CATASTROPHE
Affonso, por sobrenome o Sexto, filho do primeiro rei, que usurpou o titulo de duque de Bragança chamado D. João IV, foi deposto de sua primogenitura por seu irmão D. Pedro, e conservado em prisão e exilio de toda a vida. D. Pedro não podia ser mais perverso. As circumstancias atrocissimas d'este inaudito escandalo não estão bem explicadas nem eram bem conhecidas dos contemporaneos. Os mais prudentes do reino, ou porque não souberam, ou porque não poderam averiguar o intrincado drama, deram ao successo o nome de «catastrophe». Os hespanhoes limitaram-se a negar o que era patente e publico; e das verdadeiras causas e do seu fio e enredo occulto, nada explicaram na sua «anti-catastrophe», documento mediano e mal traçado para o fim, e para o grande empenho da causa e da questão; tão inferior e pueril que a desvirtua e degrada apoucando o assumpto para diminuir a impressão, ou para distrahir e desviar a attenção do horror da catastrophe.
Os subsequentes historiadores pouco ou nada tem apurado d'esta vergonhosa historia da usurpação; as suas monographias são como memorias de encommenda que chegam ao seu fim por meios tortuosos para espalhar algum erro ou para afugentar algum receio politico; e do verdadeiro fim da historia não curam nem tratam: porque a prevenção da historia é o erro, e com este rumo ninguem póde navegar nem progredir. Attribuem geralmente os protestantes aquelle sinistro ao partido cardinalicio de Roma, segundo o seu costume e petulante ousadia de calumniadores, que commetteu o delicto para o assoalhar e publicar por um lado attribuindo-o aos seus maiores inimigos, em quanto vão por outro lado desfigurando sempre em vão alguma memoria de maior horror, ou alguma imputação mais pronunciada, mais manifesta e visivel, e n'este falso empenho confundem a historia e geram o erro dos seculos; mas a verdade é como a luz mais forte, que penetra através dos maiores obstaculos em toda a parte onde estiver encerrado o homem pela maior tyrannia para alumiar o captivo, e até para esclarecer o cadaver, que geme debaixo da lousa e do epitaphio, que lhe escreveu o maior crime, em quanto não revela o enigma da sua escura sepultura.
A analogia dos factos é o melhor meio de descobrir os mysterios da historia. Para escrever a dos crimes ainda até o presente não achou a boa critica outro fio de mais severa logica, nem documento mais fiel e verdadeiro, nem testemunha mais digna de credito e de authoridade. A Divina Providencia dá causa á catastrophe para punir a atrocidade da injuria; o demonio escreve a anti-catastrophe; mas o effeito subsiste, o facto permanece, o som repercute e sôa em outro ponto e orgão, ás vezes só no echo até á altura, que o Senhor fixa ao bramido para se reproduzir no decurso dos seculos, se um unisono accorda igualmente terrivel e medonho ou funesto e assustador até para o demonio que o gera e produz. Sôa do orgão a tuba, e não é a mão do homem que fere a tecla, nem a musica e pensamento do seu compositor que produz a melodia. Devia o homem vêr no arcano a sciencia divina, que deu ao ar modulado pelo instrumento a euphonica sympathia dos sons e o gentil devaneio do mais accorde accento.
O orgão da historia não é um instrumento de imbecis, e mentecaptos que julgam illudir as turbas attribuindo a causas falsas o effeito verdadeiro da sua maravilhosa impressão: deixai o orgão ao templo catholico; porque só n'elle avulta e brilha; aos viciosos e prostibulos de maior vergonha apenas cabe a profana chula de tabernal comedia, e a ironia da musica. A arpa é instrumento real, a lira só a tange a poesia e a verdadeira inspiração que o Senhor concede ou nega ao cantor pelo moto da trova e pelo pensamento da sua religião e virtude. A historia verdadeira ou falsa, illustrada ou cega e pedinte—eis o dilemma unico da sciencia, e o programma que o escriptor competente sempre encontra diante e dentro do seu pensamento segundo o fim a que se propõe e persuade: a maior parte dos eunuchos só presam o devaneio do canto pelo sustento que recebem e pelo dinheiro que contam para satisfazer as suas abominaveis e depravadas paixões. São homens, que se deixam mutilar sem possuir a falsa virtude de Origenes, nem a verdadeira e santa da nossa catholica virgindade; e como pactuam a sua deshonra não exaltam o tiple do seu desenfado sem sonhar com opiparo e somnolento banquete; e por isso todas as suas lôas acabam em comer.
