O COFRE DO CAPITÃO-MÓR
O homem, concluida a guerra do Paraguay, liquidou quinhentos contos, e retirou-se com esposa e filha para Mondim de Basto, sua patria.
Passou, acaso, um dia por perto das ruinas de um casarão, reparou na pedra de armas que encimava um vasto portal de quinta, e perguntou de quem eram aquelles pardieiros.
O abbade, a quem a pergunta era feita, respondeu:
--São da fazenda nacional, que se está cobrando, ha trinta e dous annos, de uma divida antiga de impostos e respectivos juros e custas.
--E, depois que a fazenda nacional estiver embolsada, de quem é isto?
--Veremos a qual dos credores a lei dá a primazia--tornou o abbade.
--Acho que os donos d'estes pardieiros eram fidalgos, porque tem armas reaes á porta--volveu o brazileiro pouco versado em heraldica.
--Estas armas não são as reaes--explicou o padre--é o brazão de Pachecos e Andrades, muito illustres senhores d'este paço, que, em bons tempos, se chamou a honra de Real de Oleiros.
--Cahiram em pobreza?
--Sim, senhor; mas pobreza que tem uma historia interessante. Meu avô conheceu esta familia no galarim. Contava elle que o capitão-mór Pedro Pacheco estava em Lisboa, quando o marquez de Tavora, com os seus parentes, tentaram matar D. José, que era o amante da marqueza nova. Havia marqueza velha e nova, como sabe...
--A fallar a verdade, não sei isso muito bem--atalhou ingenuamente o snr. José Maria Guimarães--Então como foi lá essa pouca vergonha?
--Contos largos. A marqueza velha foi degolada, por não aceitar a prostituição da nora; a marqueza nova foi para um mosteiro bem regalado, em quanto o marido ia para a masmorra, e da masmorra para o cadafalso. Contos largos, amigo e snr. Guimarães. Vamos cá ao nosso caso. O capitão-mór Pedro Pacheco era muito de casa do duque de Aveiro; e, como eu disse, estava em Lisboa, quando o duque foi preso na quinta de Azeitão. Assim que o soube, fugiu, e não fez mal; porque foi procurado lá e aqui. Logo que chegou a esta casa, que era então um paço feudal, deu ordem á mulher que se preparasse e mais dous filhos menores para sahirem do reino. E, em quanto enfardelavam as bagagens, o capitão-mór mandou chamar meu avô, lavrador abastado, alferes de ordenanças, e muito seu amigo, para lhe entregar um cofre de pau preto com braçadeiras de bronze, cheio de peças. O cofre era tão leve ou tão pesado que meu avô, querendo erguel-o pelas argolas, gemeu. Lá por noite fora, pegaram os dous no cofre, transportaram-o á casa que ainda é a minha, e metteram-o n'um falso que ficava escondido pelas costas do leito de meu avô. Disse então o fidalgo ao depositario da sua riqueza que n'aquelle caixote estavam trezentos mil e tantos cruzados em dobrões e peças de ouro, e outras moedas muito antigas. Disse mais que a sua casa ficava exposta a buscas de quadrilheiros e de tropa, que era o mesmo que deixal-a franca aos assaltos dos ladrões. Por tanto, confiava de meu avô o seu dinheiro, sentindo não ter mais valiosas cousas que confiar á sua honra.
--Trezentos mil cruzados!--murmurou o snr. Guimarães, esbugalhando os olhos--era bem bom d'elle! E depois?
--O fidalgo foi para Hespanha, e para Inglaterra, onde tinha um seu parente embaixador, e por lá esteve alguns annos. N'este comenos, meu avô pegou de adoentar-se de molestia ethica, e escreveu ao capitão-mór, pintando-lhe o seu estado, e pedindo-lhe que viesse ou mandasse tomar conta do cofre. O fidalgo appareceu aqui uma noite com o maior resguardo, e metteu-se no seu palacio, confiando-se de um criado sómente a quem deixára a feitorisação das terras. De madrugada, mandou chamar meu avô, passaram juntos o dia, e de noite trouxeram ambos o cofre. Contava meu pai,--parece que o estou ouvindo,--que meu avô muitas vezes lhe dissera que o fidalgo não declarára onde tencionava esconder o thesouro; mas positivamente lhe dissera que o não levava para Inglaterra, já por temer ladrões, já porque não precisava gastar mais que os rendimentos da sua grande casa.
