SCENA IX

PEDRO E RODRIGO.

Pedro

Senhor Rodrigo de Vasconcellos, vamos a contas. Quando recebeu vossê a minha ultima carta?

Rodrigo

Ha anno e meio, datada no Cairo. Respondi para o Cairo.

Pedro

Não recebi. Estava em Alexandria, embrenhei-me{41} pela Asia dentro, e voltei á America do Norte ha seis mezes. Escrevi-te para Lisboa.

Rodrigo

Sahi de Lisboa ha dezeseis mezes. A tua carta, provavelmente recheada de descripções romanticas, não ousou profanar o esconderijo onde me foragi com a minha felicidade de marido extremoso. Vou apresentar-te minha mulher.

Pedro

Venha cá vossê. Antes de me apresentar sua senhora, conte-me a historia do seu casamento. Todos os pormenores são pontos essenciaes d'esse solemnissimo desmentido ás tuas grandes theses de celibatario defendidas nas enormes ceias, em que tu parecias sepultar no estomago o esqueleto do coração.

Rodrigo

Esqueleto do coração!... Ó ignorante, aprende que o coração é musculo.{42}

Pedro

É musculo ôco; eu tambem já sabia isso, mestre; tambem fiz do peito amphitheatro anatomico; e quando procurava dezoito imagens de mulheres meio delidas na superficie rugosa do coração, encontrei o musculo, de que tens noticia, fundi-o, e achei o vacuo. E tu que encontraste?

Rodrigo

Isso.

Pedro

Isso quê?

Rodrigo

O vacuo do coração; mas a plenitude da alma, que é outra casta de entranha.

Pedro

Entranha! a alma é entranha! Collocas a essencia immortal na categoria do figado e do baço! Deixemos essa questão á Academia real{43} das sciencias, e vamos á historia do teu casamento. Vaes contar-me alguma historia onde o lyrico, o ideal, o extraordinario realcem e deslumbrem a vulgaridade do matrimonio. Vamos ás peripecias. (Em tom emphatico de narrador) Era uma formosa tarde de estio....

Rodrigo

Não tem romance, nem sequer lyrismo a historia do meu casamento.

Pedro

Não?!

Rodrigo

Vê lá se este casamento recende alguma poesia. Meu pae, estando eu em Beja, mandou-me procurar no recolhimento da Piedade de Evora duas senhoras nossas parentas, e que lhes lembrasse o seu antigo primo e amigo, e offerecesse a nossa casa e os nossos haveres, se ellas carecessem de soccorros. Fui a Evora,{44} perguntei no recolhimento pelas senhoras, e soube que ambas eram fallecidas, e que na cella onde tinham morrido vivia uma sobrinha d'ellas, muito doente do peito e para pouca vida. Vai vendo que funebre exordio!

Pedro

Sim: temos já duas mortas, e uma moribunda! Entras no templo de amor pelo cemiterio!

Rodrigo

Mandei pedir a minha prima se me concedia o favor de a cumprimentar. Permittiu que a visitasse no dia seguinte. Fui com um exquisito alvoroço e presentimento. Appareceu uma formosa menina com as rosetas da tysica nas faces e um sorriso de santa, como se a sahida d'este mundo lhe désse alegria. Conversamos muitas horas. Contou-me que era orphan, e tinha um pequeno patrimonio, de cujo rendimento se sustentava e mais a sua Eugenia, um anjo que Deus lhe mandára,{45} como compensação, que em poucos annos a indemnisasse da felicidade e amor, em desconto do muito que poderia viver. Visitei-a segunda vez. Apresentou-me então a sua amiga. Não trato de te incutir espanto da sua formosura. Eugenia tem a belleza reflexa do ideal incorporeo e indefinido. O que muito me impressionou, e mais do que a belleza, foi o ar de bondade e melancolia, uns olhos que pareciam estar sempre lagrimosos e fitos em uma grande calamidade, um scismar e concentrar-se sem affectação, sem sequer attender á presença de um homem que poderia ter a vaidade de fazer-se attendivel. Participei a meu pae o que tinha visto. Recommendou-me que convidasse de sua parte minha prima Celestina para passar-se do convento aos ares saudaveis de nossa casa em Traz-os-Montes, e lhe pedisse que levasse comigo Eugenia. Mostrei a carta de meu pae. Celestina pensou tres dias, e aprestou-se para a jornada com a sua amiga e as suas criadas.

Pelo caminho me foi contando minha prima a breve historia de Eugenia. Uma senhora de Lisboa entrou no recolhimento da Piedade{46} de Evora com uma menina de tres annos, a quem chamava sobrinha. Esta senhora vivia com poucos meios, e morreu não deixando alguns, quando Eugenia contava dezeseis annos. Minha prima levou para a sua cella a desvalida menina, e repartiu com ella a sua pensão. N'este sereno affecto encontrei as duas orphans.

As recolhidas, segundo depois averiguei, suspeitavam que Eugenia fosse filha da reclusa que lhe chamava sobrinha. Eugenia presume ter a certeza de que não é filha da senhora que a creou. Como quer que fosse, a supposição de que a orphan denotava com o seu sombrio silencio a procedencia de algum desgraçado amor, obrigava talvez a curiosidade a não devassar o mysterio de que minha prima não tinha a menor elucidação.

