LIVRO III
I
Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomára a seu cargo a educação de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de reclusão e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se bem que á alma não fazia nenhuma. É que a materia, posto que sujeita á vontade do espirito, adquire certos habitos, que não seguem facilmente as modificações do espirito, principalmente quando estas são bôas e aquelles máos. É como o relevo aberto no marmore pela mão do homem, cuja imperiosa vontade não póde desfigurá'-los sem que a mão os destrua.
E a passagem da vida agitada para a meditação sedentaria fôra em Alvaro rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta transição; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na conversão do seu discípulo, se operasse um continuado milagre.
A Providencia, porém, imprimira no espirito do mancebo o impulso da graça, e deixára-o sósinho na lucta do bem e do mal, para que as fadigas do seu triumpho lhe fossem expiações das cobardias em que se deixára vencer.
Ao cabo de seis mezes, Alvaro da Silveira dera sensiveis mostras de um abatimento, não de espirito, não de coragem, mas d'essa languidez de todos os orgãos, que parece o cançasso de uma febre intermitente. A melancolia fizera-o mais concentrado, mais solitario, e até mais aborrecido de si e dos outros. O estudo não lhe valia já de distracção, nem as praticas eloquentes do mestre lhe captivavam o espirito. Quasi sempre fechado no seu quarto, Alvaro, por fim, repellia os alimentos que lhe levavam, e carregava o sobrolho ás admoestações que o pae ou o mestre lhe faziam. Frei Antonio quiz ver n'este estado critico os elementos ainda não inflammados de uma reacção. Tremeu com a idéa de não vingarem os fructos da boa semente que elle, com tanto esmero e tanta esperança, cultivára n'aquelle coração desbravado, ao que parecia, dos espinhos da impiedade. Orou fervorosamente, pediu com anciedade a tutella do céo para aquelle orphão de pae, de amigos, e de mestre que pudessem ampara'-lo na sua recaída no abysmo, d'onde parecia ser salvo. O santo homem chegára a persuadir-se que os seus trabalhos seriam inuteis, porque o senhor queria puni'-lo da vaidade que elle tivera em faze'-los proveitosos.
II
N'este conflicto de doridos pensamentos em que a alma do padre andava trabalhada, inspirou-lhe a sua afflicção um pensamento que longas e veladas noites lhe alvoroçou o espirito, antes que seus labios o proferissem.
Fr. Antonio lembrou-se de conduzir Alvaro á sociedade; leva'lo elle proprio ao mundo, e buscar ahi em roda de pessoas que se interessassem, tanto como elle, na regeneração d'aquelle mancebo.
Mas as relações do egresso eram muito poucas, e quasi se limitavam ás do parentesco, e ás novas que adquirira na casa em que vivia.
Onde elle, cheio de confiança, poderia apresentar seu discipulo era em sua casa, na roda de sua familia, onde desde 1834 não tinha entrado uma pessoa extranha dessas que são apresentadas pelo seu nome, pela sua posição, ou pelo seu dinheiro. Ahi, porém, vivia uma menina que não sabia ainda distinguir o homem que nascera bom, e bom perserverára, do homem que fôra mau e parecia bom.
A consciencia do padre não lhe aconselhava confiadamente esse passo, cuja firmeza era toda responsabilidade sua, porque bem sabia elle que Alvaro da Silveira, apresentado ao coronel, seria recebido como filho, e, apresentado a Maria, seria recebido como irmão.
E foi por isso que em sua alma se debateram com violencia dois sentimentos oppostos: a confiança e a prevenção.
Ou porque do céo lhe descesse a inspiração, ou porque as propensões de sua indole lhe fizessem ver a face do bem empanada pelo véo da maliciosa suspeita, frei Antonio convidou Alvaro para acompanha'-lo a casa de sua familia, onde, se quizesse, encontraria as affeições que se encontram n'uma familia recolhida, que, de ordinario, parece desvelar-se em communicar aos extranhos a felicidade de amor que lhe trasborda do seio.
Alvaro, sem fingir-se, não apreciou muito o convite, mas não se recusou a elle. O habito de obedecer aos insinuantes conselhos do padre foi talvez o unico movel, que o fez acceitar um offerecimento, que lhe não promettia distracção á profunda tristeza que se lhe entranhára no espirito.
Frei Antonio compreendera esta hesitação, e n'ella viu um prospero agouro. Seriam illusões de uma boa alma?
III
O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A mãe de Maria, tão innocente como sua filha, e tão confiada na prudencia de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar de interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao pé de minha filha só póde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra?» Frei Antonio lêra estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo... Eu serei um peccador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as minhas culpas... Não temas, meu irmão.»
Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito.
Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser recebido como amigo no seio de sua familia.
Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma poesia intitulada presentimento, dissera tudo quanto podia dizer, vira o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.
IV
A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na sua sala um extranho.
Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia, pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.
Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um acanhamento quasi semelhante ao de Maria. A prevenção em que o vimos a respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára a fazer das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, que elle nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se recordava ter visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção que o sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa posição.
E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro?
Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor possa ver a de Alvaro da Silveira?
Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura, illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da face e os da alma?
E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligião, contempla a mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde não esperava já encontrar senão estimulos de paixões materiaes!...
Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presença de Maria dos Prazeres.
A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu, na escala da depravação, a ponto de negar a existencia de corações immaculados. Anojado de estudar a mulher, modelada nas fórmas invariaveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Alvaro da Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros tempos, poderia abater-lhe o orgulho.
Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caracter. Mezes antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo» intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da phrase, saudaria em sua alma a apparição de uma sympathia ardente pelo genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada.
O coronel, attencioso observador da approximação de Alvaro, gostou do pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia encetar uma conversação em que respirassem aquellas duas almas retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo. Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta esterilidade de idéas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. Não se acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justifica'-la com um momento semelhante na sua vida.
Alvaro achou a inspiração na propria fraqueza, que o mortificava. Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz tremula:
--Eu creio que perdi na solidão os habitos do mundo, meu caro mestre. Nem já sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia deve fazer de mim uma idéa triste...
--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.
--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto, entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de um modo que v. ex.a de certo não esperava receber um hospede que vive na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de reparos.
--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.a frequentou. Minha filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as aprendesse e v. ex.a se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas da côrte é talvez v. ex.a que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.a as idéas a respeito dos galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por ahi se chamam fazedores de espirito. Sejam lá o que forem, eu aprecio muito a economia de palavras com que v. ex.a abriu as relações com esta familia ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta casa deve exigir de nós os tratamentos apurados de uma refinada delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o receber.
V
Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria, cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras, fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os corações para o rosto incendiado da formosa menina.
O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo achou duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei Antonio, alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a musica era de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que não era absolutamente original aquella composição modelada por alguns fragmentos de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não era de todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos ultimos mezes da sua existencia.
Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha. Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede, que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade de uma senhora.
Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro abraçava a opinião de seu mestre, e citava-se a si como victima das perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam a rejeição dos romances. Maria, porém, e só ella, cheia de humildade, sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a bainha do lenço, contrariava as opiniões dos inimigos dos romances, depois que a cada um ouvira as razões, mais ou menos fortes, com que a leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentação era concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor tão proprio em annos verdes, em presença de um extranho, de um pae, e de um sabio.
VI
Uma hora de convivencia entre pessoas, que sinceramente se communicam em francas manifestações do que são, é bastante para a familiaridade, para a estima, e para isto que o coração ambiciona, este bem-estar, nascido da confiança, inteira e desprevenida, que depositamos em uma roda de amigos. Raro, porém, estas rodas se deparam. Amigo é uma palavra profanada pelo uso, e barateada a cada homem que se nos apresenta, como a palavra de honra, que por ahi anda desvirtuando a honra e a amizade.
As delicias da conversação, expansiva como a confidencia, e despreoccupada como a ingenuidade, essa não se conhece nos salões, onde o epigramma recebe os louros da eloquencia, e o espirito acerado e cortante conquista as ovações do talento. A murmuração, bem salgada de ironias galhofeiras, é a raínha das conversações, coroada pelo diadema da hilaridade, que, muitas vezes, não poupa o primeiro da roda, que se retira, nem o dono da casa, que fica, pela sua parte, cotejando os vicios dos seus hospedes espirituosos.
D'esta feição eram as praticas, em que Alvaro da Silveira, adestrado pelo conde de *** primára como bom artista de equivocos, e trocadilhos, em que o sarcasmo acre e engenhoso, pegava delicadamente pelos cabellos da victima, e a empalava nos tractos da zombaria, iguaria saborosa, a unica, talvez, para os paladares estragados.
Era, pois, uma novidade para o seu espirito aquella franca exposição de sentimentos, de mais a mais interessantes pelo lado da intelligencia, e sympathicos para o coração de todos, e especialmente do mancebo, que se extasiava, na presença de um talento de mulher, flôr aberta em exhalações de um novo perfume, para elle, que nunca a vira tão bella e tão fascinadora no dom da palavra.
Maria compartira de sentimento de confiança, que viera dissipar os temores de Alvaro. Sem a candura, e a innocencia, na franca exposição das suas idéas ácerca de romances, Maria não diria tanto, nem se lançára tão seguramente na opinião contraria á de todos. A sincera menina, ingenua como as suas intenções, viu no mancebo, que tão aceite era aos seus, um amigo digno de se lhe dizer tudo o que, em cousas litterarias, se diria a frei Antonio dos Anjos.
Alvaro da Silveira estava sendo digno da sua confiança. E tanto o era, que uma nobre vaidade lhe alegrava o espirito, ao ver-se, tão depressa, merecedor da franqueza com que o recebiam, e da irmandade, com que Maria dos Prazeres lhe respondia aos seus argumentos na questão em que todos se interessavam.
Frei Antonio era um sabio; mas os sabios de todas as posições sociaes, e particularmente os sabios creados no claustro, sustentam prejuizos, que as mediocridades lhes combatem com as debeis armas de uma sciencia superficial. Frei Antonio pensava mal dos romances, por que lera um ou dois, ou mil d'esses que por ahi envergonham a arte, e indignam o pudor. Alvaro da Silveira, que devorára tudo quanto os ultimos annos tinham creado de mais licencioso na litteratura franceza, odiava então os romances aos quaes erradamente imputava os seus desvios. O coronel e sua mulher jurava nas palavras de frei Antonio. Maria, porém, que não lera romances, nem mostrára o mais leve desejo de os ler, apresentava na defesa de tal leitura o instincto da adivinhação, a presciencia do talento, que um relampago, ás vezes, parece alumiar de improviso.
--Eu não sei--dizia ella--como os romances possam perturbar a minha tranquillidade! Que é o que elles dizem? Contam a vida como ella é; matam as illusões de quem a suppõe melhor; antecipam o conhecimento da realidade? Isso que tem? Um bom mestre, encarregado de levar pela mão o discipulo na estrada do mundo, cheia de precipicios, que é o que faz senão apontar ao innocente os abysmos, que se escondem debaixo das rosas seductoras? Que é o que tem feito meu tio a meu respeito? não é levantar-me a cortina do que são segredos para mim, e mostrar-me a triste realidade do que por ahi ha, apenas agradavel aos olhos da innocencia? Eu penso que o romance, espelho fiel das boas e más situações da vida, não póde fazer-me desejar o que é vicio, nem aborrecer o que é virtude...
--Mas se o romance--interrompeu Alvaro--descreve o crime com as bellas tintas da seducção?
--Não importa, o escuro do quadro lá está no crime: as fezes do absyntho lá estão no fundo do calix--retorquiu Maria--não sei se digo a verdade: mas imagino que ha nos romances um mau principio, que só deve prejudicar as pessoas, que os lêem com o coração arruinado, e os olhos fartos já de ver a realidade de tudo o que ha mau. É natural que o romance, para fazer bons certos actos do seu heroe, precise de aniquilar a moral religiosa d'esses actos, e justifica'-los pela moral da falsa philosophia. Isto me tem dito meu tio muitas vezes, e eu tenho pensado, outras tantas, na influencia que poderiam exercer sobre o meu espirito essas más doutrinas, revestidas de seductoras falsidades. Nenhuma, creio em Deus e em mim, que não. Mal de mim, e da minha fé, se o primeiro incredulo, com talento de bem escrever, e falsificar a verdade, pudesse alvoroçar a minha consciencia, a ponto de destruir com a pagina de um livro o que eu recebi pela educação, pela meditação, e pelo estudo!... Tomára eu saber tudo o que o mundo tem de bom e de mau... que me dissessem a flôr em que a aspide se esconde, e o espinho que muitas vezes, soffrido com resignação, nos póde dar depois momentos de prazer. O que eu acho triste e perigoso é crescer, tocar a altura em que a intelligencia raciocina, e o coração se emancipa dos descuidos da mocidade, ser mulher, entrar no mundo, julga'-lo a continuação do seio de sua familia, e ter de perguntar a cada instante á cabeça, que não sabe, até que ponto são razoaveis os preceitos do coração...
Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Córou, e abaixou os olhos, como se sua mãe lhe significasse, em um gesto, o desgosto de ouvi'-la.
Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz, que parecia exercer o imperio do silencio sobre o coração de todos, sentia-se elevado a um assombro de admiração, onde quasi sempre o respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do espirito.
Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeições, lhe coára no coração a vida suavissima da paixão tranquilla, sem sobresaltos de remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar a Deus ou aos homens. No coração de Maria, o que se passava era uma sensação de ternura, o desabrochar de uma nova flôr de amizade para offerecer a Alvaro, como a offertaria a um seu irmão, que viesse de longe, pela primeira vez, reconhecer a sua irmã. Se, todavia, lhe perguntassem o segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia, ella não teria nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que a sua familia sabia do seu coração, a respeito de Alvaro, é que desde o dia, em que o viu, as suas orações por elle foram mais repetidas, mais fervorosas, e mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera gloriar-se de ter concorrido para a regeneração de um anjo.
