CONCLUSÃO

Pelo que é de Domingos Leite Pereira está tudo concluido.

Mas a narrativa não pode parar aqui.

Ficam-lhe no mundo a filha, a esposa, o pai... e o traidor.

Oh! Roque da Cunha viu aquella tragedia, viu a cabeça esqualida no poste da rua dos Torneiros, e ficou debaixo do ceo, para onde o frade apontava com o Christo, quando o padecente tiritava nas horrentes dores da mutilação!..

Vamos rastrear os destinos de Angela, visto que a Providencia a não levou d'esta vida, quando o padecente lh'o rogava no oratorio. E, se no rastro escuro ou luminoso da amada e innocente creatura, resvalarmos aos lodaçaes, pode ser que lá topemos os personagens repugnantes de cujo destino o leitor nos pede conta.

O livro hade chamar-se A FILHA DO REGICIDA. ([Nota final.])

FIM


NOTAS

[Nota 1.ª]

Diogo de Alvarado foi grande tangedor de tecla, que é o mesmo que de orgão. Viveu longa vida e conservou sempre a mesma destreza e agilidade no tanger d'aquelle instrumento. Quarenta e trez annos exerceu o officio na capella real no tempo dos Philippes, e ainda trez no reinado de D. João IV. Está sepultado na egreja de Nossa Senhora dos Martyres, onde tem este epitaphio: Sepultura de Diogo de Alvarado tangedor de tecla na capella real 43 annos, e de sua mulher, o qual falleceu em 12 de fevereiro de 1643. «Memorias (ineditas) de Diogo de Paiva de Andrade.» Estas Memorias referem-se á antiga egreja arrazada pelo terremoto de 1755. D'este musico não encontramos outra noticia, nem d'elle a teve o cardeal patriarcha D. Frei Francisco de S. Luiz na Lista de alguns artistas portuguezes. (Lisboa, 1839).

A referencia que acima se faz a >Guerreiro, intende com o padre portuguez Francisco Guerreiro, mestre da capella da Sancta Igreja de Sevilha, o qual, como elle mesmo refere no seu Itinerario da Terra Sancta, estando em Veneza por agosto de 1588, ahi mandara imprimir os seus livros de musica.

[Nota 2.ª]

Esta novidade da morte de Bernardim Ribeiro Pacheco, a tiro, na rua Nova, deparou-n'ol-a um manuscripto que possuimos intitulado MEMORIAS COLLIGIDAS POR DIOGO DE PAIVA DE ANDRADE. D'estes nomes e appellidos houve tio e sobrinho. O primeiro foi grande theologo e mui sizudo padre que decerto não ferragearia os escandalos que enxameam nas MEMORIAS. O sobrinho, mais mundanal, e auctor do Casamento perfeito, seria o collector de biographias, um tanto airadas, entre as quaes está a do amador da infanta Beatriz. Diogo de Paiva nasceu em 1576 e morreu em 1660.

[Nota 3.ª]

Memorias citadas. Concordam com a supposição de Manuel Faria e Sousa nos Commentarios ás rimas de Luiz de Camões, e nomeadamente á CançãoVII e ao Soneto LXXVII.

[Nota 4.ª]

O fidalgo, que assim ameaçou brutalmente uma senhora, foi D. Carlos de Noronha. Este sujeito havia sido estrenuo cortezão da côrte de Madrid, e recompensado por Filippe III largamente; porém, como pedisse uma graça que o rei lhe não concedeu, voltou aggravado para Portugal, e inscreveu-se entre os conjurados com arrebatado patriotismo. Como a cobiça fosse o estimulo mais energico dos seus actos, curou de se enriquecer, litigando a posse dos bens a quem os tinha. Questionou a casa de Linhares a D. Miguel de Noronha, e perdeu a demanda. (Veja-se a Historia Genealogica da Casa Real, T. 5.º, pagina 270). Em seguida, como o marquez de Villa Real fosse degolado, demandou a corôa sobre a successão da casa do sentenciado: perdeu a demanda. (Veja-se a Historia Genealogica da Casa Real, T. 2.º, livro 3.º pagina 521). Como lhe não rendesse nada o vampirisar nos cadaveres dos justiçados, fez uns Estatutos da Ordem de Avisem que constituiu visitador geral das ordens militares de Portugal o presidente da Mesa da Consciencia. Ora, como elle foi toda a sua vida presidente da referida Mesa, e pelo conseguinte visitador vitalicio, arranjou por este engenhoso meio traças de se locupletar, pondo em almoeda as suas concessões. Eis aqui um dos noventa heroes de 1640! Quem os quizer contar leia a Historia da Acclamaçãoetc., por Roque Pereira Lobo.

[Nota 5.ª]

Pedro Barbosa foi assassinado em 1621, quando recolhia da Relação para sua casa, que era um palacio na Ribeira. Este palacio, depois de 1640, passou a um dos conjurados, de appellido Noronha, e era dos marquezes de Angeja, quando o terremoto de 1755 o alluiu. Pedro Barbosa de Luna era de Vianna do Minho.

[Nota 6.ª]

O receio de que nos arguam de injusto n'esta apreciação do fundador da dynastia bragantina, obriga-nos a dar cópia exacta de um autographo, que possuimos, de D. João IV: são os apontamentos que o rei deu a Pedro Vieira da Silva como bazes do seu testamento. Quem leu o Testamento delRey D. João IV no tomo IV das Provas da Historia Genealogica da casa real por D. Antonio Caetano de Sousa, pagina 764 e seguintes, e o reputou da lavra do monarcha, tem rasão, se formar bom conceito da intelligencia do testador; quem porém vir os traços fundamentaes d'esse documento, duvidará que elle haja sido o auctor do livro de musica. Aqui está o traslado textual do testamento escripto do punho de D. João IV:

«Jesus Maria a quem emcomendo minha alma, nomeio primeiramente por herdeiro de meus Reynos, e Senhorios ao Princepe D. Afonso meu filho como a quem directamente pertensem e por que elle se acha em menor edade declaro por Regente de meos Reynos e tutora de meos filhos a Raynha minha sobre todas prezada mulher; e por que ella pode morrer ainda durante amenor idade de meu filho em tal cazo podera nomear os Tutores ou Tutor Governador ou governadores para meus filhos e estes Reynos e Senhorios pello conhecimento que tem delles e de meus vaçalos e porquanto fio dela e de sua prudencia e do amor que me tem que detudo o que aentregar fara o que eu fizera por ella a nomeio por minha testamenteira e que faça pella minha alma tudo quanto a ella lhe parecer que me comvém.

