CONCLUSÃO
Alvaro Cordeiro de Magalhães está hoje na sua quinta do Salgueiral, casado com uma senhora de casa muito illustre, e pai de algumas crianças educadas religiosamente. Nos letreiros que diziam viscondessa, subtrahiu as tres ultimas letras; mas é visconde a valer. Fez uma economia na fundição dos caracteres. Ao meu amigo abbade, seu commensal e confidente unico, diz elle que a sanguesuga que lhe defecára o sangue da podridão original e dos vicios da educação, fôra Cora Pearl.
*
* *
Esta Circe de illustres cerdos ainda hoje exercita as mesmas funcções depurantes em Paris. Houve, todavia, uns apopleticos de ouro que ella vampirisou até os matar exangues. Se succede uma sanguesuga introduzir-se na larynge, é mister recorrer á bronchotomia--á incisão da parte anterior do pescoço; mas o mais ordinario nestes lances é morrer o doente. As bichas da natureza de Cora Pearl, quando se mettem na alma de um homem, deixam um só recurso: a operação do suicidio. Felizes aquelles que, á imitação de Alvaro Cordeiro, apenas foram sangrados!
É a sorte que eu desejo aos meus leitores plethoricos.
[1] O rebanho de ovelhas, fato de cabras, e manada de gado bovino chama-se em algumas partes do Minho mundice, talvez corrupção de immundicia.
[BIBLIOGRAPHIA]
(Pedro Ivo--Pedro de Amorim Vianna--Alberto Pimentel--Visconde de Castilho--Pinho Leal).
Pedro Ivo. Contos. Porto, 1874.--Formoso livro! Dir-se-hia que Julio Diniz, o viajor eterno das regiões luminosas, deixou na intelligencia e no coração dos que mais de perto o conheceram e amaram, as serenas imagens das suas visões, as maviosas figuras dos seus quadros, a suave indulgencia e conformidade com que elle florejava de nenuphares os pantanos da vida.
Quando eu li alguns d'estes contos no Commercio do Porto, e lhes não conhecia author, nem acreditava na authenticidade de Pedro Ivo, disse sempre commigo: «É a continuação do gentil espirito de Gomes Coelho. Ha de haver muita gente que passe inadvertidamente por estes graciosos romancinhos, reveladores de poderosa vocação; porém, quando o author chegar á meridiana da sua gloria, estes contos--aurora d'um dia esplendido--serão relidos com renovado prazer.»
Reli hoje os que já lêra, e os que vem de primeira mão no livro. No correr aprazivel da leitura, quando senti o alvoroço das lagrimas, ao passo que as paginas commoventes eram singelissimas, saudei o amavel romancista, e dei-lhe o culto sincero e raro da minha admiração, como daria um beijo na face de meu filho, se elle um dia legitimasse a minha vaidade de pai com um livro d'este valor. Invejo estas santas alegrias ao snr. José Carlos Lopes.
Memorias de M.me Lafarge, traducção de Pedro de Amorim Vianna, com um estudo moral ácerca da authora, escripto pelo traductor. Porto, 1874. 2 tom.--Ouço dizer que a sciencia do snr. Amorim Vianna se prolonga até ás fronteiras do hebraico. O que elle desconhece em linguistica é os idiomas francez e portuguez. Isto, porém, não impede que o digno professor de mathematica saiba tudo mais. Eu duvidaria da anthenticidade do traductor, se o estylo do Estudo não apparelhasse tão consoante com o da versão: tamanha é a disparidade de um nome celebrado nas letras com esses dous volumes imperdoaveis a um alumno de lingua franceza.
Versão e Estudo ajoujam-se frizantemente. Quanto á primeira, se algum incredulo me quizer obrigar pela palavra, demonstrarei que rara é a pagina em que os erros não orcem pelas linhas,--erros de interpretação franceza e de grammatica portugueza.
M.me Lafarge escrevia com a sublimidade e correcção classica de Jules Janin. Desfigurada pelo traductor, dir-se-ha que a franceza escrevia francez como o snr. Amorim escreve portuguez.
Pelo que respeita ao presumido Estudo moral, o que d'ahi se deprehende é que Lafarge foi ladra e envenenadora porque lia romances. O snr. Amorim, no processo de seu estirado estudo, revela farta leitura de romances; e todavia, os seus costumes são exemplares, penso eu. Verdade é que o insigne professor declara que Méry lhe faz nauseas, e que a reputação de Balzac se deve á corrupção do seculo, ao rebaixamento dos espiritos, e desfalecimento dos brios no publico (pag. 176). E que Balzac se fanatisou pelo crime desenhando-o com o nome de Vautrin, etc. Conta que Lafarge tivera mil pretendentes á sua mão depois de condemnada e presa; e explica este fanatismo por ser ella o producto das más paixões da época.
Se Méry faz nauseas ao snr. Pedro de Amorim, quer-me parece que o author da Guerra do Nizam, não preferiria o perfume... litterario do snr. Amorim aos aromas das florestas indianas. Balzac, posto em pedestal de corrupção para ser admirado, é um deploravel paradoxo que eu teria pejo de vêr na minha lingua, se o snr. Amorim Vianna escrevesse lusitanamente. Que, ao menos, estes absurdos se não possam tirar a limpo d'entre locuções mascavadas.
Que Lafarge tivesse mil pretendentes á sua mão, porque era mau producto das más paixões da época, é phantasia do snr. Amorim. Um ou outro poeta lhe fez versos, sem lhe pedir a mão; houve um enthusiasta que lhe propoz a fuga do carcere; e presume-se que um dos seus advogados casaria com ella, provada a sua innocencia, que esteve indecisa entre a ignorancia de tres medicos e a sciencia de Orphila.
Isto sommado não dá mil pretendentes; não chegamos sequer a liquidar um. A estas hyperboles são atreitos os sabios enfronhados na derramada florecencia dos idiomas do Oriente.