VII
Á primeira visita succederam outras.
Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel na terra, desde que visitara a obscura familia de frei Antonio.
Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas, passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de Maria dos Prazeres.
Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que frequentaram juntos a casa do coronel.
--Parece-me que és feliz, Alvaro.
--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato a Deus.
--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a tempestade vier depois da bonança...
--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me. Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.
--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céo e calmoso o mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao coração, porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.
--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração que se morre...
--Se a virtude nos não vale...
--A intenção com que me diz essas palavras...
--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho, e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam vencer por pequenas resistencias...
--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que me anime a falar-lhe.
--Adivinhei a tua alma?
--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...
--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.
--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?
--Que sentes por ella, Alvaro?
--O pae adivinhou-me... é um anjo que nos tem captivos a ambos; mas o meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...
--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.
--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti, vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga, adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae, provocar as tempestades do coração?
--É, filho.
--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...
--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e grandes expiações a soffrer na terra.
--Pois bem, meu pae...
Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas se mostraram.
--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É sensibilidade ou arrependimento?
--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.
--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas palavras, na educação...
--Não é o coração de Maria dos Prazeres.
--Pois qual?
--O de meu pae.
--É o coração de um pae... que mais queres que te diga?
--Gosta de Maria dos Prazeres?
--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?
--O pae quereria ter uma assim?
--Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...
--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante.
O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos; e, depois de alguns segundos, disse:
--Queria.
--Queria assim dar-me um esposa?
--Queria. E serias tu digno d'ella?
--Não ouso responder.
--Pois medita.
Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção, dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:
--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua crueldade. Medita, Alvaro.
E deixou-o.
VIII
Ao mesmo tempo, Maria dos Prazeres, e sua mãe, tinham o seguinte dialogo:
--Se tivesses uma amiga muito do coração, minha filha, não terias pesar se ella te adivinhasse um segredo que tu deverias ter-lhe confiado?
--Pesar... conforme, minha mãe... Ha segredos...
--Que se não dizem a uma amiga?
--Que se não dizem por que se não sabem dizer...
--E sentir, sim?
--Porque me faz semelhante pergunta, minha querida mãe? Não se queixe de mim, não?
--Pois eu vou queixar-me, Maria?!
--Falou-me em pesar... e eu começo a senti'-lo...
--De que?
--Se eu pudesse... se eu soubesse dizer-lhe o que sinto... Deus sabe que o meu coração é incapaz de se esconder aos seus olhos, e mais depressa se esconde aos meus.
--Nada tens dito a teu tio, filha?
--De que?... diga, mãe, eu que devia ter dito a meu tio?
--Tudo o que sentes hoje, assim como lhe dizias tudo o que se passava em tua alma.
--E eu sei!...
--Sei eu, Maria. Olha, filha.. O amor de tua mãe, de teu pae, de teu bom tio, de teus queridos irmãos é um amor immenso; é, eu e tu sabemos que é; mas... olha... ha no teu coração espaço para mais amor... Córas, Maria? Vês como a tua alma vem falar-me no teu semblante?
«Pois porque não, se essa alma é a minha, a da minha filha que não póde estar calada diante de mim, ainda que os labios se não abram! Sei tudo, Maria. Agora, se não queres que te fale como mãe, aqui me tens como amiga. Vamos... levanta para mim os teus olhos... conversemos sósinhas. Tu amas Alvaro. A tua melancolia é amor. Esse córar, quando não accusa uma culpa escondida, é amor. Na tua edade, se o contentamento foge do coração, é que não cabem lá os gosos serenos da innocencia, mixturados com as esperanças vagas, com os desejos desconhecidos, com as saudades de não sei que recordações de uma outra vida em que todas as nossas se povoam de anjos.
«Ha um mez, filha, não me entenderias esta linguagem. Hoje sou eu a que falo por ti, e cada palavra que me ouves, é um peso que te levanto de sobre o coração, não é? Assim é que tu querias falar-me, e eu desopprimo-te, explicando a confissão que tens nos labios, e não confessas. Pois bem, Maria, louvores sejam dados á tua bella alma! A tua sensibilidade não póde ser só da tua familia: deve extender-se a tudo que te rodeia.
«Eu esperava isto desde o momento em que vi entrar n'esta casa um homem protegido pela confiança de meu cunhado. Sem virtudes, Alvaro não seria aqui trazido; e, sem virtudes, Deus não quereria que tu sentisses por elle a sympathia que prende a innocencia á honradez. Poderei enganar-me eu, que sou velha? Posso, filha... E que farás tu que és creança? Estaremos ambas enganadas, amando-o ambas. Porque eu tambem o amo, filha; estou familiarisada com elle, vejo-o aqui entrar sem me sentir constrangida. Custa-me a crer que o conheço ha tão pouco tempo!...
«E teu pae? Fala-me d'elle com certo interesse que me parece providencial. Nunca me disse que reparasse nas tuas acções, nem reflectisse nas palavras de Alvaro. E eu, reflectindo, ainda lhe não ouvi uma que desdiga das primeiras. Sempre a mesma bondade, o mesmo acanhamento honesto, a mesma docilidade, e não sei que interesse de filho por mim, e de irmão por ti. Teu tio, cada vez mais alegre com estas relações; teu pae, nem a mais ligeira sombra de desconfiança; teus irmãos querem-lhe como a ti; o pae d'elle quer por força que sejamos seus parentes, e diz-me que veiu saber entre nós o que era a felicidade domestica... Jesus! é impossivel que tudo isto seja engano!
«Oh minha filha, o teu coração é puro, e eu quero ouvi'-lo mais a elle do que ouvir-me a mim. Diz-me se não agouras uma grande felicidade para ti, e para os teus? Confessa-me o que pensas quando estás triste... Diz, diz, Maria...
A filha atirou-se a chorar ao seio da mãe. Balbuciava palavras sem sentido. O coração batia forte, e o tremor convulso dos braços, em redor do collo de sua mãe, suppria a falta de expressão.
Assim as encontrou frei Antonio entrando sem se annunciar.
IX
--N'esta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.
--Não são peccaminosas as nossas lagrimas, meu irmão...--disse a mãe de Maria.
--Pois então dizei-me por que choraes.
--Logo, logo...
Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lagrimas.
--Onde vaes tu, menina?--disse o velho.
--Vou trabalhar, meu tio.
--Havemos de falar logo.
Ella saiu, e o frade disse a sua cunhada:
--Vá chamar seu marido e venha com elle.
O coronel entrava n'este momento.
--Ei'-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que dizer e que pensar. Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Alvaro?
--Bem; parece-me um bom moço.
--E o vosso, minha irmã?
--Tenho-lhe affeição de mãe, estou familiarisada com elle como se o conhecesse desde creancinha.
