SCENA VII
VISCONDESSA, SÁ E JORGE
Viscondessa
Já viram uma sinceridade mais infantil? A dona do baile a dizer-nos que não gosta de bailes? Tanto importa como declarar-nos que a nossa companhia lhe é mediocremente agradavel; não acham?..{123}
Jorge
Esta senhora parece-me boa, triste, mas realmente pouco habituada ás salas. É do Porto?
Viscondessa
Nada, não é; mas eu tambem não sei d'onde seja. Este casamento de Rodrigo dá dois capitulos para um romance semsabor como se escrevem em Portugal.
Jorge
Os romances portuguezes póde ser que sejam semsabores; mas as tragedias tem um não sei que de irritante, um acre de sangue... Vamos á tragedia, snr.ª viscondessa, á tragedia interrompida.
Viscondessa
Pois eu não conclui?{124}
Jorge
Não minha snr.ª V. Ex.ª chegou ao ponto em que...
Viscondessa
Em que o marido a matou. Ella morreu envenenada, e elle entregou-se á justiça. Ajude-me a recordar, snr. José de Sá? Que explicações deu o Silveira matando a mulher e deixando viver o Vasconcellos?
José de Sá
Silveira não deu explicação alguma, snr.ª viscondessa.
Viscondessa (com impeto)
Ai! ai! ai! a quem eu estou contando a historia... Ainda agora me lembro! ora esta! pois V. ex.ª não era o amigo intimo de Silveira? Não passava os dias com elle no Limoeiro?{125}
José de Sá
Passava, minha snr.ª
Viscondessa
Então aqui tem o melhor informador que V. Ex.ª podia encontrar. Conte o que sabe, conselheiro. É verdade, queira dizer-me: a filha de Martha de que tomou conta a Maria da Gloria Villasboas, que é feito d'ella, sabe?
José de Sá
Não sei.
Viscondessa
Então que sabe? Esta ignorancia é singular, por não dizer irrizoria! Querem vêr que a candura d'este varão se está insurgindo contra uma historia de corrupção social.
José de Sá (sorrindo)
Isto não é candura, minha snr.ª Eu estou corrompido bastantemente para não ser tolo.{126} Na nossa sociedade, minha viscondessa, as canduras apodreciam antes de florir innocencias tamanhas. Declaro a V. Ex.ª que não sei o que é feito da filha de D. Martha de Villasboas. Mas que insistencia, senhora! Tendo V. Ex.ª tantas flôres e tantas coisas cheias de vida e de luz no seu espirito; para que ha de estar enluctando a sua gentil conversação com umas memorias em que ha lagrimas a respeitar e infamias a perdoar?
Jorge (severamente)
A perdoar!
Viscondessa
E eu accuso alguem! O snr. está exquisito! Eu não sei se a Humanitaria dá medalhas aos sentimentalistas como V. Ex.ª Este snr. se vir representar o Othello de Shaskspeare sáe do theatro para não vêr historiada a infelicidade de Desdemona e a colera barbara do marido. É capaz de os ir accusar á policia!{127}
José de Sá
Eu não me retirava do theatro, nem iria accusar á policia as adulteras mortas visto que não accuso as vivas; não sahiria do theatro; mas em vez de olhar para o palco, olharia para as snr.as que contemplam sem impallidecer o horrendo trance da morte de Desdemona; e, na seguinte noite, irão vêr no mesmo palco representar uma comedia em que se zombe d'um marido deshonrado, e se mova a piedade das plateias a favor da adultera e do seu cumplice.
Viscondessa
Optimo! Isso é bom, bonito e eloquente. Mas eu, se não desmaio quando vejo as agonias fantasticas das peccadoras no theatro, tambem me não rio dos maridos escarnecidos, nem me commovo pela desventura d'aquellas que fizeram do seu coração um filtro de peçonha e de infames lagrimas. Quando Martha de Villasboas foi morta, eu não fui das que se vestiram de lucto e andaram pelas egrejas{128} a fazer-lhe uns baratos suffragios pela alma, e formavam grupos nos adros execrando a ferocidade do homem que não pôde dispôr da pacifica tolerancia dos maridos que acompanharam ás egrejas as devotas esposas. Se eu tivesse a fé que ensina a rezar pela salvação das almas, rezava em caza. Não indo á egreja, nem saindo a irritar odios contra o infeliz marido de Martha, cuido que respeitei bastantemente a desgraça de ambos. E, se as minhas orações valessem perante Deus, eu pediria perdão para ella, e misericordia para elle.
Jorge
Esse grande desgraçado, se ouvisse a snr.ª viscondessa, cuidaria que houve no mundo duas pessoas que choraram por elle...
Viscondessa
Eu que tinha sido excluida das relações de Martha, fiz mais, snr. Mendanha. Sabia que existia uma menina de tres annos, quando a{129} minha amiga de infancia morreu. Fiz inuteis exforços para descobrir a paragem da menina. Se tivesse encontrado em desamparo a filha de Martha, leval-a-ia para minha caza... (Momentos antes Eugenia e Pedro Aranha tem entrado na sala que vão atravessando, e Eugenia applica o ouvido ao que se está dizendo: e solta com sobresalto uma exclamação quando a viscondessa termina).