LIVRO ULTIMO
I
Desde 1835 até 1842, a historia de Alvaro da Silveira é a historia de todos os homens perdidos.
A reclusão de sua mulher, no principio, recebeu-a como um ataque aos seus direitos de marido, e quasi esteve, por orgulho, a requerer um divorcio, ou, ainda mais, a annulação do casamento.
Outras idéas vieram desenlea'-lo d'esta preoccupação periodica. O seu amigo conde chasqueava-lhe a demasiada susceptibilidade, dizendo-lhe que poucos maridos deviam tanto á fortuna, que por tão suave processo, o descartára a elle do tropeço conjugal.
O velho Silveira saíu d'este mundo, um anno depois que Maria entrára no convento ralado de penas, infamado pelas immoralidades de Alvaro, que, de collaboração com o conde, redigira os famosos estatutos para a chamada sociedade do delirio. Ao estrondo das primeiras impudencias, o pobre pae correu a querer salvar o filho. Foi recebido com desdém, e repellido com o desprezo ás suas instancias. O velho coração não podia com o golpe. Morreu sem filho ao pé do leito, quasi desamparado dos parentes que o inculpavam na educação licenciosa de Alvaro. Quem lhe ministrou as consolações do trespasse, foi um extranho. Frei Antonio dos Anjos, ao qual o senhor de uma grande casa disse á hora da morte, que as dissipações de Alvaro não lhe tinham deixado seis vintens para mandar dizer por sua alma uma missa.
II
O marido de Maria viajava então por França, onde lhe foi a nova da morte de seu pae. Alvaro melhorava de meios, porque os recursos, que seu pae lhe dava com quanto superiores ao rendimento de sua casa, não bastavam á dissipação.
Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos.
Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns contos de réis, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas.
Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava á usura os seus bens, apresentou-se-lhe para acceita'-los como hypotheca de uma somma quasi egual ao valor d'elles.
Alvaro abençoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se arrependesse, apressou o contracto.
O comprador, porém, clausulou que em sua mão ficaria uma certa somma para acudir ás necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as sentisse. Alvaro acceitou essa hesitação maravilhado de que o inepto logista não pedisse a assignatura consentanea de sua mulher!
Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo interesse d'elle, o padre fôra-lhe contando os infelizes acontecimentos d'aquella casa. O velho creado de Gonçalo da Silveira, quando soube que seu amo expirára, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe aproveitasse depois de uma lição amarga.
III
Em 1842, Alvaro fugindo aos credores de Pariz, de Londres, de Madrid, de onde quer que desbaratou o seu e o alheio, appareceu em Lisboa pedindo ao mercieiro que lhe valesse. A desgraça quebrára-lhe a soberba. Alvaro pedia com humildade, se não era antes relaxamento, soccorro ao creado de sua casa. O logista deu-lhe a quantia que ficára, como em deposito, para ser dada a Maria, dizendo que ella a mandára entregar a seu marido.
Recebeu-a com indifferença, e consumiu-a obscuramente em uma roda que não era a sua, na convivencia de individuos que, sómente no abysmo da desgraça, sem honra, se encontram.
Padre Antonio dos Anjos não sabia dizer a Maria, onde seu marido estava. O mercieiro é que não perdeu de vista o filho de seu amo, com a mira de levanta'-lo, quando elle abrisse os olhos no extremo caír de perdição.
Foi elle, pois, quem deu ao frade miudas novas de Alvaro de Silveira. Umas vezes recebia dos parentes uma dadiva, como esmola. Outras, achava-se entre a gentalha, buscando nas fezes sociaes esquecer os explendores que dissipára. Eis ahi que chegava a mão mysteriosa do logista.
IV
Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a acção de dolo devia ser intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos. Alvaro escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um espirito embrutecido pela desgraça, um ar de cynica indifferença, não affectada, porque é ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos.
Maria respondeu que não podia demandar o comprador de uns bens que ella nunca julgára seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmãmente com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta carta.