--E sabeis o que Maria pensa a respeito d'elle?
--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As lagrimas que viu nos olhos d'ella eram a confissão do seu segredo.
--Pois que disse ella?--atalhou o coronel.
--Nada, quasi nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração, lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer.
--Ama-o, em summa--disse o frade--Não admira; o moço é digno d'ella, e a Providencia quer que se amem...
--E que tem ella que esperar d'esse amor?--interrompeu o coronel.
--Tem que esperar as consequencias de uma affeição approvada por seus paes...
--Se elles a approvarem, meu irmão.
--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Alvaro da Silveira?! Eu fico por elle... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós não defendermos, defende-se ella.
--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel.
--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber para o nosso caso, sei-o de auctoridade certa, que é o presentimento bom que me dá resolução. O pae de Alvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua esposa, e elle pede-a para sua filha. Que respondeis?
--Eu respondo que sim, que lh'a dou com toda a vontade, com todo o coração--disse a mãe de Maria.
--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caracter d'esse moço, e quando, passados mezes, não vier algum accidente inopinado alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a minha vontade.
--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juizos. Disseste bem: eu conheço pouco do mundo.
--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem hypocritas, apparecem inesperadamente bons; ás vezes uma pequena alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida exterior. Eu recordo-me de um grande phenomeno na minha vida de mancebo. Aos dezoito annos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a nossos paes, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o escandalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me. Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os paes d'ella eram exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lh'a devia ser virtuoso. O talvez menos habilitado para lh'a pedir era eu. Resolvi ser hypocrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, e consegui levar a nova da minha conversão ao conhecimento da familia de minha mulher. Senti augmentar-se o meu amor ao passo que a violencia, que eu me fazia para ser bom apparentemente, ia deminuindo. Até cheguei a convencer-me de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha mulher, e concederam-m'a. Casei... e depois...
--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ella.
--Se tu o dizes, devo acredita'-lo, e a consciencia tambem me diz que o fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma cousa singular. Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e particularmente os meus rivaes, diziam que eu te faria desgraçada. Entrou o meu amor proprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo já não reparava nos meus actos, e calava envergonhado os seus vaticinios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito dentro do coração, e já não poderia, se quizesse, expulsar-te de lá. Appliquemos o conto: Alvaro da Silveira, com quem sympathiso, foi o que tu sabes, meu irmão.
«Ainda não ha quatro mezes que o encontraste entregue aos prazeres de um gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu balsamo fosse inefficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o impressionára, e, depois de dois mezes de frequencia constante, Alvaro quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é facil fingir dois mezes uma virtude que não tem raizes no espirito, e as que tem sómente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que Alvaro ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo d'ella: cousas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos trinta annos em deante. Um casamento rico não me lisongeia. Habituei-me a esta pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que hoje. Maria tambem é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da sociedade. Sentiu privações em creança, e hoje, não as sentindo, agradece a Deus uma prosperidade que seria indigencia, se ella tivesse conhecido a abundancia, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço póde dar-lhe ao espirito novos gosos, seja elle embora seu marido; eu, porém, não creio que elle possa communicar-lhe o que não sente. Estuda-o, meu irmão; estuda'-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de sua mãe as lições que deve receber uma menina que vae ser mulher.
X
Frei Antonio era esperado anciosamente de Alvaro. Dos labios do frade pendia a sua felicidade. Fôra elle encarregado por Silveira de propor ao coronel o casamento, com que o pae queria recompensar as virtudes de uma familia, á qual devia a regeneração de seu filho.
O egresso recebera com tristeza o enthusiasmo do discipulo. «Esperemos»--foi a sua unica palavra. Alvaro sentiu-se ferido no seu amor-proprio, e experimentou um abalo do seu genio. Se o padre soubesse ler nos olhos o coração, veria mover-se a areia sobre que fôra levantado o edificio da virtude de Alvaro.
O velho Silveira não se doeu menos das reflexões do coronel. Irritára-lhe a sua fidalga susceptibilidade. Pretextando-se incommodos de Alvaro, suspenderam-se alguns dias as visitas.
Maria, porém, extranha aos reparos de seu pae, não vendo em tres noites seguidas Alvaro, denunciou a impaciencia da saudade.
XI
Silenciosa em sua magua, Maria deixava-se adivinhar, mas não gemia, nem perguntava a causa do ar sombrio de seu pae. Esperava anciosa as noites, via entrar seu tio só, e nem por um lanço de olhos lagrimosos lhe perguntava que mal fizera ella a Alvaro.
A pena, porém, era grande, e sem desafogo. Maria sentiu a desdita que presentira, um anno antes; compreendeu a significação amarga d'aquelles singelos versos que fizera nascer uma musica triste, filha da sua imaginação.
Adoeceu, sem queixar-se; caíu no leito, quando já não podia esconder de seu pae a febre constante que a extenuava.
Veiu o medico do corpo, e conheceu que a dor estava na alma. Frei Antonio sabia que ella podia morrer d'aquella febre. Foi, com sua cunhada ao pé do leito de Maria, e disse:
--Menina, o nosso amigo Alvaro vem hoje visitar-te, se tiveres forças, sáe da cama e vem agradecer-lhe o cuidado; se não, outro dia será.
Aumentou o rubor nas faces das enferma. Voou-lhe um innocente sorriso de ventura nos labios. Parou-lhe de repente, a vertigem do sangue. Reappareceu-lhe o sol do coração, a florescencia da phantasia, o céo dos seus extases, e a claridade radiosa do seu ar balsamico. Era a que fôra, quando se lançára a chorar de feliz nos braços maternaes.
XII
E dizia o coronel a seu irmão:
--Deus me livre de ser cruel para minha filha... Os homens muito experimentados na desgraça vêem tudo pela face peor. Póde ser que sejam dignos um do outro. Casem embora, e queira o céo que eu me arrependa mil vezes de ter agourado mal d'este casamento. Diz a Alvaro que lhe dou minha filha, e diz-lhe mais--que vae com ella a minha vida, vida que eu lhe dou, pois antes quero perde'-la, se hei-de um dia vê'-la infeliz. Que elle me mate, antes de fazer chorar Maria as primeiras lagrimas de arrependimento.
--Não sabes como elle lhe quer...--disse o padre.
--Tambem eu queria muito ás flores em quanto o viço d'ellas não desmaiava na minha mão. Depois, que valia uma flor sem perfume, sem seiva, amarellecida? Via-a caír sem dó, folha a folha, e, descuidado d'ella por amor das outras, punha-lhe em cima um pé indifferente. Compreendes o que é o homem, meu irmão? Melhor o compreenderás assim; não t'o quero pintar na linguagem propria... Na mão de Alvaro será Maria o que as flores foram na minha?
XIII
Foi restaurada a confiança entre as duas familias. Consentiram-se expansões sem testemunhas aos dois amantes.
A nuvem que lhes encobrira alguns dias o bello horisonte do seu destino, afervorára-os para mais da alma saudarem a reapparição, para mais se quererem.