O estigma d'este falso ministerio da historia recahe sobre todos os homens do mesmo engenho e calibre, que adoptam os seus estados e profissões só pelo benigno e precioso metal que auferem e adoram—e d'estes é sempre o maior numero; o actual enche de eunuchos todos os theatros e d'histriões a comedia d'aldêa, e a sua nobreza de tamanco. Que mais diremos d'este reprobo e amphibio meteoro, senão que jámais deixa de se converter contra o inventor e mais obstinado sectario? o ennucho converte o sexo, e faz-se besta de carga, ou machina de pura digestão, e morre a pedir, ou vai por conta d'estranho herdeiro dispor o cemiterio da familia, que já se sabe é a familia dos eunuchos sempre a mais torpe e immunda, que nem merece a honra do homem proletario.
Queremos dizer, que todos estes hão-de sahir a campo com os vozeirões para aturdir e desmemoriar a maioria dos nossos leitores; este opusculo ha de rir do tremedal e produzir o seu effeito: acanhar os truculentos, e fazer duvidoso o seu ocio e evitar o seu pestifero alento sem ter necessidade de fugir da sua sanha, e sem accelerar o passo do seu domestico e providente animal. Não estranhemos o som do orgão mais vil e desentoado, que vai ás costas de erradio transfuga deslumbrar o calix da sua melodia a todas as tabernas e lupanares; olhai para o rosto e decifrai os signaes, que vos revelam a historia com mais fidelidade do que as memorias que deviam retratar os seus pensamentos de historiador, e apenas contém a sombra da sua ignominia e proterva hediondez e peçonha.
Possuir ou não possuir a casa de senhorio de Bragança sempre foi synonymo de ser ou de não ser rei; mas possuir a casa sem possuir o direito é dar pasto á ambição oligarchica e á falsa platêa de comedia; é o mesmo que entregar o supremo poder aos mais vis e ignobeis, ao mais desleal e traiçoeiro corrilho e atroz sequella. Este é o unico partido que póde formar-se e existir em Portugal, em quanto dura e vigora a usurpação; os seus meios os maiores crimes, a sua politica a giria mais desleal e machiavelica, e o perpetuo enredo do engano; o estribilho protestante, o punhal do forasteiro mais atrevido e audaz, e a entrega da patria perdida ao mais ambicioso estrangeiro, e ao maior renegado do demonio. A sua authoridade sempre falsa não impera, pactua em toda a parte com os maiores scelerados, e consegue fins mediocres e resultados de dinheiro sempre ephemeros e fallazes: porque os juizes d'esta tontina roubam-se uns aos outros.
Subiu o primeiro usurpador ao throno, e foi este D. João I: a sua mais negra, e mais atroz usurpação foi a da casa de Bragança, mas primeiramente o rei não pôde usurpar, nas provincias nem em Traz-os-Montes, em segundo lugar a usurpação veio toda a pertencer aos caudilhos, que o governaram e dominaram e á sua lei mental e miseravel recurso; que só pôde communicar a seu filho com o mais tetrico e deploravel exito, justo e bem merecido castigo do Senhor pela abominavel traição de Coimbra. Por esta fórma D. João não reinava, e o cardeal romano cujo nome o infame usurpador dava ao summo pontifice, tinha o escravo sempre encerrado na sua possilga, que era o peor palacio da casa de Bragança, sempre a sorver quartilhos de vinho tabernal, cuja despeza faziam entre si os falsos possuidores dos bens para não soffrer a furia real, que era indomavel e grotesca. Se estivesse bem abeberado deixava-se vencer, e cahia ao chão, como Grão Lamma, depois de opiado pelo melhor tabaco e café de Moca, e pelos prazeres reunidos do seu abominavel harem.
