EM QUE VEIAS GIRA O SANGUE DE CAMÕES?

Não é de mais saber-se isto, quando é moda esmiuçar tudo que entende com o maior poeta do seu seculo.

O livro mais extravagante que, a tal respeito, viu a luz, é a Historia de Camões pelo snr. doutor Theophilo Braga.

As incurias, as criancices, os desvarios que esfervilham n'essas 441 paginas não aparam a pontoada da critica. O livro faz tristeza... porque faz rir; e, por muito frouxo que seja o espirito de patriotismo no censor dos escriptores seus conterraneos, dóe ter de dizer: «o professor de litteratura fez córar a face dos discipulos.»

Os meus reparos n'este livro tocam sómente com o que ha n'elle relativo á familia de Luiz de Camões; mas, ahi mesmo, é deploravel a falta de siso do biographo.

A pag. 233 suppõe o snr. Theophilo que entre uns papeis que se perderam de Luiz de Camões houvesse cartas escriptas aos seus amigos mais valiosos intercedendo por seu pai que estava preso.

A pag. 243, no summario do capitulo VI, diz: A noticia do perdão de seu pai Simão Vaz de Camões. Temos ainda Camões com pai.

A pag. 259: Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Náos partidas no principio do anno de 1557 soube Camões... da sentença que condemnava Simão Vaz de Camões, seu pai, para o degredo perpetuo do Brazil com pregão e cadeado.

O leitor chega ao cabo do livro, persuadido que Camões tinha um pai, que por estouvamentos de rapaz devasso, ahi na volta dos 60 annos, mereceu ser condemnado a degredo com pregão e cadeado; mas, por acaso, volta a pagina das erratas, e vê que o biographo lhe pede que leia primo onde estiver pai. Parece uma anecdota isto!

Que razões motivaram esta correcção? Que raio de luz dardejou o bom senso na ultima pagina do livro? Pois o doutor, durante a formação do estirado livro, não teve um intervallo lucido? E, se o teve no fim, porque não queimou a obra desde a primeira pagina, embora se perdesse a Carta de Ayres Barbosa a André de Rezende?

Eis aqui o modo como o snr. Theophilo descobriu a final que Simão Vaz de Camões era primo e não era pai do poeta.

Quando o livro ia sahir do prelo, a humilde pessoa, que escreve estas linhas, publicava, no Diccionario de educação de Campagne, um breve artigo intitulado Camões, em que se lêem estes periodos:

«Os louvores ao prodigioso genio de Luiz de Camões são tantos, e tão amiudados no discurso de tres seculos que já hoje em dia o repetil-os, pelos mesmos conceitos e fórmas encomiasticas, nos parece banal encarecimento. Mais util e plausivel nos avulta o esforço de alguns biographos empenhados em esclarecer os lanços menos claros da biographia do poeta. N'esta ardua lide tem mostrado ardente zelo o snr. visconde de Juromenha, o mais particularisador noticiarista da vida de Luiz de Camões. Todavia, assentando boa parte de suas innovações em conjecturas, resulta que a louvavel vontade de esclarecer se demasie em hypotheses pouco menos de inverosimeis. Está em o numero d'estas a affirmativa de residir em Coimbra por 1556, o pai de Luiz de Camões, Simão Vaz. Este mesmo é na hypothese do biographo, um tal que o corregedor de Coimbra enviava preso a Lisboa, em 1563, por ter entrado em mosteiro de freiras, e vem a ser o mesmo que em 1576, juntamente com os seus criados, espancava o almotacé de Coimbra. Bastaria a despintar da phantasia do snr. visconde de Juromenha semelhante conjectura, a pobreza do filho, que recebeu 2$400 reis para se alistar na armada, em lugar d'outro, em quanto seu pai, com mais de cincoenta de idade, andava por Coimbra escalando conventos, e já com mais de setenta espancava as justiças, acaudilhando criados,--circumstancia indicativa de vida abastada, e orgulho de fidalgo com as posses que dão azas ao orgulho.

