REHABILITAÇÃO DO SNR. VISCONDE DE MARGARIDE
S. exc.a festejou o seu natalicio com um baile, em um dia de jejum, por uma noite de janeiro, breve e esplendorosa. O dia era de abstinencia carnal, note-se. Creio que o preceito começava á meia noite, pontualmente á hora em que a restauração das forças, esvaídas na vertigem dos bailados, reclamava varios phenomenos reparadores desde a trituração até ao filtramento do chylo no systema sanguineo. Se eu não odiasse o palavriado vulgar, diria que os hospedes do snr. visconde precisavam de comer.
Á magnitude do appetite correspondeu a magnificencia dos acipipes. Era já soada a hora da abstinencia do boi, do perú, da gallinhola, do salmagundy. E, não obstante, as iguarias condimentosas, a febra, a alimentação rija lourejava nos pratos e nas terrinas entre ondulações de perfumes. Alguns dos convivas sabiam que o dia ou a noite era de peixe. Senhoras de idade canonica, respeitaveis por seus principios e observantes das disciplinas da igreja, não vendo alvejar a pescada ou o rodovalho entre coxins de batata e cebola, tantalisavam a perdiz em molho de villão; mas, cerrando os dentes á invasão do peccado, esquivavam-se a sahir do baile com o bolo alimenticio azedado por escrupulos. N'este comenos, alguem disse o que quer que fosse a meia voz ás pessoas perplexas entre a gallinhola truffée e a religião dos Affonsos.
Umas pessoas, depois que ouviram a nova, sorriram, como vencidas de tentação deliciosa, e comeram carnes. Outras, invulneraveis e inflexas na sua abstinencia, martyrisaram-se com trutas e salmões. Como quer que fosse, houve escandalo. Comeu-se volateria e ruminantes em sexta feira. Algumas consciencias sahiram do baile do snr. visconde, ás 8 horas e meia da manhã, com o peso do estomago sobre si.
A opinião publica, já em Guimarães, já em Braga, ergueu-se á altura dos principios, e murmurou. Eu fiz parte d'esta opinião adversa ao magistrado superior do districto a quem corre o dever de penitenciar os seus hospedes com trutas e salmão em dias de peixe, em memoria dos augustos mysterios do christianismo.
Quanto a mim, o snr. visconde era um atheu e os seus hospedes uma cafila de heresiarcas. Eis senão quando a imprensa do Porto divulga uma noticia que bafejou um halito de jubilo na face de Braga, no perfil de Guimarães, e nos tres quartos do paiz. Apresso-me a repetil-a em grifo com uma consolação catholica, e tanto ou quê apostolica: O snr. visconde de Margaride tinha obtido dispensa do prelado bracharense para que os seus hospedes podessem comer carne.
Orvalhe-se de lagrimas de alegria o rosto da christandade portugueza; que eu por mim, quanto um abraço cabe nas potencias da phantasia, aqui aperto contra o coração o snr. visconde de Margaride, e felicito os catholicos que digeriram innocentemente as suas vitualhas.