CAPITULO V
TENEBRAE ERANT
Portugal ora olhado com desdem o sobrecenho pelas mais nações da Europa, como tendo, desde o ápice de sua grandeza e poderio, baixado rapidamente aos termos derradeiros da sua degradação. Quando lord Tyrawley foi mandado pelo gabinete inglez a Portugal, pouco antes da guerra de 1762, a descripção, que fizera d'este reino, desenhava-o incapaz de nenhuma resistencia, e pouco distante da barbarie.
LATINO COELHO.
Nous sommes au seuil d'un monde nouveau.
L. JACOLLIOT.
Dans l'histoire humaine, parfois c'est un homme qui est le chercheur, parfois c'est une nation. Quand c'est une nation, le travail, au lieu de durer des heures, dure des siècles, et il attaque l'obstacle éternel par le coup de pioche continu. Cette sape des profondeurs, c'est le fait vital et permanent de l'humanité. Les chercheurs, hommes et peuples, y descendent, y plongent, s'y enfoncent, parfois y disparaissent. Une lueur les attire. Il y a un engloutissement redoutable au fond duquel on aperçoit cette nudité divine, la Vérité.
VICTOR HUGO.
Foi em Alcacer-Quivir que rolou a corôa de Portugal pelos areaes d'Africa. Deus sabe o que havia de grandioso, que sonhos esplendidos de futuro iam na mente de Sebastião--o Desejado!
Os formosos palmares da India, a opulencia fascinante da Asia, as sumptuosas magnificencias do berço da humanidade, as lendas fabulosas do Preste João, os riquissimos e legendarios templos de Brahma, e dos deuses mysteriosos da cosmogonia secular d'aquella raça, e todos os sonhos e sedenta avidez d'uma nação pobre, habituada a lutas heroicas, e obscuras com os musulmanos d'Africa--fascinaram, e enlouqueceram, por tal fórma, os guerreiros e fronteiros de Ceuta, Tanger, e Arzila, que, aos primeiros descobrimentos dos navegadores do seculo XV, os portuguezes invadiram o Oriente, abandonando aquella escóla de valor e de heroismo, onde expirou o infante santo, e onde a cruz do Redemptor era o incentivo e estimulo das mais nobres façanhas, e dos feitos mais esforçados.
Quiz D. Sebastião, com a mystica lenda do Golgotha, salvar Portugal do ignobil desdouro, do scepticismo miseravel, da louca ambição de riquezas, e da cobardia e enervação, que ia corroendo e gangrenando os nobres na sordida mercancia das especiarias da Asia?
Sabe-o Deus.
Sabel-o-hia a historia--se os aios, e confessores de principes e de reis, em vez de serem bonzos, fakires e derviches d'um credo intolerante e sangrento, e que tem no seu proprio symbolo o germen da sua total aniquilação, fossem chronistas severos e verdadeiros da corrente das idéas, e das leis immutaveis do progresso, na marcha logica e fatal do desenvolvimento da humanidade.
Havia, de certo, um profundo pensamento politico detraz d'este fervor religioso, que arrastava a christandade para lutas e pelejas com agarenos.
Uma geração enervada e corrupta, uma nobreza effeminada e devassa deixou abater o pendão das quinas, em terras de berberes, quando as intrigas, a sordida cobiça, e traições de Castella almejavam por esta derrota d'um principe christão.
Os Philippes de Hespanha iam projectar a sua sombra sinistra n'este estacionamento inexplicavel das gerações europêas.
A historia um dia dirá--a historia escripta pelo povo--se foi sómente o fanatismo religioso que arrastou o moço rei aos campos de Alcácer-Quivir, ou se o herdeiro do sceptro de D. João I quiz arrancar ás devassidões e torpezas da India uma nação, que cobrára em Africa pundonorosos alentos, esforços guerreiros, e energicos brios com que escrevêra a mais esplendida e brilhante pagina dos feitos memoraveis nos seculos XV e XVI.
Não foi a purpura real que rasgaram os leões africanos, não foi o throno do Occidente que cahiu despedaçado e partido nas vastas planuras da Lybia. O sôpro ardente das tempestades do deserto varreu mais do que um throno, abrazou mais do que uma purpura; abateu, humilhou, e arrancou a seiva a um povo cheio de pundonor, e coroado de gloria, arremessando-o de abatimento em abatimento, de humilhação em humilhação, de desventura em desventura até á invasão franceza, até á fuga do rei portuguez, até á mais ignobil vassallagem prestada á soberba Albion, pela nação mais cavalleirosa, emprehendedora e aguerrida dos extremos da Europa.
Dizia a Polonia, quando se debatia nas vascas da mais dolorosa agonia--a agonia d'um povo que vai morrer: «Deus está muito alto, e a França muito longe!»
E nós?--Tratados como os rajahs do Indostão, como os nababos, e como os parias, tambem, da India ingleza, dobravamo'-nos, submissos e obedientes, como colonia britannica, á fé punica, á avidez implacavel e inexoravel politica da nossa fiel alliada.
A Veneza dos inquisidores e dos doges immergira-se nas lagoas do Adriatico, quando nós invadimos o mar Vermelho, para deixar erguer este colosso da Grã-Bretanha, a quem Cesar appellidára barbara nos seus formosos Commentarios. O leão de S. Marcos escondeu as garras, ao tremularem as nossas quinas no berço da nossa raça, na vastidão do esplendido Oriente, para mais tarde os ferozes leopardos bretões serem a taboleta do commercio da Asia.
