AO LEITOR
La pensée est pouvoir.
Tout pouvoir est devoir.
VICTOR HUGO.
Este livro tem uma missão, e tem um fim.
Escripto para o povo, a sua missão é levar a luz ás ultimas camadas sociaes. Diffundil-a no tugurio do operario, e na choupana humilde do aldeão.
Inspirado nas mais sinceras crenças da democracia, aceita, como fim, arrancar ás garras d'esse immenso desalento e d'essa torpe corrupção—que por ahi vai gangrenando as sociedades—os generosos espiritos populares, para que as almas se não gelem, e os corações—que vivem de nobres aspirações—se não atrophiem, n'este completo desmoronamento de todas as instituições existentes.
O author d'este livro não tem pretenções, nem vaidades, nem receios. Não se julga apostolo, nem propheta, nem vidente. O mais obscuro dos obreiros d'este seculo—como é, e quer ser—escuta, attento, o ruido que vai lá fóra, nos paizes onde a idéa tem um culto, onde as crenças consubstanciam religiões, onde as sociedades se debatem na agonia de organisações politicas, sociaes e religiosas, que tendem a desapparecer; e pelo facto de existir, e de se considerar obrigado ás luctas da existencia, giza o terreno em que combate, sem orgulho, sem odios, e sem rancores pessoaes.
Volta-se para os seus irmãos no trabalho, operarios tambem—qualquer que seja a fórma por que exercem a sua actividade, e diz-lhes:
«Eu penso assim. Aqui tendes o producto das minhas meditações, e dos meus estudos. Dou-vos os lavores do meu espirito. Combatei-me, ou enfileirai-vos commigo.»
Eis a razão do livro.
Vêde, agora, a sua desenvolução.
O author crê nas inspirações grandiosas do povo, crê na mocidade estudiosa das escolas, e crê nas leis immutaveis, fataes, e inexoraveis do progresso, que acompanham a vida das gerações, e que nos conduzem a uma determinada somma de civilisação, a um especimen de perfectibilidade relativa, quaesquer que sejam os cyclos de descrença, de abjecto abatimento, de egoismo individual, e de corrupção momentanea em que se debatem as sociedades.
O author d'este livro é espiritualista.
Devotado ás leis sagradas e eternas por que se rege a humanidade, curvando-se, submisso e reverente, á vontade absoluta, que governa, e dirige o universo, pronuncia a medo, e na humildade da sua existencia, o nome do Ente Supremo, e crê firmemente, que todos os homens são iguaes. Ajoelha, e adora a omnipotencia, a infinita bondade, e sublime misericordia de Brahma, Zeus, Jezeu, Elohim, Jehovah, Allah, Osiris, Jupiter, Deus, Christna, Christo, finalmente do Eterno—qualquer que seja o nome sagrado, e mysterioso, por que as gerações modernas o pretendam appellidar.
O seculo dezoito teve por missão destruir.
O seculo dezenove é a transição, que liga, e une civilisações heterogeneas, é o parenthesis aberto n'estas luctas do espirito, n'esta convulsão moral, em que as sociedades actuaes trabalham para se regenerarem radicalmente, sob um differente aspecto, e aceitando novos dogmas, e diversas doutrinas.
O author d'este livro não despreza o passado. Não o injuria, não o diffama, nem o calumnia. Explica-o até, e, por vezes, justifica-o.
Mas aceita jubilosamente a corrente das idéas do seu seculo, e louva o Eterno na effusão das suas crenças.
Todavia não volta o rosto, como a mulher de Loth, para contemplar Sodoma.
Só a magestosa omnisciencia do Ser Supremo póde avaliar os entes que creou.
