RENAN
O snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos tratou com exemplar juizo e prudencia a questão da academia real das sciencias e Ernesto Renan. Estas linhas do Jornal da Noite compendiam todos os argumentos do esclarecido publicista: Merecem respeito as convicções. Mas a consciencia dos outros é tão d'elles como a nossa, igualmente livre, de todo o ponto respeitavel.
É aquillo que dizia eloquentemente Vieira de Castro, no opusculo da Republica: nós, que de tolerantes nos desvanecemos, somos intolerantissimos como frades.
O menospreço d'este canon de liberdade sem rebuço nem condições explica as diatribes desfechadas contra os seis academicos adversos á admissão do author da Vida de Jesus. Os adaís da liberdade forjam golilhas de phrases para o alvedrio dos que votaram segundo sua consciencia. Offendem e injuriam.
O author do romance intitulado Vida de Jesus é malquisto dos seis academicos que se dispensaram da sua camaradagem litteraria. Fruiram o indisputavel fôro da sua consciencia, rejeitando-o, como romancista indiscreto que enreda as suas novellas com o sacratissimo nome de Jesus Christo. Se Renan escreveu sobre linguas orientaes um livro mui dilecto do snr. Soromenho, tambem orientalista, isso não é motivo bastante a que as almas profundamente christãs se devotem á apotheose do depreciador de Jesus, descontando-lhe as falsificações historicas do romance nos descobrimentos linguisticos que fez ácerca do syriaco e do chaldeu.
Por outro lado, os academicos vencidos na votação e revelados no ulterior protesto, merecem igual inviolabilidade na sua consciencia, mórmente quando, á imitação do snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, declaram que estremam entre o author da Vida de Jesus, e o author da Historia geral das linguas semitas.
Temos em conta de veneravel e honroso o proceder dos academicos que afastaram do seu convivio o escriptor que atirou um livro corrosivo ao coração ulcerado da Europa como quem arroja petroleo ás linguas de um incendio. A França lá sabe o que deve aos discipulos de Salvador e de Strauss, e nomeadamente a Renan, o compilador de Reville, de Reuss, de Schérer e Colani. Se alguns homens illustrados pela experiencia e receosos das fatalidades congeneres de certos livros, reprovaram que Renan recebesse publicamente em Portugal a consideração que o snr. Soromenho lhe faculta por sympathicas affinidades phoneticas, o que temos a recear d'ahi é o espectaculo das vaias e satyras com que alguns escriptores estão provando que entre nós é mais urgente um compendio de civilidade que a convivencia academica do sabedor de linguas do Oriente.