Meu avô morreu d'ahi a mezes; e o capitão-mór voltou para a patria, no anno de 1777, quando D. José morreu, e o marquez de Pombal foi desterrado.
--Essa não sabia eu!--atalhou com civico enleio o snr. Guimarães.
--Que é que v. s.a não sabia?
--Que o grande marquez foi desterrado! Quem foram os marotos que...
--São contos largos, snr. Guimarães. Vinha eu contando que o capitão-mór voltou, já viuvo, com dous filhos barbados, muito extravagantes, sem religião de casta nenhuma, criados entre hereges, destemidos, e levadinhos de todos os diabos. Ainda não ha muitos annos que morreram dous velhos do seu tempo que me contaram as malfeitorias que elles praticavam. Batiam a matar em todas as ordenanças que por ordem superior lhe tinham entrado em casa á procura do pai. Deshonestavam todas as cachopas d'estas tres leguas em roda. Em fim, amarguraram a velhice do pai, que era um santo homem, a ponto de lhe roubarem as pratas porque elle lhes não dava quanto dinheiro pediam. Finalmente, o velho morreu de repente em 1782, segundo reza o epitaphio que está na igreja de Refojos, convento que elle e seus ascendentes haviam beneficiado...
--E os trezentos mil cruzados?--interrompeu o brazileiro.
--Lá vou já. Assim que o pai se finou, os dous filhos abriram todas as gavetas, levantaram taboas, desladrilharam as lojas, escavaram debaixo dos toneis, escalavraram os forros, e nada toparam. Revolveram todos os papeis, a vêr se encontravam alguma indicação do dinheiro; e, com effeito, em um papelucho mettido n'uma carteira vermelha, acharam isto, que meu pai leu tambem: Póde ser que a pobreza vos não corrija; mas a riqueza de certo vos faria tigres. Eu não morrerei com o remorso de vos deixar nas mãos o peor instrumento dos perversos, que é o ouro não adquirido com o proprio suor. Tomaram-se de raiva, e romperam direitos a casa de meu pai, perguntando-lhe pelo dinheiro do seu.
--Não ha duvida--respondeu meu pai--que n'esta casa e n'aquelle falso esteve um cofre do snr. capitão-mór; mas, alguns mezes antes de dar a alma a Deus, meu pai, que era honrado, entregou o cofre a quem lh'o dera a guardar.
--E depois?--bradaram elles.
--Depois, nada mais sei, senão isto que seu paisinho me repetiu muitas vezes.
--Nós havemos de achar os ladrões.
--Pois é procural-os--disse meu pai.
Volveram a casa, e amarraram de pés e mãos o velho feitor do capitão-mór, determinados a não o desatarem sem elle denunciar a paragem do thesouro; porque o velho declarára que ninguem, senão elle, soubera da vinda do capitão-mór á patria, em quanto vegetou el-rei D. José, e o marquez de Pombal reinou. O feitor deixava-se martyrisar e morrer, ou porque realmente nada sabia, ou porque esperava que a final o deixassem. O caso é que, depois de solto, desappareceu d'estas terras, e nunca mais houve novas d'elle. Muita gente suppoz que o feitor levou os trezentos e tantos mil cruzados; mas meu pai, que o conheceu e teve em conta de muito honrado, affirmou que o dinheiro estava enterrado. Não sei; mas o desapparecimento do criado confidente do capitão-mór, a meu vêr, deixa suppôr que a estas horas, lá por esses reinos estrangeiros, vivem muito ricos os filhos do feitor. Deus sabe o que foi.
--E então os dous filhos do capitão-mór ficaram pobres?--tornou o snr. Guimarães.
--Pobres?! não, senhor. Quem tem sete quintas, que rendiam cinco a seis mil cruzados, que ha oitenta annos valiam dezoito mil cruzados de hoje em dia, não é pobre. O que elles fizeram foi tratar de se empobrecer. O morgado por aqui ficou, entretido com mulheres, galgos, caçadas, cavallos, feiras, jogo e valentias. O outro, que teve duas quintas de patrimonio, reduziu-as a moeda sonante, e foi para Lisboa requerer não sei que recompensas a D. Maria I, pensando que o ser seu pai amigo do duque de Aveiro, lhe dava direito a ser galardoado. Ora, se elle soubesse que a filha de D. José negou ao desventurado, ao innocente e quasi mendigo D. Martinho de Mascarenhas os bens de seu pai, duque de Aveiro, não iria allegar como cousa digna de premio o affecto do capitão-mór ao regicida suppliciado.
