IX
Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta demencia, a pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão febricitante, mas sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou que o enfermo lhes dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram; e lhes mandára pagar a visita, com recommendação de o darem por curado.
Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu destino, nem acceitar o almoço.
Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava com escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, e recebeu a chave.
D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de{94} ferragem, e comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e, n'outra parte, as munições de fogo.
Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no fim do almoço, e disse em segredo:
«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo isso, de modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e entrega-me a chave depois.
O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas reflexões.
Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe. Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao almoço, ao jantar, á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que a matou. Esta historia entalhára-se na memoria do barão com indeleveis traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a victima, mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias fez a apologia do verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se vingava.» Ludovina fitou-o{95} com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.
Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa encubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma façanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiação da adultera.
Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal exquisitice.
—Não dou satisfações—respondeu—Quero jantar, e almoçar sósinho comsigo.
—Isso é o mesmo que...
—Não me replique! tenho dito.
Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da penca do perú assanhado.
Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe disse:
—Olhe, senhora!
A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude prophetica; e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... o CHARUTO!...
—Que é isso?!—perguntou ella com mais curiosidade que espanto.
—Não sabe o que isto é? chegue-se cá!
Ludovina, indo receosa, disse:{96}
—É um charuto... pois não é?!
—É um charuto! é um charuto! mulher traidora!—ululou o bordalengo com a grenha irriçada.
Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre ella, com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as furias de um doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe.
Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas da japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.
—Isto que é?!—exclamou D. Angelica.
—Está doudo rematado, minha mãe!—disse, a meia voz, a baroneza.
—Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um demente...
—Janta-se, ou não se janta?—disse o barão, caminhando para ellas com socegado semblante.
—Que desordem foi esta, sr. barão?
—Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é d'ella.
—Que viste, Ludovina?
—Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores.
—Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica—replicou o barão, sorrindo de um modo que confirmava a demencia—A cousa é outra... Vamos jantar, e, se minha mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.{97}
Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que as protegesse de um doudo furioso.
Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar caír, ao pé do prato da baroneza o charuto.
Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:
—Olhem que porcaria!—E voltando-se para o creado que servia a sôpa:
—Atire isto lá fóra!
—Não atires!—bradou o barão.
—Porque não ha de atirar?!—Disse Melchior Pimenta.
—Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?
Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára sobre a mesa.
Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue, antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher, colorindo a retirada com a prudencia.
O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:{98}
—Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu tenho.
Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.
O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta, comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de lagrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae.
As angustias d'este homem condemnam Ludovina?
Não. Ludovina é innocente como os anjos.
A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.{99}