IV
Dico vobis: Omnia quœcumque orantes
petitis, credite quia accipietis, et
evenient vobis.
Eu vos affirmo que todas as cousas,
que na oração pedirdes, as recebereis,
e succeder-vos-hão.
S. MARC. 11. 24.
Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da policia, um homem que merecera a confiança de João de Mattos nos mais importantes segredos d'aquella magistratura.
Na presença do intendente e d'este homem, alguem fallou um dia em Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota Joaquina, e dos assassinos do marquez de Loulé, no anno anterior.
Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro de Hespanha.
O quadrilheiro, que assistira mudo a esta conversação em que João de Mattos denotava ainda vestigios do antigo sofrimento, a sós com elle, pediu-lhe, muito em secreto, licença para lhe dizer que a mulher de Manoel Teixeira não estava em Hespanha; mas sim em Vairão, onde elle a conduzira com outro homem da sua confiança, diligencia de que fora liberalissimamente pago, sob condição de divulgar que D. Maria da Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de conduzirem-na ao convento hespanhol.
João de Mattos recebeu de bom rosto semelhante nova, e sem detença escreveu a uma sua tia professa no convento de Vairão, pedindo-lhe mui reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de João de Mattos.
A discreta religiosa, sem dar a saber tal carta á sua infeliz amiga, contou ao sobrinho, com piedosas expressões, o atormentado viver da pobre mãe, que, a ser de todo innocente como a ella julgava, devia já ter nas mãos dos anjos a sua corôa de gloria.
Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella tinha a enclausurada, por uma confissão exacta dos simples successos, que precederam a desgraça da infeliz senhora. Accrescentava elle que punha á disposição de Maria da Gloria todo o seu valimento para ella intentar contra o marido acção de divorcio, separação do casal, e posse do filho, visto que o pae escandalosamente amancebado com a mãe de filhos bastardos, não podia curar dignamente da educação nem bem gerir o património do filho legitimo.
Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que o Senhor não faltava em tempo opportuno aos padecentes humildes, e gostava que os desgraçados fiassem d'Elle a inteira execução da sua justiça.
João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido.
A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro. Soror Joanna, n'aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço n'uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com ellas, rezavam ferventemente.
Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas, que não souberam atinar com a causa d'aquella subitanea exaltação. Eu não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza d'aquelles: faça-me acreditar, na existencia d'umas almas que vão entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina.
Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu, naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas para nós... Para mim, devia ter dito; porque, em verdade, não posso nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.
É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em quanto elle caminha chorando d'alma com saudades de sua mãe, e sorrindo ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste resultado promettem á temeridade do bom filho.
Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.
Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N'este enlace pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes, cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente.
Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n'um mancebo que era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella. Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.
No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar alguns primos e primas.
Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é que foi o surprehendido.
—Não mande parte a meu filho,—disse o negociante,—que eu quero apparecer-lhe de repente com a prima.
—O senhor Alvaro não está cá—disse o director do collegio.
—Como?!—meu filho sahiu?
—Ha quatro dias que nos disse que ia passar um mez com os seus parentes dos Olivaes—tornou o director.
—Isto que significa?!—replicou, entre colerico e espantado, Manoel Teixeira, interrogando o mestre de inglez.
—O senhor director disse a verdade...—respondeu aquelle, denotando enleio e turbação.
—Então foi o meu filho que me mentiu?—tornou já muito alterado o commerciante—Não creio! Aqui ha embrulhada!
—Que embrulhada póde haver aqui?—disse com azedume o proprietario do estabelecimento.
—Não sei; é preciso que me digam onde está meu filho.
—Não sabemos, senhor Macedo; já dissemos a vossa senhoria que o suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria, e não nos culpe a nós por nos havermos fiado na palavra d'um menino, que nos merecia toda a confiança.
Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o ella não seguisse. A sua primeira idéa foi... quem póde dizer qual foi a primeira idéa do negociante, cujo amor paternal era de extremos? Levar a casa Leonor foi de certo a primeira idéa.
Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir com o tio, ficou em sezões, e esmoreceu de todo quando ouviu a voz clamorosa de seu amo chamando o filho.
Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia, e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que deixava a pobre ama.
N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel Teixeira reanimou-se.
—Vem dar-me alguma boa noticia?—exclamou o negociante com alegre rosto.
—Creio que sim.
—Appareceu o meu filho? diga, diga.
—Seu filho nunca esteve perdido, snr. Macedo.
—Onde está, pois?
—Vossa senhoria sabe que eu sou o mestre que seu filho mais tem presado.
—Sei, e merece-o.
—A nobre alma de seu filho não podia ter um segredo que eu não soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia estar nos Olivaes algum tempo; a mim, porém, disse-me que ia vêr sua mãe ao convento de Vairão.
Manoel Teixeira deu tres upas na cadeira, e, á quarta, exclamou:
—Quem disse a Alvaro que a sua mãe está em Vairão?!
—Fui eu, snr. Macedo.
—E como sabe o snr. que ella está em Vairão?!
—Sei-o da voz publica.
—E que lhe importa ao senhor'o que diz a voz publica para o communicar a meu filho?
—Não me importa muito o que a voz publica diz; mas interessava-me muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.
—Fez-lhe um grande serviço, não tem duvida nenhuma!—disse ironicamente o negociante—Quer-me mais alguma cousa?
—Quasi nada,—disse o professor—restituir a vossa senhoria seis mezes da prestação que o director do collegio recebeu adiantados.
E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.
Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.
O brioso mestre tinha sahido voltando as costas ao ricaço.
A inquieta Leonor entrou logo perguntando as novidades. O tio não respondeu, e mandou-a sahir com insolito enfadamento. A breve espaço, sahiu de carruagem, a dar execução a uma traça concebida rapidamente. Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra, demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a mãe, e removêl-a a ella para convento estrangeiro. Chegou a dar ordens para ser procurado Alvaro em Vairão, ou no caminho; mas, reflectindo, entendeu que era mais prudente deixal-o chegar inadvertido, que não fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.
Eufemia foi severamente interrogada, acerca das revelações que poderá ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e ameaçada de cadêa, se elle viesse a descobril-a cumplice na fuga de seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta, porém, chegou a Vairão dous dias depois da sahida de Alvaro, e não foi subtrahida no correio de Lisboa, porque ia endereçada a uma das criadas de Maria da Gloria.
Agora é que temos Alvaro em Lisboa.
Mal apeou, informou-se da residencia de João de Mattos Vasconcellos Barbosa de Magalhães, e foi apresenta-lhe a carta da religiosa. Estava o magistrado com altos dignatarios d'estado em occupações gravissimas, quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de Vairão. Afastou-se á parte com Alvaro, leu a carta, muitas vezes interrompida pelo relance de olhos embaciados que lançou ao menino. No fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita meiguice:
—Sua mãe fez-lhe muitos carinhos? Que horas de felicidade o menino lhe levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere aqui um pouco, que eu volto já.
Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o aguazil, que escoltára Maria da Gloria a Vairão.
—Onde mora o menino?—disse João de Mattos.
—Na rua de S. Bento, numero 12—respondeu o esbirro.
—Vá já ter á rua de S. Bento n.° 12 com aquelle homem do Limoeiro—disse o intendente—Agora vamos, menino.
Esperava-os a carruagem blasonada do sobrinho da santa de Vairão.
—Quem será o homem do Limoeiro?!—ia dizendo entre si o filho de Maria da Gloria.