CARIDADE BARATA E ELEGANTE

O advogado Sampaio Efrin morreu, ha cinco annos, em Lisboa, e deixou dous filhos illegitimos, que já não tinham mãi.

Amára-os extremadamente. As duas crianças excruciaram-lhe a agonia; mas expirára com a certeza de que seus filhos, e herdeiros de parte de seus haveres, não balbuciariam, em horas de fome, o nome de seu pai.

Mas a justiça desherdou os orphãos, e deu o espolio do advogado á sua viuva.

O menino alimentou-se cinco annos da caridade de uma criada de seu pai.

E, quando tinha seis, appareceu livido e pobremente vestido a pedir esmola no tribunal da Boa-Hora--alli, onde seu pai triumphára nas lides da eloquencia.

A bemfeitora que, até áquelle dia lhe repartira do seu pão, quando sentia a mão da morte sobre o seio, disse á criança que fosse ao tribunal e mendigasse, lembrando-se que alli concorriam pessoas que tinham conhecido seu pai.

O snr. João Bernardino da Silva Borges viu o menino andrajoso, a tiritar, com o espasmo da fome nos olhos--aquelle olhar espavorido da miseria--que parece sagrada nas criancinhas--aquelle olhar torvo, expressão de assombro do anjo a tremer sobre o cairel d'este inferno do mundo.

O menino tinha uma carta na mão. O snr. Silva Borges leu a carta. Era a supplica da moribunda a favor do desvalido filho de seu amo.

E conduziu a criança, onde lhe dessem a esmola do jantar e da cama.

Ao outro dia, o Jornal da Noite, publicando uma carta commovente do protector do orphão, acompanhava a invocação á caridade de sentidas e pungentes palavras.

E, no dia immediato, o mesmo jornal exultava noticiando que o orphãosinho estava amparado, no regaço da caridade abundante, nos braços de alguem que ouvira o echo das divinas palavras de Jesus: «Deixai que as criancinhas se aconcheguem de mim.»

Volvidas duas semanas, á volta do menino, a caridade faz-se representar por nove senhoras illustres, quanto cabe inferir dos appellidos.

Nove anjos, as nove musas da inspiração santissima, nove corações a desbordar de generosidade, dezoito mãos cheias de caricias e do superfluo da sua riqueza, para afagar, alimentar e educar um menino a quem esta setima primavera bafeja os primeiros risos de sua enfezadinha puericia. É muito!

Mas estas nove damas assumem cada qual sua nomenclatura:

Uma, chama-se presidenta;

Outra, vice-presidenta

Quatro, são vogaes;

Uma, é thesoureira;

E as outras, são secretarias.

Mas que tem isto que vêr com o orphão? O congresso das senhoras, assim qualificadas em categorias de banco, de junta de parochia, de empresa aurificia, de companhia das aguas, organisou-se d'este feitio para dar uma pensão de 300 reis diarios--o bastante--ao pequenino no collegio?

Quer-me parecer dispensavel tamanho funccionalismo em operações tão singelas! São nove senhoras abastadas que se fintam, quotisando-se cada uma em 33 reis por dia, ou dez tostões por mez. É, na verdade, barato o salvar-se um menino e fazel-o homem! Seis ou oito annos do pão e estudo d'aquella creatura--que ss. exc.as hão de enfiar com santa vaidade diante da sepultura de seu pai--não póde custar a cada uma tanto como dous dos seus vestidos medianamente guarnecidos.

Então, qual vem a ser a missão das exc.mas presidenta, vice, vogaes, thesoureira, secretarias?

Leitor, que estás a impar de ternura, e tens o rosto banhado de lagrimas de consolação, saberás que as referidas nove senhoras--que tu já conheces dos lautos bailes, e das toilettes esplendidas--congregaram-se agora para promover um beneficio ao orphão no theatro de D. Maria.

Ahi está o que é. Ainda agora é que estas dadivosas senhoras vão sondar a magnanimidade publica; vão dar uns toques de elegante apparato á caridade, e ao mesmo tempo convidar-vos a pôr hombros áquella ponderosa empresa de agasalhar uma criancinha que se alimenta com um pouco de amor e algumas migalhas sacudidas das cêas opiparas. A caridade de Lisboa! A caridade do espalhafato! Aqui, no Porto, o orphão, a esta hora, estaria agasalhado, sem que a imprensa conhecesse o nome do bemfeitor.

E a imprensa de Lisboa exalça encarecidamente a exuberante bizarria das senhoras que promovem nos corações alheios o sentimento da esmola. Peço licença para tambem me accender em admiração de tamanho arrojo, e perguntar, por esta occasião, aos jornalistas se, no seu cadoz de phrases, ficou alguma com que se louve aquella criada pobresinha que sustentou o menino cinco annos, e o largou do seu seio quando o coração se lhe afogou nas ultimas lagrimas.