DESASTRE DO SANTO OFFICIO NO PORTO
A inquisição de Portugal, em 1704, confiava tanto na espada flammejante de S. Domingos, que nem as esquadras britannicas lhe incutiam pavor.
N'aquelle anno, morava no Porto uma familia ingleza de appellido Fiuza. Não assevero que assim se escrevesse ou pronunciasse o appellido; mas assim o acho escripto em documento coevo, extrahido de um processo do santo officio. Esta familia era catholica romana.
Havia no Porto outra familia ingleza herege. Appellidava-se Mosheim, que os escreventes do tribunal dominicano escrevem Mossão.
Á familia catholica pertencia uma menina chamada Isabel. Á protestante um moço chamado Thomaz.
Amavam-se os dous contra vontade de seus paes. Eram ambos abastados e bem procedidos; mas tinham de permeio o inferno. Na opinião dos Fiuzas a familia Mosheim estava condemnada ás penas eternas. Os Mosheim, por sua parte, diziam que os Fiuzas eram lenha secca para as fornalhas infinitas.
O pai de Thomaz consentia no casamento, se Isabel apostatasse do catholicismo. O pai de Isabel cedia ás supplicas da filha, se Thomaz se convertesse á verdadeira e unica religião.
Eram irreconciliaveis os dous inglezes.
Mas a paixão de Isabel pôde mais que o pai e que o esteio da fé.
Uma noite, fugiu de casa. Morava em uma das tres quintas de João Pedróssem, a Villar. Desceu a Miragaya, e entrou em uma lancha ingleza, onde a esperavam Thomaz Mosheim e um padre protestante.
Ao repontar da manhã, o padre abençoou o casamento dos dous contrahentes, alli, sobre as aguas do Douro, em uma formosa alvorada de agosto, com quatro marinheiros por testemunhas.
Feito isto, o sacerdote lutherano foi em demanda do inglez catholico, e disse-lhe que acabava de abençoar o casamento de Isabel com Thomaz, e lhe ia pedir que perdoasse a sua filha pelo amor de Deus. O velho inglez arrepellou as barbas, injuriou o padre, e bradou tres maldições á filha e á sua posteridade.
Divulgou-se o successo na cidade.
Ao outro dia, Carlos da Rocha Pereira, commissario da santa inquisição, no Porto, acompanhado de alguns officiaes, entrou em casa de Thomaz Mosheim, e prendeu Isabel em nome do santo officio. Ella, traspassada de terror, seguiu aquelle homem que tinha nas palavras a rijeza de uma tenaz de tortura. Foi conduzida ao aljube ecclesiastico, e interrogada.
A colonia inglesa, assim que soube da prisão de Isabel Fiuza, reuniu-se em casa do seu consul. Sahiu o magistrado á frente dos queixosos, e pediu audiencia ao vigario geral. Reclamou a ingleza em termos solemnes com ameaças. O vigario geral amedrontou-se; mas disse que não podia soltar a herege, sem ter consultado os inquisidores de Coimbra.
E, no em tanto, a noiva chorava incommunicavel no aljube ecclesiastico.
Foi encarregado o commissario Carlos da Rocha Pereira de consultar os inquisidores de Coimbra. Estes, vacillando na resposta, consultaram o conselho geral, que residia em Lisboa, no seguinte officio, que lá chamavam Conta:
«O commissario do Porto Carlos da Rocha Pereira nos dá conta pela carta inclusa do matrimonio que celebrou Isabel Fiuza, catholica romana, ingleza, com Thomaz Mossão, inglez herege, no rio Douro, em uma lancha ingleza; e nos remette o auto de perguntas, que lhe fez, depois de presa no aljube ecclesiastico da mesma cidade, em que confessa o mesmo matrimonio; e, no mesmo correio, dá conta aos inquisidores Affonso Cabral Botelho, e deputado Francisco Carneiro de Figueirôa, pela carta junta, do reparo que na dita cidade faziam os inglezes da prisão do ordinario; e que ouvira que o seu consul se queria queixar a sua magestade; e, posto nos pareceu que deviamos proceder contra a dita Isabel Fiuza, na forma da disposição do Regimento, liv. 3.o tit. 16, §. 2.o, o duvidamos fazer pelas circumstancias referidas, e reparo do consul; e assim recorremos a v. ill.ma para nos ordenar o que devemos obrar n'esta materia. Coimbra em mesa 18 de agosto de 1704.==Antonio Portocarreiro, Affonso Cabral Botelho.»