«De todo em todo aniquila a supposição de que o mexediço Simão Vaz de Camões haja sido pai do poeta, e marido da desvalida Anna de Macedo, uma nota do snr. doutor Ayres de Campos, sobposta ao traslado da provisão passada em 16 de maio de 1576, a respeito das injurias e offensas praticadas por Simão Vaz de Camões no almotacé. Eis a nota: «E para tambem não ficarmos culpados em passar por alto alguns outros documentos que com estes tem estreitas relações, aqui os apontamos desde já em quanto as suas integras não forem publicadas no supplemento. Assim elles vão prestar auxilio valioso, e não grande embaraço a todos os criticos illustres que, talvez fascinados por meras semelhanças de nomes e appellidos, não teem hesitado em attribuir ao turbulento cidadão conimbricense Simão Vaz de Camões, muito vivo e são em 1576, a honrosa paternidade legitima do author dos Lusiadas.» Cita mais o insigne antiquario a vereação da camara de Coimbra de 31 de julho de 1563 da qual se deprehende que Simão Vaz havia casado em 1562, e casára novamente. Ora, quer o novamente signifique segundas nupcias, quer primeiras, como alguem aventa, sem dar a razão do alvitre, é certo que esse não podia ser o pai de Luiz de Camões, que falleceu antes de sua mãi. (Veja Indices e Summarios dos Livros e Documentos mais antigos e importantes do Archivo da Camara Municipal de Coimbra. Coimbra, 1867, pag. 7).

«Temos presente a genealogia dos Camões, manuscripto de Jorge de Cabedo, fallecido em 1602 ou 1604, e pelo tanto contemporaneo de Luiz de Camões. (Veja Diccion. bibliog. de I. F. da Silva, tom. IV, pag. 161).

«Cabedo falla do bisavô do poeta João Vaz de Camões, que foi corregedor em Coimbra, e jaz em Santa Cruz.

«Segue Antão Vaz de Camões (filho d'aquelle e avô do poeta) que casou no Algarve com Guimar Vaz da Gama. Menciona Simão Vaz de Camões (filho de Antão Vaz e pai do poeta) que foi por capitão d'uma náo á India, e deu á costa á vista de Goa, salvou-se em uma taboa, e lá morreu, deixando viuva Anna de Macedo, dos Macedos de Santarem.

«Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, residente em Coimbra, parente proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca Rebello[1] filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com Domingos Roque Pereira[2]

O snr. Theophilo leu isto sem duvida alguma, e cedeu aos singelos argumentos do artigo do Diccionario.

Que faria o leitor, sendo (Deus o livre!) author do livro de Theophilo?

A não entregar a obra toda ao fogo purificador dos seus creditos litterarios, rasgava as paginas em que chamava pai a Simão Vaz, substituindo-as por outras em que lhe chamasse primo.

Diga-se verdade: o snr. Theophilo rasgou duas paginas do livro, a 59 e 60; mas devia inutilisar as seguintes em que subsistem os erros derivados da confusão dos dous homonymos Simão Vaz de Camões.

Escrevi no Diccionario, reportando-me impensadamente a um genealogico dos Camões: «Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, parente proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca Rebello, filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com Domingos Roque Pereira.»

Escreve o sr. Theophilo na regenerada pag. 59:

«Simão Vaz de Camões, que em 1562 casou em Coimbra com Francisca Rebello, filha de Alvaro Cardoso[3]

Convido o snr. Theophilo Braga a declarar onde leu a noticia de tal casamento! Com toda a certeza, a primeira pessoa, que imaginou vêr isto em letra de mão, e o pôz em escriptura, desde que ha letra redonda, fui eu.

