DOUS PRECONCEITOS
O primeiro, é dizer-se que, no governo absoluto, as condecorações, os fóros de fidalguia e os tratamentos eram judiciosamente dados e com muita parcimonia a quem os merecia.
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O segundo, é dizer-se absolutamente que a mudança do regimen politico de 1834 empobreceu de repente os fidalgos, esbulhando-os dos seus rendimentos provindos de privilegios, encargos, commendas, etc.
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Quanto ao primeiro preconceito, ouça-se o depoimento de um notavel fidalgo, que estudou cincoenta annos, e meditou dezesete nas lobregas cavernas da Junqueira. Era D. João José Ansberto de Noronha, conde de S. Lourenço, que morreu em 1804, com 79 annos de idade. No penultimo anno de sua vida, escreveu a sua ultima obra, que ainda não sahiu das gavetas avarentas dos curiosos de manuscriptos, e intitulou-a Apontamentos politicos.
Seja o conde de S. Lourenço quem impugne a arguição injusta que se faz ao governo representativo, doestando-o de perdulario de titulos e nobilitações. Observe-se que o fidalgo escrevia em 1803, e que as ultimas linhas d'este trecho do seu escripto são uma prophecia; que, n'aquelle tempo, a raros espiritos se prefiguravam idéas de liberdade, e menos ainda aos que haviam de ser apeados por ella do pedestal de sete seculos.
Eis a passagem que tem por epigraphe--Dos ennobrecidos:
«Os serviços ordinarios, e por assim dizer materiaes, pagam-se com dinheiro, que se tarifa como qualquer salario, á proporção do trabalho. Os serviços relevantes, isto é, os que são feitos com perigo de vida, com força de engenho, ou com espirito de patriotismo, e de que resultam grandes vantagens ou de facto, ou de exemplo, pagam-se com signaes honorificos, com distincções, e com titulos, porque se julga, que não tendo preço, se não podem remunerar senão com honras. E segue-se d'isto, que a moeda mais preciosa do thesouro do soberano é a faculdade de distinguir e honrar, porque alcança com ella o que não póde comprar com dinheiro. Mas se ha facilidade em conceder honras, se se alcançam sem sacrificios, nem habilidade, n'esse caso todos as querem, muitos as conseguem, e ninguem fica contente; uns porque querem mais, outros porque ainda não tiveram, e outros que as tem por seus justos cabaes, porque se acham confundidos na inundação dos nobres de acaso. As consequencias são, que as distincções deixam de o ser, porque se fazem geraes; que empobrece o thesouro politico do soberano, porque a moeda mais preciosa perde o seu valor, e que se perde o espirito da gloria, porque os individuos vem a achar por fim mais vantagens em buscar conveniencia, do que signaes, que pela sua multiplicidade, e modo por que se alcançaram vieram a ser de estimação incerta.
«Com effeito tem-se vulgarisado as honras, não só á força de concessões avulsas, mas até de tarifas. Na divisão das tres ordens militares deram-se tantos habitos de S. Thiago, que apesar de ser uma ordem tão respeitavel, já ninguem a quer. Concedea-se o fôro de fidalgo a quem no emprestimo real entrasse com porções avultadas, sem embargo de ficar ganhando juros. Concedeu-se o mesmo fôro a quem lavrasse certa porção de sêda para vender. Os officiaes de secretaria, cujo numero tem crescido tanto, tem o habito de Christo no primeiro anno de serviço, e o fôro de escudeiro no decimo. Os officiaes do erario tem o habito de Christo, etc., etc., etc.
«Esta quantidade de tarifas em muito poucos annos reduz os tres milhões de habitantes a tres milhões de nobres: n'este caso a maior distincção, que póde haver, é não ser nobre; e o modo de a conseguir é não servindo o estado de modo nenhum. Parecerá isto um paradoxo, mas a experiencia já vai mostrando que o não é.
«As leis do tratamento já não tem vigor, e a arrogação de senhorias, e excellencias é geral.
«É da maior difficuldade achar gente para trabalhar, e tanto que no anno de 1801 querendo-se expulsar os gallegos em razão da guerra, não se fez porque o intendente geral da policia representou, que se se mandassem embora, não haveria quem servisse a cidade de Lisboa e a do Porto.
«Se um corpo de nação não póde passar sem tomar criados estrangeiros, não para as artes, mas para o serviço ordinario, ou é a nação mais fidalga do mundo, ou a mais paralytica, e em todo o caso a que mais velozmente corre para o systema da igualdade, e que mais velozmente se afasta da monarchia.»
Até aqui o descendente de el-rei D. Fernando no que respeita á prodigalidade das mercês. Agora, pelo que é da pobreza dos fidalgos, cumpre saber que a maioria das casas titulares de primeira plana já principiava a esboroar-se no principio d'este seculo. O golpe da extincção das commendas pouco sangue já encontrou nos corpos dos commendadores. Se ainda no Torneio real de 1795, escripto pelo senhor de Pancas, encontramos trinta e dous fidalgos pompeando as galanices da Asia, indaguemos hoje a paragem dos netos d'esses homens, que eram os primeiros nomes de Portugal. Onde estão os haveres do conde de Aveiras? o grande patrimonio do marquez de Abrantes? de Lavradio? de José Telles da Silva? do marquez de Angeja? do de Ponte de Lima? do conde da Ega? do de Obidos? do marquez de Nisa? do de Penalva? do conde de S. Lourenço? do visconde de Barbacena? do marquez de Tancos? do conde de Sabugal? Estes eram do numero dos trinta e dous fidalgos que resplandeceram nas cavalhadas no anno de 1795 para festejar o nascimento do principe D. Antonio. E dos restantes, exceptuada a casa de Cadaval, com pesar de ss. exc.as, força é declarar que não ha ahi barão moderno que lhes inveje a riqueza.