A lei mental foi uma medida deficientissima para o seu fim, mas prova até que ponto é verdadeiro o principio e evidente em nossa doutrina. O padre santo durante o interdicto de vinte e sete dizia: entregai os bens á casa de Bragança;—disse então a abominavel facção: entregar os bens é o mesmo que entregar a corôa;—e logo faziam um processo com grande numero de testemunhas para provar que não havia successor á corôa, e que D. João I por esta falta de successor fôra justamente acclamado. Escreviam ao mesmo tempo uma Memoria protestante, que aitribuiam a João das Regras, e davam ao falso documento o cunho das côrtes de Coimbra, aonde não foi nem podia ser apresentada sem grande irrisão e escarneo de todo o povo. Alli ficava o corpo santo do duque de Bragança para desmentir todas as memorias, mas tal é a audacia de todos os herejes e fementidos, que nega a verdade conhecida, uma vez que possa fundar-se na apparencia do erro. Este João das Regras não existiu; o nome é de um anonymo; o effeito da Memoria foi contraproducente, o povo ria, zombou, irritou-se e condemnou ao desprezo a falsa e torpe oligarchia que usurpava os bens em nome do simulacro da realeza; e sustentava esta figura só para desfrutar o rendimento da casa de Bragança. Todos os histriões do torpe magnetismo das façanhas da estrada orçam pelo mesmo vulto e dimensões; os seus meios são analogos, a sua cobardia proverbial, a sua vangloria o mais vil commento e a mais ambiciosa tyrannia. Em 1811 outros da mesma chita allegavam no Brazil os grandes serviços que fizeram contra os francezes e obtinham os premios de lograr obeliscos devidos ao valente Ajax: alguns d'estes, se viram os francezes, foi para entregar e vender a patria e os penates, os templos e a sua santidade, as mulheres e todo o verniz do rosto vil e infame do idolo das suas abjectas heresias e traições: se algum militar brioso e valente do exercito appareceu no Brazil foi vendido tres vezes, ludibriado, atraiçoado e escarnecido, porque não assignava os mais falsos documentos e os mais caluminosos e torpes enganos que preparavam e reuniam para a historia de todas as façanhas e proezas do nosso exercito peninsular.
Porque razão não se escreveu ainda este vergonhoso commento da usurpação? porque de todo o modo ha de ser a historia mais catholica dos seculos modernos, e o infame hereje e protestante não póde attribuir ao Senhor a menor virtude nem hão de conceder ao povo a correspondente sombra de galardão. Na época de D. João I o povo venceu as batalhas, o rei gemeu na sua escravidão de toda a vida, os usurpadores conspiraram, escreveram seus anachronismos, e falsa historia, e o principio Divino triumphou, porque a luz da verdade é a luz da Providencia, e não ha obstaculo na força humana, que possa occultar a verdade santa que calou na consciencia do povo como queijo do melhor fermento do cordeiro e do novilho.
A casa de Bragança venceu o que D. Duarte apenas sonhava como possivel, e deixava entregue ao tristissimo evento das successões para se realisar no decurso de muitos seculos: era um engano absoluto; o partido usurpador é como a familia dos flamengos e dos ciganos—prova e reprova todas gerações e partos suppostos como põe e dispõe os seus monarchas pela ultima arma do veneno e do punhal. D. João I por fim da sua vida estava como o condestavel atormentado pelos remorsos; este deixou os bens usurpados aos outros aventureiros, e pediu esmola á porta do convento com bastante industria e sagacidade; aquelle seria morto na mesma possilga em que vivia, se tentasse restituir a corôa; porque a verdadeira estava na cabeça dos ambiciosos ministros da sua historica realeza.
A lei do remorso é a mais imperiosa que se conhece; ao pé da forca, no banco dos réos, no ultimo transe de vida, ou no meio da mais funesta desventura, chega a subjugar e a dominar, e rompe como o furacão através dos maiores obstaculos, e derriba as torres, e arranca as arvores com a sua tormenta e fracasso. D. João I fez uma confissão, e morreu;—quem estrangulou o monarcha? o processo começado das provas evidentes de testemunhas oculares contra os partidarios de Bragança. Quem são estes em vista do opusculo do anonymo João das Regras? Já ia o algoz para descarregar o ferro do cutelo sobre alguns infelizes, que choravam os males da patria, quando chegou novo interdicto de Roma expedido em virtude de uma queixa e de uma prevenção que o rei já se via obrigado a dirigir ao cardinalicio de Roma; onde dizia, que a sua consciencia vergava debaixo do peso de invenciveis remorsos, mas que não podia entregar á casa de Bragança uma corôa sem entregar a vida aos seus tyrannos e crueis usurpadores, e algozes, e d'estes tirava o seu seguro e pedia desaggravo e redempção.