--Conte-me lá isso por miudos...--atalhou o brazileiro que não lêra a Historia portugueza do snr. Viale.
--São contos largos. Vamos primeiro á historia do ultimo senhor da honra do Real de Oleiros--respondeu o abbade, e continuou: Não sei onde nem quando morreu Sebastião Pacheco de Andrade, o filho segundo do capitão-mór. Ouvi, porém, dizer que morrêra novo, pobre e deshonrado. Quanto ao morgado, sei que elle casou com a menos digna das suas concubinas, já quando não toparia menina honesta que aceitasse o fidalgo de Real de Oleiros. Christovão Pacheco, apesar da libertinagem e desperdicio, ainda gozava o que se chama decente mediania, quando sahiu d'este mundo, antes dos cincoenta annos. Teve um filho ante-nupcial da criada com quem casou. Este conheci eu mui de perto e em conflicto muito deploravel, como lhe contarei. O pai, que desprezava frades, e zombava da religião, mandara-o educar em religião e com um parente frade da ordem benedictina. O rapaz alegrou-se grandemente ao noticiarem-lhe que o pai era morto e elle herdeiro. Veio aqui, por ahi esteve dous annos socegadamente, olhando pelos bens, posto que debaixo de tutela; e, quando orçava pelos dezenove annos, tão grandes amostras dava de homem de bem que se lhe offereceu para esposa uma senhora de linhagem illustre e dotada com vinte mil cruzados. Emancipado pelo casamento, apossou-se do casal, desempenhou parte das quintas hypothecadas, e manteve bons creditos por espaço de alguns annos.
Em 1832 era elle ainda muito rapaz, e já então vestia a farda de capitão de milicias. Esteve no cerco do Porto, onde consta que procedera valentemente. Porém, no fim da guerra, os bons costumes com que sahira d'esta casa por lá ficaram. O homem voltou tão diverso, tão estragado na moral, que já ninguem o via e ouvia que se não lembrasse do pai. A esposa não sei se por santa, se por peccadora, fugiu-lhe com uma criança de cinco annos para a casa d'onde viera; e elle, hypothecando os bens já deteriorados com as prodigalidades da vida militar, levantou muitos contos de reis, e estabeleceu-se em Lisboa.
Desde 1836 a 1843, o seu viver na capital deu brado por aventuras amorosas, como lá dizem os salteadores da honra das familias. Pedro de Andrade, que assim se chamava, como seu avô, era um homem gentil, bem feito, galhardo, e muito airoso. Tinha as seducções de Satanaz feito homem. A corrupção de Lisboa era grande, e elle ainda maior; mas desgraçadamente, o maldito empestou muita menina innocente, e abriu muitos abysmos aos pés das virgens que pareciam ter postos no céo os olhos contemplativos.
--Que grande maroto!--disse o brazileiro.
--Em 1843, depois de uma ausencia de seis annos, appareceu aqui, de repente, Pedro de Andrade, e procurou-me a fim de me propôr a compra dos bens que ainda não estavam captivos de dividas. Eu desculpei-me com a falta de dinheiro, e outros aceitavam a proposta, se a mulher assignasse os contractos. N'este entretanto, recebi de Lisboa certa gazeta de que era assignante, onde li uma noticia que me abalou dolorosamente. E, estando em minha casa Pedro de Andrade, perguntei-lhe se tinha noticia do triste successo contado pelas gazetas.--Qual successo?--perguntou elle. «Eu lh'o leio» disse eu; e visto que estamos á minha porta, queira o snr. Guimarães entrar, que eu lhe vou lêr a gazeta, que Pedro de Andrade ouviu com inalterado semblante.
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* *
O brazileiro entrou na saleta do abbade, que tirou da estante dos seus livros a Revista Universal Lisbonense de 1843; e leo, a paginas 23, o seguinte:
«A POMBA E O ABUTRE
«Quasi todos os papeis publicos transcreveram do Portugal Velho o caso de uma donzella fugida do paço real. Levantaram sobre isto altos clamores contra ella, contra o seductor, contra a perda da proverbial gravidade do palacio portuguez. Sentimol-o o calamos.--Era assumpto melindroso; para relatar e sentenciar careciamos ainda de evidencia. Hoje suppômo-nos habilitados para ratificar e completar a narração de um successo que, devida ou indevidamente, já cahiu no dominio do publico, e não é possivel extorquir-se-lhe da memoria.
