SCENA X
OS MESMOS E D. EUGENIA
D. Eugenia assoma no limiar de uma porta, e faz menção de retroceder vendo um estranho
Rodrigo
Entra, Eugenia. (Ella entra com uma carta aberta.) Quero apresentar-te ao meu amigo Pedro Gavião Aranha.
Pedro
Amigo desde o collegio, e de quantos elle teve e tem o mais participante das felicidades em que o venho encontrar depois de quatro mezes de auzencia.{54}
D. Eugenia
O Rodrigo já me tinha fallado de V. Ex.ª com muita estima; e eu tenho muito prazer em vêl-o n'esta casa. (Voltando-se a Rodrigo) Chegou agora esta carta da condessa de Travaços. Vê.
Rodrigo (depois de a lêr mentalmente)
Pede um convite para o baile... (reflectindo) Ó Pedro Aranha, como se chamava o sujeito que em New-York te fallou em meu pae?
Pedro
Jorge de Mendanha.
Rodrigo
Ora ouve lá: (lê). «Minha querida, senhora. Peço-lhe que obtenha do Rodrigo de Vasconcellos um cartão de convite para um sugeito{55} de fóra que foi apresentado ao conde. Chama-se Jorge de Mendanha.
Da sua prima e amiga etc.»
Pedro
Oh! cá está o homem! E é singular coisa! Quando sahi da America estive com elle, e nada me disse de vir a Portugal!.. Vão V. Ex.as vêr um homem de romance.
D. Eugenia (com simplicidade)
Então quem é esse homem?
Rodrigo (risonho)
Essa pergunta assusta-me! Alvoroça-te a prespectiva d'um homem romantico?
D. Eugenia (sorrindo ingenuamente)
Nunca vi nenhum...{56}
Rodrigo
Nem á mim? Então que sou eu? Não sou... sequer romantico!
D. Eugenia
Não; tu, Rodrigo, és bom... Eu li alguns romances no convento; e não encontrei n'elles a semelhança do teu genio; e nós lá quando diziamos que algum sujeito ou alguma senhora eram romanticos, não lhes faziamos elogio algum. Por isso é que eu desejava saber em que opinião se deve ter o tal sujeito que o snr. Pedro Aranha diz que é de romance.
Pedro
E poderei eu responder-lhe, minha senhora? Jorge de Mendanha é o mysterio; é um portuguez com uma cara de beduino; um velho com uns ares que impõe respeito, e ao mesmo tempo se insinuam no affecto dos moços. É eloquente; mas falla á moda dos atticos. Tem estylo sentencioso, concizo e cathedratico.{57} Emfim, minha snr.ª, estimo grandemente o novo encontro com este homem que se destaca das espalmadas vulgaridades que nos acotovellam nos bailes, nos cafés, nas ruas, em todo este Portugal que é uma especie de viveiro, onde todos os homens parecem educados para meninos do côro.
Rodrigo (sorrindo)
Por exemplo, aqui tens, Eugenia, um menino do côro creado nos viveiros de Portugal. (Indica Pedro).
Pedro
Pois bem; eu não inculco a minha sufficiencia para corista; mas é que eu fui reedificar-me, para assim dizer, nos paizes onde as artes são por tal modo milagrosas que transformam um homem. A civilisação anglo-americana é uma especie de depillatorio que descabella os ursos de todas as nações.{58}
Rodrigo
Tudo portanto que não foi, como tu, receber da thesoura ingleza uma tosquia, é urso. Obrigado, snr. Gavião Aranha. Dá alvará de urso aos seus compatriotas, e eu tenho um criado que vinga os seus patricios annunciando-te como sujeito que tem dois bichos mais ou menos ferozes na sua pessoa.
Pedro
O que?