OS 2 JOAQUINS
Um é o arranjador dos Musicos e de outras maravalhas.
Outro é Theophilo que tambem é Joaquim.
E tambem é Fernandes.
Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras.
Joaquim Fernandes era a parte chata do sujeito.
Desfez-se d'isto, poz-se ás cavalleiras do genio, e apregoou-se Theophilo Braga[8].
Aviso á posteridade:
Elle era Joaquim!
A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo.
Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados, ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos seus cachorros.
E que cachorros!
*
* *
Nem os sepulcros respeitam.
Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins.
A sepultura era de gigante que o leitor, se não o viu, ainda o vê na projecção da sua imagem pelas paginas do livro amado.
Chamára-se, n'esta vida, Almeida-Garrett;--e chama-se hoje a gloria imperecedoura de Portugal.
O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de Cesar, disse...
Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor de Helena, romance posthumo e incompleto do author de Fr. Luiz de Sousa:
«Acabava o anno de 1854; ás primeiras cerrações do outomno inclinára mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no coração os aggravos da doença que, dentro em pouco e para sempre, havia de apagar-lhe a luz dos olhos.
«Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus ás queridas producções do seu elegante espirito. Era então que a voz quasi infantil da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi então que, revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que não deviam sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mão propria, legava á posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que alumiára a patria.
«Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia esplendida, abraçada á cruz de Christo, abençoando a herdeira do seu nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu génio e todo o seu coração.»
Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras de C. G., genro de Garrett e editor de Helena:
«Elle escreve alludindo á morte de Garrett: «Era um sol no occaso revendo-se na luz immensa com que alumiava a patria.» E em seguida: «extinguiu-se aquella existencia esplendida abraçada á cruz de Christo...»
E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa:
«É de crêr que não haja aqui intenção maliciosa, mas desperta insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhães.»
É impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a observar um cão resêcco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe faminto a sangueira negra de um matadouro.
Até os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram á gargalhada!
Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram, estando Garrett na agonia da morte.
Garrett morreu entre dous amigos e duas irmãs da caridade.
Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhães, ao desembargador Northon, se o seu amigo proferira o gracejo tão celebrado.
--Não--respondeu elle--mal sabe a dôr que eu involuntariamente causei a Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe attribuiam.
*
* *
Agora, o outro Joaquim, o musicógrapho.
Escrevi em um livro estas linhas em fórma de carta a um amigo:
«Sabes tu o que eu queria roubar á gaveta de José Gomes Monteiro? As cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que se expandiam na alma e intelligencia de José Gomes Monteiro. Estas seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previsão de morte proxima, encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que legitima e jubilosa vaidade para o coração honrado e generoso de José Gomes Monteiro![9]»
E vai agora, o dos Musicos, péga de Garrett, adormecido, havia 19 annos, no sagrado somno dos mortos santificados por saudade, talento e veneração, e enxovalha-o d'esta arte:
«Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para brilhar como um vieux vert aos olhos das petites maítresses de ha 30 annos, não teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando com a sua vida airada a confirmação de que o genio immenso precisa da bohème para a sua inspiração, etc.[10]».
Alma e linguagem travam-se aqui de mão, e medem a sciencia e a educação do sujeito. Este snr. Joaquim usa gravata, e não me consta que passasse a infancia gandaiando nas escadas dos Congregados. Foi educado na Allemanha, por não caber (diz elle) nos focos de immundicie physica, moral e intellectual de dous ou tres collegios do Porto onde o haviam mettido[11]. Já vêem que o homem é limpo. Depois, veio á patria para se formar em Coimbra; e, como aquillo de Coimbra lhe cheirasse aos collegios do Porto, foi-se embora, e abriu, por sua conta, universidade de frandulagens no Porto, com succursaes em Allemanha, França, etc.
Não só é conhecido mas até soffregamente lido em Paris.
Elle mesmo nos conta esta cousa no livro onde estou esgaravatando:
«Voltamos serenamente aos nossos trabalhos sobre a Archeologia artistica para darmos a nova edição critica do Catalogo da livraria d'el-rei D. João IV que, como sabemos pelo nosso sabio amigo Mr. Ferdinand Denis, é esperada com impaciencia em Paris.»
Viram? com impaciencia.
Era em 1872, quando ainda o coração e o cerebro da França vibravam nas angustias do opprobrio nacional, da luta fratricida, da devastação, do petroleo, da ingente miseria das viuvas e dos orphãos. Pois, em meio de tanto horror, a unica esperança que, a intervallos, dava palpitações de gaudio a Paris era a impaciencia das turbas, com os olhos postos no occidente, á espera do livro do nosso, tão nosso, Joaquim! Cada vez que chegava á capital da França a mala de Portugal, as multidões acotovelavam-se frementes á porta do Mr. Ferdinand Denis, amigo do sobredito, e, ullulando insoffridas, pediam o Catalogo. O sabio francez linimentava com promessas o phrenesi da academia e dos institutos; as massas debandavam; e depois, recolhido ao seu gabinete, Mr. Denis pedia novamente o Catalogo ao lusitano Joaquim, pintando-lhe com termos não encarecidos a impaciencia dos seus.