«No palacio velho da Ajuda vegetam ainda umas cincoenta ou mais solitarias, que, opprimidas dos annos e das molestias, recebem da caridade da soberana o pão pelos serviços, que outr'ora prestaram ás rainhas e princezas suas ascendentes;--são os ornamentos partidos e desfigurados de um seculo, que desabou para nunca mais ser reconstruido.--Todas estas mulheres são tristes como reliquias de tempos festivos, saudosas, ou antes, saudades ellas mesmas:--a presença de todas e de cada uma, aggrava a cada uma e a todas ellas a melancolia do crepusculo da morte, que já lhes vem anoitecendo.--Todo o reboliço, todas as quotidianas transformações materiaes, moraes e politicas da visinha capital, onde já foram vivas, moças e brilhantes, ou não chegam alli, ou só chegam como uns contos vãos e longinquos, como sonhos de cousas passadas em outro planeta: ¿que tem ellas que vêr no berço que se apparelha para uma nova idade?--ellas, que já pendem para o sepulchro, a contemplar no fundo d'elle tantas cousas louçãs e vivazes, que lhes pertenciam!
«Entretanto no meio d'este palacio de tristezas volteava ainda um raio de sol; um arbusto florejava purpuras no meio d'este cemiterio; uma avesinha cantava primavera entre o desconsolo d'estas ruinas; uma viração deliciosa fazia ás vezes susurrar agradavelmente estes musgos resequidos. Tudo isto era a joven Maria, lindeza de 18 annos, lindeza corporal como poucas, lindeza de espirito como ainda menos, lindeza de coração como quasi nenhuma, sobrinha e companheira de uma d'estas velhas, companheira e amiga de todas ellas. Maria, era realmente o feitiço, a Vida e o encantamento d'aquelle retiro sem porvir. Toda a casa a amava: era uma paga de divida; Maria queria-lhe muito, quasi que alli abrira os olhos, pelo menos outra nenhuma lhe lembrava; sob aquelles tectos brincára desde a idade de tres annos; entre aquellas cabeças encanecidas se fôra coroando a sua de longas tranças louras: entre o crescer de tantas rugas se desenvolveram e aperfeiçoaram as suas graças; entre o progressivo decahir de tantas prendas e esperanças como as folhas verde-pallidas que em pomar de outomno se despegam uma a uma, os seus talentos naturaes por uma desvelada educação, que a munificencia da snr.ª D. Maria I proporcionára a sua tia os meios de lh'a dar, tinham chegado ao seu maior auge.
«Maria do Carmo reunia ás prendas manuaes proprias do seu sexo, um lêr e escrever primoroso, noções e gosto de litteratura, mórmente da franceza, em cuja lingua era mui versada, e musica, merecendo no piano as honras de mestra, e por corôa de elogio verdadeiro, os seus costumes eram puros e o seu coração religioso: nas orações que todas iam quotidianamente depôr aos pés do altar, as d'ella deviam rescender mais a innocente alegria que a temores ou remorsos.--A 25 de junho orava no côro com sua tia quando o relogio dos paços bateu as 6 da tarde. Levanta-se, pede licença para deixar o restante para depois, e ir entregar--que o prometteu--um debuxo de bordados a uma sua amiga fóra da casa.
«Foi: correram horas, e não voltou.
«Começaram e cresceram cuidados: mandou-se á busca por todas as partes: passou o serão, passou a noite, e passaram tambem dias, sem que a tornassem a vêr, nem a ouvir d'ella nova alguma.
«N'essa tarde alguem se lembra de ter notado uma sege parada debaixo da arcada do paço. E um morador da casa acrescenta que, perto da noite, achando-se no caes do Sodré, vira chegar uma sege á porta de uma hospedaria, e um homem de chapéo branco apear uma menina, que lhe pareceu ella.
«Devolvidos quatro mortaes dias, chega no domingo um gallego com uma carta para a consternada tia:--entrega-lh'a em mão propria, e ajunta, havel-a recebido de uma menina mui linda, que lavada em lagrimas e afogada em soluços lhe recommendára fosse leval-a correndo, e lhe trouxesse signal de ter sido recebida. O conteudo d'esta carta ninguem o soube, mas parte d'elle facilmente se póde presumir.--Ás nove horas d'essa mesma noite viram-se sahir pela portaria dous vultos rebuçados, que por mais que a porteira os interrogasse, partiram sem dar resposta. Á hora e meia da noite os mesmos dous vultos vieram bater á porta, trazendo entre si amparado e quasi em braços um terceiro, que ninguem reconheceu. Abriram uma porta, que havia muito não servia, e que dava passagem para a pousada da fugitiva, e entraram.
