SCENA XI

VISCONDE DE VASCONCELLOS E JOSÉ DE SÁ

Visconde

Quando me disseram que estavas aqui esperava eu que as forças me deixassem preparar para a jornada...

José de Sá

Para onde vaes, visconde?

Visconde

Para Traz-os-montes, para uma torre onde estaria bem apartado da sociedade o Leproso{142} de Xavier de Maistre... Ha muitos annos que te não vejo, José de Sá. Eramos rapazes a derradeira vez que nos vimos! Estás ainda robusto, e com o colorido da mocidade nos gestos e nos olhos. Vê-se que não inclinaste a cabeça para o peito a chorar. Não afogaste em lagrimas, quando eras moço, os embriões d'onde te floriram as alegrias da velhice. Não fui eu assim, José de Sá. Sabes que formidavel trance me envelheceu quando eu principiava a viver. A Providencia ainda não levantou a mão inexoravel. Não pódes imaginar o que ha sido a minha vida.

José de Sá

Basta-me vêr-te para crêr que tens soffrido; porém, não o imaginava eu assim. Depois que sahiste de Lisboa, poucos annos passados soube que tinhas um filho. Ha dias chegando ao Porto, soube que teu filho dava um baile, e que tu vivias quasi sempre na provincia. Estas noticias, a fallar verdade; não me parecem bastantemente significativas{143} da vida dolorosa que tens passado. Eu julgava-te feliz como o vulgar dos homens.

Visconde

José de Sá, o mundo quando vê padecer os grandes criminosos, recusa acreditar que elles soffrem, para os ter sempre debaixo do peso do seu odio. Se um supplicio secreto os mata lentamente, o mundo, embora lhes veja lagrimas nas rugas do rosto, não tem compaixão d'elles. A sociedade crê pouco nos castigos occultos da justiça divina, porque não conhece justiça efficaz e exemplar senão a dos carceres, dos degredos e das forcas. Desde aquella hora funesta em que eu me vi ao mesmo tempo o mais miseravel e despresivel homem... quando me foi forçoso esconder no meu antro as lagrimas por aquella... cuja sepultura eu abri... desde aquella hora accendeu-se em minh'alma um inferno inextinguivel.

José de Sá

Os teus amigos cuidaram que terias então{144} a louvavel e virtuoza coragem do suicidio.

Visconde

A virtuoza coragem do suicidio! depois que se atropellaram em frente de mim desgraças tamanhas, o matar-me então seria coragem? O partir a corrente que me prende ha vinte e dois annos a um incessante supplicio seria coragem? Eu n'aquelle tempo não tinha o menor vislumbre de religião, o matar-me sem pavor da eternidade seria, nas minhas circumstancias, o complemento de uma vida proterva. Fechar olhos para não vêr a sombra de Martha, nem Jacome no degredo, seria um acto de valor? Não. Valor é ter ainda hoje lagrimas para ambos... E no dia em que eu não poder chorar, descrerei de Deus e então... matar-me-hei, por intender que expiei acerbamente, e não fugi ao castigo...

José de Sá

Mas parece que fugiste do duelo.{145}

Visconde

Eu não podia affrontar-me com o homem que eu deshonrara. Criminosos como eu aceitam uma bala, não aceitam um contendor no campo da honra. Matam-se, não se desaffiam taes homens. A sociedade quereria que eu apontasse um florete ao coração do marido de Martha? Se eu o matasse atenuaria a minha baixeza com esse acto de deshumanidade?.

José de Sá

Mas a sociedade, quando vê os delinquentes na tua condição, pergunta como é que expiam.

Visconde

Essa pergunta me fazes tu em nome da sociedade?

José de Sá

Não: se eu te interrogasse, visconde, seria por minha conta. A sociedade creio eu que não te pergunta nada. Dá-lhe bailes; que a sociedade{146} troca por isso o prazer de te diffamar. A sociedade em quanto dança não dilacera reputações. Evita, quanto puderes, ser desgraçado e pobre. Isso é que se não perdôa. Ainda que os remorsos te cortem o coração, sê tu rico, e verás que a sociedade conspira em te distrahir com o espectaculo da farça humana em que os truões sacodem os cascaveis para que não ouças os gemidos da tua consciencia.

Visconde

Eu não dou bailes; dá-os meu filho que é moço, e não se priva dos gozos da mocidade porque me vê chorar. José de Sá, tens sido duramente severo comigo. Não me queixo. Generosamente me apertaste a mão; e eu não merecia tanto. Se alguem houvesse compaixão de mim, não serias tu por certo, que foste amigo de Silveira e o confidente de afflicções superiores ao entendimento de desgraçados maiores do que eu. Chorei-os ambos, porque os matei ambos. Peguei d'aquelles trez entes cheios das alegrias da honra e do amôr...{147} e atirei-os á voragem do opprobrio e da morte... Despreza-me tu, desprezem-me todos, que eu não tenho rehabilitação... não posso arrancar-me das prezas implacaveis do meu remorso. (Cahe extenuado numa cadeira).

José de Sá (comtemplando-o, e entre si)

Não te erguerás não, infeliz! Péza-te na consciencia o cadaver de Martha...