Ao sentar-se nos bancos das escolas superiores, no prefacio de um livro—dado a lume por um irmão d'armas, ferido, e cahido moribundo, já, na arena da discussão, pelas luctas da palavra—escreveu as seguintes linhas:
«Pergunta-se—se os gozos, se os prazezes pertencem unicamente a um pequeno numero de homens?—se a maioria, se as classes proletarias, se os Spartacus da civilisação moderna teem de escolher entre o passamento ignominioso nas gemonias do seculo dezenove, ou nas barricadas, nascidas do desespero, que a miseria e o ardor do martyrio obrigam a levantar? Pergunta-se—se o monopolio, se a concorrencia, são os dogmas injustos e tyrannicos, que hão de destruir as massas, como o carro do idolo Jagrenat, entre os indios, esmaga o craneo dos brahmanes, ou se a associação, esse credo dos assalariados das industrias, que os economistas victoriam—póde acabar com o pauperismo, e obstar á ignorancia dos povos, palladio deshumano a que os ambiciosos se seguram?»
Ainda hoje o author d'estas linhas formúla as mesmas perguntas, com a mesma severidade, e aceita a responsabilidade d'ellas na tranquillidade constante, e inalteravel do seu espirito.
A quem o accusar de leviano, de voluvel, e de imaginoso, no seio d'este hediondo tropel de ambições, que renegam, e apostasiam a cada hora—redemoinhando, revoltas, em torno do poder, seja qual fôr a sua origem ou procedencia—responde o author d'este livro com o sorriso do desprezo, e com a consciencia segura de que não sabe, não póde, nem quer deslizar nunca da lei augusta e sacrosanta do dever.
Os espiritos, para quem a libré é mais do que um distinctivo, e uma triste e crapulosa missão, porque chega a ser um sacramento imprimindo caracter,—esses, que se curvem, que se dobrem, e que degradem a face humana, varrendo, com a fronte, o pó das alcatifas e alfombras das regias aulas e alcaceres dos principes, magnates e satrapas do poder.
Pouco importa.
O vocabulo lacaio tem, na sua etymologia, a justa e bem merecida ignominia.
É a pena que a dignidade humana confere á abjecção.
Um dos primeiros—senão o primeiro escriptor d'este seculo—narra o seguinte:
«Octavio Augusto, na madrugada da batalha de Accio, encontrou um jumento a quem o burriqueiro alcunhára ou appellidára Triumphus. Este Triumpho, dotado com a faculdade de zurrar, pareceu-lhe de bom agouro. Octavio Augusto ganhou a batalha, lembrou-se do Triumpho, mandou-o fundir, e esculpir em bronze, e collocou-o no capitolio. Burro capitolino foi elle—mas ficou sempre burro.»
Eis a historia das vaidades humanas.
«O habito não faz o monge», diz a sabedoria dos povos.
As grandezas da terra são, as mais das vezes, o pelourinho de todas as ignominias—assim como do sambenito, e da cana verde da irrisão pharisaica surgem, em ondas de luz, a magestosa auréola do martyrio, e a apotheose deslumbrante, que a posteridade engrandece e divinisa.
O author d'este livro não crê nos partidos militantes, nos diversos grupos parlamentares, nas ambições e cubiças, que fervilham em torno das insignias consulares—quer se chamem opposições ou governo.
Escalar o poder pelo poder, aceital-o em todas as condições, á sombra de todas as bandeiras, na defeza de todos os codigos, e na metamorphose de todos os principios, parece ser a maxima inspiração de todas estas phalanges, ávidas e sedentas de governo, que reputam, como suprema beatitude, o ineffavel gozo de dirigirem uma situação politica qualquer.
D'aqui vem o scepticismo partidario, a indifferença profunda, e a descrença completa do povo.
N'isto, como em tudo, o author d'este livro está ao lado do povo.
Basta.
Fecha-se este prologo com uma simples remissão ao prefacio ou introducção do livro, que fica referido.
Assim termina esta advertencia ao leitor:
«A educação, nas classes pobres da nossa terra, tem sido desprezada: o povo ignora tudo, porque tudo lhe é vedado. Convinha, pois, que á frente de um livro, que narra com singeleza as tristes vicissitudes por que a governação entre nós tem passado; que aponta, sem exagerações, como a liberdade vai sendo sophismada, fossem estampadas algumas linhas, que levassem a esperança a corações para quem a educação é um miseravel scepticismo, e a vida um sudario de pungentes dôres.»