«Pessoa do sitio por quem isto soubemos, nos acrescentou, que o estado de Maria na seguinte manhã, segundo lh'o descrevêra quem acabava de a vêr, cortava o coração. As suas tranças louras e espessas tinham desapparecido. O seu rosto pendia pallido e esmorecido. Duas fontes corriam dos seus olhos. A sua dôr via-se e era terrivel porque era muda.
«As suas o occupações desde então teem sido orar e chorar: com isto leva no oratorio as horas do dia e da noite, abraçada com a imagem da consoladora dos afflictos, beijando-a nos pés, nas mãos e no rosto como filha a sua mãi--como filha prodiga, que procura, á força de se restituir toda, reconquistar o coração materno; como se coração materno se apartasse nunca. O pai aggravado perdôa, a mãi não, toda ella foi sempre amor, e o amor não sabe senão amar.
«A unica pessoa, que além de sua tia, a tem visto, é o medico, alma sensivel, de quem recebe os soccorros mais assiduos e delicados. Entretanto o mal que a mina é grave. Quasi privada do alimento e do somno, os seus dias parecem ameaçados de um fim prematuro. Se a violencia mesma da sua dôr lhe não limitar em breve a duração, outro perigo pouco menos cruel que o da morte, parece ameaçal-a. O pranto continuo que afoga os seus olhos, receia-se que venha por ultimo a lh'os apagar, e que a pobresinha que, ainda ha pouco, era o raio de sol de toda a habitação, venha ainda a ser, mergulhada em trevas e sobrevivendo a si mesma, um objecto de profunda e esteril compaixão para tantas infelizes, a quem ella, pouco ha, repartia alegrias e emprestava mocidade.
¡¿E agora quem a condemnará por um erro, cuja origem e historia nos são desconhecidos?! ¿quem a apedrejará entre os braços, sob o manto e sob os olhos da rainha dos anjos, que lhe deu o seu nome, lhe chama filha sua e com a vista serena e amorosa lhe está apontando para as alturas?! ¡¡¡Que delictos e crimes (quanto mais erros)! deixariam de se lavar com tantas lagrimas!!! ¡¡¡E ha entretanto aqui um homem, talvez entre nós, talvez festejado e respeitado--um homem, que ella generosa não nomeia, não nomeará nunca--um homem, cujo rosto mais duro que o de Caím se não transformou, se não tingiu de repente na côr de sua alma para o denunciar, como sacrificador da innocencia, da virtude, da formosura, e do amor, de um amor irresistivel, inspirado por elle, e que a elle sacrificava tudo até a vida,--tudo até o porvir--tudo--tudo até a honra!!! ¡¡¡Ha ahi um homem d'estes!! ¡Ha-o sem duvida! e se as justiças o descobrissem, este homem receberia uma pena: menos affrontosa que a do ladrão assassino... Este homem não havia de ser mandado por todas as cidades e villas do reino de braço dado com o carrasco, para ser atado a cada pelourinho, escarrado no rosto por todos os homens e mulheres, e esbofeteado depois pelo seu menos infame companheiro de jornada com a mão esquerda. Não: que importa o que padece uma mulher? Não crêsse nas palavras de quem a fascinára; não fosse moça, innocente e amante; não fosse mulher. As justiças da sociedade teem mais cousas em que pensar. ¿E de mais não se vê isto todos os dias? Não são conhecidos muitos outros que tambem matam assim o tempo com estas caçadas amorosas? ¿que o confessam com vangloria e que em companhias mui luzidas são por isso admirados e invejados! Tratemos dos interesses materiaes. O restante são chimeras, são fanatismos, são miserias, indignas da attenção de legisladores, e dos homens illustrados de 1843.»
Concluida a leitura, o abbade proseguiu:
--Ouvida a historia, o fidalgote sacudiu a poeira das calças com um chicotinho de baleia, e disse: «São vulgarissimos esses casos em Lisboa. O que a mim me espanta é que a imprensa vista o habito de Tartuffo, e sáia ás praças a prégar contra a corrupção que ella promoveu com os seus romances, com as suas philosophias, com as suas theses de liberdade, e com a perseguição de escarneo e de fome feita aos apostolos da sincera moralidade.»
Discursou largamente n'este sentido, e despediu-se, deixando-me inclinado a dar-lhe razão.
