CONCLUSÃO

Quando os vi em Braga, no theatro de S. Geraldo, estavam casados havia já vinte e cinco annos. Na casa de Romariz, durante essa temporada, apenas pezaram dias funestos, quando se fecharam as sepulturas de Silvestre e sua mulher.

José Francisco Alvareães era um modelo raro de continencia conjugal. Em Portugal só se conhecem dois exemplares: el-rei D. Affonso IV e elle. As diversões da vida, convencionalmente chamadas prazeres, não perturbaram a suave monotonia de Romaris. D. Felizarda apenas conhecia na arte dramatica o «Santo Antonio» de Braz Martins, e a «Degolação dos innocentes» por onde entrou na vida infame de Herodes. As noites de dezembro aligeiravam-se em Romariz a dormir. Ceavam e digeriam serenamente. Ao pé de um bom estomago coexistiu sempre uma boa alma. Acordavam alegres, para continuar as funcções animaes. Viviam para credito da physiologia: eram duas pessoas que se adoravam e faziam reciprocamente o seu chylo em um só orgão. Tinham um coração, um figado, e um pancreas para os dois. N'esta vida vegetal havia ternuras cupidineas como as das cylindras e acacias florecentes; e, quando extravasavam da orbita physiologica, jogavam a bisca de trez; mas ordinariamente entretinham-se mais com o burro.

De S. Miguel de Seide—julho de 1876.