Estas linhas, escriptas ha vinte annos, firma-as o author d'este livro, com a convicção plena de que ainda não deslizou d'estas crenças, nem renegou, n'um só momento, a religião da sua mocidade.
Em mil oitocentos cincoenta e seis, quando a pena de morte era lei entre nós, quando o homicidio legal erguia a sua sinistra, e hedionda influencia n'esta terra—terminava o author d'este livro, em presença de um tribunal e em defeza de um réo, pelo seguinte modo, a sua oração:
«Quanto a mim, resta-me a honra de ter pelejado com a forca, esta peleja solemne e derradeira. Se eu ficar vencido, se triumphar o carrasco, tanto peor para o seculo em que combati, e para a philosophia que invoquei.»
Foi já rasgada a lei do homicidio. Falleceu o ultimo carrasco.
Bemdito seja Deus!
Venceu aqui a civilisação.
É para crêr, que venceu, tambem, a justiça absoluta, a consciencia, e a sociedade.
A inviolabilidade da vida humana é mais do que um principio, mais do que uma doutrina, mais do que uma lei: é um culto prestado ao Ente Supremo.
Deixai, agora, que o author d'este livro peleje pela democracia.
É esta, e só esta a verdadeira religião do futuro: é a obra sublime do Creador.
Lisboa, 24 de julho de 1874.
VISCONDE DE OUGUELLA.
[CONDEMNAÇÃO DE CORPO E ALMA]
A lei dos justiçados, antes de 5 de fevereiro de 1587, condemnava o corpo e a alma, não admittindo á communhão os condemnados á morte. Os juizes faziam-se intrepretes da justiça divina. Trancavam as portas do purgatorio á contrição, privando a alma do sacramento, que a theologia declarára indispensavel ao viador da eternidade, por fóra das regiões das trevas infinitas.
Não sei onde os legisladores acharam o esteio de tão cruel severidade com as almas dos justiçados. Não podemos, porém, duvidar d'este desprezo da lei de Jesus, em época tão assignalada de bons theologos, comprehendida nos reinados de D. Manoel e D. João III. Que os condemnados á morte não eram admittidos á communhão deprehende-se do tratado De sacramentis prœstandis ultimo supplicio damnatis, do famoso jurisconsulto Antonio da Gama, já no cap. I, já na dedicatoria ao cardeal D. Henrique, impressa pela primeira vez em 1559, e não em 1554, como diz o abbade de Sever, na Bibl. Lusit. O mesmo se infere do Compromisso da Misericordia de Lisboa, cap. 36, confirmado por alvará de 19 de maio de 1618. Ahi se estabelece o modo de acompanhar os padecentes e de lhes assistir. Estes usos subsistiram, através de dous seculos, exceptuados os enforcados politicos a quem por misericordia matavam com pouco apparato processional.
Ainda depois da lei que permittia o Viatico aos condemnados, nem todos gozaram esse dôce prazer, essa extrema consolação que lhes abria no reino de Deus a porta da esperança. Themudo, nas Decisões, tom. II, decis. 155, pag. 126, n.º 3, conta que o marquez de Villa Real, cumplice na conjuração de 1641 contra D. João IV, pediu licença ao arcebispo de Lisboa para commungar, na vespera do dia em que fôra degolado. O arcebispo concedeu a licença. Á meia noite ouviu missa no oratorio, e ás tres da tarde do dia seguinte (28 de agosto de 1641) foi executado. Ao mesmo proposito, leiam os curiosos o Commentario aos Lusiadas, por Manoel de Faria e Sousa, cant. III, est. 38.