Alvaro não poude evitar a presença do tio de sua mulher. Estava elle vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o offerecera, não conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro preparára-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenções de Alvaro, ácerca dos rendimentos comprados.
Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre.
--Que futuro será o seu, sr. Alvaro?
--A continuação do presente, quando sua sobrinha não queira tirar-me d'elle.
--Minha sobrinha?!
--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse dos meus rendimentos por vinte annos...
--Já viu o que minha sobrinha lhe diz.
--Então, seremos ambos desgraçados, e eu mais de que ella, porque fui creado na opulencia, e ella...
--Na miseria: póde v. ex.a acabar a phrase que nos não envergonha. Maria offerece a seu marido um quinhão da sua miseria.
--Não entendo...
--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho.
--Está zombando? Que póde minha mulher repartir?
--Migalhas.
--Eu não vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeço-lhe esse offerecimento que me faz. Se é castigo com que me pune, bem castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraçados da minha especie perdôa-se, porque a necessidade é um supplicio infernal para o homem que teve.
--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraçado.
--Não é n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu não sou deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito, esse tudo era meu.
--Tem v. ex.a orgulho do seu feito!
--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido á sociedade antes que ella me repellisse.
--E se ella o abraçasse na sua pobreza?
--O senhor não conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria hoje a feliz virtuosa que foi.
--E é, se não feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela esperança...
--Esperança!...
--Esperança, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Ouça-me, sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se póde. Verá o que é um anjo. Verá como ella o faz esquecer da sua posição infeliz n'este mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mãos indignas não souberam empregar na sua regeneração, verá v. ex.a o que é nas mãos da pobresinha recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella não lhe fugirá. Vá ve'-la. Não cuide que tem de pedir perdões, accusando-se de ingratidões e crueldades. Vá como se não tivessem corrido seis annos sem se verem, sem se escreverem. A sua salvação é ella que a tem no thesouro da nobre alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e esperança...
Alvaro escutára o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successão de palavras qual d'ellas mais tocante.
Frei Antonio por fim, abraçando-o com carinhosa effusão, perguntou:
--Vae, sr. Alvaro?
--Irei, se assim o quizer.
As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as orações religiosas que pediam a Jesus Misericordioso a regeneração de Alvaro, começaram a florir, para fructos abençoados.
V
O padre separára-se no caminho, por suppor que a sua assistencia constrangeria Alvaro na presença de Maria dos Prazeres. Alvaro, porém, desde que se viu só, e á porta do mosteiro, desanimou.
Não foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas accusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas primeiras impressões, boas ou más, Alvaro, depressa annuira a procurar sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher.
A soberba apraz-se, ás vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as acha despenhadas na miseria. É quando ella se converte em castigo duro, tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da soberba, acudiu á dôr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da vibora entrava-lhe até ao coração, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria constante lh'a estava descarnando sempre.
Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados o primeiro. Se Deus se não amercear das angustias, que espedaçam o homem caído em miseria do alto da grandeza, o inferno das dôres indescriptiveis estará no coração d'esse Lucifer despenhado.
VI
Maria recebeu esta carta:
«É o teu amor, ou a tua piedade que me chama, Maria? Se amor...! como hei de eu acredita'-lo? que fiz eu que te não mereça odio? onde póde estar esse amor, depois de seis annos de ingratidões, e esquecimento, a peor de todas?! Esquecimento, não. Lembravas-me, Maria, e sabes quando, e com mais amargura? Quando me sentia caír. A cada empurrão que o destino, ou o Deus da vingança, me dava para este abysmo, era então que eu te via, despenhada por mim, vendo-me caír; mas que differença entre as nossas quedas! Eu a precipitar-te e um anjo do céo a erguer-te para onde a minha alma desesperada não póde já desafogar as suas afflicções!
