UM DUELLO DIGNO DE LOUVOR
(CARTA)
Porto 10 de maio de 1845.
Snr. redactor.--Peza-me o não ter sido testemunha ocular de um caso acontecido aqui, a 5, pelas 4 horas da tarde, e em que se há de fallar por muitos dias.
Tinha-se espalhado que dous estudantes da arte amandi, fortissimos no capitulo dos ciumes e rivaes por uma triste fatalidade (porque segundo os snrs. estatisticos ha mais mulheres do que homens, e por isso os zelos masculinos quanto a mim deviam ser prohibidos); estes dous meninos, digo, ambos com o sangue na guelra, tinha-se espalhado que a essa hora combateriam em duello de morte (que sempre é obra mais aceada), sendo o sitio da execução o campo da Torre da Marca, padrinhos, outros academicos, e as armas, pistolas.
Concorreu toda a gente que pôde (eu só faltei por estar com um ataque de gotta, nos pés se entende); e não só povo, mas dous regedores, cabos de policia, um destacamento de tropa e muitas mulheres (não admira, a festa era em nome e louvor do sexo, nada prova tanto os seus feitiços como umas tripas ao sol); só faltava a tumba da misericordia, diz hoje com muita graça o Periodico dos pobres. Sôa a hora; apparecem os dous Quixotes montados como dous Sanchos em burros lazarentos de albarda rota e freio de corda, mas muito arrogantes na catadura (não os burros porém os campeões); um dos regedores, aliás bom homem, desapprovou com destempero que duas figuras d'aquelle feitio, brigassem á pistola; maudou-os apear e aos soldados que os prendessem; o povo, que não queria perder as passadas, murmurava contra o regedor, muitos estudantes já começavam a vociferar, um dos duellistas procurava convencel-o em segredo; o magistrado via-se perplexo e creio que assustado.
Apressou-se em passar por mão o negocio para superior instancia: acompanhou os zelosos á presença do administrador do bairro. Foi ahi que se descobriu a chave do enigma:--os maganões declararam que o seu unico intuito fôra fazer aos duellos a guerra do ridiculo: mostraram que as suas pistolas levavam polvora mas não bala, e affirmaram, o que era verdade, que entre os dous não havia nenhuma Dulcinéa. Afóra o regedor, todos riram muito; e o administrador mostrou ter pena de que se não tivesse chegado a representar uma farça que poderia ter, talvez, prevenido algumas futuras tragedias.
Um tripeiro velho que nunca brigou nem ha de brigar.
Falla-se ahi em dous meninos.
Ai! um d'estes meninos era o snr. Freitas Barros, actual secretario da administração do concelho de Coimbra.
E o outro menino era... eu!
Direi alguma cousa nos pontos em que o correspondente do Porto foi omisso.
Eu vestia casaca preta de abas em triangulo isosceles com a gola em promontorio, convexa, redonda e algum tanto sebacea. Na lapela esfarpellada alvejava uma camelia, symbolisando tenção amorosa á mingoa da charpa dos Amadis e Lancelotes, meus heroicos antecessores. Os collarinhos de papel almasso embeiçavam com os arcos amarellos dos oculos. A gravata era britannicamente branca, e absorvia-me o queixo de baixo na circumspecta gravidade dos desembargadores d'aquelle tempo. Recordo-me das luvas que eram de lã verde com um antebraço que lhes dava uns longes de manoplas. Em uma das botas duvidosamente marialvas luzia o espigão de uma espora sem roseta. O chapéo de castor, derribado por gebadas ad hoc, desformára-se nas fórmas caprichosas de barretina de lanceiro. Se bem me lembro, o meu adversario Freitas Barros vestia o mesmo uniforme, tirante o chapéo que era de bicos, em arco, de alterosas badanas, um pouco desengonçadas pelo attrito de meio seculo.
E, n'este feitio, depois de presos, atravessamos a cidade, desde a Torre da Marca até á rua do Almada, bifurcados nos burros espavoridos pela grita do gentio que exaltava n'aquelle intervallo de imprevisto carnaval.