Por concomitancia de crimes, o snr. Amorim lembra-se da virtuosa duqueza de Praslin assassinada pelo marido. Espanta-se das nobilissimas cartas da duqueza, em que brilham elevados sentimentos de amor conjugal, e acrescenta: Custa a crêr que em classe tão depravada se dê tão grande virtude; que uma fidalga possa escrever com tanta alma.
O cheiro de inepcia, que recende d'este dizer, chega a despontar a iniquidade da injuria. Uma fidalga a escrever honrados sentimentos de esposa e mãi é cousa que não lhe entra na democracia do snr. Amorim. Vamos vêr d'onde vem ao figado do professor estes extravasamentos de succo bilioso contra a classe heraldica.
Derivando nas torrenciaes enchentes da corrupção de França, o snr. Amorim poja nas praias portuenses, e acha isto cá peor; clama contra os escandalos d'esta cidade, e nomeia-os para se não parecer com Jeremias e com os outros que iam botar discursos vagos debaixo dos muros de Jerusalem e Ninive.
Dá pregão de que um sujeito, acompanhado de outros de boas familias, perpetrára um rapto; que o juiz indecentemente os não condemnou; que a mãi da raptada, movida por sentimentos de christã, perdoára ao raptor, cuja mãi afflicta lhe pedia a liberdade do filho. Assenta que estes dous sentimentos santos, em tal caso, tinham alguma cousa impia; e, em summa, que os réos deviam ser condemnados, a despeito das lagrimas de uma, e do perdão da outra mãi.
Averiguado o rastilho d'este velho odio, apura-se que o snr. Amorim ainda não pôde perdoar aos cumplices do raptor, porque um dia, na sua aula, o desauthoraram.
Depois, descamba para a vida particular do raptor, e narra com a mais rustica indelicadeza a miseranda catastrophe que abriu uma sepultura, sobre a qual a caridade e a justiça estendem o seu manto misericordioso.
Os adros e cemiterios ruraes tem uma grade que defende o ingresso aos esfossadores de sepulturas. Não se podem levar estes empeços a todos os remexedores de cinzas, que são o residuo de enormes incendios, cinzas sagradas pelas dôres que as reduziram a isso.
O snr. Amorim espanta-se que Vieira de Castro ainda depois de morto conserve o favor popular.
Ás doridas paginas que se escreveram a favor d'esse grande infeliz, chama o snr. Amorim, lôas. E cita ao proposito as jogralidades do Puff de Scribe, e diz que a unica moeda corrente é a da peta.
Impropera de consciencia larga o eminente orador, porque elle elevou ao pinaculo da virtude um homem rico, só porque se mostrou caridoso depois de morto. Todos applaudiram o panegyrico e com tudo ninguem ignorava a vida do elogiado.
Allude ao conde de Ferreira. Isto quando não seja indecencia, é ingratidão. O snr. Amorim Vianna devia lembrar-se que, sem o legado do conde de Ferreira, não se estaria a esta hora martellando no hospital de alienados na Cruz da Regaleira. E eu, á vista do exposto, receio que o author do Estudo moral ácerca da Lafarge esteja no caso, como outros mais sisudos, de aproveitar os favores d'aquelle estabelecimento.
O Livro das flôres (legendas da vida da rainha santa), por Alberto Pimentel. Lisboa, 1874.--Não é livro para mysticos peculiarmente. É um ramilhete de lendas mais formosas que authenticas enfeitando paginas de historia vernaculamente escriptas. Guiou-se da mão dos chronistas o snr. Pimentel; porém, quando as moutas das flôres lhe esmaltavam o caminho, parava a colhel-as, e tecia com ellas nova corôa á memoria da dulcissima rainha, mensageira do céo, entre inimigos descaroados. Lê-se muito a sabôr este livro, e aproveitam-se na leitura, como estudo, os lances capitaes do reinado de D. Diniz, e a selecta linguagem respigada entre as rudezas das chronicas antigas.
O snr. Alberto Pimentel sabe a sua lingua como raros, e ha de escrevel-a com primor dos que melhormente a sabem, e de quem vamos aprendendo todos os que não viemos a este mundo com fadario de burros, não desfazendo em ninguem.
Theatro de Molière. Quinta tentativa. O Misanthropo, comedia em 5 actos, versão liberrima, pelo snr. Visconde de Castilho. Lisboa, 1874.--Ainda não pude affazer-me á convenção de que estou lendo Molière quando estudo estas chamadas versões liberrimas. Seria preciso que, a intervallos, o torneio da dicção peregrina, a allusão ethnographica, o particular relevo da nacionalidade franceza me trasladasse ao tempo de Luiz XIV e ao meio das condições especiaes de vida em que Molière photographou os seus grupos. Estas mui de siso chamadas nacionalisações renovam-se tão portuguezas do fecundante engenho do nosso poeta, derivam tão affins da graça e donaire lusitanos de Gil Vicente, Ferreira e Antonio Prestes, que não posso interpor aos antigos mestres e ao mestre, em que todos os passados rebrilham, a inspiração forasteira de Molière.
O Misanthropo é outro livro que o snr. visconde enfileira na bibliotheca das nossas riquezas litterarias. Estes cinco dramas hão de crear maior numero de affectos e affeiçoados á lingua patria que toda a grave e ponderosa communidade de classicos, inculcados nas chrestomathias. Não havia meio de amaciar as asperezas do estudo da lingua, senão este de offerecer á juventude negligente o fructo em cabaz de flôres.