--Não pódes amar-me, Maria, não pódes. A compaixão, se outro affecto me não tens, essa não a acceito. Além de certo extremo de infortunio, está o egoismo na desgraça, o desprezo da piedade vã se não é antes humilhadora. Deixa-me esperar a mórte, n'este lodaçal em que vivo. A esperança não póde mais entrar em minha alma. Adeus.
Alvaro».
VII
As lagrimas de Maria desfaziam as linhas que ella escreveu, em seguida á leitura d'esta carta. A penna obedecia ao ardor do coração. Era a primeira vez que ella o escutava, e lhe obedecia sem consultar primeiro o padre.
Era assim a resposta que Alvaro recebia pelo mesmo portador:
«Vem, meu amigo. Deus te guie o coração que a sua divina mão abriu ao arrependimento. Tu és ainda muito rico: do thesouro de amor que te dei, e tu rejeitaste, não dissipei um só dos carinhos com que heide restituir-te..., restituir-te, não digo bem, com que heide dar-te uma felicidade nova, nunca experimentada. O infortunio fez-te bom. Tu precisas de mim e eu hoje tenho um santo orgulho de ser a unica pessoa que tens por ti, um coração amigo. Esse egoismo na desgraça é uma soberba blasfema. Deus não te desamparou, meu amigo. Se de mim não queres consolações, vem ao menos ver como eu choro a perda das tuas esperanças.
Maria».
VIII
O orgulho de Alvaro succumbiu. No dia seguinte, procurou Maria. Desta vez, não o abandonou o animo á porta do mosteiro. A primeira pessoa que viu no pateo foi o seu mestre, o tio de sua mulher.
Eram oito horas da manhã. Frei Antonio entrava no templo para sacrificar, e convidou Alvaro a segui'-lo, porque Maria estava no côro, e, só depois da missa, viria ao locutorio.
O abstrahido moço, entrou ne egreja e ajoelhou. Maria soltára, no seio de uma amiga, um ai que o denunciára. A amiga, electrisada pelas lagrimas felizes da secular, pediu á prelada se lhe consentia que tocasse o orgão durante a missa. Obtido o consentimento, fez soar, magestosa de tristeza, tristeza suavissima que dulcifica as lagrimas, a musica do Te-Deum laudamus.
Na fronte de Alvaro eriçaram-se os cabellos: a felicidade trasbordava-lhe do seio em lagrimas, corria-lhe o corpo o calefrio do arrebatamento, esse phenomeno inexplicavel que tantas vezes abala as organisações delicadas.
IX
Soube-se logo a causa da perturbação de Maria. A prelada quiz saber porque chorava assim. A docil senhora não podia nem devia esconder o motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a prioreza, ensinada pelo coração que adivinhava os desejos de Maria, pediu-lhe para acompanha'-la á grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao seio com alvoroço de contentamento.
--Venha comigo, minha mãe,--disse ella--Eu preciso que elle ouça as palavras que Deus manda ao seu coração. Dê-lhe a elle a felicidade no infortunio como m'a deu a mim. Não espero que elle me dê um amor como eu o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a minha estima soffrerá os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz blasfemar. Oh! meu Deus! elle é tão novo e tão desgraçado! Que longa vida de desesperação será a d'elle, se não conseguirmos mostrar-lhe que se póde ser pobre e feliz!
A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em oração ao seu oratorio, e voltou com o sorriso de esperança para Maria, e a confiança em Deus no coração.
Entraram na grade.
X
Alvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui affavelmente:
--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e seu pae e toda a sua familia. Até conheci um anjinho do céo, que me disseram ser esposa de v. ex.a Tratei de averiguar se era verdade. O mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre que não, porque não acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo do céo, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu digo que não póde ser senão de quem eu quizer. Agora é minha filha e não póde ser sua esposa, sem que v. ex.a m'a venha pedir com todas as formalidades de noivo.
--E dar-m'a-ha v. ex.a?--perguntou Alvaro correspondendo com jovialidade á graça risonha da prelada.
--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé de nós.
--Como, minha senhora?!