Claro é que a minha postura e a plastica do trajar eram bastantemenle ingratas aos effeitos oratorios, posto que a rhetorica não fosse de todo parvoa. Dei ao meu braço direito, durante o discurso, um movimento pendular que depois vi perfeitamente arremedado no parlamento pelo snr. Martens Ferrão. E, dado que, tanto nas posturas como nas expressões, eu mantivesse a seriedade compativel, o magistrado que se chamava fulano Mendanha, não sustentou a gravidade consentanea ao acto, porque me interrompia com espirros de riso assás funestos aos golfos da eloquencia de quem quer que seja.
Não obstante, a authoridade compôz sisudamente o aspeito n'este lanço do meu discurso: «Snr. administrador! O ridiculo, na questão sujeita, póde contribuir para defecar a humanidade de um crime que a lei não evita nem pune. O duello, ill.mo snr., só deixa de ser ridiculo quando ha uma victima, quando ha sangue e lagrimas; e, assim mesmo, ninguem sabe dizer qual é o honrado, se o que morre, se o que mata, etc., etc., etc.»
Lembra-me que me fiz forte com Voltaire, como se o tivesse lido. Eu não tinha ainda 19 annos; e, n'aquella idade, dou palavra de honra que era estudante sem compendios, e o mais ignorante que podia ser um rapaz que entranhadamente execrava livros, e amava o sol e tudo quanto elle cobria, exceptuados os livros e os sabios.
Finalmente, o jovialissimo Mendanha mandou-nos embora; e nós d'alli sahimos com a consciencia convicta de haver escripto um brilhante capitulo na ethologia nacional, e com o estomago palpitante de sorrisos para uma merenda condimentosa no Rainha da Praça Nova.
Eu não me considerei então ridiculo a despeito da hilaridade das multidões. Ridiculo me vi eu dez annos depois, quando sahia de um duello com uma cutilada; e, olhando para ella, me acudia á memoria o meu discurso ao administrador Mendanha.
Mas... que saudades!...
[CARTA A RESPEITO... D'AQUELLA COUSA]
Agradeço-lhe, meu amigo, a remessa da Moleira que o lacrimavel Silva Pinto distribuiu impressa no theatro da Trindade. Devo á solicitude de v. o conhecimento d'este papel, e a occasião que me facilita de pedir ás pessoas que leram o n.º 6 das Noites de insomnia hajam de me desculpar das expressões menos limpas com que offendi o decôro das letras. Ha muitos annos que eu, forçando os impulsos da indole, algum tanto caustica, á submisão imposta pela idade, tolerava allusões injuriosas com a mais dolorosa conformidade. Quando, porém, vi que os admiradores do snr. Theophilo Braga abusavam do silencio dos velhos como de ignorantes vencidos e cobardemente resignados, fez-se mister de algum modo avisar estes homens, dar-lhes um pequeno abalo ao seu orgulho, fazer-lhes até sentir que as suas reputações litterarias estão assentes em bases pouco solidas. Os termos desabridos que usei com o pobre Silva, na verdade, sahiram-me immoderados. O homem era mais pequeno do que eu cuidava. Enganou-me. Pensei que fosse mais mau que tolo; e, n'essa allocução á opinião publica, vi com tristeza que elle é, no rigor do vocabulo, um desgraçado que, estourando por dentro, todo o hydrogeneo sulfurado lhe subiu aos miolos. É uma doença que, se espirrasse para fóra, todo homem communicavel com Silva devia de andar ensopado em agua de Labarraque.
N'este papel, que v. me envia, diz elle que me escalpellisa com o maximo socego, e que eu estou desesperado. Podéra não estar! Tomára eu que Silva se calasse, a vêr se me despeno d'estas afflicções em que elle me traz. Escalpellisa-me! Vê? Do escalpello á faca de ponta a differença está em algumas pollegadas de aço. O instrumento das glorias de Bichat, posto em mãos de Silva, assusta-me como se lampejasse nas de Cartouche. Ó Pinto! ó carnifice! já sei que garotêas na rua de Santa Catharina, e te alapardas no antro n.º 335. O chefe da esquadra vigia-te a rogos do meu pavor!
