III
Quando, ha quinze annos, vim, pela primeira vez, a S. Miguel de Seide, conheci o abbade de S. P. de E***. Procurou-me, pedindo-me que lhe escrevesse uns versos funebres para a eça de uma senhora de casa illustre. Não comprehendi logo o destino dos versos. Explicou-me o abbade que a poesia, copiada em boa letra, seria pregada na eça, e assim exposta á contemplação do publico. Escrevi duas oitavas com mais sentimento do que as escreveria se conhecesse a defunta. Eis aqui como me relacionei com o egresso graciano, ligado á lenda d'aquella menina, que tivera um nome digno das trovas plangentes de poeta de soláos—Beatriz de Vilalva.
Cincoenta annos contava então o abbade. Rosto de saude e alegria. Poucas carnes; compleição fina, mas forte; raros cabellos grisalhos; trajo serio, limpo, elegante; maneiras polidas; dizeres sentenciosos; anecdotas chistosas, mas decentes; casos do seu convento; tradições ineditas do seu ex-conventual José Agostinho de Macedo, e d'outros cerdos que não deixaram tão illustre memoria a ensombrar obscuras infamias. Era optimo conversador o abbade, e revia, no seu fallar, alguns signaes de ter estudado applicadamente philosophia. Disse-me que fôra o primeiro estudante do curso, e que o snr. D. Miguel I, assistindo ao seu exame de logica, o premiára em publico com a medalha da sua real effigie. Bom avaliador e juiz! O snr. D. Miguel I foi grandemente entendido em logica: toda a gente sabe isto, não obstante me asseverar o abbade que sua magestade não estudara logica; mas premiava os martyres que a estudavam, a fim de animar os outros votados ao martyrio.
Com o lapso do tempo, relacionei-me com a familia herdeira da defunta que eu cantei ou chorei. N'esta casa vi algumas vezes o abbade, e outras na sua igreja. Aconteceu ir eu alli ser padrinho de uma criança d'aquella familia. Antecipei-me á hora dada. Detive-me a observar a residencia de padre João de Queiroz—silenciosa como um grande tumulo, com dous ciprestes á porta, com um rocio coberto de arbustos e herva espontanea a entestar na escada ingreme do sobrado. Tres janellas de rotulas fechadas e espessas. As paredes tapizadas de musgo e fetos a vegetarem das fisgas. Duas pombas pretas a arrulharem na cornija. Um pardal a sacudir as azas molhadas no beiral do telhado. E á volta d'isto o rumorejo dos pinhaes circumpostos.
Sentei-me no beiral do adro, a olhar para uma janella interior da residencia, e a scismar nos vinte e cinco annos que o abbade para alli trouxera, e nas noites e dias dos outros vinte e cinco alli passados, com resignação, e até com alegria, tão só e desatado dos agrados da companhia, e com tantos predicados para dar e receber na convivencia uma honesta felicidade! Quando esta meditação me estava enlevando áquella suave tristeza que faz os homens melhores e o fardo da vida mais leveiro, assomou um rosto de mulher na janella onde eu, sem intenção, fitára os olhos; e, apenas me viu, retrahiu-se tão de subito como se dentro tirassem por ella a repelão.
Isto abalou-me. A mulher parecera-me bonita; mas não ha que fiar nos conceitos da minha vista, que pouco alcança a curta distancia; quer, porém, fosse feia, figurou-se-me quasi bella: era o bastante para dar larga tela ao nebrí da poesia, que, lá do alto, crê vêr uma rôla onde ás vezes está uma cegonha.
N'este comenos, chegou o abbade, e a criança no collo da ama, e o pai com a madrinha, e o sacristão e as testemunhas, vindo todos da casa do meu compadre, onde inadvertidamente esperavam que eu fosse.
Finda a ceremonia, o abbade offereceu-me a sua casa por mera civilidade. Meu compadre acudiu logo, dizendo que nos esperava o almoço. Partimos para E***, e o abbade acompanhou-nos, depois de ter ido a casa despir a batina, e revestir-se aceadamente, de casaca preta com habito de Christo, collete de velludo, bota de verniz, e chapéo alto de brilhante sêda.
Em quanto elle se demorava, depois de almoço, no quarto de minha comadre, alegrando-a com apropositadas anecdotas—que as tinha para tudo—fui eu com meu compadre vêr o pomar de fruteiras peregrinas.
—Gosto muito d'este abbade—disse eu.—Parece-me um bom caracter, pela satisfação e alegre rosto com que se entrega á sua obscura missão, podendo com as qualidades que tem aspirar a melhor posição na vida ecclesiastica!