«Ordeno que meu corpo seja enterrado no convento de S. Vicente defora para onde se tresladarão os ossos de meu filho o Princepe D. Theodozio e os de minha filha a Infanta D. Joanna para o que se faram sepulturas decentes e no dito convento se diram coatro missas cotudianas duas pella minha alma e duas pello Princepe e Infanta.

«Deixo que os meus bens livres serepartão por meus filhos conforme a cada hum tocar e peço ao Princepe lhe conserve as doaçoens que tenho feito, e espero delle o faça e lhe acrecente outras visto que eu por não defraudar o patrimonio Real lhas dei tão limitadas. Deixo aminha terça ao Princepe mui sobre todos prezado filho e que della setirem vinte mil cruzados que a Rainha minha testamenteira repartirâ em obras pias cazando orfas e donzellas e dando esmollas a viuvas e pobres e porque destes ha muitos que são meus criados mando que seião (sejam) preferidos, e porque Antonio Cabide tem de todos inteiro conhecimento a Rainha se informara delle para saber quaes são os mais benemeritos e trez nomeadamente cujos nomes dira o meu confesçor.

«De Antonio cabide tenho inteira satisfação pello modo e zello com que sempre mecervio e asim peço a Rainha sequeira servir delle no mesmo modo com que eu me cervia por que fio delle o fara com toda a satisfação, e por que muitos tempos correu com toda a minha fazenda e medeu dela inteira conta o dou por quite e livre e que este lhe cirva de quitação. Declaro que tenho huma filha por nome D. Maria de huma mulher Limpa que esta no convento de Carnide a quem deixo a comenda mayor de santhiago para a formatura da qual tenho passado decretos a mesa da conciencia e ordens e se impetrarão do Papa os breves necessarios e asim mais as villas de Torres vedras colares, e os lugares de Azinhaga, e cartaxo, que logo os faço villas com jurisdição a parte com todas suas doaçoens de juro, e herdade sempre sojeitas a Ley mental, e porque nestas doaçõns pode aver ao diante duvida algua mando ao Princepe meu filho lhas satisfaça emquanto eqivalente, e sincoenta mil cruzados para por sua casa. E porque no modo e Estado que ella ouver de tomar tive alguns intentos de que tudo sabe Antonio Cabide pesso a Raynha informada delle siga minha mesma vontade.[13] Tenho tratado casar minha filha D. Catherina com El Rey de Franca por asim mo averem pedido Menistros daquella coroa e por que de todos estes negocios sabe a Raynha lhe pesso siga nelles meus proprios intentos.

«A Antonio Cabide dava todos os annos atitolo decerto cerviço meu das Rendas da casa de Bragança dous mil cruzados, a D. Maria minha filha mando se lhe dem na mesma forma athe tomar estado.

«Tenho satisfeito os testamentos de meus Avos principalmente tudo o que meu Senhor e Pay mandou e por que ao Morgado da Cruz conforme sua mesma instituição devo acrecentar Vinte mil cruzados de renda mando que dos meus bens se acrecentem.

«Os Reys mais que os outros homens devem dar ao mundo razão de suas acçõens. E asim digo que me restituhi a estes Reynos, e Senhorios por entender o devia fazer em conceencia por livrar a meus vaçalos do dominio, e violencia estrangeira e esta razam me obrigou a fazer huma couza que poderia ser contra meu natural. A Justiça e a observancia della conserva as Monarchias máis que as armas e asim encomendo ao Princepe meu filho siga nesta materia inviolavelmente esta acção.

«De todos meus criados tenho inteira satisfacam por me averem servido com lialdade zelo, e trabalho principalmente os officiaes de minha caza, Mordo mor (Mordomo-mor) Estrebeiro mor, cappelão mor, Porteiro mor, e os mais, que aqui hei por expreços, e declarados, e peço ao Princepe meu filho se sirva delles porque o faram como eu sempre experementey. O conde Camareiro mor do meu concelho de Estado me tem servido nesta doença como nas mais comtodo cudado e trabalho asim mando ao Princepe meu filho lhe faca toda a honra e Estimação que mereceo e mando se lhe entregue mil cruzados para repartir com os Mocos da camara que me cervirão nesta doença. Declaro que governei este Reyno com toda a Justiça comforme entendi e se herrei em alguma de minhas acçoens como homem foi sempre cudadozo qual hera o melhor que se devia obrar.

«Tenho declarado a Raynha hum pessoa para Ayo do Principe que ella nomeará quando lhe parecer.

«Tenho muitos papeis tocantes ao governo d'este Reyno, e conhesimento de meus vasalos que podem servir á Raynha e ao Principe e porque da publicação delles pode rezultar perjuizo amuitas pessoas mando que o Bispo meu confessor e Antonio Cabide fassão inventario delles, e os entreguem a Rainha.

«Fuy muito corioso da minha livraria da muzica, e asim para que se conserve lhe deixo corenta mil reis todos os annos para fabrica, e mando que esteja sempre na caza em que está, e que se empetre hum breve do Papa com excumunhão reservada para que senão trezlade digo tire d'ella Livro nem papel nem se trezlade, e nomeio para Biblioticario della a Antonio Barbosa com cecenta mil reis de ordenado, e por Ajudante a Domingos do Vale seu irmão, e faltando estas pessoas se hirão nomeando outras para sempre estes cento e corenta mil reis (que) fara a Rainha logo assentar no melhor parado da minha fazenda declarando se não tire nunca das rendas da capella.

«A minha capella mando se acabe do mesmo modo que eu tinha ordenado com Santuario Retabulo e çacrario e porque Antonio Cabide sabe o modo com que eu queria isto o deixo por superintendente desta obra.

«Tenho mandado a Holanda empremir as obras de João Soares Rabello da qual Impresão lhe faço merce rezervando para aminha Livraria vinte Livros e os outros espalhara por Italia e Castela.[14]

«E como na observancia da Justiça consiste a conservação do Reyno declaro que os Governadores das armas não terão nas Justiças mais jurisdição que a que tem os capitaens de Africa. Fim do testamento.»