O conselho da santa inquisição, desdenhando as ameaças do consul e a opinião dor rei a tal respeito, respondeu, passados quarenta dias:
«Os inquisidores responderam ao vigario geral que, suppostas as circunstancias, póde conhecer do caso de que se faz menção na fórma que lhe parecer. Lisboa 26 de setembro de 1704.==Carneiro, Moniz, Hasse, Monteiro, Ribeiro, Rocha.»
E, no em tanto, Isabel conseguira receber no aljube ecclesiastico alguns padres de notoria virtude que a reduzissem á religião catholica e a desatassem do marido herege.
O vigario geral lisonjeára-se grandemente com a confiança delegada pelo conselho geral; mas via-se entalado entre a fé catholica e o consul inglez.
Depois de grandes prelios que as duas potencias lhe travaram na consciencia, o magistrado ecclesiastico resolveu processar Isabel, visto que ella, impenitentemente e contumaz, persistia em querer o seu marido assim herege e condemnado ao sempiterno horror onde ha o perpetuo ringir de dentes.
Esta deliberação foi communicada ao consul, que a ouviu com um sorriso que o vigario geral não percebeu porque era sincero, virtuoso e bonacheirão.
N'esse mesmo dia, o consul teve uma conferencia secreta com quatro capitães de navios inglezes, ancorados no Douro.
Á volta das onze da chuvosa noite de 7 de outubro, pela porta da Lingueta e pela dos Banhos entraram os muros da cidade trinta marinheiros que por diversos pontos confluiram ao aljube ecclesiastico, situado na visinhança da Sé.
A guarda d'este carcere era indigna de hoste ingleza tão numerosa. O santo officio confiava muito dos ferrolhos, e dispensava as escopetas da milicia; mas nunca lhe negrejára na mente a hypothese de que os esbirros e carcereiros, tangidos por valentes sôcos britannicos, iriam libertar da masmorra um dos seus presos.
Foi o que aconteceu n'aquella noite funesta para os fastos do santo officio, e para os queixos dos quadrilheiros. Isabel que não podera ser prevenida, quando ouviu a deshoras o rodar de portas nos gonzos, cuidou que ia ser transferida aos carceres de Coimbra ou Lisboa. Estava em joelhos com as mãos postas, quando Thomaz Mosheim, ladeado de marujos athletas, entrou no recinto, e a custo a viu ao clarão de uma lampada que alumiava um crucifixo.
E ella, reconhecendo-o, lançou-se-lhe nos braços, e perdeu o alento.
Um dos quatro colossos vermelhos, que o seguiam, tomou-a nos braços, como quem aconchega do peito uma pomba assustada.
Depois, era triste de vêr-se como aquelles poucos guardas do aljube, porque não percebiam o regougar dos saxonios, em vez de palavras eram intimados a pontapés para que entrassem no carcere devoluto da ingleza. E, todos elles--digamol-o com dôr de portuguezes e de catholicos--lá ficaram fechados, apalpando as partes contusas.
Antes do arraiar da aurora, uma escuna ingleza balouçava-se defronte do castello da Foz, á bocca da barra. Assim que amanheceu, as velas trapejavam com prospero vento.
Isabel, ainda prostrada no seu beliche, pedia ao esposo que a convencesse de que ella não estava louca nem sonhava. E elle, o doudo de paixão e alegria, lá conseguiu convencel-a de que o Deus do céo e da terra, que era o Deus de ambos, a tinha alli bem acordada para a suprema felicidade d'este mundo.
Que fez o vigario geral depois de tão insolito ultrage? Consultou os inquisidores de Coimbra. Os inquisidores de Coimbra consultaram o conselho geral. O conselho geral consultou o rei. Fez-se um profundo silencio. Ninguem fallou mais d'este caso, senão eu.
Já que estou com as mãos nas cinzas ensanguentadas do santo officio, hei de dizer ao leitor a razão que assistiu aos inquisidores que em 1601 mandaram ensambenitar e queimar uma rica e gentil dama, chamada Violante Mendes e seu marido Francisco Borges, ambos de Chaves.
E, trasladando a denunciação, que é a primeira peça do processo, dou aos curiosos noticia do modo como semelhantes instrumentos se lavraram.