Depois de Molière, o valente pulso de Castilho vai medir-se com o formidavel Shakspeare. O Sonho d'uma noite de S. João, editorado pela activissima casa Chardron, já está no prelo. Seguir-se-ha A tempestade. Seguir-se-hão as juvenis glorias de um talento que reflorece cada anno afim de que o cantor da Primavera não sinta na quadra final que um anno lhe passou sem flôres. Abençoado sejas da posteridade com o amor que te consagram os teus discipulos, mestre generoso que tanto mais nos amas quanto nos liberalisas as riquezas do teu espirito!
Portugal antigo e moderno, diccionario heraldico, geographico, estatistico, chorographico, archeologico, historico, biographico e etymologico, etc., por Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal. Lisboa, 1874.--Estão publicados dous tomos e algumas cadernetas, abrangendo as letras A--F. As pessoas que estudam e avaliam a natureza do trabalho arido e ingrato a que o snr. Pinho Leal dedicou o maior numero dos seus annos, sabem aquilatar o merito d'aquella obra de tamanho fôlego. Para essas pessoas as imperfeições de tal escripto não lhe desluzem o merito nem esfriam o reconhecimento que se lhe deve. Quem compulsou as obras do mesmo genero anteriormente publicadas e apreciadissimas no mercado, agradece ao laborioso archeologo a grande melhoria do seu trabalho, e ao benemerito editor o alento raro com que o tirou a lume. Já vi arguido o snr. Leal de inexacto em miudezas topographicas, sem lhe descontarem que elle aceitou as noticias divulgadas em livros que os censores não haviam previamente corrigido com a sua esclarecida censura. Com toda a certeza, o meu amigo Joaquim Martins de Carvalho conhece as cousas antigas e hodiernas de Coimbra mais de fundamento que o snr. Pinho Leal; mas seria impertinente exigencia obrigar um chorographo a jornadear muito de espaço nas terras que descreve para convencer-se de que as descripções que o precederam e guiam eram menos exactas. O que é de todo o ponto certo é que eu tenho consultado com aproveitamento o Diccionario do snr. Pinho Leal em variados pontos da sua ampla area. Não sei de outro armazem onde tão variadas noticias se encelleirem, e tão de prompto se deparem ainda aos mais versados. Com muita satisfação me glorio de ter cooperado com o meu sincero voto para a editoração d'esta obra subsidaria de todos os estudos respeitantes á historia, á geographia e ás antiguidades de Portugal. Quem, depois, do infatigavel author d'estes livros, escrever outros com mais primorosa penna, tem de constituir-se em divida e gratidão immensa ao snr. Pinho Leal que está carreando as achêgas para o futuro edificio. Duvido, porém, que n'este paiz em que um livro de 300 paginas representa o supremo esforço da nossa indole preguiçosa, haja quem immole trinta annos de sua existencia, e os bens do seu patrimonio, a um lavor que nas demasias do seu zelo, a critica desconceitua. Deixam-se correr desafogadamente quantas parvoiçadas soltas e rimadas por ahi coriscam de cerebros borrascosos; porém, se um escriptor de indefessa lida concorre ao mercado das frandulagens com os seus suados e tressuados livros, topa logo pela frente o vigilante piquete dos sabios, que só n'estes lances sahem da tenda, como Achilles. Cumpre-me declarar que tenho a maior consideração pelas correcções do snr. Martins de Carvalho, quanto á topographia de Coimbra; mas não a tenho menor pelas improbas fadigas do snr. Pinho Leal com cuja amizade me honro e desvaneço.
[PARA A HISTORIA DE D. JOÃO IV]
(DOCUMENTO INEDITO)
É notorio que o infante D. Duarte de Bragança, que em 1640 militava no exercito de Fernando III, imperador da Austria, foi traiçoeiramente preso a instancias de Francisco de Mello, seu parente, portuguez, e embaixador de Castella em Vienna.
Uns historiadores dizem que seu irmão D. João IV se inquietára quasi nada com a prisão do infante; outros, mais exactos, asseveram que o rei alguns esforços empregou para o libertar. Isto é verdade; mas os esforços eram tão diplomaticamente frouxos que, vistos á luz da sã razão e da boa politica, os historiadores que negam parece ganharem a partida aos historiadores que affirmam a solicitude de D. João IV.
O infante estava preso na roqueta da torre de Milão, encadeado de modo que nem sequer podia adormecer, quando o rei de Portugal, mediante o seu embaixador em França, pedia, em 1643, á regente Anna d'Austria, na menoridade de Luiz XIV, solicitando de sua magestade christianissima a liberdade do infante D. Duarte em troca de alguns importantes prisioneiros castelhanos que o governo francez tinha a bom recado.
Ahi está a arrojada tentativa que fazia o rei de Portugal no resgate de seu irmão:--requer a uma nação alliada que arranjasse lá isso, desfazendo-se dos seus prisioneiros, em escambo de um principe, que, ao parecer de João IV, valeria tanto como dous ou tres hespanhoes aprisionados em batalha!
E, ao mesmo tempo, pedia emprestado dinheiro á França, como se uma só prova de pusillanimidade bastasse a enrilecel-o no conceito do cardeal Mazarin, e solicitava ainda que o governo francez lhe protegesse o bispo de Lamego, em Roma, e lhe restituisse integralmente o dominio da ilha de S. Lourenço (Madagascar) onde os francezes, em 1642, se tinham estabelecido com feitorias[2]. Eis a resposta dada por Chavigni, um dos plenipotenciarios que trataram com o embaixador portuguez[3]:
RESPOSTA ÁS MEMORIAS DO EMBAIXADOR DE PORTUGAL (versão)
El-rei se fará informar particularmente do negocio da ilha de S. Lourenço para tomar tal resolução qual convenha á amizade e alliança que ha entre sua magestade e el-rei de Portugal.