—Não quer. Affeiçoou-se a isto, e nunca mais d'aqui sahiu. Eu amo-o com ternura. Já foi elle quem me baptisou. Devo-lhe provas de profunda estima. Tem sido elle o anjo pacificador das desordens grandes que tem ameaçado a estabilidade da nossa familia.
—Verdadeiro pastor!—atalhei eu com sincero respeito. E acrescentei, passados instantes:—A senhora, que vive com elle, é sobrinha?
—Perdão! eu vi hoje lá uma senhora na janella que diz para o pateo.
Riu-se meu compadre, e, remoqueando, ajuntou:
—O meu amigo, provavelmente, estava a idealisar castellãs na residencia que tem ares de castello arruinado, e figurou-se-lhe vêr uma sobrinha do abbade.
—Compadre—repliquei—eu sei quando vejo castellãs e sei quando vejo sobrinhas d'abbades. O senhor tem a certeza de que não ha mulher n'aquella casa?
—Tenho tanta certeza como estar eu com o meu amigo n'este pomar.
—Então, permitta-me dizer-lhe que o seu abbade é um patife.
—Ó compadre!... Um patife?!
—Ou dous patifes em um só abbade. Demonstro: se é sobrinha, e por tanto uma familiar licita e honesta, não havia razão para escondel-a, nem ella para se esconder rapidamente de mim: logo, não é sobrinha; e, se não é sobrinha, é... conclua vossê a demonstração. Que é a mulher que vive com um abbade, e não quer ser vista?
—Que imaginação! que romancista!—exclamou meu compadre—Desengane-se. Este homem póde ser que não seja o padre mais virtuoso, nem aspire a ser canonisado; mas mulher em casa nunca teve alguma, nem, ha vinte e cinco annos, alguem lh'a conheceu na freguezia ou fóra d'ella. Que mais quer que eu lhe diga?
—Que me creia; que se convença de que o seu abbade tem na residencia uma mulher; que esta mulher é bonita; que eu dava n'esta santa hora dous beijos...
—N'ella?
—Não, em vossê, se me descobrisse o mysterio d'aquella mulher, alli sequestrada do mundo, e absorvida toda na felicidade de um homem, que a esconde com tanta avareza, que os seus mais particulares amigos ignoram que tal creatura exista.
O meu compadre, feita uma longa pausa de reflexão, disse:
—Terá vossê razão!...
—Não é razão: é olhos. Juro-lhe que a vi.
—O que lhe posso dizer é que nunca entrei ao interior da residencia, nem pessoa alguma que eu saiba. Tem uma saleta onde era d'antes adéga, e onde recebe as pessoas que o procuram. Quando esteve, ha annos, doente, e precisava de medico, e de receber mais forçosamente quem o visitava, passou a cama para a saleta ao rez do pateo. Eu ia lá todos os dias, e nunca vi ao pé d'elle senão o criado; mas scismava com um rumor de passos no sobrado superior; e elle dizia-me que eram ratos.
—Eram ratazanas—corrigi eu.
—Pois seriam...—condescendeu o compadre, e prometteu esforçar-se por satisfazer a minha curiosidade.—Outra cousa,—disse-me elle quando iamos entrando em casa de volta do pomar.—Aqui vem todos os annos, em setembro, um rapaz estudante de Coimbra, que é sobrinho do abbade. Este rapaz dorme lá em cima. É crivel que elle, tão precavido com os outros, não escondesse a amante das vistas do sobrinho?!
—E quem nós diz a nós que o sobrinho não é filho, e que a amante não é mãi do tal rapaz?
—Onde isso já vai! Já vossê inventou prole ao homem para ter motivo para o segundo tomo do romance! Ora, meu amigo... Não me disse que ella era rapariga e bella?
—Rapariga, não disse.
—Note que o tal rapaz tem vinte e dous annos.
—E ella póde ter quarenta, e ser mãi, e ser ainda bella.
—Isso é verdade. Seja como fôr, estou picado. Hei de esgotar todos os recursos da minha espionagem; mas com uma condição: o que eu poder descobrir, dir-lh'o-hei; mas vossê não o divulgará, sob pena de me dar remorsos de publicar as fragilidades de um homem a quem devo as maiores finezas.
—Pois se receia que eu, levado do furor romantico, venha a assoalhar os MYSTERIOS DO SENHOR ABBADE, nada indague, e nada me diga. Eu sou um homem que conto a minha vida quando não posso, por ignorancia, contar a vida alheia. Antes quero não saber nada. Passe por cá muito bem o snr. abbade, e não perturbe vossê a paz d'essa familia, onde bem póde ser que as lagrimas tenham delido as maculas de muita culpa. Se elle é padre, tambem póde ser pai. Pater, pai, padre. E pater é pai, como diz, nas Odes modernas, o meu amigo Anthero do Quental. Fiquemos n'isto.