OS SALÕES
CAPITULO II
PLEBISCITUM
Homem plebeu. Homo plebeius. Nos antigos romanos havia tres ordens. A ordem senatoria, equestre e plebea. A ordem plebea val o mesmo que a gente do povo.
Plebiscitum. Termo da antiga jurisprudencia romana. Deriva-se do latim: plebs, plebe, e sciscere, que val o mesmo que assentar, ordenar, determinar. E assim plebiscito era o decreto, ou lei posta pelo povo, sem o suffragio dos senadores, mas só ao pedir do tribuno, magistrado do povo. Plebiscitum.
D. RAPHAEL BLUTEAU.
La conscience peut être géante, cela fait Socrate et Jésus: elle peut être naine, cela fait Atrée et Judas.
La conscience petite est vite reptile...
Les catastrophes ont une sombre façon d'arranger les choses.
VICTOR HUGO.
A luz não se exprime. Não tem definição. Como a não tem o calor, o magnetismo, a electricidade, e a vida.
A luz é o agente ou a acção, que nos adverte a distancia da presença dos corpos luminosos pelo intermedio da vista.
Vejamos.
A luz propaga-se em linha recta nos meios homogeneos. Obrigada a parar, no seu caminho, pelo encontro d'um corpo opaco--produz os phenomenos da sombra e da penumbra.
No mundo moral são a sombra e a penumbra as reacções da sciencia, da arte, da civilisação e do progresso.
Analysemos as penumbras.
Entremos nas sombras.
Desçamos ás trevas.
Fóra da vida physica são as trevas a ignorancia, e esta produz o silencio. Ora, o silencio é a paz dos sepulchros. Por que não deveria eu consultar a plebe?
Ha por ahi, nas ultimas camadas sociaes, perdidas, nas solidões da miseria, almas tão nobres, aspirações tão vastas, crenças tão vivas...
Por que não iria eu consultar os generosos sentimentos populares?
E fui.
Entrei n'um tugurio qualquer.--Que lhe importa o leitor qual foi? Havia uma mesa de pinho, duas cadeiras, e um catre. Era toda a mobilia. Mas, no meio d'esta hedionda miseria, existia um homem, feito á imagem de Deus; et creavit Deus hominem ad imaginem suam.
Era um veterano da liberdade. Desembarcára no Mindello. Tinha, na cabeceira do leito, pregada no travesseiro a insignia da Torre e Espada, ganha em Souto Redondo, em lutas titanicas, e em nome da liberdade.
Não desenho o soldado, ainda hoje operario. Basta-nos ouvil-o.
Li-lhe o manuscripto.
Ficou pensativo, e triste. Encostou os cotovelos sobre a mesa, afagou o craneo, como se lhe tumultuassem tantas idéas lá dentro, que não podiam irromper d'aquella abobada de fogo, e depois, em voz baixa, como se receasse ser ouvido, começou assim:
--Publique tudo isso.
A abstenção politica é mais do que a morte: é a indifferença pelos males sociaes, é a historia d'este torpe individualismo, que nos corrompe, é a gangrena moral d'esta sociedade em dissolução, é a anasarca symptomatica da lesão organica que despedaça a nossa existencia, é o maior de todos os crimes, por que é uma tranquillidade ficticia, comprada á custa dos legados que nós iamos enthesourando para as gerações futuras.
A democracia agonisa, no seculo dezenove, quando desabrochava, e se abria em flôr, na arvore, que nós todos plantamos, regada com o sangue precioso de tantos martyres, em nome dos que deviam colher e adorar no futuro, o fructo dos nossos trabalhos.
O velho operario, o antigo soldado do cêrco do Porto meditou por alguns instantes, e continuou:
--A historia vai esculpida em chronicas de reis, e memorias d'aulicos. A historia ha de escrevel-a um dia o povo, rasgando todas essas paginas mentirosas e lisonjeiras das décadas fabulosas, sahidas das mãos dos eunuchos d'estes harens do occidente.
Esta paralysia social em que a geração presente cahiu, esta hesitação absurda e repugnante nos annaes da nossa vida actual tem uma explicação irrespondivel: o mundo espera uma crença viva para se alentar na sua marcha--para respirar, e viver. D'onde virá a fé?
Habitantes d'uma peninsula á mercê de tantas invasões, raças tão diversas teem pisado este solo, que difficil, senão impossivel, será buscar-lhes a genealogia. Iberos, celtas, tyrios, phenicios, carthaginezes, numidas, berbéres, romanos, godos, alanos, suevos, mussulmanos, e varias hordas de gascões, e borgonhezes, afóra aragonezes, asturianos, e gallegos sulcaram este solo sagrado.
Onde estão os lusitanos?--Onde corre esse sangue mosarabe com que a historia enche a vastidão das nossas campinas, e povôa a crista das nossas montanhas?--Nas trevas das invasões perdem-se os vestigios, e em presença dos aventureiros, que acompanhavam Henrique de Borgonha, apparece uma raça energica, robusta, e corajosa, que põe em derrota a meia lua dos sectarios do Islam, e obriga a dynastia affonsina a conceder-lhe cartas de foraes, que são os pergaminhos e armarias d'esta nobilissima raça hispanica.
