sinta estas repugnancias proprias dos homens, porque não sabemos o motivo porque elle produziu obras, que apenas podemos contemplar; o que dizemos é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do peccado, para estar em proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No estado de innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e, degradado pela culpa, caíu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade tornou-se escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia, trocou a tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em logar da vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.

O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo. Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:

--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo, responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza...

--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.a que os apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.

XXIII

As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes. Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que engraçada, ao padre. Este, porém, supposto que vexado, não se denunciou pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a desgraça, e aconselhára-lh'-a a caridade.

Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda compaixão:

--O desgraçado precisa muito das orações de um justo!... Quem me déra sê-lo para que a luz do céo lhe descesse ao espirito, antes que o desalento do mundo lhe aconselhasse a religião como refugio das extremas desgraças da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve elle ter sido!...

Desde este momento apertaram-se os vinculos de piedade, de sympathia religiosa que prendiam Alvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa retirada do seu antigo mestre de atheismo, e decidira-se de coração a favor do modesto triumpho do humilde padre. Como espirito illuminado pela fé, Alvaro precisava formar a sua razão pelos elementos de uma philosophia que Fr. Antonio lhe dissera existir, mas que não era aquella do seu amigo conde.

O estudo attencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quasi invariavel, do educando. Uma transição, assim rapida, assentava o padre que não podia, sem intervenção divina, explicar a improvisa regeneração de um homem, que deixára no mundo mil incentivos de paixões que o não tinham enfastiado ainda.

A vergonha da virtude, que não pudera vingar n'um coração ulcerado de vicios, principiou a desabrochar flôres que enfeitavam a conversão do mancebo d'essas galas de educação, que parecem vindas do berço e herdadas dos paes. Era o imperio da religião, e unicamente da religião.

Fr. Antonio dos Anjos, vaidoso com razão da obra, cujo instrumento elle fôra, não cessava de agradecer ao Altissimo a escolha que fizera de um peccador para a conversão de outro peccador, para quem o remorso seria tardio.

XXIV

Na «grande roda», falava-se muito da conversão de Alvaro. Infelizmente, porém, esta conversão tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles que se occupavam d'ella, por não terem um caso semelhante de que se occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da religiosidade do seu antigo camarada, que tão bellas esperanças dava de correr parelhas no cynismo philosophico do conde.

Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes uma historia assim resumida:

«Eu era discipulo do conde ***, assim como vós o sois. Casualmente o meu mestre de philosophia falsa encontrou-se com outro que me dizia ser o mestre da verdadeira philosophia. Disputaram por algumas horas: o primeiro, quando se viu esmagado no seu orgulho, fugiu, cantando um hymno em seu triumpho, mas um hymno injurioso ao modesto vencedor. Sabeis o que depois me fez alistar na escola do frade, e fugir á escola do conde? Foi, talvez, muito pouco: vi que o frade pediu a Deus a conversão do conde que o insultára, e insultára a Deus.»

Os que o ouviram diziam depois: «Aquelle pobre Alvaro endoudeceu!... Coitado!... Seria uma paixão infeliz? Seria desorganisação do cerebro?... Seria alguma grande perda no jogo?»