Na immensa grandeza do nosso heroismo, nós, cavalheirosos, desinteressados, e imprudentes avassallamos os reis de Calecut e Cochim, escreviamos Os Lusiadas, empenhavamos as barbas de D. João de Castro, deixavamos agonisar, cheio de affrontas, Affonso d'Albuquerque, na barra de Gôa, algemavamos Duarte Pacheco, enchiamos de odio o nobre coração de Fernando de Magalhães, e recusavamos, com desprezo e altivez, a nobilissima dedicação de Christovão Colombo, a quem Americo Vespucio, mais tarde, roubou o nome e parte da gloria.
De affronta em affronta, de vilipendio em vilipendio, de ingratidão em ingratidão degeneramos tanto, que, em 1817, viviamos como parias e ilotas da soberba Albion, sob o mando e dominio do marechal-general Beresford.
Trasbordava o calix das humilhações.
Portugal era um paiz conquistado. Pouco importava que fossem as aguias do imperio ou os leopardos britannicos que subjugassem este solo.
Haviamos tocado os extremos da ultima abjecção.
As industrias fabris jaziam completamente arruinadas, a agricultura estava reduzida á maior miseria, o fanatismo religioso campeava sobranceiro por sobre este ignorantissimo povo, as arcas das rendas publicas e particulares iam caminho do Brazil, o paiz achava-se recortado em bens vinculados, entregue aos morgados, aos possuidores de bens da corôa e ordens, e aos opulentos mosteiros de todas as religiões, que escravisavam o solo; o governo fomentava as intrigas politicas, enganava a corôa, escondida n'outro hemispherio; e o exercito, governado e dominado por officiaes inglezes ás ordens da Grã-Bretanha, curvava-se aqui ao mando e poderio do muito alto e poderoso lord Beresford.
As citações, que vou dar em seguida, serão mais judiciosas do que todos os meus commentarios.
Diz Gervinus, na sua Historia do seculo dezenove: «Esta ruina da economia politica de Portugal caminhava parallela com a sua decadencia moral e intellectual.»
Era assim.
O governo para sustentar uma dignidade ephemera, um simulacro de authoridade, que não tinha, carecia d'um exemplo efficaz e energico, embora o sangue das victimas espadanasse a jorros encharcando o solo da patria.
Inventou a conspiração de 1817.
Presentiu o desgosto profundo que ia no povo, apoiou-se nos maus instinctos, e na perfida politica do regulo da Grã-Bretanha, revolveu, com a sua abjecta espionagem, as ultimas camadas da plebe, escutou e deu vida a todas as invejas, a todos os odios, e a todas as ruins paixões, que fermentam sempre no coração de todos os intrigantes, e de todos estes reptis immundos e repugnantes, que se criam e desenvolvem n'este torrão luxuriante e vivificador. Aqui, como nos juncaes e densas selvas dos tropicos, existem, com face humana, o tigre real de Bengala, a vibora dos pantanos do Indostão, a hyena das margens do Ganges, a mosca venenosa dos tremedaes e terrenos paludosos da Zambezia, e os cascaveis hediondos das florestas da America, ao lado das virgens mais puras das creações do budhismo. Estas regiões, que vivem em maior contacto com o nosso astro supremo, mais aquecidas pelo sol, não admittem, nem consentem transições. Cortam bruscamente os crepusculos--não teem longos esvaimentos de luz--não desenham penumbras. Quando o sol se immerge no oceano adensam-se rapidamente as trevas.
Onde não ha a nobreza do sentimento, o estimulo das mais nobres aspirações, e o exemplo tocante da mais completa abnegação--é porque as sombras do cynismo se espalharam sobre a intelligencia do homem, é porque a ignorancia e os maus instinctos sepultaram, e apagaram a luz viva, o facho ardente, a idéa primordial, que vinha irrompendo na alma humana; e a consciencia do individuo, o senso moral confundem-se nas trevas, que escondem para todo o sempre estes arreboes divinos do ente creado.
Assim foi, e assim será sempre.
O tenente-general Gomes Freire de Andrade era a synthese d'estes soffrimentos, que minavam todos os membros corroidos da nação. Era o alvo de todas as invejas. Era a voz da patria, n'este estertor em que se debatia, e agonisava um povo inteiro. Por isso foi o martyr. Parecia, talvez, que, ao torturarem aquella alma nobilissima e generosa, Portugal ficaria sujeito e submisso como o ultimo ilota dos banquetes de Sparta.
Diz o author da Memoria sobre a conspiração de 1817 (livro que não foi estranho ás solicitudes de Beresford): «O tenente-general, Gomes Freire de Andrade, ha sido preso pelo desembargador ajudante do intendente, João Gaudencio, acompanhado de um forte destacamento da guarda da policia, commandado pelo tenente-coronel da mesma, Joaquim José Maria de Sousa Tavares. Depois de cercarem a casa do tenente-general (que morava no alto da calçada do Salitre) arrombaram a porta da rua, e foram arrombando as de mais até chegarem ao gabinete onde elle se achava; assim que foi arrombada esta, os soldados entraram no quarto, apontando as armas contra o general, o qual não fez a menor resistencia, nem se mostrou assustado, e por detraz dos soldados gritou o dito tenente-coronel:--«V. exc.ª está preso»--ao que Gomes Freire respondeu: «Assim se entra com tanta insolencia e desafôro em casa de um tenente-general?--e vossemecê não me póde prender, porque não tem a minha patente.» Então appareceu o desembargador, e mostrando-lhe a ordem, o general se deu á prisão sem nada dizer ao desembargador; mas voltando-se para o tenente-coronel, chamou-lhe um fraco, e insolente, ajuntando, que o seu comportamento não era nem de um official, nem de um cavalheiro, mas sim, de um esbirro, aguazil ou vil agarrador.»
