V
Os insensatos não comprehendem
como se enlaçam o merecimento e a
felicidade.
GOETHE (Fausto).
N'uma das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que estava Manoel Teixeira, ao annunciarem-lhe que parára á sua porta uma carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha elle ainda despregado a lingua do céo da boca meio-aberta de pasmo, quando o guarda-portão fez annunciar João de Mattos, e Alvaro. Aqui nos fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!
Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em sua especial posição; mas tranquillo na apparencia. Já o dono da casa se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio ahi dizer a sua excellencia que o snr. Teixeira de Macedo não se demorava.
Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos do menino, e dizia-lhe:
—Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal... Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?
—Nem eu sei dizer... Não é medo...
Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança, vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez mais descomposto. N'esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto, tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.
João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:
—Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o meu nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.
—E vem a minha casa?!—disse Manoel Teixeira com os olhos fitos no pavimento que se interpunha aos dous.
—Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho á sua justa vingança...
—E como se acha meu filho ao lado do senhor intendente?—interrompeu o commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro.
—Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe sósinhos por alguns segundos.
Alvaro sahiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que seria dramatica, se não fosse incivil.
João de Mattos, com a mão esquerda na lapella da casaca, e a direita, segurando o chapéo, sobre a cintura, fallou assim:
—Creio que o snr. Manoel Teixeira tem sobeja intelligencia para conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa, significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem extraordinario.
—Eu desejo realmente saber o que vem vossa excellencia fazer a minha casa.
—Venho...
Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.
—A mim?!—disse o negociante.
—É a mim—acudiu sorrindo João de Mattos.—Queira vossa senhoria consentir que o preso esteja ás minhas ordens na sua sala de espera.
Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas occorrencias:
—Mas esse preso é cousa que tenha relação commigo?!
—É o facto importante da nossa pratica—respondeu João de Mattos, e accrescentou com tristeza:—é o fecho d'esta abobada, debaixo da qual vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração... Queira attender-me. Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete. Não era já moço de paixões violentas; mas... era homem. Amei a snr.a D. Maria da Gloria porque a vi, e porque ella me não dava o mais leve signal de estima nem sequer de preoccupação das minhas constantes solicitações. O coração humano é assim absurdo. Vossa senhoria foi n'essa época á India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as minhas intenções, e se me offereceu para entregar uma carta a sua ama. Acceitei e paguei liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu quarto para uma sala. Cego da minha paixão, não comprehendi que praticava uma deshonra; mas sua mulher lançou-m'a em rosto, e eu sahi de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus abençoara a sua resolução, e que o mundo lhe seria sempre uma testemunha e um applauso da sua dignidade. Terminei. Agora peço licença para ser trazido á nossa presença o preso.
Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos levantou o feixo da porta, e disse ao meirinho:
—Entrem... Conhece este homem?—disse elle ao negociante, indigitando o preso.
—Tenho idéas...—respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se.
—Diz a este senhor quem és—tornou o intendente com terrivel sombra ao preso.
—Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze annos em casa de vossa senhoria.
Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel Teixeira.
—Mande erguer esse homem—disse o intendente.—O juiz aqui sou eu. Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama, esposa d'este senhor?
Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico accento:
—Se faltas n'um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos com dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D. Maria da Gloria?
—Sim, senhor—disse o preso.
—Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria?
—Não, senhor.
—Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou até ao lugar onde ella havia de passar?
—Fui eu, senhor.
—Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a seus pés?
—Mandou-o sahir de casa...
—E a ti que te disse?
—Mandou-me embora.
—Que disseste tu a teu amo, quando elle voltou de Macáo?
O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:
—Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha ama; mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com ferros aos pés n'uma enxovia sem ar nem luz!
João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito do preso.
João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:
—Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso matar-lhe uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d'este miseravel não vale onze annos de lagrimas.
O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada pelos soluços, lançou-se a um canapé.
Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe:
—Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o perdão para quem unicamente precisa d'elle, que sou eu.
Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.
João de Mattos, abrasado d'aquella flamma electrica que experimentam as almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu tremor nervoso:
«Meu sobrinho.
«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa. Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção, sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde. Tua tia muito amiga.
Joanna das Cinco Chagas do Senhor.»
—Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel Teixeira?—disse João de Mattos.
O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João de Mattos, e disse:
—Eu vou levar a resposta a sua tia.
O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.
E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d'ella. Sem embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter, perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.
Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso semblante do intendente.
Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o retrato de João de Mattos, me dizia n'aquella casa dos Olivaes:
—Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções más.»
Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia expansiva de amigo.