PROEMIO
Esta serie de livrinhos ha de ser uma cadêa com elos de bronze rijos e toscos, e elos de pechisbeque flammantes e quebradiços. O bronze é a porção prestadía do opusculo; é a pagina que não seria descabida em livro de estudo; é a pretenção do author a que a sua obra perdure mais de vinte e quatro horas no espirito de quem a lêr.
O pechisbeque é a futilidade que, ao nascer, é acolhida por um sorriso do leitor; e, apenas o sorriso esmorece, a impressão esvaíu-se; e a idéa fulge e apaga-se sem deixar mais signal que o relampago das noites de agosto, e o arrancar da aguia no seio das nuvens.
Ambas as especies pertencem ás minhas noites de insomnia. N'esta deploravel enfermidade, que ha seis annos me estila no cerebro gota a gota a peçonha da morte, achei traça de me vingar do acaso que embala o regalado dormir do meu cão, e me estrondeia nos ouvidos o marulhar das vagas entre penhascos. Vou ao jazigo das minhas illusões, exhumo os esqueletos, visto-os de truões, de principes, de desembargadores, de meninas poeticas á semelhança das que eu vi quando a poesia era o aroma dos seus altares. Visto-me tambem eu das côres prismaticas dos vinte annos, aperto a alma com as garras da saudade até que ella chore abraçada ao que foi. E, depois, n'este festim de mortos, conversamos todos; e eu, no alto silencio da noite, escrevo as nossas palestras. Ás vezes, entre muitos estridores que me resoam nos ouvidos, o mais distincto é o dobre a finados. É quando a aurora reponta: a luz espanca as imagens cujo meio de vida é a treva e o silencio.
Venho então sentar-me a esta banca, dou fórmas dramaticas ao dialogo dos meus phantasmas, e convenço-me de que pertenço bem aos vivos, ao meu seculo, ao balcão social, á industria, mandando vender a Ernesto Chardron as minhas insomnias.
Eis a minha vingança, que abrangeria o leitor, se estes livros lhe não abonassem horas de somnolenta digestão de alguns artigos substanciosos. Estes artigos constarão da nobre sciencia da historia, nomeadamente de historia nacional, e muito das cousas pertencentes á fidalguia de raça que vai extinguir-se. É tempo de esgaravatar entre as ruinas do edificio derruido algumas reliquias aproveitaveis para a comedia humana. Mas nem tudo será escavar no lixo. Não vaguearemos sempre ao través dos pardieiros dos antigos solares. Alguma vez nos sentaremos na testada da serenissima casa de Bragança conversando com os seus duques e monarchas n'aquella sem ceremonia permittida á arraia miuda de hoje em dia; mas escreveremos as nossas considerações, como lá dizem, de luva branca e penna de diamante. Desejamos que a posteridade se entretenha comnosco, e com o snr. conselheiro Viale. Elle e nós levaremos aos evos uma sincera historia de Portugal, e andaremos os dous, á compíta, a vêr quem maiores emborcações de morphina injecta nos nervos das gerações porvindouras.