SCENA X
D. EUGENIA E JORGE
Jorge
No semblante angelico de V. Ex.ª reluz sinceridade. Não posso crêr que a snr.ª D. Eugenia finja ignorancia; mas tambem não posso perceber o ar de interesse com que me pergunta se eu conheci Martha de Villasboas.
D. Eugenia
Fui creada n'um recolhimento, onde muitas vezes ouvi contar a desventurada sorte d'essa snr.ª
Jorge
Ah! ficou-lhe na memoria o nome, e no coração{134} o dó da mulher que teve a infelicidade de ser amada do marido até ao extremo de ser morta por elle...
D. Eugenia
E elle amava-a!?
Jorge
Que pergunta! Pois não vê que elle a matou por ciumes?
D. Eugenia (como aterrada)
Matar! que horror, meu Deus!
Jorge
O horror não é matar; é sobreviver a esse cadaver que deixa uma herança de deshonra eterna. O horror é viver com o pozo d'esse cadaver, não sobre a consciencia, mas sobre o coração esmagado para nunca mais ressurgir. Para que V. Ex.ª possa sem espavorir-se,{135} pôr os olhos de sua alma no homem que matou Martha, imagine-o esposo, amante e apaixonado, ao quarto anno ainda noivo, cuidando que sua mulher a cada novo dia que vem sempre de caricias, sente a precisão de redobrar de ternura e gratidão. Veja-o de joelhos, ao pé de um berço onde lhe brincava com os beijos uma creança que elle chamava filha...
D. Eugenia (com impeto)
Então V. Ex.ª conheceu-o?
Jorge
Se conheci!.. Considere-o de repente sem a esposa, sem a filha, com a alma varada pela morte das duas vidas que viviam n'elle. A mãe descaroada vae ao berço onde está a creança, grava-lhe no rosto o labéo da sua infamia, involve-a na sua mesma mortalha, sepulta-se com ella. O marido e pae é de repente arrancado a impuxões de opprobrio dos braços de uma esposa querida. Quando{136} lhe elle agradecia as alegrias de seu amor, e a creança sorrindo parecia entender os jubilos do pae, Martha punha um pé sobre o coração do marido, outro, sobre o seio da filha, e repartia entre os dois a deshonra que lhe subejava. Do homem que por espaço de quatro annos lhe beijára os pés, fez um desgraçado sem nome; mas a sociedade precizando dar um nome a esse desamparado, chamou-lhe assassino. Elle matou-a, snr.ª D. Eugenia; foi a si proprio que elle se matou. Era forçoso espedaçar a alma que se identificára ao corpo contaminado da mulher perdida. As convulsões do veneno dilaceraram-lhe duas robustas vidas, a do coração e a do pundonor. O anjo que esse homem chamava filha cahiu dos braços da mãe, e elle repulsou-a dos seus, porque... não sei onde estão torturas comparaveis ás da incerteza entre um berço onde sorri um innocente e a sepultura onde os vermes completam a podridão de uma coisa infame como é a mulher que deixou seus filhos envergonhados se lhe proferirem o nome. Peço perdão, se estou magoando a sua sensibilidade, minha snr.ª V. Ex.ª está soffrendo, e eu disse{137} palavras acerbas como se as estivesse dizendo em frente dos juizes que condemnaram Jacome da Silveira. Chora! V. Ex.ª chora?! porque?
D. Eugenia
E porque não pediria essa criancinha a vida de sua mãe? Ella choraria o seu remorso ao pé do berço da filha... O desgraçado que praticou um tão duro castigo devia deixal-a viver, abandonal-a, para que a orfã não ficasse tão sem abrigo, á caridade de estranhos... Não se mata uma mãe que tem nos braços uma criancinha de tres annos.
Jorge (severo)
Essa mulher que morreu tinha o amante que primeiro lhe matou os brios; a criança podia ser filha do amante; e, se elle fosse menos infame do que cobarde, deveria retribuir a deshonra da mãe, repartindo com a orfã as pompas d'esta casa.{138}
D. Eugenia (vivamente agitada)
Não entendo, snr.! Porque diz V. Ex.ª que a filha de Martha devia ter parte nas pompas d'esta casa? Responda... diga... diga que segredo é este de que vae estalar uma grande desgraça... Olhe que é atroz a minha desconfiança... é horrivel... e eu receio morrer...
Jorge
É incomprehensivel o susto de V. Ex.ª! Receia morrer... porquê? A snr.ª D. Eugenia está formando espantosas tragedias na sua fantasia! Olhe que não ha nada extraordinario que deva atemorisal-a... Contou-se aqui a historia d'um homem atraiçoado, e d'uma mulher morta...
D. Eugenia
Mas meu sogro teve parte n'esse terrivel acontecimento?{139}
Jorge
E quando tivesse, minha snr.ª? Ha ahi nada mais vulgar, que um homem deshonrado por outro? E acaso viu V. Ex.ª incapellarem-se grandes tormentas á volta das pessoas como seu sogro?
D. Eugenia
Mas... só duas palavras... depressa, antes que venha gente. Meu sogro foi quem perdeu Martha.... foi? (Agitando os braços, desprende-se-lhe uma pulseira, que Jorge levanta; mas, ao acolchetar-lh'a, repara e estremece).
Jorge (rancoroso)
Quem lhe deu esta pulseira? quem lhe deu este retrato, senhora?
D. Eugenia
Retrato! isto não é retrato... Esta pulseira deu-m'a...{140}
Jorge (interrompendo-a com mal reprimido arrebatamento)
Seu sogro? Esse ignobil costuma dar ás esposas dos filhos os retratos das amantes?
D. Eugenia
Jesus! Ouça-me...
Jorge
Sabe a snr.ª que este retrato é o de uma adultera que se chamou Martha? uma adultera que deu a seu sogro o retrato que o marido lhe dera n'esta pulseira entre as joias do noivado? (Arroja a pulseira ao chão, e vae pizal-a quando Eugenia a levanta impetuosamente).
D. Eugenia
Pois este retrato é o d'ella? (beijando-o e soluçando){141} Oh! eu não sabia... Vem gente... não quero que me vejam chorar... siga-me... eu tenho muito que lhe dizer... siga-me a outra sala. (Toma-lhe o braço e sahem rapidos).