O tenente-general foi conduzido logo para a torre de S. Julião, acompanhado pela mesma escolta de cavallaria da policia, que o fôra prender. As outras victimas d'esta perseguição foram conduzidas uma parte para o Limoeiro, e a outra para o Castello. Começou immediatamente o processo, diz o author da Memoria, «com aquellas tenebrosas formalidades do costume.»
«Parece, que os governadores do reino, acrescenta o mesmo apologista de Beresford, projectaram implicar, na conspiração, todos os maçons, para com este pretexto se desfazerem d'algumas pessoas a quem não eram affeiçoados.» Esta infernal lembrança era uma inspiração do secretario D. Miguel Pereira Forjaz.
Vejamos os maçons.
A paginas quarenta e uma dos Annaes e codigo dos pedreiros livres, lê-se o seguinte:
«1814
«N'esta época foi iniciado José d'Andrade Corvo, sendo capitão d'infanteria n.º 10, ás ordens do conde de Rezende, na loja Virtude ao oriente de Lisboa. Como então trabalhasse sómente a dita loja, e a Regeneração, ás quaes se tinham reunido poucos membros, receosos de que o governo renovasse as perseguições de 1809 e 1810, e houvesse falta de irmãos para os differentes cargos da loja, conferiram-se a José d'Andrade os graus de companheiro e mestre, e pouco depois elegeram-no secretario. Incansavel nos trabalhos da maçonaria, Corvo recrutou muitas pessoas, e encarregou-se de propôr á viscondessa de Juromenha, D. Maria da Luz, o ser iniciada na maçonaria, o que se fez no fim do mesmo anno, na quinta que antes era do marquez d'Angeja, no Lumiar, em sessão magna, a que assistiram alguns personagens respeitaveis, e que n'aquelle tempo occupavam postos e empregos eminentes na capital. Esta iniciação teve por fim o saber-se pela viscondessa quaes os sentimentos do marechal Beresford a respeito da liberdade; mas por fim ella, Corvo, e João de Sá atraiçoaram todos os maçons, e só serviram Beresford. O refalsado Corvo continuando a fazer muitos e valiosos serviços á maçonaria, e a distinguir-se mesmo entre os mais diligentes, obteve alguns dos graus superiores, e na installação da loja Philanthropia ao oriente de Santarem, foi elle um dos tres deputados mandados pela grande loja para a installação. Esta loja nomeou-o depois seu representante, e em consequencia d'isso lhe deram o grau de Rosa-Cruz. Entramos em todas estas particularidades porque este homem de execranda memoria, pagando tantos favores com a mais negra ingratidão, e perfidia, atraiçoou a ordem, e denunciou o infeliz grão-mestre, Gomes Freire de Andrade, para o levar ao patibulo.»
Digamos quem era Corvo. Depois veremos Gomes Freire.
Continua o author dos Annaes:
«1824
«Em 30 d'abril o infante D. Miguel prende el-rei D. João VI, no paço da Bemposta, e assoalha que os pedreiros livres o queriam matar.
«Appareceram tambem duas cartas, que por serem pouco conhecidas, as vamos transcrever:
«Carta de José d'Andrade Corvo a seu irmão em Torres-Novas
«Meu Francisco.--Saberás que o bravo infante acaba de salvar a patria, descobrindo uma facção que tentava assassinar el-rei e toda a familia real: toda a tropa d'esta capital esteve hontem em armas, e o dia 30 d'abril será um dia memoravel nos fastos da historia portugueza. Já estão presos os malvados, e entre elles os condes de Villa-Flôr, Paraty, e da Taipa, etc.
«Eu appareci immediatamente a cavallo n'aquelle dia, e andei sempre ao lado do infante, o mais bravo homem que tenho conhecido, e portei-me como Corvo; porém, meu Francisco, qual foi o meu desgosto por tu aqui não estares? Quando vi entrar o teu regimento, e te não vi, correram-me as lagrimas. Vai logo ter com o juiz de fóra, e faz com que ahi se acclame el-rei, e que se ponham luminarias, e se cante Te-Deum. Paiva Raposo foi quem descobriu tudo ao infante, e agora levará o diabo os pedreiros livres, e triumpharão os homens de bem.--Teu mano, etc.»
Parece que o judas de Gomes Freire sentia lagrimas nas faces. É para crer que o Rosa-Cruz da maçonaria desejava que o diabo levasse os pedreiros livres. Aqui fica José d'Andrade Corvo.
A segunda carta que apontam os Annaes, diz assim:
«Carta da rainha a el-rei, estando em Salvaterra.
«Meu amor.--Agora me dizem, que os nossos inimigos teem espalhado em Lisboa, que eu pretendia fazer esta manhã uma revolução para ficar regente com o nosso filho Miguel, e mandar-te para Villa-Viçosa: isto é uma aleivosia muito grande, e n'ella por certo entrará o dr. Abrantes; e por isso te peço ordenes ao intendente, que proceda rigorosamente a este respeito, pois tu bem sabes que eu não desejo senão viver socegada, e que tu sejas feliz. D'esta tua--C. J.»
«Esta carta escripta de Queluz--continua o author dos Annaes--e sem data, confirmou mais el-rei na existencia da conspiração contra a sua pessoa, por se recordar de que outra identica lhe tinha escripto a rainha para o Alfeite em 1807, por occasião da conspiração tramada em Mafra.»
O livro a que me refiro tem a seguinte nota:
«Estas cartas acham-se hoje impressas na Policia secreta, publicada pelo intendente da mesma.»