Pesa-me do intimo seio que o snr. doutor T. Braga escorregasse na ladeira do meu engano. Já o snr. Felner lhe armou a esparrella da carta de Ayres Barbosa; e eu, mais innocentemente, fil-o casamenteiro de Simão Vaz com Francisca Rebello! É fado esquerdo do snr. Theophilo! Porém, o que tem graça infinita é o snr. doutor fixar o anno do casamento em 1562! Que eu o inventasse, vá; mas que o snr. Theophilo lhe marcasse o anno, é vontade de callaborar nas indiscrições alheias!

Isto não é simplesmente criancice párvoa--é desgraça; é mais que desgraça--é castigo da Providencia, porque o sr. Theophilo ladrou arrogantemente a Castilho, a Herculano, a Garrett, a Rebello, a Varnhagen; e não houve ainda detrahidor tão audaz, tão ignorante, e, sobre ignorante, ridiculo.

O meu lapso procedeu de confundir dous nomes confusamente escriptos em uma arvore genealogica. Simão Vaz de Camões, o libertino parente do poeta, casou com uma sua criada, e morreu sem descendentes. Esta é a verdade. Quem casou em Coimbra com Francisca Rebello, filha de Alvaro Rebello Cardoso, morgado das Caldas, foi Simão Vasconcellos, e não Simão Vaz.

Cá me fica pesando na consciencia o tempo e o papel que o snr. Theophilo desperdiçou. De ambas as cousas tenho escrupulo; menos da data do casamento; que essa é d'elle.

Mas, se o snr. Theophilo substituiu as duas paginas que eram a fonte do erro, porque não supprimiu as correntes que derivam d'essa fonte? Não viu que todas as referencias ás paginas substituidas ficavam incomprehensiveis? O sentimentalismo que enternece o pesar do poeta pela prisão do pai não póde subsistir racionalmente na prisão do primo! Que faz então o snr. Theophilo? Usa processos sobre maneira economicos:

ERRATA

Onde se lê pai, leia-se primo.

E está acabado.

Ninguem me dê definições d'este preceptor infeliz!

Contem-me esta passagem, que eu não preciso cenhecel-o de perto, nem lobrigar-lhe o feitio interior dos camarins do pensamento. É um cháos! Eu já não me admirarei se o snr. Theophilo, depois de esponjar alguns centos de livros, escrever uma Errata geral n'este sentido: onde se lê: Obras de Theophilo, leia-se: Manobras do mesmo.

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Se o leitor quer, vamos agora farejar sangue de Camões nas veias dos nossos contemporaneos. Não cuide, porém, que vai deliciar-se n'esta leitura. É materia árida, fructo das taes insomnias constantes do proemio do numero primeiro.

Vasco Pires de Camões veio de Castella no tempo de Fernando I. Foi alcaide-mór de Alemquer e Portalegre. Fugiu para Castella, quando o mestre de Aviz se levantou com o reino. Foi prisioneiro em Aljubarrota, perdeu os bens da corôa; mas cá ficou.

Gonçalo Vaz, seu primogenito, instituiu um morgado em Evora, chamado da Camoeira. Não temos que vêr com os outros filhos, cujos descendentes ou foram pobres, ou identificaram os seus haveres nos morgadios do primeiro ramo, á falta de geração.

Succedeu-lhe Antonio Vaz, pai de Lopo Vaz de Camões, cujo primogenito, tambem Antonio Vaz, teve um filho, que outro sim se chamou Lopo, e fez um morgado em Aviz.

D'este ultimo gerou-se D. Anna de Castro, que foi casar a Guimarães com Diogo Lopes de Carvalho, quarto senhor dos coutos de Abbadim e Negrellos no tempo de Philippe II.

Luiz Lopes de Carvalho, 5.º senhor dos coutos, foi assassinado em Guimarães.

Gonçalo Lopes de Carvalho Camões e Castro Madureira, bisneto de Lopo Vaz de Camões, succedeu nos morgados da Camoeira da Torre de Almadafe no termo de Aviz, e da Gesteira no termo de Evora, ambos creados por Gonçalo Vaz de Camões e Duarte de Camões, ultimo representante da varonia, que morreu sem geração, e por isso os vinculos passaram aos descendentes femininos de Lopo Vaz de Camões, que eram os senhores de Abbadim e Negrellos. Existia esta posse em 1692[4].