Elle diz ao publico:
Que discute pelo desejo de formular um protesto, etc.;
Que adiante formúla observações, etc.;
Que tem testemunhos de sympathia publicamente formulados, etc.;
Que o disparate só um leitor assiduo, etc., ousaria formulal-o, etc.
Formúla tudo. Este abuso da fórma denuncía costella de sapateiro. Quem te reformulára os aleijões a tirapé, Pinto! Pinto falso!
Diz que não me ameaçára na minha vida privada. (O privada é elle e d'elle. Eu escrevi vida particular. Não lhe quero maior castigo que a vergonha ante si mesmo de substituir cavillosamente palavras para amanhar um gracejo sujo). Não ameaçou?! Annunciou na Actualidade um livro escripto por um collaborador, e prometteu dar extractos na folha. Que queria dizer isso?
Diz que não escrevêra a local da trilogia, nem a outra ácerca do Castellar, nem a da cacophonia.
Então havia outro sandeu de igual marca no jornal? Que parelha de asneirões! Pelos modos aquelle escriptorio de redacção era uma estrebaria! Se os dous coexistem, são os meninos-siamezes da estupidez; mas o outro desconfio que é elle.
Falla de uns meus contractos litterarios com o snr. Anselmo de Moraes.
Ahi vai, com nojo e brevidade, a historia d'estes contractos já babujada pelo dos Musicos, e não sei por quantos da quadrilha.
Este Anselmo de Moraes procurou-me, ha seis annos, para me propôr a redacção de um periodico semanal, que se chamou a Gazeta litteraria. Aceitei. O contracto estabelecido foi que elle me pagaria a redacção por columna; e, imprimindo em livro os artigos do periodico, me compraria, á parte, a propriedade do livro. Pagou-me oito numeros, e deixou de me pagar os restantes. Neguei-me a escrever o n.º 17, quando a divida montava a 70$000 reis, e eu já tinha pago de minha algibeira a um collaborador, o talentoso Delfim Maria de Almeida. O periodico terminou.
Não lhe pedi o estipendio do meu trabalho, porque seria baldado pedir-lh'o, como havia acontecido ao estimado escriptor lisbonense Andrade Ferreira. Esperava eu, todavia, resarcir-me com a propriedade dos meus escriptos, publicando-os em livro; mas o snr. Anselmo de Moraes, esbulhando-me d'este recurso, editorou os artigos em volume, e os pôz á venda com o titulo de Mosaico e silva de curiosidades historicas, litterarias e biographicas, precedidos de um prefacio, attribuido ao snr. Theophilo Braga, onde se diz, pouco mais ou menos, que o author dos taes escriptos, sentindo a imaginação fatigada para o romance, se soccorre d'aquelle genero. Era, ao mesmo tempo, espoliação e descredito.
Assim que tive noticia d'esta... irregularidade (pacato synonymo de maroteira), constitui procurador que impedisse a venda dos livros, cuja propriedade me pertencia, e se apossasse da edição que se achava na casa Moré, se bem me recordo. O snr. Moraes levou d'este acto judiciario aggravo para a Relação, a qual decidiu que se entregassem os livros ao editor, fundamentando o accordão em que eu permittira a publicação do livro. Quem duvidára que eu permittira a publicação do livro? O que eu não queria consentir era que o snr. Anselmo de Moraes m'o não pagasse.
A acção judicial foi erradamente posta. Eu devia, em vez de fazer arresto por fraude, requerer arresto por calote.
Paguei as custas, e desisti de nova acção para não pagar outras; porque o snr. Anselmo era insoluvel. Ahi está a historia.
Falta dizer o conceito em que tenho o proprietario da Actualidade. Salvo melhor juizo, é um traficante na pessima accepção da palavra; mas tão parvo que me açula os seus mastins, devendo açamal-os em tal assumpto, se tivesse juizo, vergonha e consciencia.