Celestina melhorou algum tanto na provincia; mas ao cahir da folha, expirou nos braços da companheira de infancia, dizendo a meu pae, em tom supplicante, que adoptasse como sua filha a pobre Eugenia. Passados dias.... Vê lá se te estou estafando com a historia.{47}

Pedro

Homem, não vês o interesse e a gravidade com que te escuto! Passados dias...

Rodrigo (proseguindo)

Meu pae, adivinhando-me, disse que o meu silencio lhe não lisongeava a alma, que eu ainda mal conhecia.—Se amas Eugenia, casa, disse elle.

Fui a Evora averiguar por onde poderia haver certidões necessarias ao casamento. Nada obtive; apenas um antigo capellão do recolhimento me disse, que a senhora D. Maria da Gloria, tia ou o que quer que fosse de Eugenia, entrára no convento em 1837 e morrêra em 1849 sem ter escripto nem recebido alguma carta; e que uma vez cada anno apparecia na portaria um homem ordinario, procurando a reclusa, e provavelmente entregava a D. Maria da Gloria o dinheiro com que ella parcamente se sustentava. No pensar do capellão esta dama era fidalga, porque o padre que a confessava uma vez dissera{48} que a secular tinha tão nobre sangue como espirito. Este padre confessor era já fallecido quando o procurei em Lisboa. Nada pude, portanto, averiguar, nem cuidei mais de inuteis indagações. Obtive dispensa das mais urgentes certidões, e casei com Eugenia... Por esta occasião meu pae perfilhou-me.

Pedro

Tu eras filho natural? Eu não sabia.

Rodrigo

Não? Nem eu. Só depois que sahi do collegio dos nobres e fui á provincia, é que os criados me contaram que minha mãe era uma formosa e pobre moça que amou muito e viveu pouco. Como vinha dizendo, meu pae perfilhou-me. Deu-me em dote a maior parte da sua casa, e reservou para si uma quinta afogada entre serranias em Traz-os-Montes. Ora aqui tens.

Pedro

E dizias que não tinhas romance!...{49}

Rodrigo

Romance não é; é o que os romancistas não sabem pintar: a felicidade perfeita. Eugenia é boa como todas as mães extremosas. Tenho um filho de seis mezes: a criancinha figura-se-me uma flor que se abriu da innocente e doce alma da mãe. Eu não tinha direito a tanto contentamento sem intercadencia de tristeza. Sou feliz; e creio que o sou, porque ha Deus, e porque me liguei a um dos seus anjos n'este mundo.

Pedro

Que linguagem! que transformação! Deixei-te sceptico a respeito de mulheres; atheu, a respeito dos deuses; e um consummado Herodes a respeito dos meninos. Acho-te um coração cheio dos tres e unicos elementos da felicidade humana: o amor do marido, a ternura de pae, e a religião que recebe os bens e os males da vida como favores da Providencia. Eu tambem creio em tudo isso; mas tambem creio no diabo. Depois d'isto o que{50} eu poderia desejar-te era doze contos de renda, e um supplemento de boa saude, como pedia Henri Heine quando não tinha esposa, nem filho, nem Deus, nem saude, nem dinheiro. Saude tens tu á proporção dos capitaes, não é verdade?

Rodrigo

Sim; vivo bem, e desassombrado de credores.

Pedro

Ah! tu já não tens credores?! (baixo) Transgrediste o solemne juramento que fizemos em Lisboa de não pagar a uzurario que abuzasse da nossa innocencia do juro da lei?!

Rodrigo

Meu pae mandou pagar tudo e a todos.

Pedro

E não te amaldiçoou?{51}

Rodrigo

Não.

Pedro

Oh! que pae! que santo! que patriarcha hebreu!

Rodrigo

Disse-me isto sómente: «Se houvesses contrahido dividas no valor do que possues, eu pagaria as dividas e ficarias pobre. Por óra és rico; mas, se teimares em dissipar, o opprobrio te ensinará o caminho da infamia.»

Pedro

Apre! Isso parece-me estylo de pae grego ou romano. Esse caso deve passar para a nova edição do Thesouro de meninos!

Rodrigo

E tu não pagaste áquelle dos oculos verdes?{52}

Pedro

A qual dos oculos verdes? Todos os uzurarios que eu conheci tinham oculos verdes. Eu não paguei a nenhum. Sou equitativo, e não distingo credores. Tambem sou romano e grego quando dou a minha palavra. Jurei não pagar.

Rodrigo

Teu pae provavelmente pagou...

Pedro

As minhas dividas? Seria virtude mais velha que os heroismos de Grecia e Roma, se meu pae pagava as minhas dividas não pagando as d'elle! Os meus credores devem morrer de spasmo quando souberem que na minha familia não ha avô que pague pelo filho e pelo neto. Descendo de uma raça insoluvel desde meu vigesimo quarto avô D. Ordonho, principe gothico, até mim, que tambem não pago porque me não chamem gothico,{53} como éra meu vigesimo quarto avô D. Ordonho.