D. Duarte viu-se brevemente no mesmo apuro; a lei mental era uma ficção e um engano; este documento prova que os usurpadores da casa de Bragança não contam com successor, e que são muito sujeitos á maldição da esterilidade. O que D. Duarte pedia para os falsos donatarios, e verdadeiros usurpadores veio para a familia real em pena de aleive e da calomnia do falso e fementido João das Regras: quasi todas as successões são actualmente da casa de Bragança por bom e legitimo direito de familia; mas a tyrannia e o roubo é o mesmo—o seu castigo providencial vai sendo identico da mesma catastrophe e represalia.
Esta é a analogia dos factos: os que escrevem a historia não pintam a sua verdade porque não são dignos de praticar as suas gentilezas nem tem a virtude necessaria para desmerecer a hipocrisia do embuste, nem o horror das suas traições, nem o abominio e esconjuro da sua aleivosa mordacidade e peçonha. Camões commandou um reducto no cerco memoravel de Diu, Barros e Couto foram dos mais valentes soldados da Asia; e o nobre Cesar das suas façanhas o animo real do senhor D. Affonso d'Albuquerque temia mais a calumnia da historia do que o feroz basilisco do turco, que tomava pela frente como crocodilo do Egypto, sem tombar ao impeto e sem estremecer do vulcão.
Chegado a este ponto, já entregava a descripção ou a lenda d'esta memoravel catastrophe ao mais innocente mancebo e ao mais simples academico, uma vez que fosse dotado de boa fé e acreditasse na Divina Providencia, e désse a esta philosophia o peso que os herejes attribuem ao dinheiro de todos os seus commettimentos e unicos recursos. Em regra, moeda vale tudo pelo peso, e pouco ou nada pelo cunho, e pelo signal da sua boa fé; o hereje só admitte da fé e do cunho o maior desprezo para fazer seu o proveito, e para continuar o lucro da sua torpe veniaga.
D. João IV tambem usurpou a casa de Bragança e o nobre titulo de duque; todos sabem com que falsidade e com que atroz engano e mais que feroz e brutal ardil: teve da heresia o mesmo fim e o mesmo tragico feretro: os dous primeiros usurpadores do mesmo nome escalaram os seus thronos pelos mesmos meios e falsos degraus, no fim a mesma ruina, na vida a excommunhão e o interdicto, na morte a corda e a traição, o mesmo desenlace, e a mesma reprovação e condemnação divina. O conde da Ericeira escreveu n'esta era a sua vergonhosa historia; o conde era verdadeiro sandeu; o author de «Portugal Restaurado» recebeu a falsa herança de uma casa; e trabalhoso no appetite fazendo do conde o fundo da sua ambição pelo veneno que propinava, e pela astucia mais que diabolica de que se servia no empenho. Apenas concluiu o seu trabalho, disse: Dai-me o premio;—e apenas se viu senhor do falso titulo e casa, disse: Dai-me o preço da obra;—e fez d'esta outra historia um thesouro para se enriquecer e empavesar de fidalgo: este era o verdadeiro João das Regras; porque a sua original possilga nunca se descobriu nem annunciou, e dizia-se que tinha nascido aquelle oraculo da historia ao pé da feira da Ladra de uma mulher, que vendia a chanfana do açougue pelas portas de Lisboa, e que apregoava pelas ruas maior engano.
Dizia alguem que o grande erro de D. João IV fôra o acclamar-se duque de Bragança: mas que faria o usurpador depois de matar como matou á traição em Lisboa o legitimo successor de Bragança e do throno? quem havia de sustentar a sua tyrannia, quem ousaria contemplar em frente sem desmaiar e sem horror o monstro de tantas vidas, que bebia o sangue humano, e se recreava com o vil officio de algoz e de executor da nobreza? D. João I principiou a considerar como proprios da corôa todos os bens da casa real de Bragança; D. João dispunha como duque e como senhor de todos os bens para imitar ou produzir a realeza e invicta memoria do senhor D. Manoel I. Esta questão tinha sido tratada e muito debatida na primeira época; todos se acostumaram a considerar a usurpação da casa e dos seus bens como prova heretica de infrene e perversa oligarchia, e D. João professou o erro em Inglaterra, e tinha no seu palacio um ministro de Calvino semelhante ao que foi expulso das Necessidades em nossos dias pelo clamor do povo e pela justa queixa da parte sensata e catholica do reino. Todos os herejes são monarchomacos, o seu rei é de taberna, o seu preito o juramento da loja que o falso rei presta ao veneravel, e se o rei tem o falso cargo jura como rei ao immediato sujeição e obediencia ás decisões maçonicas, e como são muitas as lojas, a cada passo se vê partida ou fraccionada a realeza, ou despedaçada a sua monarchia pelas seitas mais fortes ou mais ousadas, que empolgam o vislumbre do poder.
