SCENA XXIII
OS MESMOS, D. ANTONIA E LEONARDO QUE FICA AO FUNDO
[Silencio d'algum segundos. D. Antonia entra sobresaltada ]
João Lobo
Ouvi agora dizer, snr.ª D. Antonia, que sua cunhada vae separar-se de seu marido. Esta má nova commoveu-me tão profundamente quanto eu estava convencido de que esposos, como estes eram, amantissimos e felizes, raros se encontrariam, e principalmente nas classes elevadas onde as apparencias de felicidade conjugal são quasi sempre convencionaes, uma especie de hypocrisia que é assim mesmo um tal qual respeito que se presta á virtude. Se V. Ex.ª não sabia isto que me espantou, deve estar admirada pelo menos...
D. Antonia
Decerto.{266}
João Lobo
E a não ser V. Ex.ª, ninguem como eu póde testemunhar quanto a snr.ª D. Albertina amava seu marido, posto que, só ha trez mezes fui chamado para tratar o snr. Valladares; V. Ex.ª porém, que ha cinco annos conhece sua cunhada em familiar intimidade, decerto póde levantar voz mais auctorisada em abono d'esta virtuosa senhora. (Fixam todos D. Albertina que se mostra mortificada pelo interrogatório) Mas, se V. Ex.ª quer ter a bondade de me conceder a mim a satisfação de ser o primeiro a depôr, serei eu testemunha, e será V. Ex.ª o juiz. Quando fui chamado á junta que se fez ao snr. Francisco de Valladares encontrei o seu assistente e mais facultativos conformes em capitular de incuravel a sua doença. Recordo-me que ao sahir com os meus collegas da sala da consulta, encontramos esta senhora na sala immediata com as mãos postas diante de nós, perguntando se não tinhamos esperança de lhe salvar o esposo. Ninguem respondia por compaixão; mas eu quasi convencido disse{267} afoitamente á snr.ª D. Albertina: «seu marido póde restaurar-se, minha senhora.» Proferidas estas palavras, S. Ex.ª quiz beijar-me as mãos; não o conseguiu, mas orvalhou-m'as de lagrimas. Comecei o tratamento do snr. Valladares, por voto do seu assistente. A doença progrediu, desmentindo os meus vaticinios. Já as esperanças me iam tambem abandonando, e eu a compenetrar-me das enormes angustias que atormentam a vida do medico, emquanto elle não sente esfriar-lhe o coração como o dos cadaveres em que vê desapparecer o orgulho da sciencia. Eu considerava o doente perdido, quando lhe sobreveio uma pneumonia em extremos de fraqueza. Um dia, sahi d'aquella alcôva, e encontrei alli de joelhos esta senhora supplicando-me a vida de seu marido, tão abafada por soluços e perdida de côres, que, ao levantal-a quasi desmaiada, a amparei nos meus braços e lhe pedi que suffocasse o chôro para que o doente a não ouvisse. D'esta vez (sorrindo) recordo-me, sem esconder o riso, que S. Ex.ª, com a mais perdoavel das prodigalidades, me disse extremamente anciada:{268} «Eu dou tudo quanto temos a quem salvar meu marido». Vejam como o amor e a paixão fizeram no elevado espirito d'esta senhora um intervalo de insensatez!—angelica e sancta insensatez! S. Ex.ª queria dizer talvez que dava a propria vida pela do esposo; mas o coração antes queria a indigencia para ambos que vida para um só. Acho mais sublime o sacrificio dos bens da fortuna. Eu é que não podia acceitar a proposta sem que o snr. Francisco de Valladares fosse ouvido, por que as senhoras, segundo o codigo civil, não podem dispôr dos bens do casal... (Sorri-se, e vae tomar o pulso ao enfermo) Está muito agitado. Se o estou constrangendo, fecho o depoimento... Dá-me licença que prosiga?.. Mas ainda agora reparo que V. Ex.