Alvaro apressava o enlace. O coronel não o retardava nem o accelerava. Entrára-lhe profundamente a desconfiança na alma. Sua mulher tentava em vão destruir-lh'a. O frade chegava até a considera-la peccaminosa e ingrata aos favores do céo. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se infeliz na situação d'ella; e contristava-se por não ver seu pae alegre como todos.
XIV
Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abençoou-os na capella de Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de felicidade intima. Em casa, porém, do coronel, chorava-se muito. Faltava alli a alma d'aquella familia. Os irmãos de Maria, alguns ainda creanças, estavam affeitos ao seu regaço, ás suas lições, e ás suas carinhosas repreensões. O coronel não queria ver a cadeira em que Maria se sentava, o piano, o açafate da costura, tudo que parecia chorar com elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae erguer-se; apenas a mãe ficava, com o coração partido, dando o exemplo da resignação, e consolando com palavras animosas, esforço mais intenso na dôr que a dôr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu visitar sua familia. Foi recebida em alvoroço. Queriam beija'-la todos ao mesmo tempo. Os irmãos mais novos perguntavam-lhe se ficava para sempre. Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por todos, desejando alguns instantes de solidão com sua mãe.
--És feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel.
--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me lá esta familia; ainda não pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta casa. Parece-me até que sou mais d'aqui, e que a outra é uma casa de emprestimo.
O coronel voltou-se para sua mulher, e disse:
--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua familia?
--Não...--disse a mãe de Maria.
--Então...--tornou o coronel--tua filha é menos feliz do que tu foste! No goso da abundancia tem occasião de sentir saudades da pobreza que deixou.
--O pae--replicou Maria--engana-se, ou não póde sentir como sente uma mulher. Minha mãe havia de sentir o que eu sinto; é que já se não lembra... Pois haverá felicidade que me faça esquecer a minha familia?! Eu não sei o que é abundancia nem pobreza. Ainda não pude ver a differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, senão pelo coração. Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmão dos meus irmãos, aqui...
Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades, chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas carruagens.
--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de vos querer elevar com ella!» Não te parece?
--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo.
XV
Felicidade, o que és tu? Engano providencial que nos alimentas na alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a esperança, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taça do prazer esconde no fundo.
Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te via espargindo flôres desde o meu obscuro cantinho até aos imaginados horisontes do meu destino?
O que és tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre a esperança, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de infeliz?
Felicidade, o que serás tu, se não és a filha dos homens, morredoura como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no coração do ambicioso, o vácuo da cobiça, chegando aos labios do sequioso, que te busca na terra, a esponja acerba do desengano?
Porque te não vejo eu debaixo do docel dos principes da terra? Enfloraste os berços de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de sangue no cadafalso as tuas grinaldas?
Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a condemnação do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. Não estavas lá. O braço trabalhador enervou-o a fome, no anno da esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobiça de mais pão que o necessario á sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua mãe.
Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era falso esse existir na vida. A mediocridade anciava saír da sua esphera; a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a independencia era uma situação mentirosa como o teu nome.
Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar o primeiro de Roma, porque o não salvaste do punhal de Bruto?
Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de Malherbe? Como estremaste os destinos de Séneca e Nero? de Virginia e Aggripina? Quando és tu o galardão da virtude, a socia fiel do nobre espirito, o premio benemerito do coração immaculado?
Na gloria da sabedoria?
Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as multidões ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito abraseado em ancias de achar-te aqui? Déste a Cicero, teu apostolo inspirado, a resignação na morte? Estará o teu busto levantado sobre as ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos, honras perpetuas das nações, pisados pela desgraça, mortos de fome de pão e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida?
Passarás ao menos uma primavera, no coração da virgem, que te chama do céo, que te crê filha de Deus, que se acolhe ao teu regaço como a asylo inviolavel de innocentes, que te vê na ternura maternal, que te beija nos labios de seus irmãos, que te respeita nas palavras ungidas de um velho, que te abraça soffrega na idolatria de um amante, que aperta ao seio todos os teus dons, cingindo-se ao seio do esposo estremecido?
Não, maldita da esperança, tu não estás entre nós. Existirias na terra, se entre os homens e Deus não estivesse o infinito.
XVI
--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua cunhada.--Não diga isto a seu marido, minha irmã. Poder-me-hei ter enganado, e não lhe antecipemos um dissabor.
--E porque não vem ella a nossa casa?!--perguntou a mãe afflicta.--Ha um mez que nos não visita, disse aos irmãos que não tornassem lá sem ella os chamar... Alvaro já a trata mal? já a não amará?!
--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se não deram as mais ligeiras desavenças entre elles; mas o silencio quando nos reunimos todos á mesa, é profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem ás vezes sobre o prato de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o, e elle responde-lhe que não tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me que rogue a Deus por ella.
--É pois muito desgraçada a minha filha!--exclamou a lagrimosa senhora--Fomos nós que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu só! Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o puro sentimento que a levava ao coração de um homem que eu julgava digno d'ella; animei-a até a proferir palavras que o pudor lhe não deixava saír do coração! Minha pobre filha, é tua mãe quem te fez infeliz! Que direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da felicidade do nosso anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos enxugou, e nós não podemos enxugar as d'ella... Podemos, podemos...--proseguiu ella com exaltação.--Que venha para a nossa companhia; vá, meu irmão, vá dizer-lhe que o coração de sua mãe só póde achar allivio ao seu remorso, sentindo-a chorar no meu seio... Vá, vá, antes que meu marido saiba que ella vive assim... Traga-m'a, póde ser que meu marido se não queixe na presença d'ella... Não se lembre que ella é casada... Não ha lei divina que obrigue uma mulher a ser victima de seu marido...
--Basta, minha irmã!--interrompeu com brandura o padre--Não multiplique com o seu amor de mãe os soffrimentos de Maria... Ella não se queixa. Quer que a sua dôr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Póde ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. Não vamos nós precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaça. O anjo do Senhor está ao pé de Maria, e um desgosto passageiro é muitas vezes uma experiencia que Deus manda para a purificação das suas escolhidas. Confiança na justiça divina, minha irmã. Alvaro tem de responder hoje ás perguntas de seu pae, e talvez ás minhas. Póde haver n'esta melancolia de ambos uma causa dada por ambos. O silencio de Maria faz-me suspeitar que ella não tem bastante confiança na razão da sua tristeza. Póde ser que a demasiada saudade dos seus, manifestada ao marido, o tenha desgostado. Se tal fôr, é preciso dizer a minha sobrinha que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudança nas ligações de familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao de filha: augmentam as obrigações, e vem com ellas o dever do sacrificio. Eu conheço pouco do coração humano; mas o de Maria sinto-o pensar, e sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras seu marido; porém esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irmã, menos lagrimas, e mais reflexão. Repito que não diga a seu marido que eu vim aqui fazer-lhe o mal que não imaginava.
XVII
O velho Silveira chamou seu filho, e disse:
--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro?
