FEITIÇOS DA GUITARRA
Cuidará talvez muita gente, aliás instruida na historia da musica e seus effeitos, que a influencia da guitarra nos paços reaes é cousa moderna e peculiar da côrte portugueza. Não, senhores. O exemplo deu-o a Hespanha no fim do seculo passado, e a historia do mais afortunado guitarrista d'este planeta extravagante em que moramos, vou contal-a eu.
Na volta do anno 1786, D. Gabriel Alvares de Faria, arcediago da sé de Badajoz, tinha dous sobrinhos, Luiz e Manoel. O arcediago, que blazonava descender dos Farias, alcaides-móres de Palmella, em Portugal, timbrava de muito fidalgo; mas declarava aos sobrinhos que fossem ganhar sua vida, porque a pitança da conezia não dava para tres.
Os dous rapazes, que tangiam guitarra a primor, e cantavam seguidilhas de sua invenção, fizeram-se no rumo de Madrid, á cata de aventuras. O estalajadeiro, que lhes deu a credito o primeiro mez de hospedagem, folgava tanto de ouvir as tonadilhas de D. Manoel, que não quiz outra paga durante um anno.
Conseguiram os dous rapazes entrar na guarda de corpus. Luiz, mediante a guitarra, insinuou-se no affecto de uma açafata da princeza Luiza de Parma, esposa do principe que depois foi Carlos IV; e, quando a dama ensandecia de amor ao seu menestrel, lhe disse elle que, se o seu cantar e tanger a transportavam, que seria se ouvisse seu irmão D. Manoel!
Contou isto a dama á princeza. Sua alteza era folgazã. Quiz ouvir o guitarrista. Ouviu-o, admirou-o, amou-o, e--o que muito é--convenceu o marido a gostar das trovas de a Tyrana acompanhadas d'um harpejo triste, que não ha ahi cousa que mais diga.
O principe não era escorreito.
Menos incauto era Carlos III, que mandou sahir de Madrid o guitarrista, logo que deu tento dos effeitos cupidineos dos bordões e prima, na pessoa da nora.
Mas assim que o rei morreu, D. Manoel voltou a Madrid, foi restituido ao palacio, á alcova real, e nomeado successivamente sargento-mór da guarda, ajudante-general, grã-cruz de Carlos III, intendente dos correios, cavalleiro do tosão, duque de Alcudia, primeiro ministro, principe da paz, grande de Hespanha de primeira classe, com dotação territorial de 50:000 piastras de rendimento, e general supremo dos exercitos (em 1800) com o tractamento de alteza serenissima (1807).
Em 1797 casára com D. Maria Thereza de Bourbon, filha natural do infante D. Luiz, irmão d'el-rei Carlos III. A rainha conviera n'este consorcio, já porque a noiva era abominavel de feia, já porque tinha zelos infernaes de Josefa Tudo, formosissima mulher com quem o seu valido casára clandestinamente, intitulando-a depois condessa de Castello-Fiel.
D. Manoel de Godoy, que assim tocára o galarim das grandezas humanas, desceu tão rapido quanto subira.
Conjuraram contra elle influencias internas e externas.
Os hespanhoes, obrigados a guerrear a Inglaterra, odiavam o amigo da França. Este odio exasperou-se depois do desastre de Trafalgar, onde acabou para sempre o poder naval de Hespanha. Á frente dos adversarios do principe da paz sahiu o principe das Asturias, chamado depois Fernando VII.
Seguiram-se evoluções politicas, em que o heroe a resvalar ao ponto d'onde subira, se voltou contra a França, de accordo com Portugal. Em 1808 preparava-se para fugir com a familia real, quando rebentou no Aranjuez a revolução em que sua alteza serenissima se escondeu em uma talha, e não foi estrangulado pelo povo a pedido do rei e da rainha.
Ainda depois d'esta crise, o duque de Alcudia voltou a dominar o animo dos reis de Hespanha, e a rehaver a confiança de Napoleão; mas a final o baque foi irreparavel. Passou a França, e depois a Roma, onde o papa o intitulou principe de Passerano.
Em Hespanha, confiscaram-lhe os bens. A esposa, de quem elle se divorciára amigavelmente, vivia pobre em Paris, intilulando-se duqueza de Chinchon, e lá morreu em 1828. O viuvo declarou então que já era casado com Josefa Tudo. A unica filha de D. Manoel Godoy casou em 1820 com o principe romano Raspoli.
Até 1844, o principe da paz viveu em Paris tão convisinho da indigencia que Deus sabe se elle teve tentações de tanger a guitarra da sua juventude á porta dos amadores do genero. Depois de 36 annos de exilio, obteve licença de entrar em Hespanha, e readquiriu parte dos bens, que lhe permittiram dez annos de vida relativamente abastada.
Morreu, por 1851, em Paris, com 84 annos de idade.
Os biographos d'este homem extraordinario ignoram todos que elle era, em Portugal, conde de Evora-Monte por carta de 2 de outubro de 1797.
Tambem desconhecem que o alvará de mercê o faz primo de D. Maria I, e descendente de D. Pedro I e de D. Ignez de Castro, por ser quarto neto de Francisco de Faria, alcaide-mór de Palmella: descendencia a mais imaginosa que ainda vimos amanhar-se em cabeças de nobiliaristas.