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* *
Passam-se tres dias:--continuou o abbade--era meia noite de 2 de agosto do mesmo anno de 1843. Recolhia-me á igreja de ter ministrado a extrema-unção a um moribundo, quando ouvi dous tiros a pouca distancia, e d'ahi a minutos o alarido de muitas vozes, gritando «homem morto!»
Sahi ao adro, e encontrei pessoas que já vinham chamar-me para assistir aos paroxismos de Pedro de Andrade que estava mortalmente ferido á porta de sua casa.
Quando cheguei, já o haviam transportado ao leito. Estava ainda vivo. Assim que me viu, acenou-me com anciedade, apertou-me convulsamente a mão, e segredou-me: «Quero confessar-me, que vou morrer.»
Escutei-o por espaço de hora e meia; as phrases eram cortadas por gritos de agonia; ambas as balas lhe estavam dilacerando as entranhas do peito; e, ainda assim, aquelle demorado arrancar da vida me quiz parecer uma delonga providencial para que o grande criminoso tivesse tempo de penar e chorar suas culpas. Expirou com todos os sacramentos, pedindo-me que, em nome d'elle, pedisse perdão a seu filho e a sua mulher.
O moribundo, quando me revelou o seu derradeiro delicto, rogou-me que désse publicidade ao crime e ao castigo a fim de que a sua desgraça podesse aproveitar aos centenares de delinquentes que lhe haviam dado o exemplo do vicio e da impunidade. E, por tanto, não escrupuliso em lhe dizer que o seductor da infeliz Maria do Carmo havia sido Pedro de Andrade, e que os vingadores da abandonada menina deviam ser seus parentes, posto que o assassinado os não houvesse conhecido, e lhes ouvisse apenas dizer, antes de desfecharem as clavinas, que lhe traziam saudades da prostituida senhora do paço da Ajuda.
--Com effeito!--observou o snr. Guimarães--essa historia arripiou-me os cabellos!... V. s.ª ha de emprestar-me essa gazeta que eu quero copiar esse caso! Diga-me cá: e o filho d'esse desgraçado?
--O filho do desgraçado, que tinha então onze annos e estava com sua mãi, póde dizer-se que ficou litteralmente pobre. Os credores e a fazenda nacional disputaram-se a posse do espolio. O rapaz, quando chegou á idade de tomar conta da honra de Real de Oleiros, convenceu-se que lhe era mister trabalhar para não morrer de fome. Os parentes de sua mãi, posto que abastados, não o protegeram, e tornaram-lhe pesada a esmola do pão e da cama. Um dia, o brioso moço sahiu com sua mãi da casa que lhe amargurava o bocado, e foi habitar um casebre nas visinhanças do escrivão, que o fizera seu amanuense, e lhe dava doze vintens por dia. V. s.ª conhece-o. É aquelle Alvaro de Andrade que tem lavrado as escripturas de compra de propriedades que o snr. Guimarães tem adquirido...
--Pois é esse!... Aquelle homem humilde que me beijou as mãos quando eu lhe dei uma libra de gratificação...
--É esse mesmo.
--E nunca me disse de que familia era...
--Não falla em familia, e parece até esquecido da sua procedencia. Que eu, a fallar verdade, uma vez, passando com elle defronte das ruinas da casa de seu pai, surprendi-o a olhar para as paredes derruidas com as lagrimas nos olhos. Perguntei-lhe por que chorava, e elle respondeu-me que chorava por sua mãi, lembrando-se que d'aquella casa sahira ella coberta de mais amargas lagrimas.
--Coitado!--disse o brazileiro--hei de fazer-lhe o bem que poder.
--E póde muito v. s.ª; mas faça-lh'o de modo que o não humilhe.
--Eu cá sei, snr. abbade. Nós, os chamados brazileiros, sabemos todos os processos de dar esmolas aos nossos patricios de modo que elles se dispensem de nos agradecer, e até lhe deixamos o direito salvo de nos ridiculisar.
A justiça inspirára este homem, que nunca fôra tão eloquente.
*
* *
Pouco tempo depois, annunciou-se a venda da quinta de Real de Oleiros e suas pertenças, a requerimento dos credores. José Maria Guimarães cobriu todos os lanços. Foi-lhe adjudicada a quinta por alto preço. Os licitantes, que eram os credores, acotovelavam-se jubilosos, e diziam entre si:
--Espiguêmol-o!
E, assim que o ramo lhe foi entregue, disseram unanimemente:
--Foi espigado!