Voltemos a Gomes Freire. Tinha nascido em Vienna d'Austria em 27 de janeiro de 1727, filho de Ambrosio Freire d'Andrade e Castro, embaixador de Portugal, e da condessa de Schafgoch. Descendia, por tanto, d'uma familia entroncada na antiquissima casa dos condes da Trava, e na dos Pereiras, Forjazes, e Bobadellas, e entre os seus antepassados contava Jacintho Freire d'Andrade, o panegyrista de D. João de Castro. Reputado o melhor general de infanteria portugueza, servira na Russia com um valor inexcedivel, combatêra no Roussillon em honra da patria, e depois de ter deixado o seu nome ligado ás glorias do imperio voltára para Portugal em seguida á paz do continente.
Os odios e invejas accendiam-se, e abrazavam em torno d'esta illustre victima.
Um dia o povo ha de narrar este prologo afflictivo da liberdade de Portugal.
Na madrugada de 25 de maio de 1817 entrou preso, na torre de S. Julião, o heroico martyr portuguez. Posto em um calabouço, sem meios de subsistencia alli, sem providencias tomadas para a sua alimentação, sem uma manta que o cobrisse ou lhe servisse de leito, arremessado para uma masmorra lageada e humida viveu assim cinco mezes--nos primeiros dias da caridade ingleza, mais tarde dos meios que pôde obter pelos seus haveres. A generosidade do governo viera, no fim de seis dias d'encerramento, em seu soccorro, arbitrando-lhe a sumptuosa somma de doze vintens diarios, no caso que elle não possuisse dinheiro ou qualquer outro meio para se sustentar á sua custa.
Desamparado, na carencia absoluta de todos os confortos, coberto de pustulas ou lepra hedionda, que lhe alastrava pelas faces, abandonado de tudo e de todos, offendido, injuriado, e calumniado até pelo proprio clero, é para crêr, e affirmam-no alguns, que perdera a razão.
Continuemos as citações:
«Um desembargador e um escrivão foram repetidas vezes interrogar o réo na sua masmorra sem outras testemunhas, senão os tormentos, e angustias que o cercavam. Quem tolhia, que entre o desembargador, e o escrivão houvesse intelligencia, para fazer constar o que o preso nunca disse, nem imaginou dizer? Quem nos ha de garantir, que isto não aconteceu assim? O seu amor pela justiça? A sua humanidade, e compaixão?... Mas sabem todos que desde o momento da prisão até ao momento da morte, os officiaes, e ministros de justiça, que tiveram contacto com elle deram publicamente bastantes provas de serem seus algozes. João Gaudencio disse publicamente a alguem, que lhe representou a inhumanidade, com que era tratado Gomes Freire: «Nós não conhecemos essa palavra.» Acresce mais a difficuldade, que todos reconheciam em Gomes Freire de se explicar bem em portuguez; este inconveniente, unido ás dôres que soffria o desgraçado general, procedidas de uma inflammação do rosto, por lhe não quererem permittir que se barbeasse (o que o tinha continuadamente em um estado de delirio), é que deu causa a que o marechal Beresford recommendasse ao marechal Archiball Campbell, que vigiasse sobre o estado das suas faculdades mentaes; dava toda a facilidade ao desembargador, que lhe fez as perguntas de o surprehender á sua vontade, fazendo-lhe dizer o que elle desembargador quizesse, sem que o réo d'isso se precatasse.»
Basta. Turva-se a intelligencia perante tantos horrores. Apressemos o desenlace d'este medonho drama. Digamos rapidamente como terminou este supplicio hediondo.
A execução de onze desgraçados fez-se no dia 18 de outubro no campo de Santa Anna em presença da plebe fanatisada e escrava.
O tenente-general Gomes Freire foi enforcado sobre a esplanada da torre de S. Julião ás nove horas da manhã do mesmo dia. Levaram-no d'alva vestida, e descalço. Os odios dos seus algozes careciam d'estas ultimas affrontas.
Ainda a 16 d'outubro escrevia elle a seu primo, Antonio de Sousa Falcão: «No caso que se não attenda aos embargos, então, peço-te, que o letrado faça um requerimento em meu nome, para que em vez de me enforcarem, me fuzilem. Quero a morte do soldado. Peço-te que ponhas n'isto toda a efficacia possivel, que é a ultima vontade, que te pede um amigo verdadeiro com o ultimo adeus.--Gomes Freire.»
Baldado pedido--derradeira illusão d'aquelle grande espirito! Quizeram que a morte fosse affrontosa na forca, e assim terminou a existencia um dos mais distinctos generaes portuguezes.
O illustre soldado subiu ao patibulo sereno e impassivel. Proferiu algumas palavras. É para crêr que foram as ultimas aspirações d'aquella nobilissima alma, pela independencia e liberdade da patria. Mas os padres que o acompanhavam romperam em vozeria tão escandalosa, e descomposta que não se poderam recolher as intenções solemnes e derradeiras do martyr.
Descido da forca, foi o cadaver queimado em presença d'alguns dos seus verdugos, e as cinzas lançadas ao mar na conformidade da sentença.
Todos os actores da cruenta tragedia receberam o premio do serviço.
Has a patria soube guardar-lhes os nomes execrandos para os transmittir immorredouros ás gerações futuras.
Quizera e devêra, talvez, deixar, aqui, impressos os nomes dos ignobeis judas d'este torpissimo martyrio. Mas a penna recusa-se-me a este sacrificio.
Não é bom tocar em nomes de carrascos. Ennodôa e macúla remexer os tremedaes do cynismo que se transmitte e contagía como o virus das febres paludosas e epidemicas do Mexico e do Ganges.
A urna cineraria d'este grande vulto foi o oceano.
Aceitemos ainda o oceano, como o vasto salão da nossa fiel alliada--a Inglaterra.