Mas, tornando ao outro:
Pinto diz que eu o ameacei. Eu! Que me chamasse entidade escura, leproso e ignorante, perdôo-lhe porque é verdadeiro, menos no diagnostico da lepra; mas escrever que eu lhe dirigi ameaças, é peta que talvez me obrigue a matal-o uma d'estas bellas noites na rua de Santa Catharina, n.º 335, 1.º Ando á cata da arma, da unica arma idonea para tal burricidio: é um gato morto e putrido. Em quanto não topar o gato, Pinto póde sacudir a juba aos quatro ventos do céo.
A proposito de juba, dizem-me que elle exhibe uma guedelha king-charles ou á Ferré, o petroleiro. Perguntaram-lhe ahi no Porto porque não se tosquiava.--Já viu leão sem juba?--respondeu elle.--Nem urso sem pello--redarguiu o outro.
Figados e bofes de petroleo tem elle. Foi a Hespanha offerecer aos communaes o seu... estomago. As manhas que lá o sustentaram hei de pedir authorisação a um cavalheiro de Madrid, muito querido dos portuguezes, para as contar á Europa. Pinto percebe-me. Não são factos da privada, são da vida publica, vida de vergonhas que nos a vexam lá fóra. Na volta de Hespanha, repulso de Lisboa, despejou-se no Porto, e cavalgou Anselmo, ou Anselmo a elle--é ponto controverso.
Era aprendiz de caixeiro, em casa do snr. Anjos, se me não engano, em Lisboa. Um dia foi atacado da pestilencia das piadas. Entrou a arder em febre de asneiras. Em seus rábidos delirios, espumava injurias. Houve um innocente que o desafiou.--«Eu não me bato, insulto!»--respondeu o alentado cobarde. Moeram-no. Podéra!...
Este homem, na sua miseria, é um exemplo salutar á mocidade. É como o bebado nos festins da Laconia.
*
* *
Meu amigo, faz-me o favor de pedir novamente perdão á opinião publica? Vá-se habituando a pedir perdão todos os mezes.
Sou, etc.
[NIL ADMIRAM]
O snr. G. escreve um folhetim no n.º 154 do Primeiro de Janeiro. Louva as qualidades litterarias do snr. Pedro de Amorim Vianna, manifestadas na traducção das Memorias de Lafarge, e no Estudo correspondente. Observa que a celebre envenenadora grangeou sympathias nos salões da França, e attribue o phenomeno á corrupção da moral.
Depois, derivando aos costumes contemporaneos, escreve:
«Troppmann que em nossos dias póde ser considerado um dos maiores criminosos, chegaria a causar fanatismo, se se lembrasse de percorrer a propria França, theatro das suas tristes façanhas, e não faltaria quem se désse pressa em procurar estender-lhe a mão com intima effusão de contentamento.»
Sentir semelhante dislate, mas não o escrever, revelaria, quando menos, um eclipse de razão; mas divulgal-o, atiral-o ao rosto da sociedade, é um insulto. Que conceito fórma da moralidade da França o snr. G.! Troppmann, o assassino de algumas crianças que a justiça levanta de ao pé de sua mãi cortada de golpes, percorrendo a França, causaria fanatismo; e não faltaria quem se désse pressa em procurar estender-lhe a mão com intima effusão de contentamento!
Que dirá o seculo XXII, quando lêr isto! Dir-se-ha que o seculo de Jayme José Ribeiro, de Belem, era um periodo de selvagismo, e que o snr. G., á imitação de Boecio nas trevas da meia-idade, protestára contra os vicios do tempo, e affirmára honradamente a sua repugnancia em apertar a mão de Troppmann, com intima effusão de contentamento.
É justo que cada um exerça o direito de dizer o que pensa; mas os disparates, que ultrajam a consciencia publica, deveria o escriptor, embora anonymo, cohibir-se de alardeal-os.
Parvoiçadas d'esta laia, ditas em um botiquim, evolam-se como o fumo agro de um mau charuto de vintem; mas, estampadas em gazeta circumspecta, tornam-se immortaes como as gazetas, e arriscam perante a posteridade os GG, os BB, e todas as mais letras do alphabeto, sem excepção dos TT.
FIM DO 7.º NUMERO