Entre nós só tem havido um partido legitimo que é o catholico e brigantino de todas as eras; só um partido usurpador e constante, que é o dos bens da casa que desfruta pela via directa e occupa pelo mais feroz engano. As seitas e os corrilhos, que se formam das fezes de todos os partidos estrangeiros e execraveis contam como elemento uma vez que o lisonjeie e afoute para maior roubo e façanha da contribuição e da injuria que se haja da fazer á casa da Bragança, e com estas promessas todas sobem, e todos descem, se as frustram ou illudem. Este facto é o que nos resta a provar para complemento da catastrophe e para sua prova real e exuberante.
Quando D. Affonso VI se sentia desprezado por todos os portuguezes recorreu aos estrangeiros, e sabe-se, que trazia comsigo alguns valentões, que o defendiam e faziam respeitar em Lisboa, e não podia ser esta força angariada contra o povo, mas antes devemos acreditar, que o rei se fazia forte contra o partido dos usurpadores da casa da Bragança a cuja frente estava a rainha viuva; e por isso teve a regente tanta difficuldade em conceder as redeas do governo ao presumido successor. Este conflicto nasceu e cresceu da mesma antiga causa de todas as discordias da usurpação, e pelo motivo da injuria que tinham feito á casa de Bragança e ao seu popular e heroico senhorio. D'esta vez o governo pontificio ainda não estava resolvido a ceder; não faria a menor concessão de reconhecimento sem a absoluta e total entrega dos bens de Bragança ou dos bens da corôa, e D. Affonso estava resolvido a todos os sacrificios, uma vez que achasse uma collocação em Roma e um modo de viver ou uma absolvição vantajosa para o seu arrumo e fim. Esta deve ser a ambição do usurpador que nasce; o seu throno não offerece encantos, nem póde servir de balisa para a gloria verdadeira e santa que se embebe na felicidade do povo e no heroismo e façanha.
N'este estado, privado do seu natural apoio, D. Affonso VI ainda que fosse tão corajoso e tão absoluto como foi o quinto do nome, devia fugir ou sahir do reino para não soffrer a perda da liberdade; tentou o impossivel, e quebrou pela reconhecida prevaricação e má fé da nova e falsa casa de Bragança, que seu pai organisou em Lisboa como partido protestante para sustentar a negra e atroz usurpação: estes factos são innegaveis. O Joannes à regulis da primeira usurpação era um hereje estrangeiro semelhante a um Ditzi, e talvez ministro da seita: D. João IV tinha na sua côrte um ministro protestante da convenção de Cromwell, e todos os usurpadores dos bens da casa de Bragança deviam ser da mesma seita e falso cunho: D. Affonso VI abraçava a doutrina catholica, e, consoante os bons principios de direito, devia perder o titulo de rei; e, se em vez de casar em França, fosse ao reino ceder da corôa, lisonjearia o reino catholico, e podia obter a liberdade, que outro Affonso achou no mesmo reino. D. Affonso conservou a corôa e por esta razão o povo portuguez não podia ingerir-se na questão para defender o preso; D. Pedro, seu irmão, era nimiamente cruel, mas não temia o partido de seu irmão, porque não o tinha: D. Pedro tambem não tinha o partido da nação, e por isso affectava grande humanidade para com seu irmão, e grande respeito pelas côrtes, que sempre o repelliram e despeitaram amargamente.