Os co-réos do marquez de Villa Real ou não pediram licença, ou lhes foi negada. Agostinho Manoel de Vasconcellos, poeta, escriptor galante, e mais verde de juizo do que de annos—pois já orçava pelos cincoenta e tantos—parece que não tinha absoluta confiança no sacramento, pois que morreu sem elle. Póde ser que este peccador incontrito, vendo que os theologos do seculo XVI dispensavam os condemnados da communhão, e os julgavam irreparavelmente precítos na outra vida, fosse da opinião d'elles, e se deixasse ir até vêr o que succedia aos seus companheiros do cadafalso, passado o estreito medonho d'aquella horrenda morte.
Tenho lido romances historicos portuguezes, e de bom pulso, em que os condemnados coevos de D. João I e II, se confessam e commungam. Esta inventiva piedade dos romancistas encontra as cruezas repellentes da historia. É erro muito desculpavel. Qual é o romancista que lê os reinícolas Antonio da Gama, e Themudo, e o Codigo Filippino, e a Synopsis Chronologica?! Estes livros são escumadeiras das faculdades imaginosas. Quem se affizer a herborisar em taes charnecas, póde ser que vingue saber muita cousa obsoleta; mas toda a sua erudição, fundida na moeda miuda dos livros de passatempo, não logra captivar o leitor que lhe attribua a vigilia de uma noite. Não se é escriptor ameno e agradavel sem muita ignorancia. Eu devo a isto os meus creditos e a minha fecundidade.
[O DOUTOR BOTIJA]
Francisco Dias Gomes,—considerado pelo snr. A. Herculano o homem talvez de mais apurado engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de escriptores—foi malquisto de uns poetas contemporaneos que lhe chamavam o doutor Botija, allusão tirada das vasilhas de seu commercio de mercearia.
Um dos seus medianos admiradores era o abalisado mathematico e estimavel poeta José Anastacio da Cunha. Dos seus raros amigos—pois que os não grangeava em razão de sua indole desconversavel e um tanto hypochondriaca—o mais esclarecido e provado foi Garção Stochler, então lente de mathematica, e depois barão e general.
Francisco Dias Gomes, posto que modesto e conformado com a sorte de especieiro, não se deixava insensivelmente morder pelos epigrammas de quem quer que fosse. A honesta musa que lhe inspirou os graves e soporiferos poemas constantes do seu livro impresso por ordem da academia real, algumas vezes se lhe apresentou despeitorada e de saia curta, n'aquelle desatavio que desnorteia a circumspecção de um philologo da polpa de Francisco Dias.
O leitor, provavelmente, ainda não viu como este sisudo academico jogava o venabulo da satyra. A academia, se alguma topou entre os manuscriptos do seu confrade, com certeza a pospoz como damnosa aos serios escriptos com que a esposa e filhos do finado critico haviam de quebrar alguns espinhos da herdada pobreza.
Não me recordo se Stochler, na noticia critico-biographica anteposta aos versos posthumos do seu amigo, faz referencia ao espirito satyrico de Francisco Dias; o que certissimamente sei é que nunca vi impressa a satyra seguinte contra José Anastacio da Cunha, nem tão pouco a replica d'este poeta, que no proximo numero sahirá como prova do retrincado odio com que, em todos os tempos, os escriptores se expozeram á irrisão dos ignorantes, mutuando-se affrontosas injustiças.
Francisco Dias é iniquissimo no conceito que finge formar de José Anastacio, e tanto mais censuravel quanto aquelle douto e infeliz philosopho nunca desfizera na valia do mercieiro poeta, segundo se deprehende da resposta.
N'esta satyra o que muito vale é a pureza da linguagem condimentada com especies do seculo XVII, bastante avelhentadas e rancidas; mas, assim mesmo, saborosas a paladares não de todos depravados pela malagueta da poesia vermelha que ultimamente vige e viça.
Quanto a graça, é tão difficil achal-a em Francisco Dias como nas comedias de Jorge Ferreira. Os nossos bons classicos, quer fossem moços e mundanos, quer ascetas e encanecidos, não sei como pensavam; mas no escrever, eram todos como uns frades velhos que digeriam as suas idéas, tal qual um estomago dyspeptico de hoje em dia esmoe um paio do Alemtejo.
