AS OSTRAS
No Porto, as commoções que sacodem os nervos da grande cidade, são raras; mas, se rebentam, são a valer!
No principio d'este anno, estavamos todos quietos, com estas nossas caras cheias de ideal, gravidos de philosophias, hypocondriacos, ares inglezes, indigestos; mas, sobre tudo, bons visinhos e inimigos de novidades.
A quarta pagina das gazetas andava, ha muito, alugada aos varios barateiros, que se denominam numericamente como as dynastias, traspassando a sua qualidade de barateiros n.o 1, n.o 2, etc., á proporção que quebram, e vão transmittindo a genealogia dos epithetos, maneira discreta de esconder os nomes.
Eis que, inesperadamente, se annunciam em letras colossaes as ostras.
E os litteratos, encarregados de guiarem a corrente da opinião publica, escolhendo no seu guarda-joias a mais nitida pedraria de estylo, apregoaram as ostras como ha dezenove seculos o fazia Horacio quando as afogava no falerno de Mecenas.
O localista do Primeiro de Janeiro, com pulso febril, e ternura pelo marisco, exclamou: «Abençoado o nome de quem quer que em tempos tão doentios nos trouxe medicina tão efficaz e preconisada!... Não são de Ostende as ostras que se nos offerecem, frescas, saborosas e provocadoras, pela manhã como leite de cabra, ao meio dia como o lunch á ingleza, á noite como um restaurador das forças perdidas no labutar diurno. São de Montijo, igualmente boas, e igualmente irritantes. Vamos a ellas!»
Vamos lá! conclamou toda a gente doentia, toda a gente em uso de leite de cabra, toda a gente que lunchava á ingleza, e, em summa, toda a gente que á noite costumava restaurar as forças, deitando-se a dormir, ou extrahindo do goraz cozido o phosporo necessario á sua vida intellectual e physica.
Desde o alvorejar das gazetas, confluiram á praça de D. Pedro todos os servos que superintendem na culinaria das familias. As massas que desembocavam das ruas circumjacentes davam a lembrar os comicios d'aquelles dias de vertigem civica, lá quando os irmãos Passos abriam na viella da Neta os relampagos do Sinay, e a turbulencia da liberdade alli vinha soltar um rugido e ameaçar os tyrannos.
Não assim agora n'estes dias em que o paiz, podre de feliz e anemico da sua indigestão de prosperidade, procura restaurar-se pelo marisco.
De mais a mais, os diarios tinham annunciado que as ostras eram gordas; e, sobre gordas, dizia o Primeiro de Janeiro, irritantes. Pela qualidade de gordas, o sorriso que brincava nos meus labios, quando mandei o meu gallego comprar doze vintens d'aquelle remedio, era um sorriso de tão legitima candura como o leitor os tem visto nas bentas bochechas dos seraphins que sobem de gatinhas pelas columnas dos altares. Quanto a irritantes, como essa virtude me não parecesse a mais sadía, mandei ao mesmo tempo comprar a linhaça correspondente.
E, em quanto o criado ia e vinha, consultei, para illudir a impaciencia, os meus livros no que havia, através dos seculos, mais averiguado ácerca das ostras. Li em Chernoviz que póde uma pessoa comer oito duzias sem experimentar o minimo incommodo. Oito duzias--noventa e seis ostras, de manhã, como leite de cabra; noventa e seis, como lunch á ingleza; noventa e seis á noite para restaurar as forças: ao todo, duzentas e oitenta e oito ostras quotidianas que custam no deposito da praça de D. Pedro 3$840 reis.
É uma alimentação economica e boa para fortalecer o estomago de um paiz pobre. Qualquer sujeito anemico, pallido, que não possa com um gato por qualquer parte do mesmo, deve nutrir esperanças de que, no fim de um anno, tendo comido cento e cinco mil cento e vinte ostras gordas da praça de D. Pedro, que lhe custam um conto quatrocentos e um mil e seiscentos reis, póde gozar uma saude mais ou menos gallega.
Assim que o meu criado chegou com dezoito ostras por 240 reis, atadas na ponta de um lenço, á guisa de biscoutos de revalenta, duvidei da gordura do testaceo, mas afaguei a charneira da concha bivalve, porque só de per si a concha tem virtudes medicinaes cuja noticia eu envio aos risos jubilosos dos meus amigos. Tenho aqui a Anchora medicinal do grande medico Francisco da Fonseca Henriques, e n'ella a pag. 247, mihi, artigo Ostras, leio com estremeções de gaudio: As conchas das ostras queimadas são boas para as queixas das almorreimas.
Isto é o que o Primeiro de Janeiro sabia de fundamento quando abençoou o inventor de remedio tão conveniente ás doenças do tempo. Faz-se mister grande intuição medica de entranhas a dentro para diagnosticar hemorrhoidas universaes na nação.
Das alegrias externas, passei a averiguar a gordura annunciada do testaceo hermaphrodita.
Não me pareceu tão gorda a ostra espalmada na concha que podesse disputar vantagens a um jantar do Ugolino de Dante na Torre de Piza.
Authorisado pelas idéas que fórmo de gordura, suspeito que o empresario d'estas ostras descobriu o segredo de repartir dez por cada casca; ou, negociando as cascas em Montijo, as encheu com ameijoas do Cabedelo. É uma falsificação engenhosa que merece desculpa em quanto se conservar na familia dos testaceos; mas desde que o unico depositario das ostras portuenses começar a introduzir nas conchas das ostras pedacinhos de bucho de safio, carochas e grillos de salmoura, quer-nos parecer que uma duzia d'estes covilhetes por oito vintens não é barato, nem me garante a renovação do meu sangue depauperado.
Não obstante, o consummo de ostras no corrente mez, no Porto e arrabaldes, tocou uma cifra que seria fabulosa, se as consequencias da irritação, previstas pelo Primeiro de Janeiro, se não manifestassem formidaveis, nos geitos, nos ademanes, nos esgares, nas crispações electricas que faiscam dos olhos de toda a gente saturada das ostras do unico deposito. Conhece-se que os insultos inferiores, que o pó da concha combate, se deslocaram, e evadiram a cupula do edificio humano. Os systemas nervosos, levados pela irritação a electróphoros, tornaram-se engenhos luminosos que transcendem as mais phantasticas idealisações da pyrotechnica. Esta galvanisação de organismos extenuados é realmente um espectaculo que honra muito a ostra; mas que tambem póde vir a ser nocivo á saude das almas.
Sei que temos recursos antiphlogisticos para combater as irritações, desde as cataplasmas de fecula até ás ventosas sarjadas; mas o emprego d'estes meios therapeuticos obriga as pessoas timidas a andarem na rua com um alforge de drogas, como os antigos physicos, ministrando capilés e orchatas a todos os sujeitos que denunciem instinctos inflammados no ultimo grau de irritação.
Em nome da moral publica, pedimos ás pessoas irritaveis que se abeberem em agua de cevada, quando sentirem que a ostra se lhes insinua perfidamente nos seios do coração.