Sua magestade seria contentissimo em poder contribuir segundo sua affeição para com el-rei de Portugal, no livramento do infante D. Duarte seu irmão, mas pelo que toca á troca que elle fez propor dos prisioneiros dos inimigos para em lugar do dito infante, roga a vossa magestade que considere que os inimigos tem tambem francezes entre suas mãos, e que todos os dias a fortuna da guerra póde fazer cahir outros, os quaes não podem sahir senão por uma tal troca; que sua magestade é obrigado a os conservar e grangear a fim de que elles se empreguem mais animosamente em o serviço de sua magestade e em adiantamentos de causa commum; elle fará, com tudo, tudo aquillo que depender do seu poder pela liberdade do infante D. Duarte, ao qual não tem elle menos affeição que el-rei de Portugal mesmo[4].
El-rei fez despezas tão excessivas para o entretenimento de seus exercitos, tanto de mar como de terra, e por assistir a seus alliados, segundo os tratados que lhe havia parecido bem fazer com elles por lhes dar tanto mais de meios para se esforçarem poderosamente pelo bem publico e causa commum, que sua magestade teria antes necessidade de ser alliviado de taes despezas que de se empenhar em outras novas, o que a elle lhe é totalmente impossivel; de sorte que tem grande desprazer de não poder ajudar de dinheiro ou mesmo de emprestimo a el-rei de Portugal, como fizera de bonissimo coração, se o estado dos seus negócios lh'o permittira.
Sua magestade dá ordem á esquadra dos seus navios na Arrochela de tomar ao snr. bispo de Lamego, embaixador de el-rei de Portugal, vindo de Roma para o levar...[5]
Pelo que toca ás bandeiras dos navios reaes e mercadores em os portos de França e de Portugal, este negocio se remetteu ao conselho de marinha, e as Memorias se podem metter em mãos do snr. Habrgue (?) com o qual se póde tambem conferir aquelle da ilha de S. Lourenço. Feita em Paris a 21 de março de 1643.==Chavigni.
O infante D. Duarte de Bragança morreu, ao cabo de oito annos de prisão, algemado como facinoroso, em um antro destinado aos supremos criminosos.
Do mesmo passo que D. João IV pedia dinheiro para se arrostar com as difficuldades da guerra, e conter o exercito hesitante, um insigne historiador, Rebello da Silva, escreve que elle offerecêra 400:000 cruzados pela liberdade do irmão. N'este depoimento falta o testemunho coevo, e critica mais desassombrada que a do conde da Ericeira, cuja authoridade é medianamente veneravel.
As letras de cambio, que D. João IV firmou, ninguem as quiz descontar em Amsterdam; e, quando iam ser protestadas, o judeu Jeronymo Dias da Costa as pagou... em recompensa de lhe haverem queimado os parentes em Portugal[6].
[2] Madagascar, ou ilha de S. Lourenço primitivamente, foi descoberta em 1506 por Tristão da Cunha, e não por Lourenço de Almeida, como diz Ellis na History of Madagascar, compiled chiefly from original documents. (Londres, 1838).
[3] Documento inedito, que falta na collecção dos publicados pelo visconde de Santarem, e não sei se faz parte dos ineditos do marquez de Nisa existentes na bibliotheca publica de Lisboa.
[4] Parece ama ironia, se não é antes uma censura, dissimulada em fineza.
[5] Palavras desfeitas e inintelligiveis.
[6] Veja o Testamento politico de D. Luiz da Cunha, sujamente impresso com o nome de Carta, por A. Lourenço Caminha.
[INEDITO DE MANOEL SEVERIM DE FARIA]
O primeiro bibliophilo portuguez, o snr. Innocencio Francisco da Silva, ácerca da livraria e dos manuscriptos ineditos do doutissimo chantre Manoel Severim de Faria, escreve o seguinte:
«As (obras) que ficaram manuscriptas passaram, depois do seu fallecimento (1655), juntamente com a sua copiosa e escolhida livraria a enriquecer outra, ainda mais abundante e numerosa, qual era em Lisboa a do conde de Vimieiro, riquissimo thesouro litterario que foi como tantos outros reduzido a cinzas pelo incendio subsequente ao terremoto de 1755.» (Dicc. bibliog., tom. VI, pag. 106).
Alguns traslados de pouquissimos ineditos de Severim vieram á minha mão com os manuscriptos do jurisconsulto Pereira e Sousa. Os caracteres são coévos do sabio antiquario; mas a pessima orthographia accusa traslado de mão imperita. Não obstante, como as idéas não padeceram com a ignorancia do copista, dou afoutamente esta copia corrigida orthographicamente. É documento historico, além de these engenhosamente concertada; por onde se deprehende que o desbarato de D. Sebastião e da flôr da fidalguia em Africa redundou em beneficio de Portugal.
Senão, vejam:
«Observações dos males que Deus permittiu para bem de Portugal, escriptos e expostos pelo chantre da cidade de Evora, Manoel Severim de Faria. Em 20 de setembro de 1649.
«Permittiu Deus que se perdesse el-rei D. Sebastião, e ficasse toda a fidalguia portugueza captiva de mouros, porque estando os portuguezes muito soberbos com as victorias que houveram por todas as partes do mundo, não as reconheciam já a Deus; mas cuidavam que eram alcançadas só por seu valor. Castigou Deus esta soberba com aquelle miseravel captiveiro, e depois com a entrada dos castelhanos, que conhecendo nós pela experiencia que as victorias que alcançavamos, não era por nossa fortaleza, senão pela misericordia de Deus, nos humilhassemos e fossemos exemplo ao mundo d'este conhecimento, e ficassemos capazes de receber outra vez o reino e a liberdade da sua divina mão.