Quem estiver de pachorra confronte este modêlo de supina ignorancia dos rudimentos da arte de escrever, com o estylo garrafal e engalanado do secretario de estado Pedro Vieira da Silva. E depois, se poder, acredite em D. Antonio Caetano de Sousa (Hist. Genealog. da Casa Real, tomo VII, pag. 240) quando lhe diz que D. João IV ditara a Antonio Cavide a maior parte ou todas as Relaçoens anonymas das campanhas entre Hespanha e Portugal, impressas entre 1641 e 1643, com o fim de ter contentes os animos dos seus vassalos, e satisfeitos com os bons successos de suas armas. O linhagista da casa de Bragança não satisfez o seu encarecimento servil com menos de inventar um litterato no fragueiro monteador de veados em Villa Viçosa.

Convem notar que o redactor do testamento procedeu sensatamente expungindo dos regios apontamentos a clauzula de impetrar do Papa excommunhão para quem trasladasse algum livro da Bibliotheca da musica. Villão espirito e rancorosa alma que ainda almejavam sobreviver-se no2 tumulo! D'essa estupenda biblioteca, no dia 1 de novembro de 1755, não deixou o terremoto sequer um livro!

O autographo de D. João IV, aqui trasladado, pertenceu á livraria do ministro de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.

[Nota 7.ª]

Remechendo com infatigavel curiosidade o archivo das memorias que ha vinte annos vamos collegindo ácêrca de filhas de bispos e outros coitos damnados, encontramos um apontamento que dillucida a obscuridade do manuscripto, e nos declara a ascendencia da menina regeitada por Domingos Leite Pereira. É o seguinte caso, salva melhor interpretação:

O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda que se chamou Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e meia irmã d'aquella menina, levou-a para o paço, e educou-a com esmero e carinho de irmã. Sahiu a dama muito namoradeira e desatinada, com immenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes inutilmente. Até que um dia, estando a côrte em Santarem, a irmã colheu a bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercação rija entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não!—replicou a mulher de D. João II—hasde casar com quem eu muito bem quizer; e hade ser com o primeiro homem que passar na rua, se fôr solteiro.» N'este lance, apontou na extrema da rua um homem ordinario, de nome Alvaro Fernandes, correeiro de officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e ordenou ao capellão que os cazasse. Tiveram filhos. O padre Jeronymo Fernandes, de Santarem, era bisneto da tal casquilha, filha do infante D. Fernando, e irmã d'el-rei D. Manuel e tambem por tanto bisneto do tal Fernandes correeiro. O padre allegou e provou a Filippe II que era terceiro neto do infante D. Fernando, e obteve a mitra do Funchal. Este devia ser avô da noiva regeitada.

[Nota 8.ª]

A rua dos Tanoeiros ou Tanoaria principiava ao pé do Paço da Côrte Real, e seguia até ao Arco do Ouro junto ao Terreiro do Paço. N'esta rua se arruavam os tanoeiros em 1318, em numero de quinze. Quanto ao Sancto Antonio de frei Bartholomeu dos Martyres, sabe-se o seguinte para explicar o texto: em casa humilde nasceu n'esta rua o veneravel arcebispo de Braga frei Bartholomeu dos Martyres; e na fachada da casa onde nasceu, ainda antes de 1755 havia um nicho com a imagem de Santo Antonio que o arcebispo, quando estudantinho, fizera com um canivete. Este Santo Antonio era festejado todos os annos á custa dos devotos da rua, e conservou sempre lampadario acceso, de noite e dia, porque toda a freguezia dos Martyres se apegava com o milagroso Sancto nas suas necessidades.

[Nota 9.ª]

É notavel este facto omittido pelos historiadores, esquecido na tradição, e consignado nas Memoriascolligidas por Diogo de Paiva de Andrade. «D. Rodrigo da Camara, terceiro conde de Villa Franca, foi preso por culpas de sedomia na inquisição de Lisboa, sendo inquisidor geral o bispo da Guarda D. Francisco de Castro. Não faltou quem dissesse que a soberba de um ministro d'aquelle tribunal o culpára ao conde sem causa; porque tratando o conde de amores uma parenta do dito ministro, este o avisára que cazasse com ella; e, tendo em resposta que só para amiga lhe podia servir, lhe castigára o dito com um testemunho. Houve votos de que sahisse publicamente na procissão do Auto da fé; porém, o principe D. Theodosio embaraçou isto dizendo a D. Francisco de Castro que, se não mudasse de proposito, deitaria fogo á Inquisição; do que, sentido o bispo, se travaram de razões, e estas se atearam por maneira que o principe lhe deu de bofetadas. O certo é que o conde não veiu a publico, e sahiu em acto particular na sala da Inquisição. Disse-se que o principe era muito avesso ás baixas manhas do inquisidor, e não aprovava que el-rei seu pae honrasse com a prelazia o denunciador dos máus portuguezes que padeceram em 1641.»

D'este principe D. Theodosio que dava bofetadas no Inquisidor-geral formou o nosso amigo Pinheiro Chagas, na sua valiosissima Historia de Portugal (tomo VI, pagina 110) conceito muito mais ameno, quando escreveu: «mancebo ascetico, melancolico e fanatico... dirigindo os seus estudos em sentido mystico, etc.». Se Diogo de Paiva não desfazia no genio pacifico do primogenito de D. João IV, a cara do inquisidor-geral, bispo da Guarda, protesta contra o ascetico fanatismo do principe; e já o arcebispo de Lisboa protestaria tambem quando o futuro rei lhe fez chacota da magreza, dizendo-lhe que só um embalsamado podia trazer-lhe a noticia de que elle seria principe do outro mundo, referindo-se ao Brazil. Era mais calemburistaque asceta o irmão de Affonso VI, quer-nos parecer.

[Nota 10.ª]

O palacio dos duques de Aveiro que tambem foram depois marquezes de Gouveia, foi mandado em 1758 arrazar em Belem, em seguimento ao supplicio de D. José Mascarenhas. O marquez D. Manrique da Silva, cujo secretario foi Domingos Leite, era quarto avô do ultimo duque de Aveiro, e habitou o palacio de Pedroiços, no local onde ainda hoje se vê afogado em cazinholas um padrão commemorativo do delicto.