D. Pedro, depois do celebre processo que fez ao irmão para o privar de todos os seus estados até o dar por demente e por impotente, aceitou a mesma mulher, a celebre Saboya, e como esta tinha o tratamento de rainha, D. Pedro julgou que o mesmo throno o fazia successor do titulo de rei; e parecia logico que a deposição perpetua de Affonso o investisse na authoridade real, e o coroasse rei em vez de regente; o titulo de principe não lhe podia competir, nem o de infante, que pouco tempo depois começaram a usar por inaudita usurpação e roubo, e pelo mais atroz anachronismo os filhos segundos d'esta familia de D. João IV.
Dizem geralmente as suas historias que sendo duque de Bragança D. João IV e senhor da casa, instituira a do infantado a favor de seu filho segundo para prevenir a falta de successor pelo receio da morte do principe, e uma supposição e um embuste indigno, ou um meio de que se servia a atroz calumnia da usurpação dos bens para tirar a D. Affonso VI o que lhe tinha ficado da casa de Bragança e para os dar ao seu predilecto: e por esta razão veio a D. Affonso o desejo de restituir, e occorreu á facção o pensamento de depôr o insensato. Assim manejou a perfida intriga os seus aleives e falsidades e da mesma maneira em todas as eras procura colher e alcançar o seu unico fim que é o roubo pela pertinaz heresia e pelo mais atroz engano e enredo.
D. Pedro usou immediatamente do titulo de rei, mas o povo sempre lhe negou o tratamento; as nações não cessavam de o responsabilisar pela vida do infeliz e proscripto; e já se julgava que fazia guardar como rei um homem estranho, quando o deixou sahir de proposito em Cintra e o fez prender e reconhecer pelo povo como verdadeiro D. Affonso VI no meio do tumulto dos seus agentes e confidentes, que fizeram grande alarido d'aquella supposta revolução para declarar novamente como doudo o triste que se deixou cahir no laço. D. Pedro a cada passo reunia as côrtes do reino sempre na esperança de que o reconhecessem rei, mas jámais o conseguiu pela grande desaffeição e justo odio que tinha merecido e grangeado.
A casa do infantado foi uma falsidade d'este partido; mais tarde se assenhorearam da falsidade para tomar posse nas provincias de todos os bens de Bragança e de S. Bruno, e para os desfrutar e gozar por almoxarifes que nomeavam do infante. A casa do infantado mandava para as terras juizes, e assalariava por todo o genero de engano os cobradores da falsa e aleivosa renda, e por esta fórma constituiu as suas instituições e morgados: o povo reagia contra a usurpação, mas o rei e o governo, o infante e os seus almoxarifes conspiravam, e apesar do odio do povo que não podia ser mais justo nem mais bem merecido colhiam e recolhiam do roubo grandes interesses e mortificavam o povo com exacções de cruel engano e tyrannia, que desvirtuavam do seu fim primordial e applicavam para outro de maior escandalo e torpeza.
O nuncio de Roma teve ordem de visitar a D. Affonso VI, que cumpriu, mas jámais foi admittido a vêr o verdadeiro, e por esta razão ficou a figurar por alguns annos como prisioneiro o que já era cadaver; a sua mudança para a ilha é uma chimera, as suas cartas para Hespanha ficam abaixo de toda a critica: D. Affonso VI não era admittido a escrever; o mesmo governo de D. Pedro fingiu ou suppôz as cartas para dar ao preso a laia de hespanhol e não o quiz dar por brigantino; porque d'este partido se temiam muito; e porque o seu fim era desacreditar e dar como vivo e como existente o homem que dormia debaixo da lousa o somno do sepulchro. Com effeito, pouco depois d'esta falsidade, D. Affonso foi dado por morto na ilha para que ninguem o visse nem examinasse, e appareceu D. Pedro em côrtes a pedir o seu tratamento real. As côrtes disseram que tomasse o titulo e o tratamento de seu pai, isto é, que fosse usurpador hereje, e injusto possuidor dos bens de Bragança e de S. Bruno, e com isto se houve por acclamado e por installado na sua falsa e apocrypha realeza.
