FERREIRA RANGEL
Vivia aqui no Porto, ha pouco mais de mez, um homem que, ha vinte annos, atroava o café-Guichard com o trovão da sua voz. Chamava-se Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel.
Era liberal como um dos mais egregios romanos que morreram no templo de Diana, á beira de Caio Gracco. Era valente caudilho do povo; e das primeiras cutiladas do sabre dos esquadrões, nos motins anteriores a 1846, tinha elle as cicatrizes na cabeça. Era poeta da escóla antiga de Filinto e Diniz, como se demonstra no seu poema intitalado D. Sebastião. Era versado na lição dos socialistas, cujas doutrinas apregoava nos botequins, com um fogo de convicção, que lhe afusilava através dos oculos, e mettia medo nos peitos de mais fino aço.
Teve um irmão que lhe foi antipoda na esphera politica. As pessoas do tempo de D. Miguel conheceram-o, vivendo faustamente. Chamavam-lhe o escrivão-fidalgo, porque era escrivão e tratava-se á lei da nobreza. Este homem conheci eu chefe de estado-maior do general realista Macdonell. Morreu briosamente, em uma madrugada de janeiro de 1847, ao lado do general, desfechando um par de pistolas de pederneira, cuja escorva a neve d'aquella noite humedecera. O morto deixou dous filhos, e tres ou quatro esbeltas meninas. Parece-me que os vi e conheci na minha mocidade. Ouvi dizer que voltaram ricos do Brazil. Se bem me lembro, já escrevi a necrologia de um, que por signal estava vivo, e nem sequer me agradeceu, com um bilhete de visita, ser eu a unica pessoa de Portugal que lhe ajuntou ao nome esquecido quatro palavras de saudade e dó.
Agora, faço o mesmo ao tio, que morreu ha pouco mais de mez, e ninguem perguntou que pobretão era um que levaram na tumba dos pobres, entre quatro tochas, desde a rua Chã até ao Prado.
Pois era, era aquelle Ferreira Rangel que todos ouviamos e respeitavamos, ó rapazes de ha vinte annos!
A imprensa diária tem olheiros que superintendem em estupros, facadas, roubos e incestos; mas a alçada d'estes espias não chega até ao esquife do defunto sem testamento.
Ferreira Rangel chegou ao cemiterio ao fechar de uma noite orvalhada de dezembro. O coveiro estava prevenido e a postos. Não havia que esperar garganteações de psalmos. A fossa da valla dos pobres estava aberta. Na gleba desaterrada alvejava ainda o craneo e as vertebras cervicaes d'outro pobre. Tresandava o fartum da podridão abafada. Aquillo fez-se depressa. O caixão baqueou, desamparado de alto. Deu uma toada cava na terra fôfa. Os portadores d'aquelle pobre aconchegaram os capuzes das orelhas cortadas do suão, e sahiram de corrida. O coveiro deixou ao relento o caixão, e foi no dia seguinte, aquecido com aguardente, volver sobre as taboas chuviscadas o comoro de terra, que alisou com a pata da enxada.
Depois, o eterno silencio.
Envio os meus sentimentos aos sobrinhos ricos d'este homem, e dispenso-os do bilhete de visita.