--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de razão contra a violação do claustro? Eu lhe digo, meu genro, uma freira, que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se deixou arrastar por alguma d'essas paixões feias que são a origem d'estes anjos tão lindos! V. ex.a está-se rindo?! Então ouça-me agora seriamente, e esta Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo, escute tambem. O sr. Alvaro vem viver comnosco, não é bem comnosco, porque entre a nossa casa e a sua ha uma parede. Então já sabe para onde vae?
--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.a.
--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas, que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.
Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da ainda formosa Maria.
XI
--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) não podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias que hão de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de estar dois mezes na companhia do nosso capellão: ha de vir todos os dias a esta grade almoçar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha de vir todas as tardes saber como está o rheumatismo da decrepita prelada, e traduzir-me do francez um sermão do padre Massillon, porque eu já não posso ler. Quando não estiver para ler á velha, ha de me contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou á minha menina: é um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento e tocar umas musicas tristes que levam a consolação ao espirito, e trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro, responda se está pelas condições que eu acabo de propor-lhe.
--Minha senhora...--balbuciou Alvaro.
--Não está?!--interrompeu a prelada.
--Se estivesse ao pé de v. ex.a... beijar-lhe-ia essa mão, que sinto no coração arrancando-me os espinhos que m'o rasgavam. Deixe-me verter este pranto que é uma respiração de homem que se salva da morte de asfixia. Respondam as minhas lagrimas, senhora, eu não posso dizer mais nada.
--Eu vos agradeço, meu Deus!--exclamou a freira erguendo as mãos, e ajoelhando, com a face pendida para o seio. Fôra como um toque celeste o d'aquella transição do sorriso para a humildade magestosa d'aquella postura, em que Alvaro e Maria pareciam absorvidos, contemplando-se, e contemplando-a, mudamente.
XII
Fr. Antonio dos Anjos, sabendo que a prelada o mandára entrar na grade passados alguns minutos, chegou no ensejo em que a veneranda senhora limpava as lagrimas.
--São lagrimas de felicidade...--exclamou ella--Venha compartir do nosso jubilo, Fr. Antonio. Ahi tem o seu discipulo, que vem do mundo mais instruido do que foi das suas lições. Traz a sciencia da desgraça, e entende que para ser um sabio completo só lhe falta a sciencia da resignação. Essa é que o padre capellão lhe ha de ensinar. Já sabe que o seu quarto ha de ser mobilado por mim, e conforme fôr do meu agrado? Pois ha de ver como uma freira caduca tem ainda o gosto apurado. Hoje ha de remediar-se com a cama que o padre lhe der; amanhã ha de ter um quarto que nem um palmito. Os quadros hão de ser os que a minha filha me deu; são flôres que significam o aroma que vae da oração até Deus; são um cãosinho que é o symbolo da amizade; é uma cruz que significa o throno onde todas as angustias são coroadas soberanas da gloria eterna... em fim, são obras de muito lavor e de muita paciencia, desbotadas quasi todas pelas lagrimas. Ora pois, está tocando ao côro; eu vou lá pedir a Deus que abençoe a escolha que fiz de um genro, e a minha filha, que está mais para chorar, qual quer, vir enxugar essas lagrimas aos pés da cruz, ou ficar aqui?
Maria não respondeu. Frei Antonio interrogou com os olhos a vontade de Alvaro, e conheceu-o opprimido.
--Vão, vão--disse o padre--Nós voltaremos.
--Maria!--disse Alvaro--eu ainda te não ouvi uma palavra. Seja só uma... diz-me: «perdôo-te.»
Maria exclamou entre soluços:
--Deus sabe que nunca te accusei; se me tivesse queixado com ira, pedia-te perdão agora.
--É, pois certo, meu Deus?--disse Alvaro.
--O que?--perguntou a prioreza.
--É certo que é possivel a felicidade para mim?
XIII
Alvaro da Silveira hospedou-se em casa do capellão. As suas horas eram repartidas conforme o programma da prioreza. Frei Antonio já não ousava confiar em si, e suffocava sempre a alegria do coração que exultava com a rehabilitação de Alvaro.
Maria, porém, acreditava-o, e a prelada tambem. Alvaro parecia feliz com ellas, feliz com o padre, feliz com a leitura em que empregava o tempo livre.
Ninguem lhe falava no seu passado, nem elle proferia palavra que despertasse recordações. Tambem não falava no futuro, e, se Maria vaticinava delicias na pobreza, o melancolico moço revelava um soffrimento doloroso como a vergonha ou como o remorso.
O passadio de Alvaro era superior ás posses do egresso. Um dia perguntou elle se a capellania consentia tanto. Frei Antonio respondeu que podia muito o trabalho de Maria. Alvaro chorou, ergueu-se da mesa, e exclamou:
--Estou punido, meu Deus!
XIV
Alvaro, procurando Maria, disse-lhe:
--Não abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho, agradeço-te de joelhos a esmola, e não posso continua'-la a receber.
Maria soltou um grito do coração e disse a Alvaro que a não matasse.
--De joelhos sou eu que te peço, meu amigo--exclamou ella--que me não abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a santa felicidade de trabalhar para nós ambos. Oh! tu não sabes avaliar que ventura é esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses ajudado com o teu talento a comprar o pão de teus paes e teus irmãos, não tinhas a crueldade de me roubar este prazer. Ó Alvaro, diz-me que é certo viveres para mim e para a esperança de melhores dias. Diz-me que entre a minha alma e a tua não ha uma linha de distancia que separe as nossas ultimas migalhas de pão.
XV
Passados dois mezes encontraram-se frei Antonio e o mercieiro que tinha emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Alvaro.
--Já sabe tudo?--perguntou o padre.
--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz está outro. Vae ver sua mulher todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus peccados. Que faz elle agora se está arrependido? Porque não tira a pobre senhora do convento? Que se arremedeiem com pouco, e vivam juntos.
--É pouco de mais o que elles têem para viverem.
--Eu darei o que lhes faltar; mas requeiro debaixo de juramento que nunca a minha protecção seja sabida por algum d'elles.
Oito dias depois, Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a chrismaram no convento, para que o sobrenome não fosse uma falsidade, saiu do convento para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de lagrimas felizes.
Aquelle viver dos tres era um santo frenesi de amor; Vinham compartir d'aquella alegria o coronel, a mãe de Maria, seus irmãos, e até a prioreza quiz acompanhar sua filha para lhe conter (dizia ella) os impetos amorosos da lua de mel. O padre estava sempre em continua acção de graças. Ria e chorava ao mesmo tempo o bom do velho. No arrebatamento da alegria abraçava a prelada que tinha sempre um equivoco mui engraçado que dizer-lhe n'esses expansivos abraços: riam-se todos e o coronel rejuvenescia da intempestiva velhice.
--Quem dá os meios para esta casa?--perguntava elle.
--A providencia de Deus--respondia o irmão.
--D'onde vem este dinheiro no principio de cada mez?--perguntava Maria.
--Da Providencia de Deus--replicava o tio ás repetidas instancias.
XVI
Alvaro da Silveira inspirava receios de reincidencia ao padre. A sua primeira conversão parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonára-o ás presas do vicio resurgente. A segunda, semelhante á primeira, com quanto abonada pela experiencia de duras penas, poderia, chegando ao extremo, não vingar. Fr. Antonio temia o tempo, tremia em segredo; e não ousava dizer os seus temores á sobrinha ou á irmã.
O marido de Maria, penetrando o coração do padre, dissera-lhe:
--Conheça o coração humano, meu caro bemfeitor. A minha conversão religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que achava pequeno o mundo. Scismára muitas vezes na eternidade, quando voltava com enojo as costas aos vicios satisfeitos. O meu espirito, immergido no lodo, não podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e os sentidos confirmavam. Refazia-me novamente de forças para a libertinagem, procurava-lhe com cynica avidez as faces novas e, desesperado de encontra'-las, invocava outra vez a idéa confusa do meu destino.