Ahi vai, tal e quejanda, a satyra do doutor Botija:
SATYRA
Vem cá, louco varrido, que diabo
Te metteu na cabeça ser poeta?
Quem te chegou a tão extremo cabo?
Não vês que toda a gente anda inquieta,
Cançada de soffrer teus argumentos,
Que te julga demente, que és pateta?
Eu nunca imaginei que teus intentos
Fossem fazer-te vão: agora julgo
Que em nada se tornaram teus talentos.
Se eu crêra em quantas pêtas conta o vulgo,
Das feiticeiras sordidas e aváras,
E outras, que aqui não digo, nem divulgo;
Dissera que perjuro te mostráras,
Que infido amante da cruel Canidia,
Seus magicos encantos divulgarás.
Que ella, por castigar tua perfidia,
Sobre as azas d'um Lémure correra
O Tauro, o Atlante, o Nilo, e a sêcca Lidia,
Onde hervas potentissimas colhêra,
Com que mixtos veneficos, horrenda,
De funestos effeitos compozera.
E porque ao fim viesse da contenda,
Pela alta noite, barbara, ullulára,
Com voz funesta, horrisona e tremenda,
Que as infernaes Deidades convocára
Do tremebundo Tartaro, formando
Mil circulos no chão com fatal vara.
Pallida, e consumida, suspirando,
As horridas madeixas eriçadas,
Com ellas murmurára um canto infando.
Alli foram de todo desatadas
As prisões, que a teu corpo o siso unia;
Alli tuas idéas perturbadas;
Sómente em ti ficou triste mania
De maus versos fazer, de argumentar
Com quantos ha, nas praças, noite, e dia.
Não deixa a gente já de murmurar
D'essa tremenda furia que te agita,
D'esse teu furioso e vão fallar.
Cuidas que, ainda que nescio, assim se excita
A celebrar-te o povo por sciente,
Elle que em tudo mofa, e fel vomita?!
E julgas que de rustico não sente
A differença que ha do branco ao preto?
Por certo que te enganas claramente.
Tu crês que só quem faz um bom soneto,
Ou decifra um enigma mathematico,
Esse só tem juizo, e é só discreto?
Se para ser qualquer da vida pratico,
Bem aviado está, se lhe é preciso,
Ser um grande geometra, ou grammatico.
Tal ha por esse mundo, e tal diviso,
Que sem saber a regra do abc,
É sagaz como trinta, e tem juizo.
Como queres tu pois que não te dê
Surriadas o povo maldizente,
Posto que nunca estuda, e nunca lê?
Se elle anda já cançado longamente
De ouvir as tuas vãs declamações
Com que pretendes emendar a gente!
Se defender intentas conclusões,
Mestre em artes, de borla, ou capacete,
Porque te ouçam as tuas decisões;
Rapa a cabeça tu, frade temete:
Combaterás então mais forte e ufano,
Que um guerreiro montado em bom ginete.
Não andes pelas ruas como insano
Syllogismos em barbara formando;
Se assim queres ter fama, é grande engano.
Que quer dizer, continuo, andar fallando
Em curvas, corollarios e problemas,
Demonstrações fazendo, e explicando?
Quando te ouvem fallar em theoremas,
Escalenos triangulos, e rectas,
Espheroides, polygonos, e lemmas,
Julgam ser isso termos de patetas
Ou d'esses que tem pacto c'o diabo,
E lhe fallam em partes mui secretas.
Pois eu d'aconselhar-te não acabo,
Se por tal te tiverem, fugirás
Como cão com funil atado ao rabo.
Em vão com grande esforço ladrarás,
Distinguindo a menor, que concedendo
Quanto o povo quizer á força irás.
Que achaste, inda que tu lhe vás dizendo,
Do circulo a sonhada quadratura,
Nada te valerá, segundo entendo.
C'os rapazes e moços, gente escura,
Gente indomita em fim, tua pessoa
Não poderá jámais andar segura.