O brazileiro pagou immediatamente ao instrumento da adjudicação, e disse, relançando a vista aos alegres credores de Pedro de Andrade:
--Meus senhores, o que vale aos credores dos fidalgos, que não pagam, são estes nossos irmãos de além-mar, que, lá e cá, melhor fôra chamar-lhes irmãos da misericordia...
--É parvo!--disse um poeta de Basto ao ouvido de um bacharel de Felgueiras.
*
* *
Passados dias, começaram obras de reedificação no local do palacete arruinado. O proprietario, fazendo-se encontradiço com o amanuense do tabellião, disse-lhe:
--Ó snr. Alvaro, vá o snr. hoje, se não tiver que fazer, á quinta de Real, que temos que conversar a respeito de certos arranjos.
--Sim, senhor--disse Alvaro--quando v. s.ª quizer.
--Ás 4 da tarde; e leve tinteiro e papel, que não ha lá d'isso.
Á hora aprazada, entrou o bisneto do capitão-mór na extincta honra dos Pachecos e Andrades. Já lá estava o brazileiro, ás testilhas com os alveneis. Assim que chegou o escrevente do tabellião, subiu com elle por entre um matagal de bravio até ao alto de um outeirinho onde se erguia um pombal já descaliçado, mas ainda assim a porção menos esboroada das pertenças da quinta, graças á fortaleza do tecto abobadado de pedra.
Havia dentro uma banca de granito, onde outrora os senhores de Real se desenfastiavam em merendas, depois das fadigas da caça na tapada defeza. Já lá estavam duas cadeiras.
--Sente-se ahi, snr. Alvaro--disse José Maria Guimarães,--e vá escrevendo.
--Prompto!--respondeu o escrevente, rodando a sibilante tarracha do tinteiro de chifre.
--Ponha ahi os nomes dos pobres da freguezia que não tem casa de seu.
Alvaro Pacheco escreveu trinta e quatro nomes; quedou-se um momento, e perguntou:
--De todos os pobres que não tem casa?
--Sim, de todos os pobres que não tem casa propria.
--Então, falta o meu nome. Somos trinta e cinco os pobres que não temos casa.
E escreveu: Alvaro, escrevente de tabellião.
--Muito bem--volveu o brazileiro commovido--sabe o que eu quero?
--V. s.ª o dirá.
--É ceder metade d'esta quinta aos pobres para elles edificarem uma casa com seu quintalejo; já se vê que sou eu que pago as obras das casas; e, visto que o snr. Alvaro é um dos trinta e cinco pobres, escolha a local onde quer a sua casa feita. A escolha do local é sua; ora agora, o feitio da obra isso é cá por minha conta.
--Os pobres aceitam, não escolhem--disse Alvaro.
--Mau!--replicou José Maria Guimarães--Mau! ou bem que somos francos um com o outro, ou não temos nada feito. Eu cá sou assim!
--Então quer v. s.ª...
--Deixemo-nos de senhorias. Eu sou filho de um almocreve, e neto e bisneto de burriqueiros; e o snr. Alvaro Pacheco é descendente de capitães-móres a quem meus avós traziam presuntos de Melgaço nas suas recovas de machos. Deixemo-nos de senhorias. Vamos á questão. Onde quer a sua casa?
--Aqui--disse Alvaro.
--Aqui no pombal?!
--Aqui, porque fica sendo casa, e ao mesmo tempo memoria de ter estado n'este sitio um homem honrado.
--Ou dous--emendou o brasileiro--Dê cá um abraço, e vamos embora, que faz aqui frio.
E, no decurso do caminho, proseguiu:
--O snr. Alvaro ha de fazer-me o favor de se despedir do serviço do tabellião, se lhe não custar. Preciso de quem me represente n'estas obras, em quanto vou tratar de negocios a Lisboa. Eu cá lhe deixo as plantas das casas dos pobres, e o capital para o custeio das despezas.
*
* *
O brazileiro voltou, passados seis mezes. Todas as casas estavam já de parede e tecto, quando voltou, excepto a do pobre chamado Alvaro.
--Com que então a casa n.º 35 ainda não tem sequer os alicerces?---perguntou o bemfeitor.
--É porque o pobre n.º 35 não precisa tanto como os outros--respondeu o feitor.
--Então vou eu ser agora o fiscal das suas obras--tornou José Maria.
E, ao outro dia, fez convergir os melhores operarios para a bouça do pombal, e mandou arrazar a vivenda de centenares de andorinhas que se esvoaçavam ao primeiro troar dos alviões e marretas.