ª me tem ouvido de pé!.. Eu pedia que... (O conselheiro senta-se. D. Antonia tambem com ar de violentada; D. Albertina permanece em pé, ao lado da poltrona do marido, João Lobo tambem de pé). N'outro dia, tendo-me eu demorado de proposito para dar tempo aos effeitos d'umas sarjas, foi-me annunciada a visita de uma senhora que apeava d'uma sege.{269} Eram 7 horas da manhã. Como eu estivesse ainda recolhido, e minha mãe me dissesse que era a snr.ª D. Albertina que me procurava afflictivamente, pedi a minha mãe que fosse á sala receber S. Ex.ª Quando entrei estava a lagrimosa senhora rogando a minha mãe que me pedisse a mim a salvação de seu marido. O quadro tinha uns traços de magestosa tristeza! Minha mãe respondia-lhe a chorar que pediria a Deus, e não ao medico. N'outra occasião, por volta de uma hora da noute, era eu chamado ao pateo do Club, onde encontrei a esposa do snr. Valladares. D'esta vez não podia eu já dar-lhe esperanças que não tinha. Mas vinte e quatro horas depois a febre remittiu, a anciedade acalmou, o doente sorriu-me, e a esperança renasceu. Mais trez dias depois, disse eu á snr.ª D. Albertina: «seu marido está livre de perigo». S. Ex.ª então mais allucinada pelo jubilo do que estivera pela angustia, abraçou-me, e chamou-me seu querido salvador. Não me chamou salvador de seu marido; que isto seria uma vulgaridade; chamou-me seu salvador, como quem diz: «a vida que salvaste é{270} a minha; eu sentia-me morrer da morte de meu marido». Até aqui o sublime. Agora a loucura da felicidade. S. Ex.ª foi buscar o seu estojo de joias, poz-m'o entre as mãos, e disse: «quando tiver esposa dê-lhe esta lembrança da mais feliz das esposas». Foi-me necessario (sorrindo) convencer aquella senhora de que eu fiz voto de celibato, e não podia sem infracção do voto agenciar esposa a quem dar as joias. S. Ex.ª transigiu, e dispensou-me de quebrantar o proposito. Falta quasi nada á conclusão do meu depoimento. Depois d'estas commoventes manifestações d'um amor de esposa virtuosissima, seu mano, snr.ª D. Antonia, influenciado não sei porque máos espiritos, atira á face sem mancha d'aquella senhora um labeo de muito injuriosa suspeita. Ora diga-me V. Ex.ª se isto não é injustiça para fazer chorar os anjos! (D. Antonia parece quebrantada).
Conselheiro (erguendo-se)
O meu depoimento é mais breve.{271}
D. Albertina (correndo para o pae)
Pela vida de minha mãe... por tudo que ha mais nobre e sancto na sua alma!..
Conselheiro
O que ha mais sancto na minha alma é a tua honra.
D. Albertina
Mas meu marido está seguro da minha innocencia, e não precisa que eu me justifique.
Conselheiro
Eu é que devo e quero justificar a tua sahida d'esta casa.
Francisco de Valladares
E quem diz a V. Ex.ª que minha mulher sae d'esta casa?{272}
Conselheiro
Nenhum direito obriga minha filha a conciliar-se tão de barato com quem a infamou. O marido que desacredita sua mulher innocente é apenas... um baixo calumniador sem direito a impôr-lhe a obrigação de o amar, e muito menos de o soffrer. Não póde a minha filha morar sob o mesmo tecto da snr.ª D. Antonia.
D. Albertina (a D. Antonia a meia voz)
Mana Antonia, é melhor sahir d'esta sala. Eu vou remediar como puder este infortunio.
D. Antonia (erguendo-se animosa)
Como a senhora quizer. (Vae sahir).
Francisco de Valladares (á irmã)
Espere!
Conselheiro
O que deu causa á torpe aleivosia d'esta{273} senhora foi minha filha ter reprehendido brandamente sua cunhada porque as suas tendencias a perder-se doudamente eram de tal força que nem já o escandalo de descer ao jardim alta noite escondia dos seus criados.