--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros.
--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este anjo?!
--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu pae, mudemos de pratica. Para onde vamos nós a ares este anno?
--Que modos são esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a tua emenda?
--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder é hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.a não me accuse sem fundar a sua accusação.
--É possivel que já não ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro?
--Pois eu não a amo?! O pae que quer que eu faça? Ser-me-ha preciso trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei fazer carinhos piegas... Creio que ella não dirá que a trato mal, nem a privo dos seus prazeres...
--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres lhe dás, Alvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu procedimento para que elle te não negasse a filha? Vejo que preparas para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso! Com que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os surdos padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso! Explica-te, Alvaro; não te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma explicação d'essa frieza para com ella... O que é isto?
--Pois eu obedeço, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma. Creia que soffro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrivel verdade que me esmaga o coração. Maria não é a mulher, que eu devia procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraça, uma horrivel illusão! Eu não sou digno d'ella. Fui atraiçoado pelo amor que Maria me inspirou; julguei-me capaz de occupar, toda a vida, o coração com a posse d'ella. O demonio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da indifferença na alma, violento este sentimento amargo a confessar as virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheço que é um anjo, mas não posso, ao pé d'ella, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que o meu arrefecimento lhe passou á alma. Vejo-a triste, responde-me chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu faço sobre mim um grande esforço em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu pae, não era eu o homem que devia fazer a felicidade d'esta mulher... Sou incapaz de a maltratar, terei com ella todas as attenções de irmão; mas... é necessario que deixe de sentir o que sinto... A violencia é inutil... o amor não se crava no coração como quem crava um punhal... Basta-me o meu infortunio de não poder ama'-la. Os desgraçados como eu são amaldiçoados pela sociedade, e Deus sabe se elles não são mais dignos de piedade que de maldição!... Não poder ama'-la como a adorei ha tres mezes! Isto é angustioso, meu pae! Por quem é, não me aggrave as minhas dôres com as suas censuras... Não receie nada por ella... Eu tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ella se capacite de que ainda a amo. É uma piedosa mentira em que meu pae, por meu bem, e d'ella, e de todos nós, deve consentir, e até empregar a sua influencia auxiliadora. Consiga v. ex.a que ella saia do quarto, que vá aos theatros, que vá aos bailes, que frequente as nossas immensas relações, que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os infortunios domesticos, que eu farei o mesmo...
--É uma alliança infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o velho.
--Como alliança infame!--redarguiu o filho.
--Sim! consentes a tua mulher...
--O que? queira dizer, meu pae!
--Tenho vergonha de o proferir!...
--Então não me comprehendeu, ou me julga um homem destituido de honra. Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu não quero fazer com minha mulher allianças infames. Quero que ella não faça consistir a sua felicidade sómente na minha convivencia de todas as horas, e de todos os instantes. Quero que ella reparta os seus desejos, e as suas idéas por tudo que possa dar-lhe uma distracção honesta, e concedida ás senhoras da sua posição. Não quero que o seu amor á solidão me force, me algeme a um gosto que não tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz, e quero viver para a sociedade. Gosar não é offender a Deus, como lhe incutiram a ella. Nunca a levei aos theatros, aos bailes, a uma visita, que não tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a crearam. Está sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pae que eu esteja alli constantemente ao pé d'ella, repetindo-lhe as phrases cançadas de um amor de convenção? É hypocrisia com que não posso...
O velho voltára as costas ao filho, e confundira as lagrimas com as de padre Antonio que se fizera annunciar.
XVIII
Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra. Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que converte a piedade em estima.
A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as lagrimas em silencio eram a mais pungente censura que ella podia fazer ao seu procedimento.
A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam lançar á sua liberdade.
O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas, outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.
Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro, que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a respeito da felicidade que o marido lhe dava.
Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido.
O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações.
Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.
Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso, palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.
É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós...
XIX
Foram aconselhados a Maria ares do campo. Saíu de Lisboa para Collares, acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa, fazia as suas excursões á caça, em que entreteve um mez, distraído de tudo; e embebido no seu affecto remoçado ao inseparavel conde.
Entretanto, Maria déra largas ao coração abafado. Padre Antonio sabia a causa do soffrimento, mas affectava extranheza, para não auctorisar queixumes de mulher casada. Fazia grandes rodeios aconselhando a sua sobrinha a resignação, porém, simulando, sempre, que não conhecia motivo para tristeza tão inconsolavel.
Uma vez, Maria, cançou na lucta comsigo mesma, e fixou no tio os seus grandes olhos arrasados de lagrimas. Era um olhar de soffrimento que reage, uma accusação ao homem que concorrera para o seu infortunio, e parecia impor-lhe a violencia da mudez, a morte surda sem a inoffensiva respiração de uma queixa.
Frei Antonio entendeu-a, e disse:
--Fala, minha querida sobrinha, accusa-me, e depois pediremos ambos ao Senhor que nos dê melhor vida a ambos.
XX
A mulher de Alvaro da Silveira balbuciou:
--Não o accuso, meu tio; peço-lhe sómente que me deixe chorar. É bem pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto n'este unico prazer dos infelizes.
--O da oração é maior, minha sobrinha...--atalhou o padre.
--Pois eu não oro, meu tio? É quando sinto mais dentro do coração a doçura das lagrimas. Ou peça a Deus paciencia para soffrer até ao fim, sem que a minha familia o saiba; ou peça que se digne tocar o coração de meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desopprimida.
--Mas os teus dias são sempre eguaes, filha. Estás cada vez mais abatida, mais magra, e mais febril.
--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus é a força da alma... A morte não lh'a peço, por que sei que não faria com ella a felicidade de Alvaro... É impossivel que o remorso o não castigue depois... Isso é que eu não queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas d'alguem... E, se eu morresse, a nossa pobre familia soffria muito... minha mãe, seguir-me-ia, e os meus irmãos pequeninos nos braços de meu pobre pae... matal-o-iam com carinhos... É por isso que eu não peço a morte...
--Não peças, Maria. Diz-me o coração que terás melhores dias da tua existencia, e que eu hei de ve'-los ainda.
--Oxalá... e como serão esses dias, meu tio?
--Será quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto.
--Pois esse amor póde por ventura tornar?
--Pois não póde, filha?! Estás passando por uma dolorosa provação; é impossivel que não recebas n'este mundo o premio da tua constancia. Assim como Alvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o anjo, que o alumiou uma vez, ha de alumia'-lo outra, minha sobrinha. Quando menos o esperarmos, estará comnosco, para nos restituir o bom coração que nos roubou. Crê, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas supplicas sejam por elle, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos, quando a sua bondade quizer.
XXI
Padre Antonio, horas depois, enviava um proprio com uma longa carta a Villa Franca. Era um humilde requerimento ao coração de Alvaro. Lembrava-lhe, com delicadeza, os seus deveres. Contava-lhe o viver attribulado de sua sobrinha, pedia-lhe encarecidamente que viesse vê'-la, ou consentisse que algumas pessoas da familia d'ella a acompanhassem no ermo em que vivia.