«Permittiu Deus que o conde de Vimioso, D. Francisco, perdesse a vida e a casa defendendo a liberdade de Portugal, e que o conde de Basto e o marquez de Castello Rodrigo ganhassem estes titulos entregando o mesmo reino; e ordenou depois, que as casas de Basto e Castello Rodrigo se perdessem, e a de Vimioso se restaurasse pela mesma valia do conde de Basto, que casou sua filha com D. Luiz, e pela fazenda de Castello Rodrigo, que casou outra filha com o conde D. Affonso, para mostrar a todos com tão raros exemplos, que os que fazem o que não devem, cuidando ganhar para seus filhos, os deixam perdidos, e os que fazem o que devem ainda que de presente padeçam, não deixam seus filhos desamparados, antes acrescentados na opinião dos homens e na protecção divina.
«Permittiu a guerra dos hollandezes, no Brazil, para haver capitulações e soldados praticos n'este reino, que soubessem pelejar contra a milicia dos castelhanos.
«Permittia que obrigassem aos senhores portugueses a dar soldados para Catalunha, para que tornassem a Portugal praticos depois da acclamação, e isto em tanto numero que por conta tem entrado em Portugal, de Castella e Flandres quasi seis mil homens de guerra.
«Permittiu o escrever das fazendas (cadarso), para que com essa occasião se levantassem os de Evora, e entendessem os castelhanos que cá em Evora, havia dez mil homens armados sem a nobreza do reino, e por isso mandavam que sua milicia não passasse de Badajoz e tiveram por felicidade a reducção.
«Permittiu que chamasse el-rei de Castella todos os grandes e fidalgos a Madrid para com isso ficarem só em Portugal os que haviam de acclamar a liberdade, estando ausentes os que lhe haviam de resistir, principalmente todos os senhores, que por entregarem Portugal, alcançavam titulos de el-rei de Castella.
«Permittiu a destruição da armada de Oquendo para que não houvesse forças maritimas em Castella que excedessem a Portugal.
«Permittiu os desafôros que os castelhanos fizeram em Catalunha para se atarantarem os catalães e se entregarem aos francezes, para que el-rei de Castella ficasse opprimido com outra guerra mais perigosa, o que lhe não deu lugar para acudir á de Portugal, estando principalmente com a opinião das grandes forças d'este reino; porque, se de Evora sómente lhe disseram que tinha dez mil homens contra elle, quando não tinha comsigo a nobreza, quanto maior poder seria agora o do reino todo junto!...
«Permittiu Deus que el-rei de Castella com a inveja que tinha a sua magestade, sendo duque o obrigasse a ir a Almada, com o titulo de governar as armas, parecendo-lhe que d'este modo o desauthorisava. Para que com esta occasião, o visse e tratasse toda a nobreza do reino e se penhorasse com novos desejos de o reconhecer por seu principe.
«Permittiu que el-rei de Castella obrigasse a todos os nobres que fossem militar a Catalunha, ou perdessem as honras e fazendas que possuiam. E tendo-se no reino experiencia que os que partiam para este desterro, não tornavam, entraram em desesperação e com ella se resolveram a acclamar o verdadeiro rei, e deixarem o estranho.
«Permittiu Deus que este reino chegasse ao mais miseravel estado que nunca esteve, sem armas, sem soldados, sem armadas, e sem fortificações para que, dando-lhe n'esta miseria um rei, vissemos que esta obra não era alcançada por nosso poder e forças, senão pela misericordia divina, pois que estavamos sem gente de guerra nas quatorze praças que os castelhanos tinham n'este reino e os navios armados que estavam em Lisboa.
«E pelo contrario, que as empresas que acommettemos com maior poder, como foi a de Andaluzia com tres armadas, não tivessem effeito: e as das ilhas, que intentando libertal-as com duas armadas, nenhuma d'ellas chegou a tempo; e os naturaes com suas pequenas forças rendessem os castelhanos; com que ficou conhecida a victoria por divina, e os da ilha recuperando a reputação, que no tempo da outra successão perderam.
«Permittiu que estando os castelhanos, os primeiros mezes quietos sem Portugal romper contra elles; elles rompessem a guerra com Portugal, com muito pouco poder, com que os portuguezes ficaram melhorando-se, com alcançarem d'elles muitas victorias, e fazendo-se com ellas muito praticos, o que sem esta occasião não podia ser.
«Permittiu que antigamente désse o snr. rei D. João, o primeiro, quasi a terça parte do reino ao condestavel D. Nuno Alvares Pereira, para com este grande patrimonio se poder conservar a descendencia real da casa de Bragança com estado grandioso: e agora succedido na corôa, torna-se tão grande parte do reino a unir a ella.
«Permittiu que muitos senhores e titulos cahissem no crime de deslealdade, para que com suas rendas e fazendas se ajudar a sustentar a guerra contra Castella.
«Permittiu que o marquez de Castello Rodrigo largasse a commenda-mór de Alcantara, para se lhe dar em Portugal satisfação em muitas commendas da ordem de Christo: e que o duque de Villa Hermosa se acommodasse só com a de Alcantara.
«D'estes dous homens vagaram grande numero de commendas, com que poder premiar aos leaes, que estavam servindo.
«Permittiu que vagassem quasi todos os bispados e arcebispados do reino: e que em Roma os não quizessem prover, para com os fructos d'elles se poder mais facilmente sustentar a defensa do reino, e serem pagos os soldados.
«Permittiu que em Roma intentasse o embaixador de Castella affrontar o de Portugal, para que sahisse o de Castella na fugida; e com a reputação perdida desamparasse á vista de todo o mundo a mesma côrte de Roma, acrescentando-se grandemente com isto a reputação do nosso embaixador e do reino de Portugal.
«Permittiu que no tempo da acclamação ficasse Ceuta com Castella para nos não dar n'aquella occasião maior gasto de dinheiro e gente.
«Permittiu que quasi a quarta parte de Castella fossem portuguezes, e que depois da acclamação padecessem tantas vexações, que muitos d'elles tornassem a Portugal, com que Castella perdeu muita gente, e Portugal a ficou ganhando, assim em numero como em riqueza, com dinheiro que de lá trouxeram.
«Finis laus Deo.»