Estamos em Chaves, no dia 28 de maio de 1591, em casa do vigario geral, onde são inquiridos os denunciantes, que são tres, e todos sacerdotes. O escrivão James de Moraes escreve o seguinte:
«Anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1591, aos 28 dias do mez de maio do dito anno, na Villa de Chaves, nas pousadas do licenciado Gaspar da Rocha Paes, vigario geral no temporal e espiritual n'esta vigararia comarca da dita villa, pelo ill.mo snr. D. fr. Agostinho de Jesus, pela mercê de Deus e da santa sé apostolica, arcebispo, senhor de Braga, primaz, etc. Presente elle appareceu o padre João de Mattos, morador em a dita villa, o qual trouxe a mostrar a elle vigario uma peça de marfil (marfim), que mostrava ser de feição de uma bezerrinha, e sómente lhe faltava as pernas, e braços que estavam quebrados, e assim os corninhos espontados, o qual disse que a achára na mão de André, moço de 16 annos, filho de João Rodrigues do Campo, arrabalde d'esta villa; que por lh'a vêr na mão lh'a pediu que lh'a mostrasse, o qual lh'a mostrou; e por a dita bezerrinha ser tal como dito é, e além d'isso cheirar muito a almiscar, e parecer estar em parte...[11], e lhe não parecer bem, lh'a trazia a mostrar por a pedir ao dito moço André. O qual André presente disse que era verdade que aquella peça, indo elle André hoje n'este dia a casa de Pero Fernandes, escrevente d'esta villa, á escóla, para o ensinar a lêr, a achou debaixo de uma arca, e ao tempo que a achou sem ninguem o vêr a guardou, e levou, e andou mostrando a algumas pessoas entre as quaes foi ao dito padre João de Mattos, e a Mathias de Barros cavalleiro d'esta dita villa; e lh'a tomaram. E logo outro sim appareceu Pedro moço de 16 annos, filho do dito Pero Fernandes escrevente acima dito, e por elle foi dito que era verdade que aquella bezerrinha elle dito Pedro a achára na rua do Sol, d'esta villa, no meio da rua defronte da casa de Francisco Borges, em que hora (agora) elle vive, que é de Diogo Ferreira d'esta mesma villa, o que poderia haver um mez pouco mais ou menos, e lh'a viu achar Lazaro, filho que ficou de Gaspar de Magalhães. E depois de assim a achar a levára para casa como dito tem sem outra cousa alguma, e a trazia em casa sem entender o que era; e andava ahi em casa por detraz das arcas. E estando assim para se fazer este auto chegou o padre Gaspar Dias, e o padre Antonio de Magalhães, ambos d'esta dita villa, e disseram, que estando ambos juntos, e vindo pela porta do dito Francisco Borges acima dito, estando Gaspar Teixeira Chaves á sua janella, lhes disseram elles que se achára uma bezerra, não sabendo onde, como na verdade não sabiam; e, estando n'esta pratica da dita bezerra, disse uma moça que se chama Maria de Villar de Nantes, e criada do sobredito Francisco Borges, e outra moça pequena, outro sim criada de casa por nome Madanella, disse a grande rindo-se: Senhores, isso é de cá. E elles ambos passaram seu caminho sem responder nada. E logo veio atraz d'elles a dita moça Madanella, e elles a chamaram, e não quiz vir, e foi a casa do dito Francisco Borges, e tornou logo a sahir, e veio ter com elles ditos padres, e pediu a elle dito padre Antonio de Magalhães que lhe desse a vaquinha, e elle lhe perguntou se era sua, e a dita moça que sim era sua, que viera de Lisboa e que a trazia o menino na mão, e que em algum tempo elle dito padre Gaspar Dias ouviu dizer aos antepassados que uma Branca Manoel em Lisboa fôra queimada, a qual fôra bredona (?) de Violante Mendes mulher do dito Francisco Borges, e o vinha denunciar e dizer. Estando assim elles ditos padres, presente elle vigario, chegou a dita moça Madanella duas vezes, e na primeira disse a elle vigario que a sobredita Violante Mendes sua senhora mandava pedir a vaquinha que era do seu menino; e da segunda que tornou disse, que a sobredita sua senhora a tornava a mandar que por amor de Deus lhe désse a vaquinha que era do seu menino que a perdera havia quatro dias. E de tudo mandou elle vigario fazer este auto, e assignou com os ditos padres aos quaes todos tres deu juramento dos Santos Evangelhos que n'esta parte tivessem todo o segredo como cousa do santo officio, e elles assim o prometteram e juraram e assignaram que a tudo se achavam presentes ás perguntas que se fizeram aos sobreditos moços, que elle vigario não quiz estivessem presentes ao fazer do auto, nem que assignassem por não serem capazes de segredo. E eu James de Moraes o escrevi, e a sobredita vaquinha ficou em poder d'elle vigario. E eu sobredito escrevi.==Rocha, Gaspar Dias, Antonio de Magalhães, João de Mattos.»
Ahi está o corpo de delicto que levou á morte um homem e uma senhora que tinham um filhinho, o qual brincava com uma bezerra de marfim sem pontas nem pernas. Tres ungidos do Senhor, tres padres denunciantes lá estão na gloria eterna revendo-se na bemaventarança das duas almas que elles purificaram no fogo.
[11] Palavra inintelligivel: parece dizer degolada.