O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se banqueteavam os caçadores, commemorando as façanhas venatorias do dia. O conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a resposta á carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria. Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os incommodos de sua mulher; recusava, porém, acceder á convivencia pedida, e approveitava a occasião para observar a sua reverendissima que a sua pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada, provando-se que não havia n'essa casa meninos para educar. Terminava, ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que os ares campestres não conseguiam alliviar os seus padecimentos.
Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma sonora palmada, como signal de applauso e gratidão.
XXII
Frei Antonio fôra assistir ao trespasse de um moribundo, e não estava em casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la.
Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de um canapé, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a insinua'-la sem a sobrinha dar fé. Esta, recuperando os sentidos, viu ao pé de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mão ao seio para certificar-se de que a carta lhe não fôra tirada.
--Então o que foi isso, minha filha?--perguntou o padre.
--Um desmaio, resultado da grande fraqueza que tenho, de um passeio que dei longo de mais para as minhas forças...
--Pois tu saíste, Maria? Não enganes o teu tio.
Aqui, Maria córava, e o frade vinha logo com o remedio, fugindo para outra idéa.
Depois de uma hora em que dois corações angustiados estiveram a enganar-se mutuamente, padre Antonio abraçou sua sobrinha; e disse:
--Olha, menina, o extremo do soffrimento não se póde dizer qual é, nem quando chega; por isso não direi ao certo que as nossas penas estão a passar por serem culminantes. Mas é de fé para mim, filha, que isto assim não póde demorar-se muito. A piedade do Altissimo está por instantes a amercear-se de nós. Maria, fica no teu quarto; pensa n'essa carta que tens no seio, eu vou pensar tambem; e, passada uma hora estaremos juntos. Antes, porém, de decidir, Maria, pede ao senhor a luz da graça.
Maria ficára como engolfada em profundo pasmo com a mão no seio. O frade saíra.
XXIII
Passada uma hora e um quarto, foi a sobrinha, atemorisada pela falta, que entrou subtilmente no quarto de seu tio. O velho estava de joelhos diante de uma cruz. Sentiu-a entrar, voltou um pouco a face, e disse:
--Espera um bocadinho, menina; eu falo-te já.
Maria ajoelhou ao pé d'elle.
--Pois sim, oremos juntos: disse o padre--se já resolveste, pede comigo ao Senhor que mude a tua tenção, se ella não é do seu agrado.
Decorridos alguns minutos ergueram-se ambos.
--Pensei, meu tio--disse Maria.
--E então?
--Creio que Deus permitte a minha vontade: o tio me dará a certeza da minha fé, se não se oppuzer.
--Pois diz, filha.
--Eu fujo a meu marido.
--Como? foges a teu marido?!--atalhou o velho espantado.
--Acolho-me ao seio de Deus, para morrer tranquilla.
--Entendi; minha filha!--exclamou elle com jubilo abraçando-a.--Queres dizer que entras n'um convento.
--Sim, sim.
--Foi a minha idéa, quando orava...
--Sim? então, bemdito seja Deus!--disse Maria erguendo as mãos com arrebatamento.--Já vejo que o Senhor approva a minha resolução. Eu pedi muito á Virgem que lh'a inspirasse, meu tio. Vou para as Therezinhas. Tenho lá muitas amigas que me hão de fazer digna de orar com ellas. Trabalharei para viver em flôres, em recorte de papeis, em tudo, por que pouco me basta. Poderei ve'-lo todos os dias, meu tio, e verei meus paes, e meus irmãos. Se Alvaro um dia me quizer, elle irá procurar-me, e eu serei sempre o que sou e o que fui. Não lhe tenho odio, não tenho. Sei que elle ha de ser ainda muito infeliz, e talvez seja eu, depois de meu tio, quem lhe restitua a boa alma que elle tinha quando o conheci.
--Tu choras. Maria?--interrompeu o padre carinhosamente--Levas saudades de Alvaro, não levas?
--Saudades? não sei que sentimento é este!... parece-se mais com o da compaixão. É como se eu dissesse: podiamos ser ambos tão felizes!.. e assim não se sabe qual de nós será o mais desgraçado! É o que eu sinto, meu tio. Já vê que o estimo ainda como se fosse um meu irmão perdido de vicios, que maltratasse sua familia, e que eu tivesse conhecido enchendo de carinhos minha mãe e meus irmãos. Lembra-me que elle era tão amigo de todos! entrava na nossa casa como se fosse nosso... agradecia tanto o nosso bom agasalho, sem saber que nós ficavamos sempre tristes quando elle nos deixava... É porque eu choro, meu tio... Isto é saudade do que elle foi, e compaixão do que é.... Paciencia... Vou para as Therezinhas... Imaginei-me sempre lá desde creança, não se lembra? No tempo em que eu cantava aquellas palavras tristes, pensava tanto em pedir a minha mãe que me deixasse entrar no convento, ainda que fosse como creada...
--E hoje, Maria... talvez... tenhas de entrar como creada...
--E isso que tem, meu tio?! Pois nas Carmelitas não entravam tantas senhoras distinctas que faziam a cozinha ás semanas? Que tem que eu seja creada? Alvaro não póde envergonhar-se d'isso; porque ha muitas situações vergonhosas para um marido, mas esta--a de servir--não é uma d'essas... pois não?
Maria córou proferindo algumas d'essas ultimas palavras. Fr. Antonio depois de abraça'-la, disse:
--Eu vou para Lisboa, minha sobrinha. Falarei com a prioreza; veremos como has de entrar; antes, porém d'esse passo, é preciso que escrevas a Alvaro.
--Pedindo-lhe consentimento?
--Sim.
--Se m'o nega?! não vou?
--Vaes, Maria. A petição é a humildade da esposa; mas a fuga é o ultimo direito da victima. Onde ha algoz não ha marido.
XXIV
Era assim a carta de Maria a seu marido:
«Foste enganado por uma chimera, Alvaro. Não era eu a mulher digna do teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração á dôr do arrependimento, tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo, cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, soffrerias muito, se não tivesses animo de affastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna.
«Felizmente que adoptaste o melhor expediente.
«Penso que as distracções, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Alvaro, olha que esse bem peço-o eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jámais do remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se alliviam em queixas. Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra aborrecida por outra. Até as lagrimas te escondia, não é verdade? Se me surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, não ha idéa de vingança, nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica.
«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este titulo que tem tanto do affecto como da razão. Entre nós já não existe o grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com arremesso. É o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que m'a dá, e dar-m'a-ha até ao fim.
«Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque não cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.
«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres ignorados da vida obscura. Esta consciencia e a absolvição de algumas cruezas do teu caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse na sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me aos olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza e na simplicidade, não pude, por mais que quiz, contrafazer a minha indole. Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; voltava de lá contente com a esperança de estar sósinha comtigo, e muitas vezes me deixaste sósinha com a minha saudade; e tornaste aos bailes a aproveitar as horas que eu te aguava com a minha inexoravel melancolia.