Deus permittiu tudo isto. Uma nação que assim está debaixo da fiscalisação divina, com as inscripções a 46 3/8 e o snr. barão de Zezere na municipal, não póde cahir como Carthago ou Roma.
[O MANOELINHO POETA]
Cumprindo a promessa do numero antecedente, dou traslado da Representação metrica, enviada a Philippe IV de Castella pelos conjurados de Evora. Onde o sentido das allusões rebuçadas me parecer menos obvio, aventurarei algumas notas explicativas que o leitor versado emendará, se as achar mal entendidas.
A EL-REI NOSSO SENHOR
Senhor, vosso Portugal,
de vossos paes estimado,
e sempre d'elles tratado
como amigo tão leal,
hoje, em miseria fatal,
está pobre e lastimoso;
e o governo rigoroso,
que tanto o tem perseguido,
lhe nega, sendo offendido,
o allivio de ser queixoso.
N'esta dos tempos mudança,
n'esta da sorte dureza,
na mantuana princeza
tinha librada a esperança.
Em fim, chegou; mas alcança
que já esperar não convém;
pois tão ruins lados tem
n'este imperio desigual,
que só póde fazer mal,
e não sabe fazer bem.
Algum que este povo unido
desejára apedrejado,
e em fim foi d'aqui lançado
a todos aborrrecido[7],
de novo agora admittido
exerce imperio violento;
que, para commum tormento,
n'este governo acontece
que o que castigo merece
agora é merecimento.
Este, agora, por fartar-se
de tyrannias, é tal
que governa Portugal
como quem só quer vingar-se;
pois não só quer odiar-se
c'os naturaes; mas tambem,
sem ser justiça, dotem
aos estrangeiros no mar,
até mandar-lhes queimar
o proprio barco em que vem[8].
De dous bachareis se informa
mui diversos na nação[9],
O Salazar e o Leitão[10]
que só differem na fórma;
só com estes se conforma:
vêde o effeito qual será;
porque um e outro está
sinalado com deshonra[11];
e quem não guarda sua honra
como a vossa guardará!
Este ministro cruel
em tudo se intromette.
Olhai que cousas promette
junto co'o hollandez Sinel!
N'estas almas de pichel
tudo póde e tudo manda.
Ai! do reino, pois tal anda
o governo portugues
que se vai de um hollandez
contra os rebeldes de Hollanda[12].
Este, pois, governo errado,
para poder conservar-se,
trata de perpetuar-se
em dous polos estribado.
Mas, ai! que está mal fundado
em tão perversa doutrina;
que onde a ambição domina
é sempre o imperio violento,
sendo aos filhos fundamento
o que aos paes foi ruina!
Porque aquelle pai que eu sei
por infamia e por traição
até quarta geração
foi julgado pela lei;
d'este um filho (ó alto rei!)
sacrilego bispo é![13]
Outro, digno de galé,
excluso já por bargante
da companhia triumphante
assiste a julgar a fé[14].
Vêde como a julgará
quem sempre sua fé quebrou;
e o que só vicios guardou
como ovelhas guardará!
Grandes simonias ha,
senhor, n'estes provimentos!
Examinai os augmentos
dos que medram com ambição,
por que eu sei bem que não são
taes os vossos pensamentos.
E, por não parar o extremo,
d'estes o mais vil ladrão
bebado, torpe e bufão
é secretario supremo!
Com que a vosso reino temo,
senhor, grandes precipicios;
pois não só vendem officios
a inuteis, fracos judeus;
mas vendem a honra de Deus
e seus santos beneficios.
Que muito! se, nos sagrados
dormitorios de Enzobregas,
provocou a acções bem cegas
ao seu rancho e aos seus prelados!
E, para os vêr profanados,
certas gaitas ordenaram,
com que todos celebraram
a bacchanal, suja prole;
e foram gaitas de folle
porque os odres não faltaram[15].
E quem isto faz, senhor,
como é possivel que possa
conservar em graça vossa
do vosso reino o melhor!
E não é damno menor
affirmar-vos sem vergonha
que é parente do Noronha
por lhe roubar o que tem,
e com malicia tambem,
que está doudo vos proponha.
Pois aquella rica prenda
n'este reino sentenciada,
por grande Caco lançada
do tribunal da fazenda!
Não me espantarei que venda
por baixo preço a valia
da patria e da monarchia,
pois, nas mudanças que faz,
falso traidor e sagaz
toda a sua esperança fia[16].
Senhor, estes inimigos
são dos melhores sujeitos
que não permittem seus peitos
conservar sabios amigos.
Crêde que em grandes perigos
vos hão de precipitar;
e sirva-vos de exemplar
tantos reinos assolados
porque foram governados
de homens de baixo solar.
É um em tudo guiado
de um forneiro mecatrefe;
de um pendolista bodefe
é o outro governado.
Serão suas razoes de estado
sempre tisnadas e feias
qual corre o sangue nas veias;
fazei d'estes expulsão,
que um é corrêa de cão,
o outro cão para corrêa.[17]
Com vossos poderes regios
estes traidores astutos
torcem vossos estatutos,
quebram nossos privilegios.
Não faltam homens egregios
para governar melhor.
Informai-vos, vós, senhor,
que não falta quem mereça,
quem fiel vos obedeça,
quem sirva com mais amor.
Assim, para commum damno,
e para proprios proveitos
convém que busquem sujeitos
para o governo tyranno;
de sorte, que n'este engano,
viveis, senhor, offendido,
e d'este reino esquecido;
pela divina verdade,
que não ha perpetuidade
no reino que é dividido.
Falta um justo conselheiro
que por commum liberdade
ante vossa magestade
vá com zelo verdadeiro,
qual o grande cavalleiro
Egas Moniz em que igual
foi valor e zelo tal,
que, vendo a patria opprimida,
arriscou a propria vida
pelo bem universal.