Tanto já de ti fallam por Lisboa,
Que quando vaes por uma praça, ou rua,
Grande susurro em toda a parte sôa.
Ora pois tem razão, que a audacia tua,
E teus discursos vãos, e palavrosos
Dão causa a que qualquer teu sestro argua.
Eis aqui porque chamam ociosos
Aos que ás letras se applicam, temerarios,
Phantasticos, herejes, mentirosos.
Os fidalgos os tem por ordinarios,
Baixos de nascimento, sem avós,
De humildes pensamentos, vãos e varios.
Se alguem com acto humilde e baixa voz
Lhe offerece o elogio em prosa ou rima,
Louco, dizem, te vai longe de nós.
De nós a poesia não se estima;
Vê se tens outra cousa por que valhas,
Falla-nos de cavallos ou de esgrima.
De cavallos, de esgrima, de batalhas,
Não d'essas verdadeiras batalhadas
Com lança e espada, aereas antigualhas.
Entra por esta brecha ás cutiladas,
Amigo, tu que n'isto és o primeiro,
Segundo já te ouvi grandes roncadas.
Não te ficou venida no tinteiro,
Nem tantas soube o Molho destemido,
De malsins espantalho verdadeiro.
Se te ouvira o Palermo esmorecido
Da côrte se ausentára, por não vêr
Com teu valor seu credito abatido.
Bem pódes pelo mundo discorrer,
Novo Roldão, armado d'armas brancas,
Mil encantos e aggravos desfazer.
Leva do teu cavallo sobre as ancas
Tua dama sentada; esgrime e clama,
Que assim tudo afugentas, tudo espancas.
Ganharás maior nome, e maior fama,
Do que andar versos maus vociferando,
Dignos dos becos sordidos d'Alfama.
Se a fazer versos lá do lago infando
O diabo sahisse em tons diversos,
Taes como os teus faria, impio, e nefando.
Por isso não os tenhas por perversos,
Aos que pulhas te dizem, porque em fim,
Não ha cousa peor do que maus versos.
Antes mais vale ser villão ruim,
Frade apostata em casa das mancebas,
Do que ser mau poeta, antes malsim.
Agora quero eu que me percebas,
Se alguem te applaude e rijo as palmas bate,
É porque mais em teu vicio te embebas.
Que aqui te manifesto sem debate,
Todos esses amigos que te cercam,
Todos te tem por um famoso orate.
Quaes ha que rindo o folego não percam,
Vendo, quando andas só, teu ar profundo?
Se o gosto não lh'o invejo, caro o mercam.
Como o que anda d'um bosque lá no fundo
As féras conversando e as amadríadas
Desgostoso das gentes, e do mundo,
Quem te vê tão suspenso, outras iliadas
Julga que andas compondo, alto portento!
Outros novos altissimos Lusiadas.
Mas cada vez que recordar intento
Teu soberano e largo magisterio,
Fico qual nau sem leme ao som do vento.
Alli tudo decides com imperio:
Não foram tão despoticos em Roma
O tyranno Caligula, ou Tiberio.
Qualquer, de ti pendente, lições toma,
Não ousa, inda que queira, dizer nada,
Que tudo á tua voz se rende, e doma.
Alli qualquer materia é bem tratada,
Com larga voz e cópia de palavras,
Alli com teu discurso illuminada.
Antes fallasses tu em gado ou lavras,
Do que em sciencias, de que nada entendes:
Ou fosses para o monte guardar cabras.
Novos systemas se fundar emprendes,
Porque a fama no numero te conte
Dos grandes homens, que offuscar pretendes,
Pede ao bom Ariosto que te monte
Sobre o seu grifo rapido, e serás
Outro Astolfo, outro audaz Bellerophonte.
Ao concavo da lua subirás
Para vêr se descobres novos mundos,
Mas nunca o teu juizo encontrarás;
Perdeu-se como pedra em poços fundos,
Que nunca acima vem, nem nada, ou boia:
Juizos são de Deus, altos, profundos!