Ahi vai o alvará que é documento não despeciendo:
«D. Maria, etc. Faço saber aos que esta minha carta virem que attendendo á mui antiga, e esclarecida nobreza, qualidades, e distinctos merecimentos de D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches Sarçosa, principe da paz, duque de Alcudia, grande de Hespanha de primeira classe, meu primo, e aos grandes serviços, que a estes reinos fizeram seus maiores antes e depois da fundação da monarchia com repetidas, e assignaladas acções, que os fizeram benemeritos da augusta consideração, e real munificencia dos senhores reis meus predecessores: tendo entendido ser o dito D. Manoel quarto neto de Francisco de Faria, alcaide-mór, e commendador de Palmella, por ser o filho segundo de Diogo Rodrigues de Faria, que passou a Hespanha d'um modo inculpavel, e de quem D. Manoel é terceiro neto: para dilatar com a maior distincção a memoria d'uma tão distincta familia, a qual pela mesma linha de Francisco de Faria é descendente do snr. rei D. Pedro I, e de D. Ignez de Castro, de quem descende a maior parte dos soberanos da Europa; tendo muito segura confiança nos sentimentos verdadeiros, e honrados de D. Manoel, hereditarios na sua familia, que tem lealmente exercitado em beneficio de meus reinos; conformando-me com os augustos, e cordiaes desejos de suas magestades catholicas, esperando, que assim os continue: hei por bem, com aprazimento dos mesmos reis catholicos, pelos ditos respeitos, e por honrar em D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches Sarçosa, a familia de Faria, de que descende, fazer-lhe a mercê do titulo de conde de Evora-Monte, com o senhorio para elle e seus descendentes, que houver na sua casa dispensando na lei mental, e quero e mando, que elle D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches Sarçosa se chame conde de Evora-Monte, e com o dito titulo goze de todas as honras, graças, liberdades, preeminencias, prerogativas, authoridades, e franquezas, que hão, e tem, e de que usam, e sempre usarão os condes d'estes reinos, assim como por direito, uso, e antigo costume lhe pertencem, das quaes em tudo, e por tudo quero, e mando que elle use, e possa usar por direito, uso, e costume sem minguamento, ou duvida alguma, que a isso lhe seja posta, porque assim é minha vontade, e com o referido titulo de conde de Evora-Monte haverá o assentamento que lhe pertencer, de que se lhe passará alvará na fórma costumada, e por firmeza de tudo lhe mandei dar esta carta por mim assignada, e sellada com o sello pendente de minhas armas, e passada pela chancellaria: e hei por bem que d'esta mercê se não paguem direitos alguns velhos, e novos, não obstante os regimentos, e quaesquer disposições contrarias. Dada no palacio de Queluz em 2 dias do mez de outubro do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1797.--O principe com guarda.==José de Seabra da Silva.==Joaquim Guilherme da Costa Posser, a fez.»
Respeito a Farias, houve um, em tempo d'el-rei D. Fernando. O leitor conhece da historia e do romance o celebrado alcaide do castello de Faria, chamado Nuno Gonçalves, que os castelhanos mataram, quando elle, na barbacã da fortaleza, ameaçou de maldição o filho, se a entregasse para salvar seu pai. O snr. Herculano refere este caso com primoroso enthusiasmo.
O filho chamava-se Gonçalo Annes, que se fez clerigo por desgosto de vêr alli trespassado o pai debaixo de seus olhos; a paixão, porém, não lhe impedia reproduzir-se em tres meninos, de quem foi mãi Aldonsa Vasquez.
Do mais velho, que se chamou Nuno Gonçalves de Faria, conhece-se a descendencia. Esse Diogo que no alvará se diz ter passado a Castella, nem era filho de Francisco de Faria, nem passou a Castella: era filho do valido de D. João II, Antão de Faria, e casou com D. Maria de Goes, filha de Simão de Goes Machado.
No lapso de quatro seculos, a varonia do alcaide de Faria--a que eu considero mais respeitavel, mais poetica, mais desculpavel aos fanaticos d'estes archaismos--é a que se tiver conservado na posse das penedias contiguas do esboroado castello, cuja alcaidaria foi do heroico Nuno Gonçalves. O possuidor, ha trinta annos, d'essas ruinas, era João de Faria Machado Pinto Roby. Vendeu as ruinas a um brazileiro.
No mesmo anno em que morreu em Paris sua alteza serenissima o principe da paz, seu parente, morria elle em Lisboa. A providencia divina fez-lhe a mercê de o resgatar assim de um grande supplicio: elle sahia de noite, e pedia esmola aos que passavam. Tinha sido redactor do Nacional de Lisboa, e official de cavallaria muito valente.
Deixou um filho chamado Isidoro de Faria Machado que se suicidou ha dous annos em Lisboa.
Uma de suas filhas é hoje viuva do visconde da Carreira, Luiz. As outras não sei que destino tiveram.
Toda esta noite se me foi de insomnia, a vêr sempre, na penumbra da lamparina, um homem que em Lisboa, ha 24 annos, me dizia com a face coberta de lagrimas:
--Procurei tres amigos que me foram hospedes em meus lautos jantares, quando eu aqui dissipava o meu ouro e a minha intelligencia no serviço da politica. Apenas um se lembra de me conhecer em 1838; mas este é pobre; os outros não se recordam... Sabe qual é a minha esperança?
--A queda dos Cabraes?
--Não: uma congestão cerebral.
Bella e bem realisada esperança!
O representante de Nuno Gonçalves de Faria foi levado morto á sua familia no largo dos Cardeas de Jesus, por uma noite fria e chuvosa, quando as carruagens, que se recruzavam para bailes e theatros, o aspergiam da chuva dos tejadilhos e da lama das rodas.