XI

José Hipolito creára protectores esperançados no bom exito da tentativa. Os inimigos politicos de Silvestre de Romariz coadjuvaram-no a tiral a judicialmente.

O juiz prestou se a interrogar a morgada, visto que ella não podia requerer por seu pulso. Suppridas legalmente as formalidades, Felizarda foi depositada em Barcellos, no seio da familia Alvaraens.

Trava-se então a lucta nos tribunaes. O pretensor, mal dirigido pelo seu advogado, responde com retaliações pungentissimas a insultos que o argentario lhe dirige ao seu nascimento obscuro e á sua pobreza. A pugna passara a ser um assanhado pugilato dos dois causidicos.

Um dos membros da familia Alvarães era moço, chamava-se Jose Francisco, e estudava o quinto anno de latim a ver se aprendia o necessario para conego da collegiada barcellense. Tinha quatro reprovações conscienciosas em Braga; mas ao quinto anno já distinguia o verbo do complemento objectivo, e traduzia com poucos erros a Ladainha.

A familia Alvarães era antiga e abastada; contava muitos frades bernardos na prosapia, e um governador em uma praça da Azia, d'onde trouxera navios de especiarias que formaram o casco da riqueza. A casa tinha pedra d'armas, e uma liteira brazonada que antigamente ia a Alcobaça buscar os frades a rusticar nas pescarias do Cavado, e a encher as roscas da caluga balofas pela inercia do claustro.

José Francisco, o estudante, era sanguineo, nedio, com as maçãs do rosto vermelhas, e os olhos enfronhados nas palpebras somnolentas. Felizarda, a noiva depositada, pareceu-lhe bem, ao passo que o amanuense da camara lhe era um antipathico bandalho, desde que em plena praça o enxovalhára perguntando-lhe, no terceiro anno de latim, o accusativo de Asinus. Oppozera-se José Francisco á recepção da morgada para haver de casar com José Hypolito, filho do Manuel Colchoeiro; mas força maior obrigara os Alvarães a protegerem o amanuense.

Ás vezes, o futuro conego pasmava-se a contemplar Felizarda, e sentia em si as suaves dôres da natureza em parto do primeiro amor. Se ella, a morgada, olhava para elle a fito, produzia-lhe no rosto o effeito do sol que aponta em dia de calma—avermelhava-o até aos globulos das orelhas; e José cossava-se a disfarçar, ou esbofeteava as moscas que lhe passeavam sobre a epiderme oleosa, e faziam titilações incommodas nas fossas nazaes.

A morgada achava-o bonito, e dizia ás irmãs que era pena fazerem-no padre. José, quando soube isto, creou umas esperanças que o tresnoitavam, e tinha as sentimentalidades doloridas de Jocelin, e d'um ou outro clerigo de Barcellos que deixava vingar-se a natureza.

Procuràva José Francisco Alvarães modos de conversar com Silvestre de
Romariz, e contava-lhe o que a filha dizia a respeito do Hypolito.
Levava á depositada cartas do pai, e lia-lh'as ás escondidas da familia.
O amanuense suspeitara-o, e tratava de remover o deposito, allegando
subornos que a lei não facultava.

Ora, n'aquellas confidentes leituras, estabelecera se intimidade bastante entre a morgada e o interprete das lastimas de seu pai. D'uma vez que Felizarda enxugava as lagrimas, ouvindo ler o adeus que o pai enfermo lhe enviava, José Francisco, transportado n'um rapto inconsciente de enthusiasmo, pegou-lhe da mão e disse com ternissima meiguice:

—Não case contra vontade de seu pai… Tenha pena d'elle, que está tão acabadinho…

A morgada poz-se a torcer e a destorcer o seu lenço branco, e a lamber uma lagrima que lhe pruía no beiço superior; mas não respondeu.

Alvarães foi contar isto ao velho. Silvestre pegou do processo que o seu advogado lhe enviara, e disse-lhe:

—Faça-me o sr. Josésinho o favor de levar estes autos, e ler a minha filha o que o tal patife, que quer ser seu marido, aqui diz de seu pai; leia-lhe isto, e veja o que ella diz.

O leitor já sabe, por eu lh'o haver dito nas primeiras paginas d'este livrinho, que o indiscreto amanuense consentira que se escrevesse que o pai de Silvestre fôra salteador de estradas, e que o pai de Felizarda exercitara o baixo mester de fogueteiro em Famalicão.

Tudo isto era expendido na tréplica de José Hypolito com grande lardo de zombarias e sarcasmos em estylo piccaresco. A morgada ouviu ler as injurias entoadas com vehemencia por Jose Francisco, que as declamou como se estivesse traduzindo um periodo de Eutropio.

Concluida a leitura, Felizarda, antes que o leitor a interrogasse com os olhos, exclamou:

—Quero ir para casa de meu pai, e hade ser já. O Josésinho vai commigo.
Mande dizer a meu pai que me mande a burra.

José foi dar parte á familia da subita resolução da morgada; o depositario foi dar parte ao juiz, e o juiz respondeu que a lei não podia empecer á vontade da depositada. Quando estas altercações chegaram á noticia de José Hypolito, a filha de Silvestre ia já caminho de casa, acompanhada pelo estudante e pelas irmãs.

O pai e a mãe receberam-na nos braços, offegantes de jubilo, a pedir-lhes perdão da sua doudice. Silvestre abraçava José Francisco Alvarães, chamando-lhe o salvador da sua filha e da sua honra. A santa mãe de Felizarda olhava para o estudante com os olhos cheios de riso, e dizia:

—Não queira ser padre, sr. Josésinho… Olhe que o meu homem já disse que se vossa senhoria quizesse a nossa rapariga, que lh'a dava, e eu tambem.

José olhou estupefacto para o velho; Silvestre intendeu o espanto, e disse-lhe:

—Não olhe para mim, que eu não sou o que caso; olhe para a minha filha, e veja o que ella diz. Felizarda, queres casar com o sr. José Francisco?

—Se o pai quizer… tambem eu.—E escondeu o rosto no seio da mãe com umas visagens que pareciam de entremez; mas que eram da maior naturalidade.

As irmãs de José Francisco rodearam-na e beijaram-na soffregamente, em quanto o noivo, alumiado por aquelle improviso e inesperado lampejo de felicidade, achou no coração estas phrazes que balbuciou, abeirando-se da morgada:

—Se a menina casasse com o outro, eu acho que morria de paixão, e mais nunca lh'o disse.