[Nota 11.ª]

«D. Maria de Castello Branco, filha de D. João de Castello Branco, alcaide-mór da villa de seu appellido, cazou com Fernão Cabral, alcaide-mór de Belmonte. Apaixonou-se esta dama por um clerigo com tanta loucura, que trocou em odio o amor conjugal, e persuadiu o dito clerigo que lhe matasse o marido. Descobriu-se o crime e a aleivosia, e por elle foi sentenciada a morrer morte natural por justiça sem lhe valer a grandeza do nascimento, nem a valia de seus muitos e illustres parentes». Memorias de Diogo de Paiva de Andrade.

Não marca Diogo de Paiva o tempo d'este successo; mas conjecturamol-o no meado do seculo XV, reinando D. João II. Este Fernão Cabral, que levou a mulher ao patibulo, era quinto neto de Alvaro Gil Cabral, que el-rei D. João I fizera alcaide-mór de Azurara. Computando o lapso das gerações poderão os curiosos, favorecidos por algum linhagista menos indulgente, determinar a época da tragedia. D. Maria era neta do almirante Nuno Vaz Castello Branco, e bisneta por sua avó paterna de Micer Antão Peçanha, almirante, que viveu no começo do reinado de D. Affonso V. De um dos filhos d'esta senhora decapitada procedeu Pedro Alvares Cabral, o descobridor do Brazil.

[Nota 12.ª]

Estas miudesas do meu M. S.são corroboradas com a seguinte noticia extractada das Memorias de Diogo de Paiva de Andrade: «Vicencia Correia, chamada depois Dona Vicencia, foi filha de uma grande alcayota e bebeda, chamada Barbara, que morou na rua dos Cabides em Lisboa, reinando el-rei D. Sebastião, e tão perita no seu officio que o exercitava com destreza esquisita. Os seus primeiros annos passou bem divertida por industria da mãe e habilidade propria, e vivendo de mancebia com um fulano Cunha, teve d'elle um filho chamado Roque, e d'outro fulano Pereira teve uma filha chamada Marianna. Mudou depois de amorios com Francisco Leitão, com o qual casou; e este fazia tanta estimação da sogra, da mulher e da enteada, que todos viviam junctos, comiam á mesma mesa; e morrendo a enteada, que quiz casar com o porteiro que então era do Juizo de India e Mina e elle não quiz, tomou lucto publico. Servia n'este tempo Francisco Leitão de Juiz de India e Mina. Foi depois (por valias, e não por merecimentos, por ser homem de poucas lettras, falto de honra e atraiçoado) fidalgo da casa real, cavalleiro da Ordem de Christo, desembargador do Paço, do conselho de Portugal em Madrid, e lá teve grandes estimações, e a mulher, que era visitada dos grandes e senhores da corte. E da mesma sorte o foi n'este reino, onde o nosso D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, bem conhecido pela sua litteratura, visitava D. Vicencia, e a presenteava.»

Acho noticia d'este marido de D. Vicencia em um dos papeis que appareceram em Madrid, por 1637, assignados pelo Manuelinho de Evora, que symbolisava o espirito revolucionario de Portugal. Como peça desconhecida, extrahimos o mais curioso d'ella. É uma satyra intitulada Quadras que se mandaram a Sua Magestade para uma sala de bom retiro. Figuram Philippe IV, as damas da corte, Diogo Soares, Miguel de Vasconcellos, Francisco Leitão,[15] o conde do Prado e Thomaz Dibio, o marquez de la Puebla, D. Jorge Mascarenhas, D. Antonio de Athaide, Mathias de Albuquerque e o conde da Vidigueira. Aqui se deparam ao leitor alguns nomes e appellidos que, rodados poucos annos, realçam em Portugal pela sua dedicação.

Diogo Soares tem um livro na mão com esta lettra:

Este livro ensina os modos
De roubar os povos todos.

Miguel de Vasconcellos revê-se em uma taça de vinho com esta lettra:

Nos bofes fel e vergonha;
E em ser ladrão atrevido
Sahi a meu pai cuspido.

Vai Francisco Leitão com esta lettra:

Nasci de quem nasci,
Cazei com quem cazei,
E o prazo renovei

E á margem: Filius meretricis.

Vae o conde do Prado e diz este mote:

A missa ouço em S. Roque,
Beijo o chão antes que acabe,
A tenção só Deus a sabe.

Thomaz Dibio glosa-lhe o mote:

As palavras são de um sancto;
Mas as obras joeiradas
São malicias refinadas.

O marquez de la Puebla é pintado a espreitar por uma porta com este mote:

Desterrado y ocioso,
Miro solo la destresa
Con que hurta su Altesa.

E diz D. Jorge de Mascarenhas:

Com capa de zelo vosso
Muito dinheiro ajuntei,
Sem elle e sem vós fiquei

Mathias de Albuquerque, Jorge de Athaide, e o conde da Vidigueira, em camisa com uma vela na mão, tem esta lettra de D. Antonio:

Mentir, calar, e fingir
Verbos de que tenho usado
Me pozeram n'este estado.

O mote de Mathias de Albuquerque diz:

Sem tiro e golpe de espada
A Pernambuco larguei,
São e rico me fiquei.

Mote do conde da Vidigueira:

Estes como eu fugiram,
E escaparam por taes modos,
Que eu vim a pagar por todos.

Diz o bispo do Porto:

Sou de geração humilde;
Mas mui sagaz e astuto
Com duas pedras de p...

Tem ementa á margem da trova, cuja ultima palavra é um calemburgo que finge estar no tempo presente, modo indicativo do verbo deputar. Diz a glossa: Este bispo, n'este anno, fez tudo aquillo que quiz, pondo e dispondo á sua vontade.

Em livro mais de molde a demoradas exhumações historicas, darei ao leitor curiosa e ampliada noticia d'este prelado, definido pelo Manuelinho de Evora.

A nota, que já se vae delongando, não é despecienda como amostra do genero tão fallado como desconhecido que usaram os fermentadores da restauração, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos secretarios do Manuelinho.