N'esta universal fadiga,
quem manda, fallar não deixa;
pois até do pobre a queixa
como culpa se castiga.
Pois como ha de haver quem diga
que a tyrannia insolente
inda fallar não consente!
E nossa fortuna quiz
que se sinta o que se diz;
mas ninguem diga o que sente.
Em fim de tanta crueldade
vos avisa o reino junto,
Portugal que, por defunto,
se atreve a fallar verdade.
Vossa altiva magestade
mostre agora seus poderes;
que, entre tantos pareceres,
qual póde o governo ser,
se, á conta d'uma mulher,
governam tantas mulheres!
Manoelinho o fez com approvação do senado todo junto.
Comparando o torneio e estylo d'esta poesia com as que tenho impressas dos poetas d'aquelle tempo, é muita a semelhança que corre entre ella e os poemetos de Duarte Ribeiro de Macedo, que foi melhor prosador.
[7] Diogo Soares, secretario dos negocios de estado, fazenda e justiça.
[8] Successos occorridos com embarcações francezas.
[9] Nascimento.
[10] João de Frias Salazar, desembargadar do paço, e o dr. Francisco Leitão, o Guedêlha de alcunha, de quem dá larga noticia a romance intitulado O Regicida.
[11] Dr. Leitão, era filho de uma notoria meretriz, e havia casado com outra, a celebrada Vicencia, filha de uma certa Barbara, alcaiota da rua dos Cabides.
[12] A historia escripta não nos esclarece a obscuridade da allusão.
[13] D. Sebastião de Mattos e Noronha, áquelle tempo, bispo de Elvas; hespanhol de nação, e um dos governadores do reino, em quanto o duque de Bragança, exaltado ao throno, não chegou de Villa Viçosa. Morreu, como conspirador, no carcere da torre de S. Gião.
[14] O inquisidor D. Francisco de Castro, um dos conspiradores contra a revolução de 1640, perdoado e reposto no seu officio por D. João IV, em premio de delatar os seus cumplices.
[15] Não posso rastrear a satyra, se ella entende com Miguel de Vasconcellos. Póde ser que n'esta copia falte a decima que prendia com o caso picaresco de Enxobregas. Presumo, pelos versos seguintes, que o satyrisado seria o bispo de Elvas, D. Sebastião de Mattos.
[16] Francisco de Lucena, apedrejado pelas regateiras do Porto, em 1628, como executor do tributo das maçarocas; secretario das mercês de Filippe IV em 1638; secretario de estado de D. João IV em 1641, e degolado, como traidor, em 1643. Da sua innocencia diz D. Luiz da Cunha na sua conhecida Carta a D. José I: «... Conhecendo elle (D. João IV) a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a corôa na cabeça, por que lhe era devida, a fim de que se não julgassem credores de grandes recompensas.» Veja o romance historico O Regicida, pag. 227, onde se imprimiram pela primeira vez os conselhos de Francisco de Lucena a D. João IV, que lh'os pagou briosamente.
[17] Não pude attingir as referencias.
[UM BAILE DADO A JUNOT, EM LISBOA]
Os monographos da invasão franceza em Portugal não descrevem nem ao menos citam o baile dado a Junot, no theatro de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808.
Esta omissão, de nenhuma importancia ao primeiro aspecto, significa o receio de ferir as pessoas que assistiram ao obsequio prestado ao general de Napoleão. O resguardo era racional, quanto aos noticiaristas coevos do baile; mas hoje em dia a deferencia é escusada, visto que os filhos e netos dos jacobinos de 1808 se prezam de procederem dos homens mais liberaes d'aquelle tempo.
Ao baile de S. Carlos concorreram familias da mais selecta sociedade da capital, e muitas lá não entraram por falta de convite ou carta de admissão, difficil de obter. Entre outras de menos porte, avultavam as familias dos condes de Almada, de Sabugal, da Ega, de Peniche, e de Castro Marim; de D. Francisco Xavier de Noronha, dos desembargadores Lucas Seabra da Silva, Manoel Nicolau Esteves Negrão, e Abreu Girão; dos marquezes de Abrantes, Marialva, Penalva e Valença; concorreram alguns bispos e principaes da patriarchal.
A fim de avaliarmos as curvaturas abjectas por que passou o escol da fina sociedade n'aquelle baile, vamos vêr que as cortezias foram de antemão promulgadas como decreto, e rubricadas pelos generaes Brenier, Thiebault, e Margaron.
O programma foi enviado na lingua do conquistador ás familias duas vezes conquistadas, quando não eram tres, como certas condessas e viscondessas respeitaveis por sua fragilidade e amor cosmopolita. Um curioso contemporaneo, bem ou mal, traduziu, e acertadamente guardou o programma, tal qual se offerece aqui aos espiritos de boa fé que nos estão apregoando sempre o patriotismo de nossos avós:
«ANNUNCIO
«A funcção, que o exercito francez de Portugal dá ao snr. duque de Abrantes, quarta feira 8 de junho, consistirá em um baile de ceremonia.
«Esta funcção se fará na sala do theatro de S. Carlos.
«As pessoas mais notaveis das differentes classes do reino serão convidadas por convites pessoaes, e que servirão de bilhetes para a entrada.
«Entrar-se-ha pelo peristillo grande, e vir-se-ha alli dar pela rua de...
«As senhoras convidadas serão recebidas pelos mestres das ceremonias, que lhes darão a mão até ao seu lugar.
«M.mes Thomières, Trousset, et Foy, farão as honras do baile.
«As pessoas convidadas para a funcção, como tambem as que tiverem alcançado camarote, virão das 7 horas até ás 10 da noite.
«Chegando s. exc.ª ao theatro, será recebido pelos snrs. officiaes presentes á funcção, os quaes irão adiante d'elle até ao peristillo de baixo.