VISCONDE D'OUGUELLA.
[UMA VISCONDESSA QUE NÃO ERA]
(EPISODIO DAS PODRIDÕES MODERNAS)
Como quer que eu andasse jornadeando, ha cinco annos, por aldêas do Minho, intransitadas e menos conhecidas, encontrei um sahimento, que, ao principio, cuidei ser procissão.
Afóra a cleresia, que era numerosa, realçavam com as suas côres rubras, amarellas e roxas os balandraus de tres irmandades. Seguiam-se as alas dos visitantes da familia anojada mui bem postos e quasi serios com as suas casacas de gola enroscada e canhões arregaçados para evitarem os pingos de cêra. A espaços, palmilhava o chão juncado de rosmaninho, espadanas e hortensias, um anjo que atirava as pernas compassadamente ao rythmo da musica, bamboando as saias, as plumas e as azas relampejantes. Seriam seis os anjos, de varios tamanhos e significações imaginosas, parecendo-me todos tão pouco celestiaes, quanto alguns d'elles tinham escanhoado as queixadas para se darem o imberbe rubor de quem fingiam ser. Eram deveras funebres e apropriados ao cortejo. Na vanguarda do prestito ia a banda musical trovejando marchas funebres de metal e bombo; no remate negrejava o esquife, roçagando baeta-crepe, levado á mão por quatro sujeitos de casaca e catadura adequadas.
Apeei, e desviei-me a um recanto da estrada, em quanto perpassava o sahimento; depois, perguntei a um homem retardado da comitiva quem era o defunto.
--Era a snr.ª viscondessa--disse elle.
--Viscondessa de quê?--volvi eu.
--De quê?!
--Sim; pois ella havia de ser viscondessa de alguma cousa.
--Isso não sei, nem me consta. Acho que era só viscondessa.
Não prosegui na ociosa averiguação; mas, d'ahi a pequena distancia, encontrei uma casa grande com seu portal de ferro, e na cimalha da padieira esta legenda em letras bronzeadas: Viscondessa do Salgueiral.
Eu não conhecia este titulo.
Parei defronte da vetusta capella, ornamentada de pedra de armas, por onde inferi que o titulo, se era moderno, acrescentára uma corôa a fidalgos antigos. Compunha-se o brazão das quinas de Portugal em campo de prata, e um cordão de S. Francisco á volta do escudo; timbre uma aguia de azul, de azas abertas, com cinco bezantes de prata no peito. Eram as armas dos Eças.
Em quanto alli me quedei a esboçar o brazão, não ouvi chorar ninguem, como é costume, em quanto dobram os sinos, e reboam gementes nas quebradas dos montes. Acertou de passar então um pegureiro que vinha do pasto com a mundice[1], e perguntei-lhe se a snr.ª viscondessa, que morrêra, era nova.
--Era já velhota--respondeu o rapaz, tangendo um boi que se preparava para escornar o meu Terra-Nova.
--Ella não tinha familia?--tornei eu.
--O quê?
--Se não tinha filhos...
--Filhos, acho que não; tinha o snr. doutor.
O pastorinho foi andando, e eu tambem, em sentido opposto.
Ao cahir da tarde, cheguei á aldêa onde havia de pernoitar em casa do abbade, meu condiscipulo em latim.
Disseram-me que elle ainda não tinha recolhido do enterro; mas, tendo-me visto no caminho, mandára por atalhos avisar que me hospedassem.
Não se demorou o abbade.
--Cá pela aldêa--disse-lhe eu--os cadaveres titulares levam tempo a enterrar.
--Não foi isso. É que eu, na qualidade de testamenteiro da defunta, fiquei presidindo á arrecadação do espolio miudo. Bem sabes que dez contos e quinhentos mil reis em cruzados novos e peças levam tempo a contar...
--Tambem herdaste?
--Herdei tambem um relogio de algibeira de repetição com musica, uma livraria padresca em latim que deve pesar vinte quintaes, e duas imagens de martyres de pau preto, que parecem martyrisadas a machado; mas o ditoso herdeiro d'esta senhora é... Olha lá, não te recordas dos nossos condiscipulos na aula do padre Lixa ha vinte e cinco annos?
--De dous ou tres.
--Lembras-te d'um rapazinho louro, que entrou quando nós iamos sahir do latim, chamado Cordeiro, que andava sempre a lagrimar e a babar-se de saudades da mamã?
--Não me recordo d'esse rapaz que se babava de saudades...
--Chamavamos-lhe nós a meiga-giboia.
--Agora, sim!... Estou vendo-o debaixo do alpendre do padre Lixa a scismar com a lingua de fóra. Meiga-giboia, sim, senhor; parece-me até que fui eu quem lhe poz a imaginosa alcunha, porque nenhum de vossês, os meus condiscipulos, tinha phantasia para tanto.
--Pois ahi tens o herdeiro da viscondessa... que não é.
--Que não é o quê?
--Viscondessa.
--Ora essa! Um lavrador disse-me que ella era viscondessa tout-court, viscondessa de nada. Vens tu, e confirmas o lavrador, dizendo-me que não era viscondessa a tal finada! Mas eu li o letreiro no portão de ferro...
--É verdade, o letreiro lá está. Depois de cêa, se o somno te não apertar, ouvirás a historia d'este titulo.
--Se tem historia, é um bom titulo; que eu sei de centenares de titulos sem historia. Cearemos de modo que o espirito se não comprometta na digestão.