[Nota 18.ª]

Provavelmente, n'este anno de 1647, já Philippe IV e os seus ministros conheciam o timido animo do rei de Portugal, que mais covardemente se manifestou em 1650, depois da paz de Westphalia. N'este anno, pois, encarregou D. João IV o padre Antonio Vieira de negociar desde Roma o casamento do principe D. Theodosio com a infanta de Hespanha, dando esse enlace como caução unica e segura á fuzão iberica; por quanto, não tendo Philippe IV filho varão, áquelle tempo, succediam no throno de Portugal o principe portuguez e a princeza hespanhola; acontecendo, porém, a superveniencia de filho varão, reinariam em distinctos reinos, com alliança offensiva e defensiva. Além d'isso, dado que o rei de Hespanha teimasse em negar a legitimidade de D. João IV, este abdicaria no filho e na infanta. O padre Vieira tractou o negocio com os jesuitas castelhanos, em Roma, resalvando que Lisboa se constituisse a capital dos dois reinos fundidos em uma monarchia grandiosa. A proposta abjecta foi desprezada em Madrid. D. João IV, dando assim o pulso ao exame do poderoso inimigo, revelava quão depauperado lhe girava o sangue nas veias. E pelo que respeita ao jesuita medianeiro de tamanha protervia, teve de fugir de Roma onde o espiavam os sicarios do embaixador hespanhol. Judiciosamente escreve o sr. Manuel Pinheiro Chagas, relatando os pormenores d'este vilipendio: «Lembraremos ao leitor que n'isto se prova que se, depois da restauração de Portugal, houve algum traidor que, por interesses pessoaes ou de familia, projectasse vender á Hespanha a independencia da patria, esse traidor foi... D. João IV.» Historia de Portugal, tomo 6, pagina 106 e seguintes.

[Nota 19.ª]

Narra fr. Claudio da Conceição, nomeando os filhos de D. João IV: «Teve fóra do matrimonio a senhora D. Maria, nascida a 31 de abril de 1644, de uma senhora limpa de sangue, que entrando depois no convento de Chellas professou a vida religiosa. Educada em casa do secretario de Estado Antonio de Cavide, entrou a 25 de março de 1650 no Mosteiro de Sancta Thereza de Jesus, das Carmelitas Descalças de Carnide, por ordem de el-rei seu pae a receber as instrucções da Madre Michaella Margarida de Sancta Anna, filha do imperador Mathias, e parenta do mesmo senhor rei D. João IV,[16] fundadora do dito mosteiro de Carnide em 1612, sendo vinte e dois annos successivos priora. Estimou el-rei muito esta filha, o que assás prova a seguinte carta que lhe escreveu antes de morrer: «Minha filha, foi Deus servido que a primeira vez que tendes carta minha, seja despedindo-me de vós, dando-vos a minha benção acompanhada de Deus que fique comvosco, e lembrai-vos sempre de mim como eu o fio de vós. Escripta em Lisboa a 4 de novembro de 1656. Vosso pai, que fica com grande sentimento de vos não vêr.» (Traslada os legados do rei á filha; segue uma carta de D. Pedro, regente, á irmã; e prosegue na edificante biographia da virtuosa senhora). «A rainha D. Maria Francisca a foi visitar a Carnide, e lhe fez grandes honras merendando no seu apozento. A côrte lhe dava o tratamento de Alteza. Viveu sempre n'este mosteiro em habito de religiosa, ainda que era de materia mais fina. Propondo-se-lhe para esposo o duque de Cadaval com approvação regia, respondeu: que não sahiria da clausura senão em postas a tomar outro esposo, pois que já o tinha ha muito tempo»... Depois d'outros lanços assim piedosos, remata fr. Claudio: «Falleceu recebendo todos os sacramentos com summa edificação a 7 de fevereiro de 1693 quando contava quarenta e nove annos de edade» Gabinete Historico, Tomo IV, pag. 214 e seg.Da mãe de D. Maria não houve frade nem chronista que sequer nos contasse como lá se foi derretendo em lagrimas a vida da freira que o rei dera como esposa a Jesus, depois de se enfastiar d'ella como barregan.

[Nota 20.ª]

«O sr. rei D. João IV... vendo um dia meu pai que tinha a honra de ser seu trinchante mor com um Porpoint guarnecido com uma rendilha de prata, lhe disse: vindes mui bizarro D. Antonio!; mas nunca fui tão rico que podesse ter outro similhante. E assim era, porque sempre se vestiu de estamenha... E mandou que nenhum (vassallo) viesse ao Paço com os seus cabellos, por que elle os não conservava, e todos se tosquiaram». Carta de Luiz da Cunha ao Principe D. José.

[Nota 21.ª]

Esta allusão epigrammatica do christão novo requer illucidação necessaria aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado d'el-rei D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez, chamado João Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar Freire, teve um filho illegitimo, e tambem teve uma cutilada legitima na cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda outro filho de uma Judia fanqueira de Setubal, chamada Branca de Castro. É indeciso nos linhagistas se o successor de João Francisco era filho da fidalga, se da judia. É certo que o seu successor Agostinho de Lafeta administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei D. João III, e casou com D. Maria de Tavora, filha de Ruy Lourenço de Tavora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro casou com D. Antonia de Mello filha de Ruy Gomes de Azevedo, alcaide mor de Alemquer; o segundo casou na India com a filha de um advogado que lá chamavam por alcunha o conde da barba rapada. Os filhos d'este assignaram-se Tavoras, e os do segundo Lafetas. Emquanto o pae, cazando segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaismo e melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de Vilhena. D'este consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha. D'estas ultimas allianças por diante, o appellido Lafeta é absorvido nos mais illustres das raças historicas, por modo que, no dizer de um genealogico de inexoravel critica, apenas haverá em Portugal trez familias tradicionaes que não estejam inquinadas do judaismo dos Lafetas genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setubal. Que lhes preste.

[Nota 22.ª]

«Bem poderia referir outras muitas precauções que este principe (D. João IV) tomava para não ser enganado pelos seus ministros; e comtudo, conhecendo elle a innocencia de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar á morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo soffrer que elle lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a côroa na cabeça, pois lhe era devida, afim de que se não julgassem credores de grandes recompensas. Os descendentes d'este ministro justificaram depois de muitos annos a sua innocencia, e sua magestade lhes veiu a restituir as honras e os bens, em que eu tive alguma parte estando em Madrid.» Carta de D. Luiz da Cunha ao Principe D. José.Esta carta muito notavel e pouco lida, publicou-a Antonio Lourenço Caminha em 1821, sob o titulo: Obras ineditas do grande exemplar da sciencia do estado D. Luiz da Cunha, etc.Observa avisadamente o erudito sr. Innocencio Francisco da Silva que escaparam na edição numerosissimos erros que ás vezes transtornam o sentido e intelligencia dos periodos. É exactissima a censura. Possuo a mesma carta manuscripta, trasladada pelo academico Foyos, e que envergonha as incurias do editor da impressa.