«S. exc.ª ao entrar na sala, achará todas as senhoras convidadas sentadas nas frizas em bancos, ou cadeiras, o interior da sala estará vazio, e os homens encostados todos ao pano da bocca do theatro.
«No instante em que elle apparecer, se ouvirá uma musica guerreira, e todas as senhoras se levantarão para lhe agradecer o seu comprimento.
«Assentado que seja s. exc.ª, a orchestra executará a cantata composta em seu louvor; acabado este pedaço será s. exc.ª convidado a dar volta á sala, e depois tomar-se-hão as suas ordens para a primeira contradança, que se dançará só, e que estará composta d'antemão.
«Esta contradança será só de quatro figuras. Immediatamente depois começará uma contradança franceza com tantas quadrilhas, quantas o lugar permittir.
«Cada uma d'estas quadrilhas será de quatro pares e de seis figuras.
«Seguir-se-hão as contradanças, as valsas, e as inglezas.
«Quanto ás inglezas, para que todos os pares dancem sem as prolongar demasiado, ellas começarão ao mesmo tempo pela cabeceira e pelo centro das columnas, e durarão até ao ponto em que os ultimos pares da cabeceira e do centro tiverem dançado; o que observarão os snrs. mestres das ceremonias.
«Se houver duas columnas, as senhoras estarão sempre dentro do circulo.
«As inglezas e as valsas serão dançadas sem escolha de lugar; o que chegar ultimamente se porá depois do que lhe tiver precedido.
«As contradanças francezas não se poderão dançar senão com bilhetes, o que torna impossivel ter-se feito antecedentemente algum ajuste.
«Os mestres de ceremonias, que não dançam, serão encarregados d'esta distribuição, e terão o maior cuidado em fazer que successivamente dancem todos os cavalheiros e todas as senhoras; as quadrilhas terão além disto dous mestres do baile, para dirigir as figuras.
«Depois da quadrilha, da valsa, da inglesa, que acabará ao rodar da meia noite e meia hora, os snrs. commissarios convidarão as senhoras a sentar-se, os cavalheiros as conduzirão para a porta da entrada, e o interior da sala ficará inteiramente vazio.
«Feitas estas disposições, se levantará o pano, o mordomo passará por entre as abas da tenda, e dará parte, que a cêa de s. exc.ª está prompta; logo as abas da tenda se levantarão, s. exc.ª abrirá a marcha, precedido por um dos generaes commissarios que lhe mostrará o seu lugar.
«Todas as senhoras serão conduzidas pelos cavalheiros; as que não poderem sentar-se á mesa serão servidas na sala. Á mesa não haverá homens, senão os que tiverem sido designados pelos commissarios, e a quem isto tiver sido participado pelos mestres das ceremonias.
«Acabada a cêa, entrar-se-ha na sala do baile em uma ordem inversa da em que tiverem d'ella sahido, e a tenda se fechará.
«Levantada a mesa da cêa, se porão no seu lugar mesas de jogo; a tenda se tornará a abrir, ficando assim maior a sala do baile.
«Quando s. exc.ª se retirar será tornado a conduzir á sua carruagem pelos snrs. officiaes, que o receberam.
«Os generaes commissarios
«Brenier, Thiebault, Margaron.»
Este Junot foi tão desmedido ladrão em Portugal que nem propriamente os francezes lhe disfarçam as manhas. A historia de França parece envergonhada quando roça pelo nome infamado do duque de Abrantes. Principiára valorosamente a sua carreira militar, como simples granadeiro de voluntarios. De Lisboa sahiu locupletado e cobarde. Na campanha da Russia, em 1812, contribuiu com o seu indolente sybaritismo para a completa queda de Napoleão. Em 1813 ensandeceu, precipitou-se de uma janella, e morreu da queda.
Malè parta malè dilabuntur. Esbanjou a opulencia roubada, e legou aos filhos e á viuva o nome deshonrado, e uma quasi indigencia. A duqueza, fallecida em 1838, vivia de escrever, e não escrevia sem graça. No lardo das anecdotas nuamente contadas, consistia o merito das suas variadas Memorias, Scenas da vida hespanhola, e Salões de Paris.
Do duque de Abrantes ficaram quatro filhos legitimos. O primogenito, Napoleon-Audoche, duque de Abrantes, confirmado no titulo por Luiz XVIII, seguiu a carreira diplomatica, que descontinuou em resultado de vergonhosos processos. Fez-se litterato, abastardou-se na vida dos camarins theatraes de baixa estôfa, e morreu pobremente em 1815.
Succedeu-lhe no titulo seu irmão Alfred-Michel, que havia nascido em Hespanha, por 1810. Foi capitão de estado-maior, ás ordens do general Mac-Mahon, em 1848. Militou na Africa, e ahi mereceu as divisas de «chefe de esquadrão.» Em 1854, era ajudante de campo do principe Jeronymo-Napoleão, e a 24 de junho de 1859 morreu de ferimentos na batalha de Solferino.
Josephina Junot d'Abrantes entrou em 1825 na congregação das irmãs de caridade, voltou aos salões em 1827, casou em 1841 com um tal Amet, empreiteiro de carroças, fez-se escriptora de obras moraes, e vivia ainda em 1861.
A ultima filha d'este mal sorteado casal chamou-se Constance, casou com Louis-Aubert, redactor do National e prefeito da Corsega em 1848. Tambem foi escriptora de artigos de modas em diversos periodicos. Fundou as Abeilles parisiennes ha vinte e cinco annos; e, sem ter grangeado colmêas de louises com as suas abelhas, morreu pobre como seu pai, como sua mãi, como seus irmãos.
O roubado não luz. Outros dizem que luz. Os ladrões é que sabem.
[QUE SAUDADE!...]
Folheando acaso a Revista Universal Lisbonense de 1845, li pela primeira vez a seguinte noticia: