HUMORISMOS
XV
Critica do auctor
Estes velhos sonetos não rutilam
Brilhantes Documentos sociologicos,
Nem modernos processos biologicos,
Leis que os vates senis não assimilam.
Abundam lentejoulas que scintillam
Disfarçando microbios pathologicos,
Fermentações de vicios phisiologicos,
Basofias anormaes, lesões que opilam.
Escreve alguem: «Quem reina é Sancho Pança.»
Serodio D. Quixote, jámais podes
Sanar a podridão que avulta e avança.
Se os preconceitos, velho, não sacodes,
Se não deixas de ser sempre creança,
Fazem-te o que ás creanças fez Herodes.
XVI
Thomaz Ribeiro
Ao cantor de D. Jayme era ousadia
Dedicar uns insipidos sonetos,
Bem pallidos, mesquinhos esbocetos
Dos Ridiculos grandes d'hoje em dia.
A ti que illeso passas n'esta orgia,
Modesto, honrado e amado, que amulêtos
Te salvam d'estes pantanos infectos
Em que chafurda a esqualida anarchia?
Tantas vezes Governo!... E não tens pejo
De ser pobre, ó Thomaz ?... Isto que vejo
Me inspira o vaticinio que registro:
Dirão de ti as porvindouras eras:
«Ministro pobre em Portugal! Chimeras!...
«Ou viveu farto, ou nunca foi ministro!»
XVII
Remorso
Eu choro quando, ás vezes, me concentro
A meditar nas horas malogradas,
Noites de inverno, gelidas, passadas
Nos Carnavaes rhetoricos do Centro.
Convidam-me a ser socio. Acceito e entro,
Deixando solitarias, consternadas,
Três Marilias que amei! Estaes vingadas!
Remorsos me excruciam cá por dentro.
Dizia-me um dynastico-esquerdista:
«Prepara-se você para estadista?
«Aspira a ser ministro? A escola é esta.»
Pois, senhores, dez mezes decorridos,
Bom politico, em todos os sentidos,
Sahi do Centro, mas sahi mais besta.
XVIII
Te-Deum Laudamus
Vai grande barafunda lá no Empyreo!
Acaba de chegar um estafeta,
Que diz ser natural d'este planeta,
E as noticias que dá causam delirio.
Formou-se logo um luzitano cyrio;
E o Marquez de Pombal, lendo a gazeta,
Fita em Garrett a celebre luneta
E diz: «Veja, collega, este martyrio!
«O nosso Portugal tornou-se um Congo!...
«Resam missas Lisboa e mais Vallongo,
«Por que um feliz descarrillou sem damno.
«Recebo agora officio do governo,
«Pedindo-me agradeça ao Padre Eterno
«O favor de salvar o Marianno.»
XIX
7:500 contos
Finou-se em França, ha pouco, um millionario
Nascido em Portugal.—Honra é dizel-o!
Sahindo d'um cardenho de Lordello,
Foi no Brasil doutor e boticario.
Não tem seu nome algum Nobiliario;
Não foi conde sequer, ou não quiz sel-o,
Qual outro seu collega, do Restello,
E outros mais fidalgos d'Hervanario.
Seu nome é conhecido em toda a Europa;
Que um tal Nababo rara vez se topa
Com opulencia tal, mais que aziatica!
Tendo quinze milhões, soffria um mal
Rebelde ao milagroso capital...
Morreu d'uma anazarcha aneurysmatica.
XX
Lua de mel
Aquelle teu amigo de Peniche
Casou, já sabes? Com a «Celidonia»,
Horisontal, (hectaira, em lingua jonia)
De labio rubro e olho d'azeviche.
Naufragou muitas vezes no beliche
De notaveis pilotos da Parvonia;
Vogou desde Monção á Patagonia,
E, voltando, não topa onde se aniche.
Emfim, com sete filhos engeitados
E os musculos bastante escanifrados,
Pilha um palerma que jámais lhe escapa!
São noivos. Vão fazer a lua em Cintra.
Pergunta agora tu ao tal pelintra
Se a lua foi de mel ou de jalapa.
XXI
Messias
Oliveira Martins, por toda a parte,
Se augura que será novo Pombal!
Vou dar-lhe uns leves toques d'immortal
N'um soneto pomposo, primor d'arte!
Prostrada Lusitania, irmã de Marte,
Emerge d'este podre tremedal!
Levanta-te, caduco Portugal,
Que os philtros do Martins vão remoçar-te!
Ouvides estrallar o Terramoto?
O sangue dos ladrões, continuo moto,
Já faz nas praças charcos e meandros!
Ministro redemptor, não retrogrades!
Se Joaquim d'Aguiar foi mata-frades,
Sê tu, bravo Martins, mata-malandros.
XXII
Portugal Contemporaneo
Não se olvidem jámais os casos serios,
E as epicas façanhas dos Archontes!
Ó Musa da calumnia, não me contes,
D'esta luza Calabria altos mysterios.
Fulminavam-se outr'ora os ministerios,
Porque tinham ladrões; depois, o Fontes,
Rasgando á patria novos horisontes,
Exterminou os Verres deleterios.
Sumiram-se os fataes homens sinistros!
Já não são sacerdotes os ministros
Do vil bezerro d'ouro, ou da bezerra.
No tocante a ladroes, não ha nenhum;
Já não se encontram três, nem dois, nem um...
No pinhal da Azambuja e na Falperra.
XXIII
Logica de ferro
Nas bemaventuradas regiões,
Onde existe do mundo o Directorio,
Não entram almas sem, no Purgatorio,
Purgarem a peçonha das paixões.
Que são indispensaveis orações,
Em desconto das culpas, é notorio;
Dil-o Affonso Maria de Ligorio,
Confirma-o Frei José dos Corações.
Arguir de fanatismo o Patriarcha
É sandice ou má fé que excede a marca:
É não saber do Cathecismo a lei.
Se entendem que o bom Rei já vive em gloria,
De que serve essa vã Deprecatoria
De suffragios e missas pelo Rei?
XXIV
Aromas
Meu lindo Portugal, mina de heroes,
Ser teu filho é bem bom, e até bonito!
Percorre a gente as ruas sem apito,
Sobraçando os pacatos guardas-soes.
Matronas de comprados caracoes,
Que ao ceu não vão de certo com palmito,
Se, primeiro, parecem de granito,
De borracha é que são; mas é depois...
Ha povos que se nutrem só de flores,
É Camões quem o diz. Tambem Lisboa,
Vapora fragrantissimos odôres.
Mas eu não sei dizer-lhes, meus senhores,
Se os taes cheiros são coisa má ou boa:
Sei que é d'elles que vivem os auctores.
XXV
Lisboa bucolica
Na lusa Babylonia ha parvoices
Atavicas, talvez; pois bons auctores
Carimbam de sandeus os fundadores,
E chamam parvo ao seu caudilho Ulysses.
Assim começa o rol das taes tolices:
Familias vão, nos mezes dos calores,
Refrigerar no campo os seus ardores,
E haurir das frescas brisas as meiguices.
Alugam-se uns casebres purulentos,
Onde os ratos vorazes e macrobios
Esfarelam a dente os vigamentos.
Mettidas n'esses fetidos cenobios,
Depois de incalculaveis soffrimentos,
Voltam do campo cheias de microbios.
XXVI
A outra metade
Quando este corpo meu esfacellado
Baixar á leiva humida da cova,
Hão-de os jornaes carpir a infausta nova,
Taxando-me de sabio consumado.
Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a resurgencia d'um Canova,
Que a morta face em marmore renova
Para insculpir meu busto laureado.
E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas phrases nunca vistas:
«Esse genio immortal, rei dos artistas,
«No ceu pede ao Senhor que a outra metade
«Reparta por vossês, ó jornalistas!»
XXVII
Comedia humana
Litteratos! chorai-me, que eu sou digno
Da vossa gemebunda e velha tactica!
Se acaso tendes crimes em grammatica,
Farei que vos perdoe o Deus benigno.
Demais conheço a proza inflada, emphatica,
Com que choraes os mortos; e o maligno
Desaffecto aos que vivem... Não me indigno...
Sei o que sois em theoria e em practica.
Quando o avô d'esta vã litteratura
Garrett, era levado á sepultura,
Viu-se a imprensa verter prantos sem fim...
Pois seis dos litteratos mais magoados,
Sahiram, n'essa noite embriagados,
Da crapulosa tasca do Penim.
XXVIII
(Recordação dos 9 annos)
Ao visconde d'Ouguella
Nós aprendemos juntos a grammatica
Do insigne e facundissimo Lobato.
O nosso pedagogo intemerato
Nos Calafates fez resurgir Attica.
Afora esta funcção assaz sympathica
O mestre era guerreiro; e o desbarato
Que fez nos miguelistas, não relato,
Que eu da guerra civil detesto a tactica.
Devemos-lhe os segredos do dativo
E os mysterios do occulto adjectivo
E os do supino, e mais coisas supinas.
Visconde, é gratidão dizer ao mundo
Que quem nos deu o litterario fundo
Foi mestre João Ignacio Luiz Minas.
XXIX
Triumphos da eloquencia
Se o bruto (b pequeno) desalforja,
Desbragadas injurias nos comicios,
Contra argentarios, padres e patricios,
Explue nos olhos crispações de forja.
Esmurra o peito e jura pela gorja,
Que o Vaticano cai podre de vicios.
Se pede para os reis forcas, supplicios,
Hurrahs sanguineos vocifera a corja.
Este luso Rigault é petrolista;
Na lingua tem navalha de fadista;
De resto, faz pagode e rija pandega.
Está compondo agora outro discurso
Com que espera alcançar, mas sem concurso,
Ser despachado capataz d'Alfandega!
XXX
Derrocada
Ao passo que vasqueja e expira a luz
Do Templo onde, algum dia, celebraram
O Passos, e o Mousinho e os que arrastaram
Em terra estranha a esmagadora cruz,
Na imprensa, uns pugilistas, braços nus,
Uns contra os outros, rábidos, disparam
Sarcasmos, que ao diabo não lembraram...
Que linguas, sancto nome de Jesus!
O Deus dos seis Affonsos e das Quinas!
Se um vil desabamento nos destinas,
Escuta o meu sincero e ardente voto:
Faz pena este acabar quasi indecente...
Concede-nos morrer mais seriamente:
Transmitte-nos, Senhor, um terramoto.
XXXI
O ultimo romantico
O extravagante Arthur, em Compostella,
Viu desnalgar-se uma gitana Lola,
Que tocava pandeiro e castanhola,
E jurava que nunca foi donzella.
Chamava-lhe Esmeralda, ou Graziela
O romantico Arthur da velha escola;
Mas tanto na paixão carnal se atola,
Que os bens que tinha dissipou com ella.
Assim que empobreceu, Lola safou-se;
E Arthur a pouco e pouco definhou-se
Até se evaporar sem ter vintem,
A ti, que foste o ultimo romantico,
Dedico o meu, talvez, ultimo cantico...
E adeus! Se estás no ceu, porta-te bem.