O JOGADOR

Hoje em dia, aquella denominação, nem é desprezivel nem affrontosa. O progresso indultou o jogador; deliu-lhe da fronte o antigo ferrete.

Se eu jogar com sorte propicia, e mobilar um palacio, cujas alfaias e baixella representem os haveres e as lagrimas de muitas familias, serei o legitimo e respeitado proprietario do meu palacio.

Se eu abrir os meus salões, a mais selecta sociedade virá pisar as alcatifas do meu palacio, e lisonjear a magnificencia do fino gosto que dirigiu as correntes do meu ouro. Ninguem me perguntará se herdei de avós, se ganhei de incautos a minha opulencia. Talvez que os meus convidados segredem entre si a proveniencia das minhas pompas; mas d'esses, duas vezes deshonrados, vingado estou. Deshonrados, porque entraram nas minhas salas, e deshonrados porque denegriram a honesta posse dos vinhos que me beberam.

Continuando a auspiciosa hypothese: se eu fôr o jogador enriquecido, bemquisto das familias, pessoa séria, influente nas eleições bancarias, com folha corrida, insuspeito de falsificador de testamentos ou moeda, de certo me não distingo do homem de bem, laborioso, honrado e provado nas lutas da vida.

Ha, todavia, entre nós uma pequena differença: eu dou bailes, e o meu honrado visinho não os dá.

Mas isso depende da aristocracia da indole: elle póde descender d'algum servo de gleba, que lhe transmittiu genio caínho e o acanhamento de raça; em quanto eu obedeço a impulsos de outro sangue. As damas que se bamboavam nos coxins flaccidos das minhas othomanas com toda a certeza não calcularam quantos micos infelizes dos meus parceiros representavam as copias de Raphael e os originaes de Murillo pendurados sobre as colgaduras das minhas paredes. Antes quero suppôr que ellas, no arrobo da sua admiração, meditaram que na minha cabeça havia o que quer que fosse digno da cabelleira encalamistrada de um Marialva, no reinado de D. João V.

É profundo o fôsso que me separa do jogador em outras eras. Nasci quando devia nascer. Se eu viesse á luz no seculo XVI, este meu mister de jogador era synonymo de vadiagem (Ord, l. V, tit. 82). Nas minhas tertulias, devidas á sorte feliz da tavolagem, lograria apenas reunir jogadores. Se nascesse no seculo XVII ou XVIII, os corregedores dos Philippes, de D. João IV e Pedro II, e dos reis subsequentes, se eu désse bailes, carregavam-me com as leis sumptuarias por sobre a pêcha de vadio. Em tempo de D. João V, D. José ou D. Maria, tanto o Camões do Rocio, como o Marques Bacalhau, como o Pina Manique mandavam-me responder do Limoeiro pela procedencia dos meus lustres, dos meus sophás, dos meus jarrões, dos meus contadores marchetados, dos meus bronzes, dos meus frescos, dos meus pendulos, dos meus pavimentos de xadrez lustroso. E vestiam-me talvez uma das librés dos meus criados.

Foi por isso que o facho da civilisação, passando pelas minhas salas de jogador feliz, radiou reverberos esplendidos da minha baixella, e me mostrou em meio dos meus convidados, com a fronte luzentissima das alegrias do homem de bem.

Póde ser que, em outras eras tenebrosas, a felicidade no jogo fosse malsinada de fraude e roubo.

Hoje não.

O jogo, á luz de 1874, é um contracto bilateral, fundado no consentimento de ambas as partes.

Se é forçoso que uma das partes fosse tola e desgraçada, eu de certo não fui.

Está fechada a hypothese.