«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração, quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de ventura, e amaldiçoavas o brilho perfido da sociedade que te não deixára mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão.
«Se me não tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia lá fóra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui está porque eu não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae, tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar é o pobre velho, e eu conto com a bondade da sua alma.
«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo, porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito. Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás sempre uma irmã.
«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem filha do espirito.
Adeus.
Tua mulher
Maria dos Prazeres.»
XXV
Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os seus livros, e uma pouca de roupa branca.
--Já escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle continuando o seu serviço--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria, é tão pequena, que a póde um frade velho transportar debaixo de um braço. Ora vamos lá; lê a tua cartinha.
Maria leu, affectando serenidade. Não podia, comtudo. De instante a instante, havia embargo de soluços, lagrimas pertinazes, e alterações na côr. Padre Antonio tomou-lhe das mãos a carta, e leu-a em voz alta.
--Está muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o proprio a Villa-Franca. Ámanhã por noite, está cá a resposta. Eu virei então saber qual ella foi.
--Pois meu tio, já hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia.
--Pois então, menina? A minha licença acaba logo que a trouxa esteja prompta. Eu não extranho isto... Quando me mandaram saír do meu convento que era a minha casa, saí logo; agora mandam-me saír de uma casa, que não é minha, que hei de eu fazer? Saír mais depressa ainda, se é possivel, e sacudir á saída da porta o pó dos meus sapatos. De mais a mais, bem sabes que preciso falar á madre prioreza das Therezinhas no teu agasalho, que ainda não sabemos como será, e todo o tempo é pouco... Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com olhos enxutos. O merecimento aqui não é chorar, é rir para o céo. Ha uma só causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que é Pae, ou aos homens, que são nossos irmãos. D'estes peccados, absolvo-te eu, menina, que os não tens. A offendida és tu, e, por conseguinte, perdão para os homens, e oração de graças ao Senhor.
XXVI
Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.
Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que não voltava sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. «Pois esse hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... «Leva--continuou elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E entregou-lhe, aberta, a carta de sua mulher.
Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou tambem.
--Vamos, filha--disse elle por fim.
--Já?! de noite?--reflectiu ella.
--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma... Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com a nossa familia.
--Pois está tudo arranjado?
--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da sr.a escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos embora.
Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém, foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi apertada por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago com que lhe bebiam as lagrimas da face.
O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém, queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.
XXVII
A sege parou defronte do mosteiro.
Rompia a manhã. Tão lindo estava o céo, tão balsamico o ar ao pé do arvoredo do convento, as aves deleitavam tanto o coração, o múrmuro despertar da natureza tão meigos arrobos filtrava ao seio de Maria, que, enlevada em mudo regalo, docemente lhe marejavam nos olhos as lagrimas de um contentamento infantil, se não eram antes o respirar suavissimo da abafação angustiosa em que penára.
Aberto o portão exterior, frei Antonio entrou com sua cunhada e sobrinha. Algumas religiosas desceram á portaria, e levaram comsigo mãe e filha, felicitando esta com grandes jubilos, e inventando graças para a desassombrarem da sua tristeza. Sabiam-lhe bem a maguada vida, e a virtude santa, aquellas servas do Senhor. A Mãe de Jesus, protectora sempre invocada de Maria, tocou talvez o coração das carinhosas freiras que parecem porfiar qual mais mimos e agrados fará á querida hospeda.
D'ahi a pouco volveu ao mosteiro Fr. Antonio com a familia toda. O coronel esmoreceu d'aquelle seu grande animo vendo a magreza cadaverica da filha. O velho, alimpando as lagrimas, fez que nenhuns olhos ficassem enxutos. Diante d'aquella magestosa dôr, não houve uma só pessoa que tivesse espirito para consola'-lo. O padre, esse, o que mais ali soffria talvez, abaixava humildemente a cabeça diante de seu irmão, como quem confessa a maior culpa de tamanha desventura.
Uma das religiosas, querendo consolar, censurou sem asperidão, ainda assim, o proceder inhumano de Alvaro da Silveira.
Maria fez um gesto de desagrado, e, sentindo amargamente que lh'o não entendesse a freira condoida, disse:
--Alvaro da Silveira é meu marido, minha senhora. Deus é que julga as nossas acções... Eu preciso a piedade de toda a gente; mas não queria que ella custasse a Alvaro a sua condemnação. Meu marido não é mais feliz que eu. Por isso que estou muito certa d'isto, peço ás senhoras d'esta casa que roguem a Deus por elle, quando lhe rogarem por mim.
Ficaram como assombrados todos os animos, e apiedados todos os corações. Ninguem, durante aquelle dia, proferiu o nome de Alvaro.
Á tarde houve um adeus de muito chorar; mas, ao dia seguinte, lá estavam os irmãosinhos e a mãe da secular, e o tio padre, uns para chorar com ella, outros para distrai-la com as suas innocentes graças.
XXVIII
Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o seu parco passadio; e, desde o segundo dia, oração e trabalho alternavam-se, afóra as horas das lagrimas, que eram de noite, sósinha, a occultas das consolações, ás vezes importunas, das amigas--que todas o eram.
Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria:
--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia dó! É homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraçou-se a teu pae, pedindo-lhe compaixão para o mais desgraçado dos paes. Queria vêr-te, não se afoutava a vir sem licença nossa. Concedemos-lh'a todos com muito prazer. D'aqui a pouco está comnosco, filha. Pede uma grade para o receberes.
E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroçada Maria, o velho Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraçar sua filha. O claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma grade onde foi pathetica a scena. Maria não se queixava, ao mesmo tempo que o velho amaldiçoava o filho. Ella, então, punha as mãos supplicantes, pedindo-lhe que levantasse a maldição de sobre o infeliz Alvaro.
Siveira apertava a mão do padre, e dizia:
--Com este nobre e santo coração recompensa o Senhor todos os padecimentos de uma familia; esta virtude, porém, exacerba a minha magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo é victima d'elle, e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio...
Occorriam então as pacientes reflexões de Maria, querendo absolver todos os que promoveram o seu casamento. E, sem affectação de virtude, a christã de coração e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as provações em que puzera a sua fé, e a sua esperança no premio celestial.
Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O velho, pasmado de tanta resignação, quiz logo alli chamar a prioreza para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias possiveis n'um convento.
Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que não acceitaria um ceitil em quanto pudesse trabalhar.
Foram, pois, baldados esforços de sogro e tio. Não havia, com razões, demove'-la do seu proposito. As que se lhe davam eram frivolas. Silveira queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu nascimento. A isto replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o saír da sua obscuridade fôra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas seria reincidir na desgraça voluntariamente. Só no trabalho esperava allivio--dizia ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os seus recursos, porque a aptidão para o trabalho fôra o seu inexhaurivel patrimonio.