Não te esqueça maranha, nem tramoia,
Porque ao fim desejado te Conduzas,
Mais famoso serás que Helena e Troia.
Avante, ó novo Gama, já confusas
Com as tuas acções vejo as antigas,
E para te cantar promptas as musas.
Tem-nas da tua parte por amigas,
Materia dando a satyras facetas
Como as de Horacio, destro n'estas brigas.
Se minhas forem, não serão discretas,
Porque da rima a musica sonante
Adorna as minhas pobres cançonetas.
Inda esta nos faltava, a cada instante
Andares tu contra ella declamando!
Que mal te fez o pobre consoante?
Quando o chamas não vem logo a teu mando?
É porque com verdade não se preza
Do teu engenho o som suave e brando.
Elles fogem de ti com ligeireza
Os consoantes, porque em ti não sentem
Para bem usar d'elles natureza.
Se as minhas conjecturas me não mentem,
Os que poetas querem ser á força,
Pouco de um secco rábula desmentem.
Em vão um pobre espirito se esforça
Porque os seus versos sóem docemente,
Por mais e mais que o pensamento torça.
Nunca ouviste dizer que Apollo ardente
Agita a phantasia dos poetas,
Para que mais seu cerebro se esquente?
Inda que ouçam razões muito discretas
Das mulheres e filhos que pão pedem,
Deixam ficar-se, assim como patetas.
Nem fomes, nem trabalhos os impedem,
Que exercitem o dom divino e raro:
Tanto em seu desatino se desmedem;
Por isso ás vezes julga o vulgo ignaro,
Que elles são intrataveis, desabridos,
Posto que os bons lhe dêm louvor preclaro.
Mas tu que nunca ergueste os teus sentidos,
Que em idéas vulgares e confusas
Sempre andaste com elles envolvidos;
Se nunca conheceste Apollo, ou musas,
Nem pintado sequer viste o Parnaso,
Para que de seus dons sem saber usas?
Se temes que o teu nome em negro vaso
Para sempre se veja sepultado;
Usa do para que tiveres azo.
Não digas mal do consoante amado
Tanto dos bons engenhos peregrinos
Dos do tempo d'agora e do passado.
Se tu fundas em Miltons e Trissinos
Teus aereos phantasticos systemas,
Assás de bons não foram seus destinos.
Poucos ou raros lêm os seus poemas;
Um triste e melancolico caminha
Farto de extravagancias mil extremas.
A musa d'outro misera e mesquinha,
Languida e fria, sem adorno e graça
Da solta prosa jaz quasi visinha.
Ninguem jámais a noite e o dia passa
Seus aridos escriptos estudando,
Por muito que o seu gosto contrafaça.
Não o nego porém, de quando em quando
D'elles se eleva um resplendor sublime,
Digno do Pindo e Phebo claro e brando.
Mas tu a quem a rima tanto opprime,
Se não sabes, aprende: o canto hebraico
Dizem que ás vezes n'ella bem se exprime.
E que por evitar o tom prosaico,
Algumas vezes d'ella se servira
O poeta syriaco e o chaldaico.
Tambem a musa grega ao som da lyra,
Lá nos tempos antigos, d'ella usou;
E o romano que a face ao mundo vira.
Novamente o seu uso renovou
Dando-lhe fórma e ser o provençal,
De nova graça a poesia ornou.
Mas isto para ti de nada val,
Que porque te foi d'ella Apollo escasso,
D'ella e dos que a usaram dizes mal.
Que mal te fez Camões e o culto Tasso?
Camões a quem as musas educaram
Na sua gruta, e virginal regaço?
Qu'o cantico divino lhe inspiraram
Em que aos astros ergueu os lusos feitos,
Que tanto pelo mundo se afamaram.
Para exprimir altissimos conceitos
Nunca jámais a rima lhe fallece
Estylo e puro culto sem defeitos.
