SCENA XXII
OS MESMOS E JOÃO LOBO
João Lobo
Felizmente que eu chegava a casa quando recebi o recado.
Conselheiro
Fui eu, snr. doutor, que pedi a sua vinda.
João Lobo (tomando o pulso de Francisco Valladares)
Isto assim não vae bem, snr. Valladares. Se V. Ex.ª não quer, ou não póde subordinar á rasão e á necessidade o alvoroço em que está o seu espirito, mais doente do que o corpo, não tenho que fazer aqui. Tenha a briosa coragem de ser homem, para viver. (Francisco de Valladares faz um gesto de constrangimento, sorrindo-se com amargura). {263}
Conselheiro
É o que elle faz, snr. Lobo. Vae affastar de si as pessoas que o atormentam, ou mais exactamente são essas pessoas que muito por sua vontade se affastam. Eu sou uma, e minha filha é a outra pessoa importuna que está impeçonhando o máo ár que este doente respira.
João Lobo
Sua filha?! Pois a snr.ª D. Albertina atormenta seu marido?! V. Ex.ª sem duvida proferiu um gracejo ou uma ironia, mas ha n'isso alguma coisa que me punge como principal testemunha do incomparavel amor que esta senhora tem a seu marido, ou tinha ha poucos dias. E como principal testemunha, embora não seja chamada, vou depôr n'este pleito, e hei de ser escutado pela delicadeza de V. Ex.as (Circumvagando a vista pela sala) Falta alguem no meu auditorio. O tribunal não póde funccionar sem a presença da snr.ª D. Antonia. Requeiro que seja chamada S. Ex.ª (O conselheiro tange a campainha). {264}
Francisco de Valladares (erguendo-se com impeto)
Eu é que me nego a pertencer ao seu auditorio, snr. João Lobo. Querem sujeitar-me a uma tutella vergonhosa! (Quer sahir).
Conselheiro (retendo-o)
Não sáia. Prohibe-lh'o a honra de sua mulher. (A Leonardo que entra) Diz á snr.ª D. Antonia que se lhe pede o favor de entrar n'esta sala. (Leonardo sáe).
D. Albertina (a meia voz)
Tu precisas de ouvir a minha justificação, Francisco?
Francisco de Valladares (fixando-a lagrimoso)
Quem podesse tirar-me de sobre a alma este pezo de infelicidade!..{265}