A santa casa da Misericordia de Lisboa abre-nos o seu livro de creditos, no anno de 1813, e mostra-nos a voragem da parte ainda hypothecavel dos bens d'esses fidalgos que, em nossos dias, vimos inteiramente desbaratados. Entre 1813 e 1833 rodaram vinte annos, e a ladeira que resvalava os dissipadores á voragem era cada vez mais escorregadia. O proprio conde de S. Lourenço, que presentira o naufragio da nobreza, levada a pique pela rajada da liberdade, não educou seus filhos melhormente que os seus iguaes em fidalguia, e desigualissimos em intelligencia. Se elle anteviu a borrasca, devera colher as velas á nau, que se desmantelou, como as outras norteadas por palinuros, ignorantes e cegos.
Na lista dos devedores á Misericordia, encontramos algum raro fidalgo, cuja casa se teve no balanço, e hoje mantém o antigo luzimento. Esse tal achal-o-hemos acostado á restauração liberal de 1833, e quinhoeiro, por tanto, das regalias que auferiram os parciaes do imperador. No entanto, dos que serviram a liberdade, houve d'elles que nem assim lograram reparar as ruinas.
O leitor curioso poderá estremal-os na seguinte lista:
| A casa de Rezende devia á Misericordia de Lisboa com vencimento de juros, no dia 8 de março de 1813 | 9:991$509 |
| A de Ponte de Lima | 1:270$442 |
| A de Abrantes | 8:978$105 |
| A de Tancos | 11:750$000 |
| A de Louriçal | 9:600$000 |
| A de Obidos | 101:490$899[2] |
| A de S. Vicente | 4:000$00 |
| A de Soure | 21:080$698 |
| A de Borba | 1:278$154 |
| A de Pombeiro | 18:508$500 |
| A de Coculim | 9:400$000 |
| A de Loulé | 5:715$494 |
| A de Lavradio | 11:700$000 |
| A de Unhão | 4:655$011 |
| A de Vidigueira | 353$128[3] |
| A de Alorna | 40:665$011 |
| A de Atouguia | 3:989$115 |
| A de S. Miguel | 10:295$565 |
| A de Tavora | 7:289$433[4] |
Seguem-se Antonio Telles da Silva, D. Antonio Soares de Noronha, o conde de Alvor, dos Arcos, de José Felix da Canha, de D. Diniz d'Almeida, de D. Luiz de Portugal da Gama, de D. Rodrigo Xavier Pedro de Sousa, e outros, perfazendo 340:359$700.
O empregado da secretaria da Misericordia, que passou a certidão n'aquelle mesmo anno de 1813, acrescenta de lavra sua: «Alguns d'estes capitaes se consideram perdidos, porque os devedores tem provisões com tempo illimilado, e não possuem bens livres. Ha outros litigiosos e duvidados pelos devedores; de sorte que são muito poucos os que se podem manifestar como liquidos.»
Por onde se conclue que a minguada fortuna dos pobresinhos cahira em honradas mãos! Eu, contra o parecer do escripturario, creio que os fidalgos, menoscabados de insoluveis, pagaram todos com mais ou menos pontualidade; e, se não pagaram, desculpe-se-lhes o começarem a misericordia por si.
Eu sei que os fidalgos do acaso, como acima lhes chama o conde de S. Lourenço, se rejubilam de ter estirado as camadas do seu lodo por cima dos honrosos vestigios dos outros. Ouso, porém, a liberdade de lembrar a suas excellencias que a tradição da raça e as pêas dos vinculos conservaram através dos seculos os nomes historicos; ao passo que estes adventicios afidalgados, á falta do vinculo que os tenha alguns seculos pendurados no esgalho do tronco velho, bem póde ser que se estejam desentranhando em filhos para futuras tripeças.
Se assim fôr, que Deus os faça sapateiros engenhosos, para que a comedia humana não seja de todo em todo ridicula e inutil ás artes.
[2] O palacio d'esta familia foi comprado ha pouco pelo rei, e dado a uma senhora d'esta casa aia do principe.
[3] O fallecido marques de Nisa succedera na posse de duas riquissimas casas, a de Vidigueira e a de Cascaes. O Paul, vastissima propriedade vendida ao capitalista Eugenio de Almeida, havia sido dado por D. João I a João das Regras, ascendente dos senhores de Cascaes. O marques morreu pobre. Deixou dous nobilissimos filhos: um é aprendiz de negociante no Brasil, o outro tem um engenho de fazer cigarros depois de ter tido perto de Paris um restaurante, em que era caixeiro um filho de José Estevão. Ó Vasco da Gama!... Ó Demosthenes lusitano!
[4] Estas quatro ultimas casas estão ementadas na lista como extinctas.