LISBOA
Ha mais de dous seculos que um viajante francez de grande qualidade esteve em Lisboa. Volvidos trinta annos, o filho do companheiro de viagem d'esse incognito senhor mandou imprimir em Hollanda as viagens que seu pai escrevera, e deu este titulo ao livro: Voyages faits en divers temps en Espagne, en Portugal, en Allemagne, en France et ailleurs. Par Monsieur M. **** A Amsterdam, MDCC.
Entraram os viajantes em Lisboa, no dia 18 de maio de 1669. Em sete paginas de oitavo pequeno esgotaram as impressões que Portugal lhes suggeriu; mas não nos detrahiram nem calumniaram. D'essas sete paginas, provavelmente desconhecidas ao commum dos leitores, a substancia é esta:
«Lisboa é muitissimo povoada, pois que todas as nações alli trazem gente, sendo muita a mourisma que lá é escrava, e procede de Guiné. As liteiras são mais que as carroças; mas são magnificas. E, porque a cidade se fórma de outeiros, o que mais se usa são cavallos e mulas. As igrejas são aceadissimas e formosas. Os portuguezes andam armados de espada e punhal.
«São os portuguezes mais ciosos de suas esposas que os hespanhoes. As mulheres sahem de casa menos vezes que as de Madrid: o que faz que lá se diga que ellas vão á igreja tres vezes no anno: baptisar-se, casar-se e enterrar-se.
«É notório que o marido, apenas suspeita do proceder da mulher, trata logo de a esfaquear; d'onde lhes urge a ellas estarem muito de sobreaviso, e haverem-se com grande precate no logro dos maridos, vingando-se assim da escravidão em que vivem.
«Sobre a tarde, fomos vêr o convento da Esperança onde a rainha esteve encerrada seis mezes[5] quando deixou o rei que está na ilha Terceira, a trezentas leguas distante de Lisboa. D. Pedro, seu irmão, governa actualmente, e casou com a cunhada, filha do fallecido principe de Nemours da casa de Saboya. Ella vai ao conselho, e assiste com o marido ás audiencias. D. Pedro não quiz ainda ir ao paço para ser coroado. Vive em sua casa, que foi confiscada ao marquez de Castello Rodrigo, que seguiu o partido de Castella quando Portugal se rebellou. Segundo os tratados, os bens já deviam ter sido restituidos ao marquez; mas até agora nem n'isso pensam. Esta casa está situada á ourela do Tejo, perto do palacio real. Guardam-na vigilantemente trezentas sentinellas vestidas de pardo agaloado de verde. O paço é quadrado, e cheio de mercearias(?): é edificio pouco distincto. Tem dentro uma praça limpamente areada, e um chafariz no centro.
«É ahi a praça dos touros. O paço estava desalfaiado. A capella, rica de azul e ouro, é bellissima. Os armazens dos utensis destinados á marinha de guerra, são ahi ao pé. Navios mercantis tem poucos. Mandam apenas cinco ou seis ao Brazil, e servem-se dos inglezes e hollandezes para importar assucar e outros generos a Lisboa. Ahi perto andam a edificar-se dous salões, em que os mercadores se ajuntam a negociar. Vimos uma igreja que a rainha-mãi fandou, e onde está enterrada[6]. Todo o tecto é de ebano, bem como as columnas de laçarias douradas. Os pavimentos de todas as igrejas de Lisboa são de adobes azulejados com figuras. Ha ahi uma, onde se veem retratadas as cabeças das pessoas condemnadas e queimadas pela inquisição. Presentemente não ha inquisidor geral.
«O palacio onde mora D. Pedro e a rainha é composto de quatro pavilhões pequenos e dous eirados onde aquella princeza vai de tarde tomar ar com as damas. Está ahi sempre o «regimento da armada.» As ante-camaras estão sempre atalaiadas.
«O principe e ella dão audiencia todas as terças feiras. Elle é corpulento, rosto magro e trigueiro. Desde que esteve doente, usa cabelleira. Sahe pouco acompanhado, e dizem ser affavel e cortez. A rainha traja á hespanhola com guarda-infante, com os cabellos soltos pelas costas, encaracolados, e laçados de fitas. Tem uma filha que parece lindissima, cuja aia é a condessa de Añon (Unhão). Segue-a o seu mordomo duque de Cadaval. A rainha tem um anão indio que anda sempre com ella: é tão bem proporcionado que parece uma criança, visto pelas costas; mas pela frente não, que já tem barba. Já tinha sido da rainha-mãi, e goza da fama de engraçado... A rua dos Mercadores é muito bonita. Ha ahi bons acepipes, e confeitos excellentes. A 18 de maio comemos cerejas e damascos já maduros. O que é incommodo é não haver neve, nem as bebidas refrigerantes de Hespanha.»
E nada mais que mereça menção.
A respeito da Lisboa de 1669, que era, pouco menos, a Lisboa de 1754, um anno antes do terremoto, darei alguns pormenores. O que tenho visto impresso não satisfaz a curiosidade. João Baptista de Castro, o author do Mappa de Portugal, conheceu a velha Lisboa, e o que nos disse é tão diminuto que pouco vale. No Panorama e Archivo ha artigos de bons investigadores; mas pouco mais fazem que distender as noticias de Nicolau de Oliveira e outros que viram a Lisboa do seculo XVII.
O inedito, que tenho, ácerca da capital, dá noticias que provam ser escripto em 1754. Não lhe conheço author. Foi homem que, viajando, escrevia uma geographia da Europa alphabeticamente e levava a sua obra na letra L (LIXA, chamada pelos europeus LARACHE), quando, talvez, o terremoto lhe colheu de golpe a vida, ou lhe esfriou o ardor do trabalho.
No proximo numero trasladarei o que me parecer menos sabido.
[5] A mulher de Affonso VI e de Pedro II.
[6] Era a de Corpus-Christi dos carmelitas descalços, fundada no sitio em que Domingos Leite Pereira tentou matar D. João IV. Esta igreja desappareceu no terremoto e incendio de 1755.