D. Antonia
Os creados mentem! Que o digam na minha presença. (O creado que está ao fundo avança dois passos tranquillamente).
D. Albertina (supplicante)
Está bom, meu pae... pelo divino amor de Deus!
Conselheiro
Espero ser desmentido pelos seus criados, snr.ª D. Antonia! (Leonardo dá mais dois passos).
D. Albertina (perpassando pelo creado a meia voz)
Nem uma palavra.{274}
D. Antonia (a Leonardo)
Viu-me alguma vez no jardim depois que as portas se fecham? (Relance d'olhos entre D. Albertina, e Leonardo).
Conselheiro
O calumniador por tanto sou eu, minha filha. É deploravel o papel que me distribues. Menos caridade com os infames, e mais respeito aos meus cabellos brancos e á tua propria dignidade, Albertina!
D. Albertina
Mas que trance este, meu pae! Terminemos isto, peço a todos por piedade que terminemos isto!
Francisco de Valladares
Como é que se defende, Antonia? Calumniou Albertina porque ella reprovava os seus{275} depravados instinctos de mulher que perdeu os brios de senhora?
D. Antonia
Não quiz calumnial-a, nem os conselhos da mana Albertina me eram precisos para eu conservar brios de senhora. As mulheres solteiras que amam não perderam os brios nem são deshonestas.
Francisco de Valladares (irritado)
Calumniou ou não?
D. Antonia
Não a quiz calumniar. Calumniada sou eu, quando me dizem que perdi os brios, e que vou de noute ao jardim, e que...
Conselheiro
E que não vae ao jardim desde que o visconde{276} do Espinhal sóbe facilmente do jardim ás janellas d'esta casa.
D. Antonia
Quem disse tal?
Leonardo
Fui eu; e, se o não disse, o snr. conselheiro advinhou que eu o queria dizer.
D. Antonia
Vossê mente! (Leonardo caminha para uma porta do lado).
D. Albertina (atalhando-o)
Onde vae?
Leonardo (a meia voz)
O visconde está n'esta primeira sala.{277}
D. Albertina (a meia voz)
Por piedade não faça isso, Leonardo! (Alto) Eu comprehendo bem a insistencia da mana Antonia. Ella sabe que eu me ajoelhei aos pés do snr. João Lobo; sabe que o abracei; sabe que eu fui a casa d'elle: tudo isto é verdade. O que ella não sabia é que eu pedia ao doutor a vida de seu irmão quando ajoelhava, e lh'a agradecia cheia de lagrimas quando o abraçava. No mundo julgam-se assim muitos actos e o mundo não é nem responsavel nem condemnado. Deus que assim nos fez é por que quer que assim nos sofframos uns aos outros. A mana Antonia não reflectiu na intenção dos meus actos. Viu-os pelo lado máo, e julgou-me como era justo ao seu modo de vêr. Eu sómente me queixo da imprudencia dos seus juizos.
Francisco de Valladares
Basta. Esta senhora não é imprudente, é infame. Leonardo, dá-me a chave do meu escriptorio que está no meu quarto. (Leonardo sae){278} O seu dote, senhora, é tão opulento que o visconde do Espinhal em troca d'elle vae dar-lhe um optimo esposo e uma corôa de viscondessa. Vou entregar-lhe duas inscripções nominaes de 2:000$000. Valem no mercado uma quantia que sobredoira as suas virtudes. A senhora, recebido o seu dote, retire-se, e vá fazer ao dote o que fez á herança de virtudes de nossa mãe. (Leonardo entrega-lhe a chave. Elle levanta-se convulso).
D. Albertina
Onde vaes, meu filho? Não vás... Logo... ámanhã se fará isso, Francisco. Descança, senta-te.
Francisco de Valladares
Não me afflijas, deixa-me.
D. Albertina
Pois senta-te, e dá-me a chave que eu vou. Eu sei onde estão as inscripções...{279}
Francisco de Valladares
Vae. (Da-lhe a chave).
D. Albertina (perpassando pela cunhada)
Não se afflija, que eu espero salval-a. (Sae).