O que raras pessoas terão visto sem lhe saberem a procedencia, é a peça explicativa do odio dos fidalgos, que acclamaram D. João IV, ao secretario de estado Francisco de Lucena. Encontrei-a entre os manuscriptos ineditos do chantre Manuel Severim de Faria (1583-1655). Intitula-se: Carta de parabens, advertencias, avisos e conselhos que se suppõem e figura escrever do outro mundo o duque de Bragança D. Theodosio a seu filho o sr. D. João o Quarto, logo depois que pela lealdade da patria foi acclamado legitimo Senhor e Rey de Portugal. É attribuida a Francisco de Lucena, e escripta em 1641. Trasladamos os conselhos do pae ao filho, ou antes do ministro ao principe: «...Resta que vos façaes tambem temer e respeitar dos maiores fidalgos, que, como vos viram nascer vassallo, e elles, por portuguezes, são invejosos e soberbos, mais com rigor e medo se sujeitam que com amor e brandura; e assim a vossa affabilidade com que os trataes, a vossa facilidade com que os admittis e ouvis, a confiança com que de ordinario comeis perante elles, o trage inferior de que, por dardes exemplo, vos vestis, tudo isto os faz a elles peores, mais ousados, menos comedidos. Filho, não é ainda tempo d'isto; virá ao diante, em que isto se vos estimará muito. Agora, o que n'este particular fazeis, tão fóra está de se vos gabar e estimar, que antes lhes serve de o motejarem uns com outros, attribuindo tudo a faltas naturaes, e que são avisos divinos, ao diante lhe virão assim a parecer.

«Até agora, filho, lidastes com vassallos que sempre foram vossos; agora lidaes com os que ha só dois mezes que o são. Não vos hajais com elles como se sempre o foram, comei raras vezes em publico para que se estime quando o fizerdes. Ouvi a todos que quizerem requerer deante de vós; mas não converseis com nenhum, para que, quando n'esta materia lhes fizerdes algum favor, o tenham por mercê.

«Olhai, Filho, que, como muitos d'esses fidalgos riram e folgaram comvosco sendo duque, com pouco azo que lhes deis, vos perderão o respeito devido como a Rey; e, se assim fôr, dai-vos por acabado, porque a principal guarda das coroas e sceptros é o respeito... A este fim vos digo que n'estes principios não soffrais nem dissimuleis aos fidalgos mais poderosos serem desmandados contra a vossa real pessoa, e contra a lealdade que vos devem: lembre-vos que o dissimular estes crimes é dar ousadia a maiores.

«Para os enfreardes ponde ferro em fogo em quem o merecer, e com o castigo de dois se emendarão os mais, e com o dissimulardes com elles todos se acabarão de damnar, porque os mais não vos hão de guardar e defender; e mais certo é que vos hão de vender e trahir, e, se poderem, matar».

Assim predispunha o secretario das mercês o animo do rei contra os conjurados de 1641; e relevantemente se mostrou serviçal, collaborando com o carrasco, pois que emprestou para a degollação dos fidalgos o cutello que trouxera de Madrid, por haver sido com elle decapitado D. Rodrigo Calderon.

[Nota 23.ª]

Isto de ser agarrado pelas costas o duque de Vizeu, quando o Luiz XI portuguez o esfaqueou, não se vislumbra da historia, porque a historia dos governos monarchicos tem sempre sido escripta de joelhos sobre os estrados dos thronos. De feito, D. João II, quando resolveu matar o duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setubal, convidou trez homens para testemunhasdo feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do Rio, e D. Pedro d'Eça, alcaide de Moura. Este ultimo era um dos mais valentes homens de Portugal. D'elle diz Diogo de Paiva de Andrade, nas suas Memorias: foy um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto El-Rey D. João II o escolheu quando quiz matar a D. Diogo, Duque de Vizeu a quem abraçou por detraz. Eis aqui a singular missão da testemunha!

E, como prova da coragem de D. Pedro d'Eça e dos medianos espiritos do covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance: Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide) foram-se dois irmãos do morto queixar a El-Rey, e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandára. Pelo que, El-Rey o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dois annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rey, que pois sua Alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rey lhe disse: «que tomára elle ser um dos dois». E D. Pedro lhe respondeu: «Não fôra Vossa Alteza meu Rey, e fosse com elles o terceiro».

[Nota 24.ª]

