CORRECÇÕES

Convém fazer algumas ao artigo O Decepado (n.º 4, pag. 71). Ministrou-m'as o snr. J. F. Torres; e eu, trasladando-as, ajunto á gratidão o contentamento de encontrar quem ainda se entretem com cousas tão remotas e alheias das novissimas charadas, das capitações, do don-juanismo e dos bancos.

Transcrevo a carta do cavalheiro, que não tenho o prazer de conhecer; e, se não illido as palavras que encarecem os meus estudos, é porque o appellido que a subscreve ainda não exercita alçada litteraria que levante turbilhões de gloriosa poeira á volta do meu carro triumphal. Eis a carta do snr. J. F. Torres:


«Deliciei-me com a leitura das veridicas noticias historicas do meu conterraneo Duarte d'Almeida, o Decepado. Ora, v. incansavel em revolver e pesquizar tudo quanto possa esclarecel-o em tão gloriosa e ardua tarefa, não levará a mal, e relevará a um ignorante o arrojo de lembrar a v. umas insignificantes correcções, que em nada alteram a verdade do facto, nem desdizem do eminente grau litterario de seu author.

«Não existe (se é que existia) casa nenhuma acastellada no lugar de Villarigas (hoje por corrupção Vilharigues) no concelho de Vouzella[4]; mas sim um castello ou cubello quadrado e muito alto, em parte mandado demolir pelo fallecido procurador da casa Penalva, Martinho do Banho, para com a pedra mandar fazer escadas e outras toscas obras que conduzem á capellinha de Santo Amaro, pertenças da mesma casa Penalva. Existe outro igual monumento no lugar de Bandavizes, freguezia de Fataunços.

«A casa da cavallaria sita na villa de Vouzella, e que em tempo devia ter sido uma vivenda ostentosa, como se vê do que ainda hoje existe, pertence actualmente por emprazamento a João Corrêa d'Oliveira.

«A capella da casa é hoje adega, palheiro ou cousa semelhante; e nada alli existe que faça lembrado o nosso celeberrimo S. fr. Gil[5]. Ha porém na villa uma elegante capella do santo, onde se celebra missa todas as segundas feiras; e onde se conserva a pia em que se baptisou o santo; e bem assim o queixo inferior do mesmo, reliquia muito venerada pelos habitantes da villa. O corpo, como v. sabe, jaz enterrado em S. Francisco de Santarem.»

Outra correcção a respeito do prestidigitador Herrmann, mencionado como fallecido, ha dous annos, no artigo intitulado: A exc.ma madrasta d'el-rei D. Luiz I calumniada.

O snr. Comparse Herrmann está vivo em Vienna d'Austria, e é banqueiro opulento. Quando se retirou rico do theatro, declarou elle aos seus admiradores que morrera na rampa e ia resuscitar na barra, a mais eloquente de quantas conversaram com o genero humanal depois da outra biblica.

João de Deus, o excellente poeta, cantava d'est'arte, ha 15 annos, em Coimbra o dadivoso prestigiador:

Herrmann! Herrmann! espantas-me! Não scismo
Nos prodigios da milagrosa vara
Que o Senhor Deus te deu:
Teu coração, Moysés do christianismo,
Tua alma é que eu admiro, e te invejára,
Se o que é teu fosse teu.

Tanto era d'elle o que era d'elle que está banqueiro; e João de Deus, que tem o condão prodigioso de abrir fontes de lagrimas, e não invejava a varinha que tirava de uma manga da casaca trezentas jardas de fita, ainda não é banqueiro, segundo me consta.

Pois tambem Herrmann era poeta, e, se é licito acredital-o, tinha talento. Elle o disse aos academicos n'estas quadras que, entre outras, sobrevivem ao prestigiador, na pag. 295 do tom. VIII do Instituto:

Le cœur est ulcêré, quand pour prix d'un bienfait
On s'apperçoit alors des ingrats qu'on a fait.
Et pourtant chaque jour j'adresse à l'Eternel
Une promesse sainte, dans un voex solennel!
Si, par lui, mon talent me donne la richesse,
J'ai ma mission aussi, soulager la détresse,
Grâce à vous, tout s'eclaire, un instant a suffi,
Pour ramener enfin le calme en mon esprit.

N'este poema queixava-se o gentil allemão das suas illusões perdidas, da sua infinda tristeza, e das angustias de coração com que entrára n'aquelle recinto da charmante jeunesse. Queixava-se outro sim, de ingratidões que lhe ulceravam o peito. Era um romance de amores começado no Porto, romance que bifurcou em dous fios de ouro: um foi prender-se á orla de um throno não sei aonde, outro á carteira de uma casa bancaria em Vienna d'Austria. Brilhantes desenlaces!

E foram os rapazes de Coimbra—aquelles viventissimos rapazes de 1859, Corvo, Vieira de Castro, João de Deus, Northon, Victorino da Motta, e dezenas de galhardos espiritos que lhe degelaram as Maldades do coração retranzido. Gloire à vous! exclamava Herrmann.

[4] Existia no seculo XVII, segundo m'o affirma um escripto nobiliario de testemunha coeva e ocular.

[5] Em 1780 ainda se via n'esta casa a capella, no local onde nascera S. fr. Gil.