DESGRAÇADO BALZAC!

ACTUALIDADE)

Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel, que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assignei.

Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do folhetinista.

Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não diga que sou incivil).

Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em cima, no noticiario, está a porção humana do aborto; em baixo, no folhetim, está (com a devida cortezia) a porção bestial do mesmo centauro.

Mas ha lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde está o homem, nem onde está (com a divida venia) a bêsta.

O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por conveniencias da composição e da variedade da fórma, lhe não chame sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em obsequio á urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva Pinto.

O snr. Silva Pinto começou no n.º 16 da Actualidade a traduzir romances de Balzac.

Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de paredes caiadas!

Eu não me despendo em considerações banaes acerca das difficuldades que empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac.

Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas no author dos Contes drolatiques, ainda que lhe sóbre igual saber da linguagem portugueza, ha de vêr-se em apuros para moldurar em estylo vernaculo as concisões, os idiotismos, a energia, o atticismo de Balzac.

Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto.

E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faça-me o obsequio de se prover do n.º 16 da Actualidade, e abrir isso onde começa o martyrio de Balzac. Não me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio francez, sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote primor, ou sequer um dizer que não venha gafado de construcção gallicista. Isso é o menos. Vamos ás tolices mais lerdas:

Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam tempo-brusco, dá a razão do epitheto n'estes termos:

Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumière trop vive, ni obscurité complete.

E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz:

Effectivamente, estão banidas por elle de sua casa tanto a luz demasiado viva como a escuridão completa.

Viram? chez lui--de sua casa. Incrivel!

Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua lingua, quiz dizer:

Não ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas.

Mas... a casa do homem! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha luz ou estava ás escuras em casa? Quem estava em escuridão completa sabemos nós.

Adiante.

Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis, espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta condição, e acrescenta:

Auprès d'elle tout a blanchi.

O snr. Silva interpreta assim a phrase:

Tudo isto via embranquecer á beira d'ella os proprios cabellos.

Quer dizer: áquelles homens, quando conversavam com aquella senhora, embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos.

Esta sandice faz-me compaixão. Se vejo outra assim, emigro.

Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de renome, aos olhos d'ella, tout a blanchi, «eram como se fossem velhos». Não lhe inquietavam o coração, não lhe perturbavam a serena indifferença, etc.

Adiante.

Referindo-se á insensibilidade d'esta dama, acrescenta Balzac: Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la. O author quer dizer: Certas mulheres galanteadoras tem artes de dissimularem os mesmos geitos; mas o snr. Pinto, subtrahindo o coquettes que dá o relevo ao confronto, diz espalmadamente:

Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano.

Chatissimo!

Balzac diz que Eugène de Rastignac... avait plus d'une fois regardé la marquise de manière à l'embarrasser.

Traducção do centauro:

Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraçal-a.

Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como é que os olhos embaraçam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos soez diria:

Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou perturbou. Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias subentendidas na phrase embaraçal-a.

Adiante.

Balzac diz que o personagem etait commodément assis, et avait les pieds plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelière.

O tal Pinto estraga d'esta arte:

Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os pés no brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim.

No traste forrado de pelles!

Chancelière,--uma palavra diluida em nove!

Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir capacho, ou ceirão de félpo, ou guarda-pés, ou pelliça, por analogia com os mantos forrados de pelles; mas... traste! Salvo seja!

E traduzir chenets para brazeiro!

Este brazeiro deu-lhe provisão para tolejar á larga, e afogar no tinteiro as palavras que não percebeu.

Logo em seguida, escreve Balzac:

Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons d'un garde-cendre, etc.

Querem vêr o que é uma traducção sovina?

Oh! conservar os pés junto ao brazeiro... E acabou-se.

Áquelles griphos embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo como o leitor e eu pelas legendas arabes da sé velha de Coimbra. Com a sua crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave sybaritismo do personagem que, refestellado na poltrona, recostava os pés no varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro. Percebeu elle que os fogões tem um receptaculo, que recebe a cinza, ao través de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre si o apoio dos pés? Não percebeu nada.

Senhores leitores do Balzac, segundo a Actualidade:

O homem que nos vai apresentar o author da Comedia humana, vestido de farrapos bordalengos, é esse que ahi fica... ás moscas, até ao numero seguinte.

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Agora, duas palavras graves.

O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este house-dog á porta da Actualidade. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala que ahi está exposta ás injurias de tanto biltre. Era meu proposito deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear phrenetico.

Logo, porém, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu á sombra, quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo, sacudil-o-hei á cara dos que o açulam, e fal-o-hei portador das minhas caricias aos que o alimentam, em conformidade com o proverbio: An hungry dog will eat dirty pudding.