Não é impertinente a noticia do processo de empeçonhar as balas. Acceitemol-a do livro inedito de um Mestre de Campo do exercito de D. Pedro II: «Tomarão licoctomum, que he outra casta de aconito ou de Rozalgar (não alteramos a orthographia do texto) e Napello, dos quais espremerão o sumo com hua empressa, que se receberá em hua vazilha de vidro, precatando-se de não lhe toccar com as mãos, a qual vazilha será exposta ao sol no mez de julho por espaço de 30 dias, recolhendo-a todas as tardes ao por do sol em hua cestinha coberta e guardada em logar calido, izento de todo cheiro forte, como de alhos ou cebollas, por os tais lhe embotarem a força; e ó outro dia ao sair do sol se torne a expor n'elle a vazilha até que o sumo se engrosse a modo de unguento que será pouco mais ou menos ao cabo do tempo dito; advertindo que na madrugada, antes que se tire a vazilha do cesto, para a expôr ao sol, hão de descobrir o sesto desviando-a d'elle, e o deixarão assim aberto por espaço de boa meia hora, antes de pegar na vazilha, e á tarde, antes de a arrecadar no sesto a cobriram com alguma cousa, o corpo mais desviado que poder ser. Despois tomaram trez ou quatro Rubetos que são sapos de sylvas grandes, e cheios de nodoas de varias côres, muito peçonhentos, e tanto mais o serão quando sejam apanhados em logares sombrios e frios como nos paues cheios de palha tabua. Estes serão metidos em uma vasilha de cobre de fundo redondo, capaz de os receber commodamente, com sua tapadoura que venha justamente com a boca da vazilha, que terá uma azêlha por cima pela qual poderá entrar a ponta de hua aste para delonge a poderem descobrir; ao lado da vazilha hum pouco por cima do seu fundo haverá huas cavas em forma de hua meia laranja, situado em modo de Bebedouros de Gayolas, e no meio do fundo da vazilha haverá hua fença ou abertura estreita que dará em hum segundo fundo, do mesmo metal, a modo de funil. As ditas covas a modo de Bebedouros, se encherão de oleo de Escorpião; feito o que, os sapos se meterão na vazilha que será bem e justamente coberta com sua tapadoura e assentada sobre uma trenpe, em modo que a ponta do funil do segundo fundo dê em a bocca de hua garrafa de vidro, assentada em hua tigella de agua fria, e a coisa assim desposta se fará hua cama em redondo de ladrilhos da altura da trempe que a cercará toda ao redor, na largura de dois palmos até dois palmos e meio, em cima da qual se accenderá um fogo de roda brando e moderado de carvoens afastados da vazilha um palmo, mediante o que a vazilha irá aquecendo pouco e pouco, dentro da qual os sapos sentindo a quentura não acostumada, de sequiosos e suados, arremetterão a beber o olio de Escorpião dos Bebedouros, que lhes fará bomitar toda a peçonha que dentro em si tiverem, a qual, cahindo pela abertura do fundo da vazilha no segundo fundo do funil, e deste á garrafa, continuará o fogo, no mesmo estado por espaço de 4 a 5 horas, e assim o deixarão athe o outro dia, em o qual, querendo abrir a vazilha, terão em sentido virar as costas da parte do vento, e com hua vara ou aste hum pouco comprida, que passará pela azelha da tapadoura, desviando se o corpo da vazilha, o mais que poder, a destaparão e deixarão assim aberta por espaço de outras 4 ou 5 horas, ao cabo das quaes seguramente se poderão chegar á vazilha, e recolher o veneno da garrafa, ao qual se poderá ajuntar o sumo das ervas dos aconitos dantes exprimidos, e juntamente anemona, sicuta, meimendro, mendragora, malla insana, berengella, pés de ganços de todas as castas, ranunculos, erva Moura, arsenico branco, e cerebros de rato e de gato».

É de recear que o leitor desconfie da capacidade d'este sugeito que mandava hervar as balas com succos de pés de ganço e miolos de gato e rato! Saiba, pois, que o auctor da receita foi um militar de elevada patente que exerceu em Portugal no reinado de D. Pedro II cargos importantissimos na guerra. Possuo com grande estimação dois manuscriptos ineditos de Miguel de Lescolle, que assim se chamava o Mestre de Campo. Um, é este de que trasladamos o processo de hervar as balas, e intitula-se: Recopillação de alguns fogos artificiaes, para offensa e defensa de praças, e embarcações, e de alguns outros para as alegrias e recreaçoens feitos pelo Mestre de Campo Miguel de Lescolle. O outro manuscripto, de primoroso calligrapho do começo do seculo XVIII, é: Liçoens de Artelharia recopilladas e feitas por Miguel de Lescolle, Mestre de Campo intertenido na Provincia de Entre Douro e Minho, a cujo cargo está a conservação do trem de Artelharia, Armas e Muniçoens d'ella, e as fortificaçoens das Praças de sua fronteira por mandado do snr. Marquez das Minas, dos Conselhos de Sua Alteza, Mestre de Campo general, e Governador das Armas da mesma provincia.

Um homem d'este vulto, se acreditava na peçonha dos pés de ganço e do cerebro dos ratos, é porque realmente, n'aquelles dias, a toxicologia era mais investigada que hoje.

[NOTA FINAL]

As pessoas lidas na historia patria estão affeitas a encontrar, n'este caso da tentativa de morte contra D. João IV, que houve um denunciante de Domingos Leite, chamado Manoel da Cunha, e não Roque da Cunha, como eu o denomino. Arguem-me pois de inventar nomes desnecessarios á novella com aggravo da historia. É injustiça que me fazem. Todos os historiadores que o leitor conhece o enganaram involuntariamente ou por negligencia de quem fiou de mais nos seus antecessores e guias. Tenho presentes o conde da Ericeira, (Portugal restaurado) Fr. Claudio da Conceição, (Gabinete historico) D. Antonio Caetano de Sousa (Historia Genealogica da Casa Real Portugueza), Roque Ferreira Lobo, (Historia da acclamação de D. João IV) Ferdinand Denis, (Portugal Pittoresco) João Baptista de Castro, (Mappa de Portugal) o sr. Viale, (Resumo da historia de Portugal) e melhor que todos o sr. Manuel Pinheiro Chagas, (Historia de Portugal). Dizem todos invariavelmente que o delactor de Domingos Leite era Manuel Roque, porque todos invariavelmente se guiaram pelo conde da Ericeira, que escrevia 32 annos depois do successo. O mais curial seria averiguar nos escriptores coevos, e nomeadamente as relações escriptas no mesmo anno de 1647. O investigador laborioso encontraria, ácerca d'este assumpto, afóra a citada noticia de Fr. Francisco Brandão impressa em 1647, duas mais do mesmo anno, uma de Antonio de Sousa de Macedo, e outra de D. Francisco Manuel de Mello. São duas peças declamatorias: rethorica em barda, e muita pobresa de particularidades. O documento mais precioso é do chronista-mór do reino. O conde da Ericeira não o leu; que farte revela ignorancia dos elementos que o deviam esclarecer. Diz que Domingos Leite Pereira era de Lisboa, e de familia distincta. Quanto a ser de Lisboa, claramente contradiz a affirmativa do escriptor coetaneo que o faz de Guimarães n'este trecho da sua relação: Foi o executor da maquina... Domingos Leite Pereira indigno de haver nascido na nobre e leal villa de Guimarães, que sempre abominará tão monstruoso aborto. E em outra passagem, já referida no texto, nos conta que Domingos Leite, da primeira vez que viera de Castella a Lisboa, fôra procurado em Guimarães. Pelo que respeita ao nome do traidor, em varios lanços o nomeia Roque da Cunha, e em um d'elles, por signál, a critica de Brandão desmerece grandemente dos creditos alcançados n'outros escriptos. Senão, vejam: Dia de S. Roque, a 21 de agosto, se executou a sentença no delinquente, e o ser Roque da Cunha o companheiro que o entregou á justiça, faz crivel que por ser este Sancto um dos tutelares do reino, escolhido pelo sr. rei D. João III, de que na capella real ha particular confraria, accudiu á vingança merecida contra os legitimos reis d'esta corôa.