Veio então a questão romana do reconhecimento. A curia cedia em quanto aos bispos, depois de não haver nenhum no reino pelo grande alarido do povo, uma vez que os nomeados tivessem a apresentação real de Bragança. O governo passou pelas forcas caudinas, e deu então o ultimo testemunho e prova de sua torpe e nefanda ambição. O rei ficou de mero facto, e póde dizer-se que o escravo d'alheias vontades vegetava na mais sordida taberna, ou no ergastulo do seu captiveiro, ou na fetida jaula da mais indomita fera; por que estes reis sempre andaram presos, e a que chamam casa de Bragança de Lisboa governa o seu estado, como o domador ensina e conduz o seu ganha-pão pelo mundo dos seus espectaculos. Havemos de julgar que a familia não é livre, e que desde o seu nascimento cada individuo é obrigado a beber o veneno da maior heresia a torpeza para ficar doudo e bem sujeito á vontade imperiosa ou caprichosa dos seus verdadeiros senhores e tyrannos.
Não admira que estes sejam sempre estrangeiros e revesados de origem ou de má procedencia e de abstrusa memoria; por ahi pretendem alguns que a lingua do paço seja a franceza, outros que seja a ingleza; em tempo pretenderam fallar a italiana, jámais admittiram a portugueza vernacula, nem suscitaram as questões da côrte d'aldêa; nem deram ao povo fiel o ingresso e a influencia, que lhe cabe nas questões do estado para não ouvir verdades amargas, e a sincera queixa de tanta tyrannia e de tão inauditas usurpações e falsidades, e de tão grande subserviencia aos estrangeiros e a todos os inimigos da nossa fé e da nossa gloria e renome.
João das Regras, nome verdadeiro ou supposto, não era mais do que um fementido estrangeiro, as suas doutrinas não se ensinavam, nem corriam entre nós; os seus dogmas proprios da mais abjecta demagogia podiam apenas applicar-se ao imperio dos Tiberios e dos Caligulas, dos Neros e dos Heliogabalos; as nossas côrtes de Lamego ficavam semelhantes á lei regia d'Augusto e o santo corpo de D. Affonso Henriques seria como os Tusculanos de Cicero e de sua Republica, só para a posteridade; e estaria em algum recondito n'aquelle tempo de D. João I para se revelar e apparecer sómente nos seculos seguintes, e no grandioso, monumental e eterno d'el-rei o snr. D. Manoel. É justo confessar que estas falsidades causam tedio e nojo. D. João IV usava do titulo de Rei e do tratamento de magestade, sem lhe competir e por heresia de infame e vil protestante. Agora dizem os apologistas da mesma seita que Portugal sempre foi protestante; mas não dizem como se retractou a viuva, nem diz como precisou a ignobil memoria de D. João IV de ser absolvida como contrita á hora da morte para ter sepultura de corpo.
Como hereje deu em receber o titulo de magestade á imitação de Cromwel cuja seita seguia: entre os catholicos sempre se entendeu e teve por boa e por firme doutrina, que só o summo pontifice é senhor de conceder o titulo ao mais puro e santo monarcha legitimo. Antigamente se reservava esta rosa d'ouro só para um rei ou imperador que acontecia ser o que confirmava a eleição real, se ainda não tinham o titulo; e jámais o pretenderam nem aceitaram os reis de Hespanha e de Portugal por terem o mais nobre de catholicos e o mais santo e humilde de alteza e como vigarios do Senhor. Na Hespanha não havia herejes nem raças impuras que não estivessem separadas e bem extremadas para não eivar as familias, nem cansar o escandalo de philisteus, e de immundos entre bons catholicos e fieis. Durante a usurpação sempre procuraram os herejes tomar lugar e assento, e á medida que fugia a fé da sua pureza invadiam as raças, e vinha o armenio e o judeu, o cigano e o protestante invadir as rendas e fazer monopolio das reaes para cultivar as massas e para dar pasto á luxuria dos maiores desvarios e ameaças. E seria só pela necessidade de fazer proselytos, e instrumentos de tyrannia? É certo que o imperio de necessidade compelle até os tyrannos, mas o principio de desmoralisação é um systema, que os actuaes herdaram dos seus antecessores, e que estes tinham recebido de outros, e de muitas successões estrangeiras, que o demonio communica a todos da mesma fonte e pensamento do desprezo da santa lei e fé.