*
* *
Depois de cêa, o abbade, acautelando as portas á curiosidade das irmãs que ainda eram moças e casquilhas, contou-me este conto:
--Havia em Braga um chapeleiro muito rico, pai de duas meninas. A sua mania era casal-as com fidalgos; e depressa concorreram alguns oppositores ás noivas. Um d'esses, que militava na qualidade de tenente de milicias, era João Ferreira d'Eça, dono da casa onde viste o brazão. O chapeleiro, que não dava a filha sem mandar examinar por pessoa competente os pergaminhos do pretendente, convenceu-se de que o alferes era primo em segundo grau dos condes de Cavalleiros. Deu-lhe, por tanto, a filha e sessenta mil cruzados.
D. Antonia, poucos annos depois, viuvou, sem ter filhos. Era bonita e muito rica. Outros fidalgos se lhe offereceram em segundas nupcias; mas a inconsolavel viuva nem recebia visitas nem respondia ás cartas.
A outra filha do chapeleiro maridára-se tambem fidalgamente; porém, o marido, que aceitára o desigual enlace para resgatar os bens hypothecados, nem resgatára os bens, nem perdoára á esposa ter-lhe dado o abundante ouro com que elle alargou a área dos vicios. Esta senhora tinha tres filhos. D. Antonia d'Eça pediu-lhe o mais velho, e desde logo o considerou seu principal herdeiro.
O pequeno tinha oito annos quando veio para o Salgueiral, e orçava pelos dezeseis quando foi ser nosso condiscipulo em grammatica latina. Aquelle choramigar e scismar com a lingua de fóra, como tu observaste, eram o resultado do amor extremoso com que a tia o creára. Ella não queria largal-o de si; mas as raras pessoas que a visitavam arguiam-na de ser causa a que seu sobrinho, embora rico, ficasse para alli tão estupido como os seus criados.
Alvaro Cordeiro não era incapaz de aprender; mas resistia ás maneiras quer brandas quer violentas do professor. Não havia pagina de livro que não tivesse para elle uma cabeça de Medusa a carranquear-lhe.
Quando chegou aos vinte e dous annos, induzido pelas descripções da vida airada que os estudantes levavam em Coimbra, disse á tia que se queria doutorar. D. Antonia exultou, encheu-o de caricias e dinheiro, e mandou-o com a sua ama secca, com o seu escudeiro e com o seu cavallo para Coimbra.
As estouvanices de Alvaro deram brado entre 1851 e 1858. O dinheiro que a tia lhe enviára fôra tanto que, a final, nem o extremado amor que lhe tinha a impediu de se espantar e doer do abuso.
Findos seis annos de Coimbra, apresentou-se á tia dizendo que era doutor em philosophia e direito. Logo em duas faculdades tão desirmãs! Pasmei do reviramento e actividade d'aquella preguiçosa intelligencia!
Todos lhe chamavamos doutor, sem offender-lhe a modestia nem a consciencia. Por muito tempo o julguei mais ou menos conscio das duas faculdades; mas, acaso, um dia soube em Braga que o doutor do Salgueiral não fizera, sequer, exame de latim.
Nada revelei aos meus patricios, nem a elle o esbulhei do grau de bacharel. Era-me penoso magoal-o sem precisão, crear um inimigo, e abrir occasião a que a boa tia, arrependida de o beneficiar, o desherdasse.
Pouco tempo se deteve por aqui. Logo que o inverno assomou com as primeiras nevoas ao espinhaço dos outeiros, Alvaro pediu licença a D. Antonia para ir a Lisboa requerer um emprego na diplomacia. A senhora contrariou-lhe o intento, allegando que seu sobrinho não carecia de ser empregado; mas elle replicou razoavelmente que as suas duas faculdades deviam ser utilisadas no serviço da patria, e que, por meio da diplomacia, lhe adviriam os lugares de maior honra no estado. D. Antonia quiz ouvir o meu parecer a respeito da diplomacia. Fui conforme ao intento do doutor, e approvei que seguisse essa carreira, por ser a que mais se dispensava das duas faculdades em hypothese.
Foi Alvaro para Lisboa; e, volvidos quinze dias, deu parte a sua tia que fôra nomeado addido á embaixada portugueza em Paris, primeiro degrau para subir a ministro, onde esperava chegar em menos de tres annos. Esta jubilosa carta concluia por estipular a sua tia a remessa mensal de cincoenta libras, que tanto era necessario á decencia e ao luzimento d'um diplomata em França.
Fui chamado a votar sobre a clausula das cincoenta libras. Ora, como eu de antemão sabia que a ternissima senhora lhe daria cem, se elle as pedisse, accedi á necessidade das cincoenta. Ella fingiu-se afflicta, lastimou o vacuo do seu peculio, prophetisou, sem fé, a ruina da sua casa, e encarregou-me de ir ao Porto arranjar banqueiro por onde se transmittissem as mezadas.
Foi Alvaro Cordeiro de Magalhães para Paris, como tu e eu poderiamos ir, se tivessemos tias parvoas, ricas e extremosas. Quem não soube da sua partida foi o governo, que nunca tivera minima idéa d'este addido. Perguntando eu mezes depois, em Braga, a um secretario de embaixada se conhecia em Paris o addido Cordeiro de Magalhães, disse-me que conhecera lá um Cordeiro de Magalhães addido sim, mas a uma cocotte, e que, a julgar do abysmo pelo cairel, o pobre rapaz dentro em pouco estaria de volta para a sua aldêa sem dinheiro nem honra.
Agora, um episodio que prende com esta historia. Um tio materno de D. Antonia era capitão de infanteria, quando os francezes invadiram o reino. Dizia-se que este militar entrára nas fileiras de Napoleão, seguira o grande exercito e nunca mais voltára a Portugal, nem dera noticias suas á familia.