Alvaro e José Maria assistiam ao derrubamento do pombal, um tanto condoidos do esgazear das espavoridas habitadoras das ruinas.
N'isto, um pedreiro esboroando com a alavanca um pedaço de parede, descobriu uma superficie escura, que se lhe figurou lousa.
--Que diabo de obra é esta de lousa em parede de cantaria?--disse o alvenel.
O brazileiro abeirou-se da parede, apalpou a supposta lousa, e observou ao pedreiro que era pau e não lousa, mandando socavar dos lados, e alimpar a superficie do que quer que fosse.
--Isto é um caixote!--disse o mestre da obra--querem vossês vêr que o diabo as arma?
--Arma o quê?--perguntou José Maria Guimarães.
--V. s.ª nunca ouvia dizer que os fidalgos de Real esconderam um thesouro que nunca se encontrou?
--Já ouvi dizer isso. Atirem a baixo toda a pedra que está dos lados, e não embarrem no caixote. Cuidado lá com isso! Snr. Alvaro, parece-me que vai assistir á resurreição do melhor defunto dos seus avós--bradou o brazileiro.
--Como?!--perguntou Alvaro, que vinha entrando no recinto do pombal.
--Venha vêr. Apalpe. Que é isso?
--Parece-me um caixote--disse o bisneto do capitão-mór.
--Não é parece; é que é. Sabe o que lá está dentro? Sabe a historia dos trezentos e tantos mil cruzados de seu bisavô?
--Ouvi dizer que...
--Que nunca appareceram. Apparecem hoje. Estão alli.
Alvaro de Andrade que tinha encarado o infortunio de trinta annos com intemerato aspecto, descorou em frente da taboa negra que devia ter dentro uma cousa chamada, bem ou mal, a fortuna.
A este tempo, o caixote era apeado, suspenso entre quatro robustos braços.
--Oh! como pesa!--gemeu um dos pedreiros.
--Podéra não!--disse o brazileiro--trezentos e tantos mil cruzados!
--Os rios correm para o mar, snr. Guimarães--observou o mestre d'obras.
--Que quer dizer, mestre?--perguntou o brazileiro.
--Que se v. s.ª era rico, é agora riquissimo.
--Obrigado pelo conceito que faz de mim, mestre...--volveu José Maria entre risonho e agastado.
--Ó meu senhor, pois eu...
--Suspeita-me de ladrão...
--Valha-me Deus!... o que apparecer em terra de v. s.ª seu é.
--E esta terra é minha? Pois não sabe que este chão é d'este pobre que se chama Alvaro?
--Ó snr. Guimarães!...-exclamou o filho do ultimo senhor da honra de Real de Oleiros, e não pôde articular outra expressão.
--Vamos!--acudiu o brazileiro--para onde é que vai o thesouro de seu avô, snr. Alvaro Pacheco de Andrade, snr. barão, snr. visconde, snr. conde, snr.... Quer mais? Dê as suas ordens.
José Maria casquinava uma risada de elevada intelligencia, em quanto os obreiros, rodeando o caixote, se embasbacavam uns nos outros, e todos no rosto de Alvaro com a mais sincera e respeitosa estupidez.
Novamente instado para que dissesse onde o caixão devia ser levado, Alvaro respondeu:
--A minha mãi, que sabe o que são pobres.
*
* *
E os primeiros pobres, que relativamente enriqueceram nas aldêas convisinhas, foram os descendentes dos irmãos d'aquelle feitor que muitos alcunharam de fugitivo ladrão do thesouro do capitão-mór, e que se fôra a morrer longe d'alli, e obscuramente, receoso de ser novamente martyrisado pelos filhos de seu amo.
Alvaro Pacheco de Andrade, n'este anno de 1874, tem quarenta e nove annos, e é conhecido pelo fidalgo de Real de Oleiros. Aquella senhora de tez morena, com cinco formosos filhos, que brincam á volta de outra senhora de setenta annos, é a esposa de Alvaro, e filha de José Maria Guimarães. A dos cabellos brancos, que lhe alvejam na fronte como a corôa de açucenas de uma santa, é a viuva d'aquelle galhardo e infausto D. Juan, assassinado em 1843. O sacerdote ancião, que parece ser da familia, é aquelle abbade que nos leu a Revista Universal Lisbonense, e a quem eu devo e agradeço os commentarios ao fogoso e pungente artigo, que me parece ser do meu presado mestre e adorado amigo visconde de Castilho.