«Quando frei Antonio me appareceu, a minha alma era um vacuo horrivel. Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia ás minhas perguntas a Deus. Affiz-me a considera'-lo um justo, alteei-me onde os seus vôos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de viço e alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu coração se purificasse ao mesmo tempo que o espirito se regenerava. O amor que lhe dei, immenso e fervoroso, não era mentira; nem podia sê'-lo, por que a mentira não se sustenta á custa do sacrificio da liberdade.
«O amor d'ella era para mim uma emanação do amor divino. No dia em que aquella ardente fé nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria tambem o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os affectos: dependiam um do outro. A religião era como a lampada suspensa no meio do templo que reflecte o seu clarão em todos os altares. Logo que se apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas affeições nobres, em todas, até vergonha senti de haver tido remorso dos meus vicios. Foi por isso que a sua presença, padre Antonio, me aborrecia, que os conselhos de meu pobre pae me enfastiavam, e que as lagrimas de minha mulher me levavam desde o desagrado até ao odio. Isto foi horrivel, mas verdadeiro.
«Como a luz da religião se extinguiu em minha alma, não sei. Lembra-me que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularisava a conversão e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tedios e de alegrias. Necessidade de alargar o circulo de ferro que me apertava a respiração. Era o crime que me visitava com todas as suas galas perfidas. Era o anjo mau da tentação que triumphava, pintando-me insignificante de espirito, de «fortuna», e de belleza uma mulher que parecia violentar-me a adquirir os seus habitos mesquinhamente caseiros e de baixa condição.
«Ultrajei a minha pobre victima com o desprezo, e depois pensei que a mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se não definem.
«Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes ás que eu devorei. Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mãos do diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a ultima balisa da indigencia, se o meu fausto não apparentasse uma riqueza. Pedi quantias, algumas das quaes não pagarei jámais, porque estou pobre, e outras paguei-as com o vilipendio merecido de um carcere.
«Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antonio, e pavorosos sonhos eram aquelles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos braços.
«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas o grito de contricção era suffocado por um riso blasphemo. Quando o infortunio é superior ás forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o espirito na escuridade da demencia, e já não ha alma que se refugie na esperança de uma vida melhor.
«Hoje, sim, frei Antonio. Já não é uma organisação susceptivel de impressões que obedece á eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje é o desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do balsamo divino, ministrado pela mão d'aquella que victimei. O perdão da martyr é o que me está testemunhando a misericordia do céo. Vejo n'ella a omnipotencia de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da argumentação; não quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céo, creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para caír de joelhos aos seus pés, e supplicar-lhe que não duvide um momento da minha rehabilitação.»
Padre Antonio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de felicidade inexprimivel.
XVII
N'um dia de 1839[[NT]], frei Antonio é chamado a casa de Joaquim Nunes; o lojista, antigo creado de Gonçalo da Silveira. Vae, e acha-o enfermo.
--Sr. frei Antonio--disse o merceeiro--chamei-o para me ajudar a saldar as minhas contas com o mundo, para levar diante de Deus os meus livros de rasão sem nodoa. Estou muito doente, e não espero nada da medicina. O que eu tenho a dizer-lhe, não é o receio da morte que m'o faz dizer. Ha dias que eu preparava esta occasião, e oxalá que sendo a vontade de Deus, eu sobrevivesse á resolução que tomei. Ora diga-me; como se porta o sr. Alvaro?
--Melhor do que as minhas ambições.
--Já não teme que elle torne ao caminho da perdição?
--Confio em Deus, não é n'elle, nem em mim, confio em Deus que não.
--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas?
--Não sabe: cumpri religiosamente a sua vontade.
--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae...
--Nem uma palavra, desde que está em minha companhia. Parece que confessa com o seu silencio gratidão á mão generosa que o soccorre.