Thadeu Luiz Lopes de Carvalho, filho de Gonçalo Lopes, casou, depois do anno 1718, em Lisboa, com D. Brites Thereza de Menezes, que morreu muito nova. Celebrou segundas nupcias com D. Francisca Rosa de Menezes e Mendonça, filha de D. Francisco Furtado de Mendonça.

Tiveram filhos varões, que morreram na infancia, e tres filhas que casaram: D. Marianna Luiza Ignacia, com Caetano Balthazar de Sousa de Carvalho, alcaide-mór de Villa Pouca de Aguiar; D. Anna Joaquina, com Gonçalo Barba Alardo Corrêa, em 1751; D. Guiomar Marianna Anacleta de Carvalho Fonseca Camões e Menezes, herdeira, com D. Antonio de Lencastre, governador de Angola--(1772-1179), filho segundo de D. Rodrigo de Lencastre.

Nasceram, entre outros fallecidos na infancia, um filho, que se chamou D. Rodrigo de Lencastre Carvalho Fonseca e Camões, e uma senhora, D. Francisca Rosa de Lencastre, que casou com seu primo Lourenço de Almada, 1.º visconde de Villa Nova de Souto de El-Rei.

D. Rodrigo, herdeiro dos morgadios e senhorios de Negrellos, Abbadim, etc., e sargento-mór do regimento de cavallaria do principe D. João em 1791, casou com D. Maria do Carmo Henriques, filha herdeira de João Henriques, do Bombarral.

No morgado da Camoeira succedeu o 2.º visconde de Souto de El-Rei pelo seu casamento com D. Francisca Felizarda de Lencastre, filha de D. Guiomar de Camões, senhora de Abbadim e Negrellos. Uma filha d'estes viscondes, D. Guiomar, casou com Gonçalo da Silva Alcoforado.

Está, por tanto, o sangue dos Camões em todos os descendentes da mulher do 1.º visconde de Souto de El-Rei. O terceiro ainda se assignou com o appellido Camões. Está igualmente na familia Alcoforado da casa da Silva, na familia da casa de Villa Pouca de Guimarães; nos descendentes de José Bruno de Cabedo, 1.º barão do Zambujal, por linha feminina, pois sua mãi era neta de D. Guiomar de Carvalho Camões e Fonseca; na casa da Pousada em Braga, representada ha quarenta annos por Francisco Xavier Alpoim da Silva e Castro, terceiro neto de Thadeu Camões, senhor de Abbadim.

Em quasi analogo parentesco estão os snrs. Leites de Paço de Sousa, e os snrs. Pachecos Pereiras de Villar, ou de Belmonte.

Não prolongarei esta resenha que de certo, hoje em dia, se ramifica tão copiosamente quanto cumpre imaginar das faculdades reproductoras das pessoas que representam aquelles illustres appellidos.

Falta dizer que Luiz de Camões deixou um filho que não se reproduz, e é immortal: chama-se Lusiadas.

[1] Adiante se verá que fui inexacto n'esta noticia.

[2] Este Simão Vaz de Camões era filho de Duarte de Camões de Tavora, filho de outro Simão Vaz de Camões, senhor do morgado da Torre. Casou Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tavares e Sousa, de quem houve, além de Simão Vaz de Camões, Luiz Gonçalves de Camões, e D. Maria da Camara, que casou com Francisco de Faria Severim. Quanto ao Simão que viveu em Coimbra, diz o linhagista que se casára á sua vontade, como quem desfaz na estirpe da esposa.

[3] A pag. 417 amplia o traslado do meu artigo, escrevendo: a qual casou depois em segundas nupcias com Domingos Roque Pereira.

[4] Veja Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 361.