Outra sanha d'este abominavel systema foi o impio tratado de Methuen cujos artigos secretos são da infame propaganda protestante que invadiu o reino por consentimento do falso e perfido governo, e se obrigava este com todos os usurpadores dos bens da santa casa de Bragança a seguir o falso preito, e a prestar homenagem secreta ao demonio e ao mais infame ministro de Calvino, que, segundo dizem, era monarchico, assim como Luthero era republico, e sophistico orador de comicios; e já os protestantes se dividiam n'este ponto essencial do governo: mas os seus superiores e chefes sempre estavam accordes no ponto principal da injuria que haviam de fazer ao Senhor verdadeiro e ao seu santo vigario, e no odio á santa casa da Java por causa dos bens e da fé. D. João I fez com Inglaterra o primeiro convenio secreto, mas era só de pirataria e de heresia, cujos vicios já minavamos thronos de Hollanda e da França, da Bretanha e de Londres, como é sabido e se estendia por meio de ramificações secretas por toda a Europa, e bebia as falsas idéas da santa acclamação de D. João I. Esta seita ou partido foi inaugurado pelo mesmo demonio no tempo em que Juliano se fez truão e ridiculo para depôr o papa de sua soberana cadeira e para o entregar, como então se dizia ao mais desvanecido principe que havia de surgir para governar o mando e para resuscitar os immortaes.
Estes abominaveis e impios reformadores do mundo começavam as suas iniciações por um symbolo do demonio, e davam á sua falsa fé o caracter verdadeiro de diabolica, e alcunhavam de divina, de tyrannica, e protestavam fazer triumphar o inferno, e pelos seus meios da maior astucia progrediam e illudiam sempre até o grau de maior engano, a este como simples mação, áquelle como aprendiz, a outro como mestre, e aos mais adiantados como convivas do mesmo demonio; e não sabia o menor os maiores segredos dos outros graus, em quanto não obtinha os verdadeiros da maior abominação de seu secreto esconjuro.
Em nossos dias os mesmos fados ostensivos, e a mesma historia secreta revela todos os arcanos, e explica, o que parece inexplicavel, de atroz calumnia, e de sarcastico pensamento. A morte do ambicioso meteóro, que nasce sem o prestigio da duração, e que vem ao mundo para a conquistar dos que só podem communicar a falsa e perfida, morre asphyxiado fóra do seu elemento; porque as claridades da sua existencia não o habilitavam para conviver no espaço dos ares com os astros opacos da sua natureza, e por isso o precipitam mais depressa para que conheça o que é e o que póde valer como energumeno. Alguem julga que o meteóro póde fazer-se cometa, e que o cometa póde vir a ser planeta ou estrella sem que o Senhor o faça; o atroz engano de falsa ascensão precipita mais cedo este rustico presagio. Agora já dão ao timido o nome vil do seu catholico reinado e se lhe põe o nome de mechas, ou de põe mais...., mais adiante o fazem José do nabo, e o compellem a tomar novo Ditzy, ou a subir os degraus da forca sem levantar o espectaculo do cadafalso: os inimigos são sempre os mesmos e da mesma sorte unidos pela tyrannia do crime e pelo estupor das suas façanhas. Se agora diverge o maior attentado sempre triumpha e atrella ao carro de seu triumpho todos os seus sectarios, e escravos; mal dos que não comprehendem a necessidade de obedecer cegamente ao mais audaz partido e ao homem mais facinoroso. O sophisma é a apparencia da virtude; os que queimam no inferno o incenso podre ao demonio, são despojados da propria pelle, e victimas da nova crueldade dos monstros.
Alguem julgaria que Simão comprava de boa fé a S. Pedro o poder dos milagres: é um engano. O infame só aspirava a enganar o padre santo, se a sua tentação inclinasse a S. Pedro para a torpe venda, o demonio que fallava pela bocca do maldito teria conseguido o seu fim, ria do desventurado e cantava a sua victoria. Por esta razão S. Pedro condemnou o tentador com o triplice poder do seu divino amor e pareceu severo, mas foi sómente justo, porque Simão, o demonio apparente e ostensivo, já era escravo de outro mais negro e atroz, que persegue toda a humanidade para a sua ruina e perdição.
A catastrophe de Affonso termina com a injuria que Simão fez a Pedro. Quantos deslisaram da escola santa sem a comprehensão dos meios divinos e sem o alcance dos fins do sublime culto, e se embrenharam na mais damnada chorêa da usurpação que se fez ao Senhor! Esses hão de ter n'este mundo e no outro a mesma sorte—a catastrophe—e o mesmo exito e cruel engano.