--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um creado antigo da sua casa, doente?
--Ó senhor, isso é duvidar do coração de meu sobrinho; essa licença estava eu para pedir-lh'a...
--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais breve que possa ser.
XVIII
No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o merceeiro Joaquim Nunes.
As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo. Maria, cuja sensibilidade respondia logo á dôr extranha, acariciou o velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de humilhar-se para rehavê'-los.
--Estou quasi só--disse o lojista---Tenho sido só toda a minha vida, e agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir á sr.a D. Maria e ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa do filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa?
--Deus permitta que as suas forças o deixem ir para a nossa companhia!--exclamou a sobrinha do padre.
--Poucas forças tenho; mas transportar-me-hei n'uma cadeira, e o sr. padre Antonio tomará conta das chaves d'esta casa. O meu commercio acabou; não devo, e os que me devem fôram riscados dos meus livros. Os meus negocios da vida estão fechados. Agora queria morrer vendo duas pessoas felizes ao pé de mim, e tendo á minha cabeceira um santo homem que me ajude a pedir a Deus o perdão das minhas culpas. Se eu vencer a doença, viveremos todos, ponto é que o sr. Alvaro tenha a bondade de sentar á sua mesa um homem do povo que foi escudeiro de seu pae.
Alvaro apertou-lhe, commovido, a mão. Maria, do outro lado do leito, limpava-lhe com o seu lenço o suor que lhe inundava a fronte e fr. Antonio, com palavras de jubilo, annunciava ao enfermo que não morreria ainda para testemunhar e ter quinhão na felicidade de seus sobrinhos.
XIX
Joaquim Nunes passou para a residencia de frei Antonio.
Nos primeiros dias a sua doença recrudesceu, consequencia do abalo physico e moral da mudança.
Depois, um ar de melhora fez crear esperanças aos facultativos. Esperanças não mentidas fôram essas, porque ao cabo de um mez de alternativas, o enfermo entrou em convalescença, e veiu a restabelecer-se.
No primeiro dia que saíu a passeio, de sege, trouxe comsigo um tabellião.
Chamou á sua presença os consortes, e fez ler um testamento, em que instituia Alvaro da Silveira e sua mulher seus universaes herdeiros. O testamento foi alli rasgado e o tabellião lavrou uma escriptura de doação de todos os seus bens a Alvaro e sua mulher, com a condição de o alimentarem na sua companhia. As especies sommadas dos bens doados excediam a meio milhão.
XX
Esta dotação não alterou a felicidade d'aquella familia. Correram muitas lagrimas de alegria, mas essa alegria era a da gratidão, era o expansivo respirar das quatro nobres almas que alli se vincularam n'uma só vontade.
E a vontade de Joaquim Nunes respeitavam-n'a todos. Quiz elle que Alvaro fosse viver no palacete de seu pae, quiz que revivesse o antigo fausto d'aquella casa, quiz que a familia de Maria fosse a de todos. Cumpriram-se os seus bons desejos.
A felicidade d'esta numerosa familia é indescriptivel. Até 1849, em que todos viviam, nenhum d'aquelles semblantes fôra annuveado pela tristeza.
Alvaro é um modelo de honra. Frei Antonio um santo, que está constantemente agradecendo ao Senhor o galardão de tamanhas angustias. Maria, a amiga intima da baroneza de Amares, como o leitor a veria no HOMEM DE BRIOS, é um anjo que anda em cata de soffrimentos para consola'-los. Joaquim Nunes no centro d'aquella familia, é um homem adorado, que, em 1849, jogava a bisca de nove com o coronel.
Bemdito seja Deus que tem estes apostolos a glorifica'-lo na terra!
FIM
[NT] Nota de Transcrição: No original aparece 1839, apesar de não estar coerente com a linha temporal do romance. O ano de 1849 é referido mais adiante na obra pelo que deve ser esta a data correcta.