E o velho soldado do cêrco do Porto curvou a cabeça, e meditou.
Depois disse:
--Quem são, então, os duques e condes que acompanhavam o aventureiro, e bastardo real? Quem são os mercenarios, que se aformoseavam com as alcunhas ephemeras, e irrisorias dos cargos nobiliarchicos da côrte byzantina, quando estes titulos valiam, outr'ora, pela significação do mando, do poderio e da jurisdicção?
Á face da nobre raça hispanica--raça que somos nós--eram elles o enxurro, e a vadiagem das côrtes em que nasceram.
Nós eramos o povo, éramos a raça, éramos a tradição.
Quem tomou Lisboa aos mouros? Quem levou os arabes e berbéres de vencida até ás costas do occidente? Quem povoou a patria, quando as quinas se desfraldaram em Ourique? Quem coroou D. João I, esmagando as traições de Castella? Quem promoveu a restauração de 1640, e lutou pela independencia da patria?
Foi o povo.
Deixemos Aljubarrota ao condestavel.
Deixemos a restauração aos quarenta conjurados do palacio do conde de Almada. Que poderiam elles sem nós? O zelo, a coragem, o esforço, e o amor da patria só nos cabem a nós.--Vencemos sempre, porque eramos o povo.
Batemos com os contos das nossas lanças ás portas de Ceuta, de Tanger, e d'Arzilla, e os bastiões africanos cediam aos nossos esforços. Aportamos em Calecut, Cochim, Gôa, Malaca e Ormuz--e o Oriente dobrou-se á nossa vontade. Que importa, que os cabos de guerra tenham os louros das victorias, e das conquistas? A gloria é nossa. Fomos o instrumento civilisador, o soldado que morre pela patria, o portuguez, que cahe alanceado junto do seu pendão.
Para o condestavel, para Vasco da Gama, para Affonso d'Albuquerque, para D. João de Castro, para D. Francisco d'Almeida ha a chronica, ha o livro, ha as tenças, ha a narração dos feitos esforçados e valerosos, ha as recompensas da munificencia regia, e os brazões, que são a commemoração d'esses feitos, esculpidos nos portaes dos seus nobres solares.
Para o homem do povo, que pelejou ao lado dos mais corajosos, que batalhou onde havia mais perigo, que abandonou mãi, mulher e filhos,--para esse, ha a valla de finados, triste, e obscura--e a chronica emmudece, porque não é para peões, e villanagem, que foi creada a historia dos reis, e a Torre do Tombo, onde se guardam, e archivam seus feitos e memorias.
Para o povo ha o silencio.
Quando d'elle falla a historia, alcunha-o de sedicioso, barbaro e turbulento.
Para o povo ha o esquecimento.
A humanidade é uma idéa abstracta, que vive para a historia, nos vaidosos triumphos dos Alexandres, dos Cesares e dos Pompeus.
Quando um homem do povo cahe mutilado, pela arma homicida dos poderosos do dia, chama-se Socrates, chama-se Spartacus, chama-se Gracho, chama-se Galileu, chama-se Danton, chama-se Vergniaud, chama-se Armand Carrel, chama-se Gomes Freire, chama-se legião. Mas a historia atravessa estes periodos symbolicos da vida das nações sem commemorar estes nomes?
Para que?--Levantou já alguem o estigma que pesa sobre Catilina?
A historia divinisou Cesar, e applaudiu Cicero.
Rasgaram já os crépes que envolvem o busto de Robespierre, e a fronte de Saint-Just?
A França reclamou Bonaparte, e mais tarde victoriou o cossaco, que dos estepes da Russia vinha impôr leis e dynastias ao capitolio da raça latina.
E nós?--Aqui o veterano fez uma pausa. Levantou a fronte como se sentira o clarim das batalhas, e continuou em voz sumida e cavernosa:
--A nós deram-nos uma carta constitucional, que é como um foral--para não dizer carta d'alforria--a nós deram-nos uma mentira, escripta com o sangue do povo, no sólo sagrado da patria.
E o veterano calou-se.
Depois como despertado pelo ruido dos combates, como se aquella alma aspirasse a novas lutas, para sustentar os principios por que pelejára, ergueu-se do catre onde estava sentado, e rumorejou: E fallaes-nos de patria! patria aonde, e patria com quem? No Rocio em treze de março?--em Torres Vedras em 1846?--no Porto em 1851?--A patria é o sólo sagrado onde jazem as ossadas dos nossos avós. A patria é o local onde assenta o nosso lar domestico, onde vivem as nossas familias, onde está cravado o pendão dos nossos direitos. A patria é nossa por que derramamos o nosso sangue por ella.
Em seguida curvou-se para mim, que estava sentado no fundo d'este triste e miseravel quarto, e disse-me em phrases breves:
--Faça-me só um favor. É o unico que lhe peço. Como prologo d'esse manuscripto, publique este papel. É a meditação das minhas noites de insomnia. É o symbolo das minhas crenças. É o credo da minha religião politica. Morrerei contente.
Começa por este prologo o manuscripto do desembargador.
VISCONDE DE OUGUELLA.