BOM HUMOR
(AO NOTICIARISTA DA ACTUALIDADE)
Chamar a D. João III principe perfeito podia ser lapso, sem ser ignorancia; mas nem sequer foi lapso: foi proposito.
Vá o noticiarista ao escriptorio da typographia, onde as Noites de insomnia são impressas. Peça ao snr. Antonio José da Silva Teixeira, honrado proprietario da typographia, que lhe mostre a primeira prova do artigo intitulado D. JOÃO III, e encontrará piedoso, como estava no original, emendado para principe perfeito, como está no livro. Se quer saber por que motivo corrigi o que havia escripto em harmonia com a historia official, respondo-lhe que está no meu arbitrio alterar os cognomes que não derivam de razão justificada; e á luz da historia, tanto monta para mim a perfeição de D. João II, o algoz, como a piedade de D. João III, o fanatico. Uns historiadores chamaram ao filho de D. Manoel o Pai da patria; outros o Filho da igreja; outros, authorisados por Paulo III, o Zelador da fé. Eu chamei-lhe o principe perfeito, e cancellei na prova o titulo de piedoso, que lhe dera de camaradagem com o snr. Viale, por não querer manchar um adjectivo digno de S. Francisco Xavier ou de S. João de Deus.
Além de quê: está rigosamente estatuido que sejam dogmas historicos a perfeição e a piedade do D. João II e D. João III? Poderemos, com juizo, associar-lhes taes epithetos, fóra de ironia? Ora assim como uns historiadores cognominaram D. João III com variados titulos, dá-me o noticiarista licença que eu chame perfeito ao principe, e sabio a sua senhoria? A patarata é a mesma.
N'isto de acolchetar antonomasias, tanto aos reis como aos subditos, quero e peço que haja liberdade plena. Por exemplo: o redactor da noticia da Actualidade, conhecido entre os seus parceiros por um epitheto qualquer, está sujeito a que a posteridade lh'o altere ou inverta. Eu, por em quanto, circumscrevo os limites da minha phantasia a chamar-lhe tolo.