D. Antonia escrevera ao sobrinho recommendando-lhe que indagasse em França se existiriam descendentes de seu tio Geraldo de Carvalho, que já era coronel, quando se expatriou com o exercito francez.
Respondeu Alvaro que seu tio morrera general em Waterloo; e mais nada, quanto a descendentes. Toma tu nota d'esta digressão que ha de vir a ponto frizar na historia. Já dormes?
--Essa pergunta hei de eu fazer ao leitor quando lhe repetir o teu conto.
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As cincoenta libras mensaes tinham subido a cem, quando D. Antonia, ao cabo de dous annos, em apuro de paciencia, fez saber ao sobrinho que não podia continuar a mezada.
O pseudo-addido, que já se dizia secretario de embaixada nas cartas á tia, sahiu de Paris, trazendo comsigo a franceza, a quem amava com a cegueira já descabida nos seus trinta e cinco annos, mas natural de um coração mal compleicionado.
Chegou Alvaro ao Salgueiral, deixando a franceza no Porto.
A tia recebeu-o com a sua inalteravel ternura, e levemente o arguiu de perdulario. Queixou-se elle de lhe ser cortada uma brilhante carreira. D. Antonia consolou-o antepondo á vaidade de o vêr ministro o contentamento de o ter comsigo. Alvaro contrafez o prazer de se sentir tão querido, e nunca fôra tão amoravel para sua tia.
Esta senhora herdára da indole do pai a mania de se afidalgar. Muitas vezes me pediu que lhe lêsse uns codices genealogicos, escriptos no seculo XVII, relativos ás proezas dos avós de seu marido; e coriscava-lhe então nos olhos o enthusiasmo, como se o inclito sangue dos façanhosos Eças se lhe infiltrasse das arterias do chorado esposo.
Uma vez, contando-lhe eu que o filho de um socio de seu pai acabava de ser agraciado com o baronato, D. Antonia, por entre gargalhadas de sisudo espirito, revelou despeito, e talvez cubiça de ser ridicula como o filho do socio de seu pai.
Não me espantei, pois, quando Alvaro Cordeiro me disse que ia a Lisboa agenciar o titulo de viscondessa para sua tia. Dei os parabéns a D. Antonia, persuadido de que o titulo seria negocio feito, desde que o agente levava ordem franca para negociar a mercadoria.
Passadas algumas semanas, D. Antonia de Eça recebeu a participação de que era agraciada por sua magestade, em attenção á illustre ascendencia e serviços de seu marido, com o titulo de viscondessa do Salgueiral, em uma vida.
Fui eu o encarregado de transmittir mil libras ao sobrinho para pagar os direitos de mercê, luvas, etc.
Ora, seria uma offensa á tua critica dizer-te que Alvaro estava em Cintra com a franceza, dissolvendo em prazeres as mil libras da excellente creatura, e forjando cartas de aviso e alvarás de viscondessa.
Fazia tristeza a pobre mulher! Só eu sabia que ella era enganada pelo sobrinho, porque tive pessoa que procurasse informações na respectiva secretaria. Todos a tratavam de viscondessa, e eu tambem. E o titulo desconcertára-lhe por tal maneira o siso que, ás vezes, fallando-me do marido defunto, chamava-lhe o seu visconde, tornando a graça retroactiva uns bons vinte annos. O letreiro, que lêste na porta, mandou-o ella gravar tambem no jazigo de familia, na baixella, nos reposteiros da sala, que nunca os tivera; e então a corôa essa appareceu mal pintada em tudo, desde os escabellos antigos do salão-de-espera até aos portaes de todas as quintas.
Um dia, escreve-lhe o sobrinho de Lisboa, contando-lhe o seguinte: que, ao sahir de Paris, encarregára o seu ministro de continuar indagações ácerca dos descendentes de seu tio o general Geraldo de Carvalho, morto na batalha de Waterloo; e acrescentava que a final o visconde de Paiva descobrira em Saint-Nazaire uma neta do general, menina de muitas prendas e virtudes, vivendo de uma prestação do estado, proposta ao parlamento por Napoleão III. Continuava Alvaro pedindo licença á palerma da velha para ir visitar sua prima, e offerecer-lhe em nome de sua tia viscondessa passar um verão no bello Minho.
D. Antonia rejubilou com esta nova, e fez-me participante da sua alegria. Que repugnancia eu senti em obtemperar a esta novissima velhacaria de Alvaro! Mas eu sentia que o descobrir-lhe uma trapacice me obrigava moralmente a descobrir-lhe as outras.
Entretanto--pensava eu--quem sabe? Póde ser que exista a neta do general Geraldo. Porém, não seria acertado averiguar primeiro se existia semelhante general?
Escrevi a um sabio de Braga perguntando-lhe se tinha noticia de tal nome na historia militar de Napoleão I. Respondeu-me o sabio que consultára miudamente a Historia do consulado e do imperio, e entre os generaes vivos e mortos não se lhe deparára tal Geraldo, nem ainda entre os officiaes subalternos; mas que, consultando homens de mais de oitenta annos, de Braga, soubera que Geraldo, cunhado do chapeleiro, capitão de infanteria, morrera na defeza de Badajoz em 1811.
Como quer que fosse, á volta de trinta dias, Alvaro Cordeiro estava no Salgueiral com sua prima mademoiselle Cora de Carvalho, para quem D. Antonia se mostrava infinitamente graciosa. Uma franceza velha acompanhava a nova sob o titulo de aia, honestando assim a viagem do uma menina solteira com seu primo.
Escuso talvez dizer-te que...
--A franceza era a cocotte--atalhei para acabar hesitações a respeito da minha perspicacia.