FIM DAS NOTAS

[1] O pai d'estes fidalgos, tão acceitos a D. João IV, foi D. João da Silva, conde de Portalegre parcialissimo de Philippe 2.º de Hespanha, como filho que era de castelhano, contra D. Antonio Prior do Crato, e contra D. Catharina, duqueza de Bragança. É esse mesmo o auctor Dell'unione del regno de Portogallo alla corona di Castiglia, publicado com o pseudonimo de Conestaggio. Não admira que os filhos de tão faccioso castelhano se não bandeassem com os patriotas de 1640; espanta, porém, que D. João IV os chamasse ao seu despacho.

[2] Escuso dizer ao leitor que todas estas ruas e bêcos desappareceram no terremoto de 1755. Ha memoria d'ellas em João Baptista de Castro (Mappa de Portugal) e outros topographos de Lisboa.

[3] O sr. M. Pinheiro Chagas, Historia de Portugal, tomo 6, pag. 291, e o sr. A. José Viale no Novo epitome da Historia de Portugal pag. 158. Veja Monstruosidades do tempo e da fortuna por fr. Alexandre da Paixão, Ms. da Bibliotheca do Porto—e Vida de Affonso VI escripta no anno 1684, Porto, 1873.

[4] Port. Rest. T, 2. pag, 906.

[5] O tratamento de senhoria foi juridico para as donas, moças da camara e açafatas, por alvará de 17 de maio de 1777, quando já de antes a excellencia era o tratamento usual. Na côrte de D. João IV, a lisonja e a urbanidade não hesitariam tratar de senhoria as açafatas, e as amantes do rei em perspectiva.

[6] Carta ao principe D. José.

[7] Em Nota que hade ser posta como confirmação d'estas miudezas verá o leitor que não tem rasão para se maravilhar da omissão dos historiadores, salvo se lhe não é desconhecido um opusculo de fr. Francisco Brandão, chronista-mór do reino, opusculo publicado anonymamente em 1647, com este titulo: Relação do assassinio intentado por Castella contra a Magestade d'el-rei D. João IV, nosso Senhor, e impedido miraculosamente.

[8] Os secretarios de estado tiveram excellencia de juri desde a lei de 29 de janeiro de 1739. Os mordomos-móres já recebiam excellencia no tempo de D. João IV. Em 1648 o padre Antonio Vieira tractava de vossa-mercê em cartas o secretario de estado Pedro Vieira da Motta.

[9] Relação do assassinio intentado por Castella contra a Magestade d'el-rei D. João IV, nosso Senhor e impedido miraculosamente. Lisboa 1647.

[10] Relação do assassinio intentado por Castella contra a Magestade de El-rei D. João IV nosso Senhor, e impedido miraculosamente. Lisboa, 1647.

[11] Obra citada.

[12] Ao meu erudito amigo, o sr. Innocencio Francisco da Silva devo o favor do traslado, cuja orthographia se transcreve fielmente.

[13] O sr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, escriptor tão elegante quanto vernaculo, no seu estimavel livro intitulado: LES CONTEMPORAINS, etc. a pag. 549 nos dá noticia de outro filho, bastardo de D. João IV, nos seguintes termos: Un document officiel passé par le Rei d'Armas Portugal á la famille des Braganças de Cette, gentilshommes de la province du Minho, pour leur permettre de porter les armoiries du duc D. Alphonse I., donne à Jean IV un autre fils illegitime, non reconnu, appellé Alphonse Fayão, qui fut cure (abbade) de Baltar. Nous avons lu ce document qui constate l'origine de cette famille, la seule en Portugal qui porte le nom de Bragance. Le dernier descendant est M. Emmanuel Leite de Bragança Correia. Sousa dans l'histoire de la maison royale ne fait point mention de ce fils de Jean IV; mais le document officiel est positif á cet égard.

Até aqui o nosso eminente escriptor Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos.

O representante d'esse filho illegitimo de D. João IV, o sr. Manoel Leite de Bragança Correia, é actualmente... administrador do correio de Felgueiras. Não nos parece que esteja dignamente collocado este fidalgo tão consanguineo do sr. D. Luiz I. Aviso aos seus reaes parentes. A direcção do correio de Felgueiras deve render 480 réis por dia.

[14] Tinha escripto, antes de Italia, França, que riscou.

[15] Não se confunda com Francisco de Andrade Leitão desembargador do Paço, que fez o discurso da acclamação de D. João IV.

[16]Este imperador da Allemanha havia morrido em 1619, depois de ter abdicado em seu primo Fernando, quando o imperio era dilacerado pelos turcos e pela revolta dos bohemios. Presumimos que a freira de Carnide fosse filha illegitima do imperador, porque, á mingua de legitimos, abdicára no primo.

Notas de transcrição:

Na edição original as notas 13 a 17 no fim do livro não aparecem;

A formatação das notas no final do livro foi normalizada;

No corpo do livro as notas 5 a 8 estavam mal identificadas, tendo sido corrigidas nesta transcrição.

Na nota 6.ª perto do final aparecia erradamente 1 de setembro de 1755 como a data do grande terremoto. Foi corrigida a data para 1 de novembro de 1755.

As erros apontados na errata contida no final do livro (transcrita abaixo) foram corrigidos nesta transcrição.

ERRATAS

Pagina 38, linha 22, onde se lê: sua estola, leia-se: sua estofa.

» 41, linha 9, onde se lê: o cauteloso, leia-se: como cauteloso.

» 53, linhas 14 e 15, onde se lê: um feito, que, leia-se a um tal feito; que.

» 81, linha 8, onde se lê: nos traz, leia-se: nos trazem.

» 123, linha 25, onde se lê: corfirmou, leia-se: confirmou.

» 161, linha 31, onde se lê: cavalgamos a noite, leia-se: cavalgamos á noite.

» 186, linha 28, onde se lê: elle tremia e tremia, leia-se elle temia e tremia.