Aqui está quem é o homem lá fora, e cá dentro.
Elle embirra com a maioria do publico portuguez; e justifica a birra n'estes termos:
«Porque lhe antepomos um ideal que elle não quer ter[12].»
Então? fazem favor de aceitar o ideal que lhe antepõe o snr. Joaquim? Elle não sabe a significação do verbo ante-pôr; mas imagine-se que quer dizer o que a palavra não diz; presuma-se que nos offerece um ideal, por um preço razoavel. Que duvida temos em haver ás mãos isso que o rapaz nos trouxe de Hamburgo, em vez de nos trazer dous costaes de queijos? Ha de haver muito quem antes quizesse, em vez do ideal anteposto, uma idéa de servir; mas, se Joaquim dá ideaes, peguem n'elles, antes que o homem os exporte, como cá fazem aos bois gordos que os nossos magarefes não aceitam pela taxa de Londres, posto que lh'os anteponham.
É o diabo este homem! Má mez p'ra elle!
Lá que o rapazola verbere os escriptores vivos que lhe não aceitam o ideal, é bem feito. De Mendes Leal, por exemplo, diz que é uma antigualha que só apparece nos leilões dos burguezes de ha 40 annos. De Castilho diz que lhe riscára o nome, depois que o outro Joaquim lhe applicou o processo. (Ai d'aquelles a quem o outro applica processos! Eheu!) De Herculano diz: «está decrepito». Todos estes e outros de menos porte são os relapsos do ideal de Joaquim; mas Garrett e Rebello da Silva? Um era já morto; o outro fallecia quando o enxovedo alvorejava n'este novo dia da sciencia patria. É crueza injurial-os, posto que Joaquim Theophilo Fernandes lhes haja applicado o processo.
Este Fernandes já processou o Herculano, e disse: «O snr. Alexandre Herculano nunca teve vocação litteraria[13].» E o Eurico? E a Abobada? E o Monge de Cistér? E o Bobo? e a Historia de Portugal? e a da Inquisição! e a Harpa do crente? Cuida o leitor que é mister vocação litteraria para escrever estas cousas? Não, senhor. Estes livros só os escreve quem a não tem. O snr. Herculano, se tivesse vocação litteraria, fazia umas botas.
Parte d'aquellas obras diz Fernandes que é glosa da Notre Dame de Victor Hugo.
Eurico é a variante do typo de Claudio Frollo;
O Monge de Cistér é variante da paixão de Esmeralda e de Phebus;
O Bobo é o desenvolvimento de Pierre Gringoire;
A Historia de Portugal é apenas a historia dos concelhos precedida da biographia dos reis.
Depois, escalpella-lhe a linguagem, e diz que o seu estylo só se admitte nos rapazes de escóla[14].
O leitor está em dizer que este Joaquim parvoeira tão fóra dos termos concedidos aos sandeus que a policia não deve ser estranha ao escandalo.
Mas, n'este comenos, apparece um tal Adolpho Coelho, e diz:
É Theophilo Braga evidentemente um dos homens mais notaveis que Portugal tem produzido n'este seculo[15].
--E quem é Adolpho Coelho?--pergunta o leitor.
Vem Theophilo, e responde:
É o introductor da sciencia da philologia comparada em Portugal[16].
Todos estes Joaquins é que sabem lá uns dos outros.
Juntam-se ás vezes e perguntam entre si:
Theophilo a Coelho: Quem és tu, ó aquelle?--Resposta: Eu sou o introductor da philologia comparada em Portugal.
Coelho a Theophilo: E tu?--Resposta: Sou um dos homens mais notaveis que Portugal tem produzido n'este seculo.
Joaquim dos Musicos a Joaquim dos Mosárabes: Quem sou eu?--Resposta: És o musicógrapho, e o inventor dos imperativos sejai e estejai.
O 2.º ao 1.º Joaquim: E eu?--Tu applicas processos, e eu risco os nomes.
Ó pandegos, ó lombrigas que roeis o intestino recto da Minerva! Ó Joaquins! Eu vos arrenego!
[8]No Diccionario bibliographico do snr. I. Francisco da Silva, é conhecido por Joaquim Theophilo Fernandes Braga. (Veja Supplemento).
[9] Esboços de apreciações litterarias.
[10] O consummado germanista, por Joaquim do Vasconcellos, pag. 50.
[11] Obra cit., pag. 2.
[12] Obra cit., pag. 9.
[13] Bibliographia critica, pag. 106.
[14] Obra cit., pag. 200 e 201.
[15] Obra cit., pag. 215.
[16] Obra cit., pag. 253.