Qualquer rustico espirito conhece,
Que quanto o Camões quiz dizer, o disse
Facil e natural, como apparece.
Quem quer que d'elle mal fallar te ouvisse,
Diria afoutamente e com verdade,
Q'isso em ti era inveja, era doudice.
Ora pois, porque tens difficuldade
Em dizer teu conceito em dôce rima,
Vituperal-a é grande iniquidade.
Julgavas facil e de pouca estima
Dôces versos fazer? amigo, não,
É preciso trabalho, estudo e lima.
E isto sem natural inclinação,
Ou pouco ou nada val: se disso és pobre
Martellarás no pobre siso em vão.
A vêa natural não se descobre,
Mil glosas n'um outeiro recitando,
Mais vis que escoria vil de ferro ou cobre.
Oh quanto te escarnece a gente quando
N'elle estás como insano loucamente
«Tyrse, Tyrse!» com larga voz gritando.
Inda do consoante tão vãmente,
Te atreves, pobre infusa, a blasphemar,
Sendo tu tão vã cousa, e tão demente!
Elle nunca se deixa demonstrar
Na tão formosa lingua portuguesa
A quem com diligencia o procurar:
Qualquer, inda que pouca natureza
Tenha, dirá rimando o que quizer
Em estylo corrente e com clareza.
Tanto que aqui mui bem se póde vêr
Que sendo o meu engenho rude e baxo,
Exprimo quanto tenho que dizer.
Ou bem ou mal os consoantes acho,
Tão facilmente ás vezes me apparecem
Que para os apanhar me não abaxo.
Mas julgo que os ouvintes adormecem
Co'a minha longa pratica: eu me calo,
Pois que os gostos d'ouvir-me lhes fallecem.
Em fim já sem refolho aqui te fallo;
Se os meus versos conseguem felizmente
Fazer dentro em teu peito algum abalo,
Que o teu fado se quebre em continente,
Tornando-te, de louco, homem cordato,
E acabes de ser fabula da gente.
Tuas acções medindo com recato,
Deixando versos maus, vãos argumentos
Que te fazem de todo mentecato,
Darei por bem gastados os momentos
Que empreguei n'esta misera escriptura,
Censurando os teus fatuos pensamentos,
E ter-me-hei por mimoso da ventura.
[O PALCO PORTUGUEZ EM 1815]
Já n'aquelle anno, em meio da bruteza das nossas platêas, se confrangiam de magoa e pejo alguns raros entendimentos que vaticinavam a resurreição do theatro nacional. Almeida Garrett orçava então pelos dezeseis annos. Florecidas mais seis primaveras n'aquelle precoce espirito, a arte nova lhe desbotoaria as primeiras flôres da grinalda.
A tristeza dos bons entendimentos, em presença do abatido e nojoso palco d'aquella época, prenunciava a aurora que alvoreceu, passados quinze annos, com o primeiro dia da liberdade. As musas, trajadas com elegancia e aquecidas ao sol de estranhos, repatriaram-se com os desterrados que lá fóra retemperaram o genio na incude da pobreza, e reviveram nos esplendores da civilisação.
Um dos liberaes, que emigraram em 1828, e cursavam as aulas em 1815, escreveu, n'este anno, uma carta ácerca do theatro nacional. Se este escripto da primeira mocidade não revela vasto estudo nem gentilezas de phrase, com certeza denota razão esclarecida. O author da carta volveu á sua patria, mais atido á espada que á penna. Uma e outra lhe cahiram simultaneamente da mão, no cerco do Porto. Não sei o nome do official que jaz obscurecido na valla dos que morreram em batalha. Apenas em uma nota que precede a seguinte carta se diz que o author d'ella, morto na rareada fileira dos mais audazes soldados do imperador, teria sido um dos melhores cultores das letras que esmeradamente seguira na emigração. Archivemos o documento que merece ser lido como desfastio aos indigestos pastelões de historia theatral com que o snr. Theophilo Fernandes (Joaquim) nos tem intestinado o tedio da leitura: