O DECEPADO
Duarte de Almeida, o alferes de Affonso V, conheço-o desde a minha infancia, por m'o apresentar em verso o meu finado amigo Ignacio Pizarro.
Chorei por Duarte de Almeida, como se elle fosse meu avô, quando o infeliz, na volta de Toro, onde os castelhanos lhe deceparam as mãos, se lastimava assim pela bocca do poeta do Romanceiro portuguez:
Nem a espada, nem a lança
Posso nas mãos empunhar!...
Ai de mim! triste lembrança!...
Nem bandeira tremolar!...
Nem bordão de peregrino
Póde meu corpo arrimar!
Nem o meu pranto contino
Tenho mãos para limpar!...
Luiza! já me esqueceste?...
Talvez tu ora suspires
Por outro... se tal fizeste...
Coração! ah! não delires...
Morto já, tu me julgaste,
E se agora assim me viras,
D'aquelle a quem tanto amaste
Talvez agora fugiras.
Talvez nobre cavalleiro
Póde alcançar tua mão...
Queira o céo morra eu primeiro,
Não saiba a tua traição.
Que eu antes quero da morte
Ter gelado o coração,
Do que vir amor tão forte
Ter em premio a ingratidão.
Com estas e outras piedosas queixas ia o namorado alferes caminho do castello de Aguiar, onde vivia a castellã Luiza.
O leitor já me está dizendo que sabe o entrecho do romance de Pizarro: que a donosa castellã, julgando morto o seu amado, lhe fizera cantar os responsos em sumptuosos funeraes: que o cavalleiro, a deshoras, se annunciára na barbacã do castello; e, admittido á capella, encontrou Luiza a vestir o habito de monja: que o decepado, apertando-a ao peito, lhe fez vêr que estava vivo, e que ella, allegando o voto que fizera de professar, cahiu de encontro á eça, e morreu.
Termina o trovador:
Seu amante desditoso,
Mais desgraçado, viveu;
Mas o seu fim lastimoso
Nunca ninguem conheceu.
Bastantes annos--e que ditosos annos!--andei enganado pelo meu amigo Pizarro. Fui tres vezes ao castello do Pontido. Creio que já disse, não me lembra aonde, que encontrei entre as urzes da matta subjacente ao castello um espigão de espora sem rosêta, e suspeitei que ella houvesse sido do infausto amador da castellã. Figurou-se-me, ao cahir da noite, vêl-a no gothico balcão, voltada para os serros fronteiros, suspirar no alaude:
Adeus, serra do Mizio!
Adeus, val de Villa Pouca!
Adeus, castello sombrio!
Minha voz ouvi já rouca!
Estas impressões da primeira mocidade revivem quando a razão as impugna ao sentimento. De envolta com as minhas indagações historicas na triste sorte da princeza D. Joanna, chamada a excellente senhora, o vulto que mais me preoccupava era o alferes da bandeira, Duarte de Almeida, o heroe, o amante da castellã, o decepado cujo
..........fim lastimoso
Nunca ninguem conheceu.
Quanto ao seu fim, citava Pizarro um trecho de Duarte Nunes de Leão (Chronica de Affonso V) muitissimo desconsolador. Alli se diz que o bravo, depois de tamanha proeza, vivera mais pobre que d'antes. Este opprobrio nacional confirma-o modernamente o snr. Pinheiro Chagas, com estas phrases austeras: «O cavalleiro heroico sobreviveu ás suas feridas, e voltou a Portugal onde foi sempre conhecido pelo glorioso nome do Decepado. Mas, ó vergonha! o homem que assim tão briosamente se portára, morreu na miseria, porque nenhuma recompensa lhe foi dada, e porque nem se quer podia ganhar a vida pelo seu trabalho, logo que o haviam impossibilitado de trabalhar as suas tristes mutilações[5].»
Por honra da patria e da humanidade, apresso-me a declarar que é menos exacto o que Duarte Nunes diz e o snr. Pinheiro Chagas encarece. Logo me justificarei com documentos.
Pelo que respeita ao romance de Pizarro, tão sómente dous elementos de verdade historica podemos aceitar-lhe: a existencia do alferes e a do castello de Aguiar. E o certo é que ao meu intelligente amigo não corria o dever de maiores exactidões.
Primeiramente direi do castello.
Lá está, e já lá estava assim, pouco mais ou menos, antes da fundação da monarchia portugueza. Quem o possuia ou governava, no tempo em que D. Affonso Henriques pleiteava nos arraiaes com sua mãi e com o imperador D. Affonso, era o rico-homem D. Gonçalo de Sousa, genro de Egas Moniz, e senhor da terra de Sousa. Traslada no tom. III da Monarchia Lusitana (pag. 112), fr. Antonio Brandão da Vida de Santa Senhorinha, codice áquelle tempo inedito, uma passagem que faz ao nosso intento[6].
Reza assim, melhorado na orthographia:
«Digo-vos que estando folgando em sua terra um principe nobre e cavalleiro d'este reino, o qual era mui privado d'el-rei D. Affonso, e havia nome D. Gonçalo de Sousa, mui poderoso, e todo conselho d'el-rei estava em elle; estando, como disse, folgando, chegaram a elle mensageiros dizendo que os inimigos lhe corriam a terra, e que lhe tinham cercado o castello d'Aguiar; o qual logo chamou suas gentes que pôde haver, e foi-se para haver de descercar o dito castello. E chegando aonde jaz o corpo d'esta santa lhe fez reverencia, e oração não lhe lembrou; e indo ainda em vista da igreja metade de um campo, esteve pegada a mula, em que ia o cavalleiro, a qual elle com esporas e pancadas não podia abalar, mas antes a mula quedava mais rija e pero se desceu d'ella e a não podia abalar; e, vendo elle isto, lembrou-lhe como passára pela igreja da santa sem lhe pedir benção, e mercê, e sem fazer oração, e por isso lhe detinha a mula; e, soffreando a mula para traz para se tornar á igreja, a mula logo tornou, e o cavalleiro fez sua oração encommendando-se á santa, e des i fez seu caminho, e com suas companhas descercou seu castello, e correu depois os inimigos, e tornou a sua casa com victoria, etc.»
O chronista Brandão, por mal informado, escreve que o castello de Aguiar da Pena se avista com as montanhas de Barroso. Estas montanhas distam seis leguas do castello, e entre ellas e o valle em que negreja a fortaleza gothica estão os cabeços da serra de Alfarella, e no horisonte mais elevado alveja villa Pouca de Aguiar. Acrescenta que o castello «é crespo de torres, baluartes e cubellos, e está fundado sobre a corôa de uma penha talhada de uma parte por natureza, que parece obra feita á mão,» etc.
Póde ser que no seculo XVII, quando Brandão escrevia, permanecessem ainda as torres e baluartes. O que ha vinte annos parecia ter robustez para seculos eram quatro alterosas quadrellas de alvenaria ameiadas com seus adarves, bastiões, e janellas gothicas sem lavores.
Recordo-me ter lido na Nova historia de Malta de José Anastacio de Figueiredo que o castello no seculo XIII pertencia á ordem hospitalaria de S. João de Jerusalem, e cita um aviso que obriga os lavradores circumvisinhos a carregarem pedra para reparos.
E não sei mais nada quanto ao solar da phantastica Luiza.
Agora vamos em cata do Decepado, depois que voltou de Castella. Encontramol-o na sua casa acastellada no seculo XII, que teve o nome de castello de Villarigas, no couto do Banho, hoje concelho de S. Pedro do Sul.
É elle o herdeiro de seu pai Pedro Lourenço de Almeida. Afóra aquelle castello, tem outro na quinta chamada da Cavallaria, honrada por el-rei D. Fernando em 1419, e onde os linhagistas enraizam o tronco dos Almeidas.
Quando alli chegou, esperavam-o a esposa e dous filhos.
A esposa chamava-se D. Maria de Azevedo, filha do senhor da Louzã Rodrigo Affonso Valente e de D. Leonor d'Azevedo, que herdára grandes haveres de sua tia D. Ignez Gomes de Avellar.
Os filhos do Decepado chamaram-se Affonso Lopes, e Ruy Lopes de Almeida. Affonso, o successor das honras e coutos de Villarigas e Cavallaria, casou com D. Leonor Vaz Castello Branco, filha de João Vaz Cardoso, aio do conde de Barcellos.
O filho segundo, Ruy, foi para Castella, como veador da princeza D. Joanna, filha de D. Duarte, e mulher de Henrique IV.
Esta geração de fidalgos continuou honrada e rica até á duodecima neta de Duarte de Almeida, a snr.ª D. Eugenia de Almeida de Aguilar Monroy da Gama Mello Azambuja e Menezes que em 15 de setembro de 1834 casou com o snr. Fernando Telles da Silva, marquez de Penalva, de quem teve dous filhos, Luiz, que, nascendo em 1837, morreu ha poucos annos, e D. Henriqueta de Almeida, que nasceu em 1838, e vive solteira. Do snr. Luiz Telles, que foi casado com a snr.ª D. Maria Francisca Brandão, sua prima, existe uma filha, que é já senhora.