--Mas uma rapariga diabolicamente bonita, com uns tregeitos sarcasticos, que me pareceram a expressão de escarneo e zombaria d'aquella senhora tão digna de menos ignobil sobrinho.
Era bonito ouvil-a fallar de seu pai, gentil-homem picardo, e de sua mãi, que vinha a ser filha do general Geraldo de Carvalho. E o que mais me espantava era a menina palavrear o portuguez menos mal, tendo fallado, um mez antes, com o primeiro portuguez que encontrára em sua vida!
D. Antonia brindou-a com parte de suas joias, foi com ella a Braga mostral-a aos seus parentes; e tanto se lhe devotou que a mim me chegou a dizer que não levaria a mal que seu sobrinho a desposasse.
Eu não pude então conter-me, que não exclamasse: «Deus nos livre!»
Ella instou por saber o motivo da exclamação involuntaria. Contentei-a dizendo-lhe que as francezas não podiam afazer-se á vida campestre; a que, a final, a snr.ª viscondessa viria a ficar sem o sobrinho, por a esposa lh'o arrebatar para França.
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* *
Planeou-se uma visita ao Palacio de crystal, no Porto. A «viscondessa» nunca tinha visto aquella bonita cousa. Eu tambem fui convidado.
Mandou-se fazer o jantar no restaurante do palacio.
Quando estavamos á mesa, e nas alturas da lingua grelhada, entrou um grupo de francezes, rapazes esturdios, de cachimbo de espuma, e rosa de Alexandria na lapella. Um d'elles, olhando a fito mademoiselle de Carvalho, estacou; e ella, que de relance o vira, purpurejou-se até aos lobulos das orelhas. Alvaro Cordeiro não foi estranho a esta scena muda, por quanto, guinando entre os dous a vista inquieta, empallidecera.
Os francezes abancaram gargalhando e proferindo phrases que eu não entendi. Apenas sentados, estralaram as rolhas do champagne, e a vozeria gralheava em chascos faceis de perceber nos olhares esconsos que dardejavam ao nosso grupo.
Alvaro, antes de concluido o jantar, pediu a conta. Observou-lhe a tia que a sobremesa ainda não tinha chegado, e que ella queria pudim de laranja e o seu chá.
N'este comenos, um dos francezes, galante rapaz, ergue-se da mesa, vem defronte de nós com um copo de vinho, e solta uma trovoada de palavras, com um ar mixto de zombaria e seriedade, as quaes eu, ignorante da lingua franceza, quando francezes a fallam, não percebi; mas as ultimas proferidas muito de espaço, entendi claramente: A ta santé, Cora Pearl! Je felicite le beau Portugal et le beau portugais! Voilà un bijou de la corruption française que leur y manquait!
--E Alvaro que fez?--atalhei eu.
--Alvaro que fez? o que eu fiz. Olhou para o francez como se elle estivesse representando um monologo. Lá na mesa d'elles as gargalhadas eram estridentes...
--E a franceza?
--Levantou-se com a soberania de rainha da sua especie, e fez um gesto de retirada a Alvaro.
--E D. Antonia?
--Pasmou, abrindo a bocca tumida de feijão carrapato, e jogando com os olhos pelas caras dos circumstantes.
--E tu?
--Eu estava a traduzir. Sahimos todos silenciosos, e entramos no hotel Francfort. N'essa mesma noite, partimos para o Salgueiral. Alvaro explicou a sua tia o incidente:--aquelle francez amára sua prima que o desprezára; e o infame, que a perseguira desde Saint-Nazaire, vendo-a alli, a insultára. Ouvi estas explicações, e achei-as plausiveis; mas as que me deram depois no Porto foi que o francez havia sido uma das ludibriadas victimas de Cora Pearl, a qual tambem era uma das mais despejadas e absorventes devassas de Paris.
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D'ahi a poucos dias, a hospeda da «viscondessa» mostrou-se enojada da aldêa, e fallou em retirar-se para França. A carinhosa tia pediu-lhe que ficasse até ao inverno; ella, porém, não pôde disfarçar o seu fastio tanto da aldêa como do amante. A meu vêr, a cobardia de Alvaro, na scena do Palacio, devia encher-lhe a medida do tedio. Chegou-lhe a nostalgia dos cafés e dos bosques. Não havia demovel-a.
Era justo que o primo a acompanhasse a Saint-Nazaire. A tia forneceu-o de dinheiro abundante para seis mezes de ausencia, recommendando-lhe que, se encontrasse o francez, o mandasse ao diabo, e não tivesse testilhas com tão malcreado homem. Bem se via que o sangue ardente dos Eças não se transfundira no corpo burguezmente pacato d'esta senhora, nem Alvaro Cordeiro desmentia os pacificos pundonores do avô chapeleiro.
Ha seis mezes que Alvaro foi para França, e por lá está.
D. Antonia adoeceu ha quinze dias, e morreu antes de hontem, legando todos os seus haveres, que montam a cem contos de reis, a seu sobrinho, e as preciosas joias a sua sobrinha Cora de Carvalho, neta de seu tio o general Gonçalo de Carvalho.
Que conclues d'esta historia?
--Que ha infames felizes, e que é preciso acreditar no inferno de além-mundo.
--Eu não tiro essa conclusão assim absoluta. Infames são aquelles que convertem a sua perversidade em desgraça alheia. Alvaro Cordeiro logrou sordidamente a sua honrada tia; mas, logo que ella morreu na ignorancia do seu logro, a responsabilidade do sobrinho é menor do que seria, se lhe tivesse feito chorar uma lagrima. Pelo contrario, fêl-a viscondessa, e deu-lhe a consolação de ter um tio general que morreu bravamente em Waterloo.