Quanto á pobreza e miseria em que morreu Duarte de Almeida, o snr. Pinheiro Chagas foi illudido por Duarte Nunes e Faria e Sousa, que na verdade o authorisaram a deplorar tão sentidamente a sorte do alferes de Affonso V.
Duarte de Almeida succedera a D. Duarte de Menezes no posto nobilissimo de alferes-mór da bandeira. Militando nas guerras de Africa, salvou o pendão real das presas da mourisma, quando Affonso V deu batalha na serra de Benacofuf. (Faria e Sousa, Africa, cap. 6, §. 7.º)
E tanto o rei não foi ingrato aos serviços do seu valente alferes, que, estando em Samora, em 1475, no anno anterior ao da batalha de Toro, ainda antes do heroico feito, lhe fez mercê pelos seus grandes serviços, para elle e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões, cuja carta de mercê póde lêr-se na Torre do Tombo no Livro que serviu na chancellaria de D. Affonso V, folha 17, e começa: A quantos esta minha carta virem faço saber que pelos muitos serviços que Duarte de Almeida, fidalgo de minha casa, e meu alferes-mór me tem feito assim n'estes reinos de Castella como de Portugal e em Africa, onde sempre me serviu muito bem e lealmente, etc.
O rei, que tanto o apreciára e galardoára, sabido é que foi para França solicitar debalde a alliança do velhaco de Luiz XI. Voltou a Portugal, onde viveu ainda cinco tristissimos annos, forçado a divorciar-se da esposa, desestimado do filho, e desvenerado dos vassallos. Não era, pois, tempo proprio aquelle para premiar heroismos batalha, cuja perda dissimulada em victoria, enlutára o brio e o coração de Affonso V.
O decepado, por sua parte, lá tragava o fel dos seus derradeiros annos na abastança dos bens que, certo, lhe não mitigavam as angustias da mutilação; mas em pobreza e miseria não consintamos sequer á poesia que nol-o figure.
Se D. João II não augmentou em coutos, honras e senhorios a casa do alferes de seu pai, não o arguamos por isso, sem haver a certeza de que Duarte de Almeida sobrevivesse ao Africano. Na batalha do Toro já devia ir no inverno da vida quem vinte annos antes desfraldára o pendão real em Alcacer-Ceguer, e quem já tinha um filho, que acompanhára como veador a Castella a mãi da princeza D. Joanna por amor de quem andava accesa a guerra. Afóra isso, é de crêr que Duarte de Almeida assistisse ao desastre de Alfarrobeira em 1449, e não fosse dos menos carniceiros na mortandade do duque de Coimbra e dos seus leaes amigos. Ora, transluz da historia que D. João II odiára todos os fidalgos que, de parçaria com o duque de Bragança, malsinaram de traidor o infante D. Pedro. Ajuda estas suspeitas ser o primogenito de Duarte de Almeida casado com a filha de um que fôra aio do conde da Barcellos, antes de ser duque de Bragança.
Já, porém, o successor de D. João II galardoou o neto do decepado, dando-lhe o senhorio da villa do Banho, a provedoria das caldas de Lafões, e lhe confirmou o privilegio e couto da quinta da Cavallaria.
Em remate de tão derramadas provas, quero deixar bem assente que Duarte de Almeida, o meu tão chorado heroe do sentimentalismo da infancia, não morreu pobre, nem acabou na miseria do homem que, á mingua de mãos, não póde trabalhar.
Por fim, não sahirei do paço senhorial da Cavallaria sem consolar o leitor pio e mais lido em cousas do céo que em nobiliarios, que n'aquella casa nasceu o bemaventurado S. frei Gil, chamado de Santarem, e que Almeida Garrett ajoujou com o dr. Fausto no poema D. Branca e nas Viagens.
Ainda hoje, n'aquella casa, perdura uma capella edificada na alcova onde nasceu o sabio feiticeiro e pactuario do demonio. Observe-se que o conde D. Pedro, no Livro das Linhagens, tit. 25, pag. 151, diz que Gil fôra assassinado por Pedro Soares Galinato; mas o chronista-mór João Baptista Lavanha desfaz o erro,--o que eu muito estimo para que se não desluza a substancia da bella prosa de fr. Luiz de Sousa, historiador do santo.
[5] Historia de Portugal, tom. III, pag. 28.
[6] O codice está integralmente impresso nas Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 444-476. Sirvo-me d'esta copia, corrigindo os erros do traslado de Brandão.