VIII
Oh!..............................
Nec te aleator ullus est sapientior...
Nunca velhaco algum mais destro fora.
PLAUTO.
Maria da Gloria, Leonor, e as damas, depois do almoço do dia seguinte, sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira, que fizera pedir á prelada uma grade especial em que elle podesse estar a sós com sua mulher. Maria da Gloria, sabedora da petição, escreveu a seu marido estas linhas:
«A tua dignidade e a minha impõe a nós ambos a delicada obrigação de não proferirmos uma palavra com relação aos acontecimentos que me trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha innocencia: emenda tu agora a culpa de me não teres attendido, portando-te aos meus olhos como se a consciencia te não doesse. Se precisas desafogo, procura-o em Deus, e sentirás allivio. A Divina Providencia escuta os innocentes e os criminosos.
«O pedido, que fizeste á senhora abbadessa, não póde ser por minha parte satisfeito. Irei á grade; mas Alvaro estará comnosco. Sei que te has-de cohibir de confessar as tuas culpas, na presença de teu filho, que as ignora.»
Estava já Manoel Teixeira na grade, quando recebeu o bilhete, e minutos depois chegou Maria e Alvaro. O marido apertou-a ao coração, e disse-lhe:
—É assim que te vingas, Maria?
—Que me vingo!...
—Sabias que estas dôres do remorso só podiam as lagrimas allivial-as, e prohibes-me de fallar, e chorar, para que eu não ouça da tua boca a palavra «perdão»!...
—Perdoei...—balbuciou ella.
—E o teu perdão, minha amiga, devo tomal-o como esperança de me poderes, um dia, restituir o amor que tão mal paguei?
—Cala-te... Não me falles em amor... Que vens tu pedir a uma desgraçada mulher, que envelheceu e morreu aqui?! Parece que não sabes imaginar os dias e as noites de onze annos! Quem espera achar coração em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?
—Queria ter com meu filho quinhão do teu amor. E impossivel? não me queixarei. Acceito a tua indifferença como castigo; mas não me odeies, filha, não. Fui teu algoz porque era teu verdadeiro amante...
—Basta!...—disse com esforço Maria, relanceando sobre Alvaro os olhos sem lagrimas—Esqueces o meu pedido?
Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a tempo que Maria encostava ao coração a face do filho. N'esta contemplação de minutos o que seria o espirito d'aquelle homem? Uma agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas sobre os ossos aridos, a decomposição de um rosto que fora a imagem, o symbolo vivente da graça e da harmonia. Que fizera elle durante os onze annos que devoraram a belleza e o coração d'aquella martyr? Devia de ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da alegria e da opulência. Tivera palacios em Napoles, e alteára-se em suas pompas a tão elevado ponto, que deram d'elle fé os indifferentes de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade, se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do luxo dos seus palacios de Napoles e de Belem? Como pôde elle tão depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da italiana, a cujos pés elle rolava o ouro, que trouxera de Macáo, grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe parecia necessario á futura magnificencia de sua filha!
Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas dores, quando elle de impeto se lançou aos pés de Maria, exclamando:
—Tu não podes perdoar-me!
Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:
—Se te mereço compaixão pelo passado, não me afflijas. Ergue-te. Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas forças. Dá-me o teu braço, Manoel. Iremos vêr de perto as arvores, que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.
Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher. Sahiram, e sósinhos, e silenciosos. Queria Alvaro chamar Leonor, mas o pae rejeitou a lembrança.
—Vamos sós—disse elle—sejamos egoistas d'esta felicidade... embora minha sómente...
Maria sorriu-se, e disse com accentuação melancolica:
—Felicidade!...Tem-l'a conhecido no amor d'este anjo?... Creio-a, se me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz, se ha Deus!...
Teixeira sentiu o golpe involuntario d'estas palavras, e murmurou:
—Deus, que deixou a tua innocencia nas trevas de onze annos... Que Deus!...
—Não offendas a mão Divina que me amparou...—tornou Maria.
As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do pateo, desceram a seguil-os. Sebastião de Brito bradou de longe:
—Olé! Esperem lá, que nós vamos tambem. Duas luas de mel é muita lua! Conversem sósinhos em Lisboa, e dêem á gente uma particula da sua felicidade.
Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes:
—Queres saber, Manoel? A tua sobrinha Leonor está poeta... Não falla senão em versos. E preciso que Alvaro seja poeta.
Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre os dous primos.
—Então gostas muito de versos, Leonor?—disse Maria.
—Muito, principalmente dos que faz o senhor Sotto-Mayor.
—Quem é o senhor Sotto-Mayor?!—tornou Maria da Gloria com espanto.
—Já conhece os poetas pelo nome—respondeu o pae com alegria—O Sotto-Mayor é um rapaz de Villa do Conde, por cuja musa a pequena perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma eternidade de sonetos.
—Já é paixão de versos!—tornou a mãe de Alvaro—Sabes tu fazer versos, meu filho?
—Não, minha senhora: sou ainda muito nova—respondeu Alvaro—A prima Leonor é que tem lido muitos versos.
—Já li o Bocage;—acudiu a menina, acompanhando a expressão de tregeitos exquisitos—li tambem o Belmiro, e as poesias do Garção, e do Quita, e do Lobo, e muitas outras que o papá lá tem. E a senhora D. Catharina de Balsemão, e a senhora marqueza de Alorna gostam muito de me ouvir recitar sonetos, e ensinam-me quando eu não declamo bem.
—Bem está—disse Maria—estás uma doutora, minha sobrinha!... Queres tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro de tres em tres annos?
—Freira! Deus me livre! Eu não sei como ha quem possa viver n'um convento! Antes morte que tal sorte!
O morgado achou muita graça á esperteza da menina, e concordou com ella em não saber tambem como houvesse gente que quizesse sequestrar-se do mundo, que, segundo elle, não era tão mau como os misanthropos o calumniavam.
Todos os passeantes se empenharam n'esta questão, que Maria da Gloria defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no coração e na consciencia. N'isto appareceu o poeta de Villa do Conde, e Leonor, estremecendo, exclamou:
—Elle lá vem! é elle!
—Quem?—disseram algumas vozes.
—O meu poeta!
—O teu poeta!—disse, com molesta accentuação, Maria da Gloria: e chamando a segredo o cunhado, disse-lhe ao ouvido:—Não deixe assim fallar sua filha, que não é bonito aquillo!...
—Por que, mana?—disse em voz alta o morgado—Ahi está o effeito dos conventos! Temos bioquice! Que tem que ella diga o seu poeta? Palavras n'aquella bôca não significam nada, mana Maria! É uma criança: deixal-a fallar.
Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com desembaraço e elegancia.
—Viva o poeta!—disse Sebastião de Brito,—Eu amo os poetas, e gosto das suas relações. A sua bella musa está accesa para a noite?
—A minha musa—disse o moço—está sempre fria; e, se alguma fortuna tiver, devel-a-ha aos calorosos louvores que vossa excellencia lhe dá, posto que os não mereça.
—Pelo contrario: minha filha está encantada dos seus versos, e já sabe quem o senhor é. Alli tem uma criança que já leu os melhores poetas portuguezes!...
—Razão de mais—redarguiu o de Villa do Conde—para não gostar das minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza.
O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do palavroso morgado, e agradecendo com delicados olhares á expressão penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras d'elle.
Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n'aquelle dia. A dona abbadessa, que tambem era capitão-mór de Vairão, infringiu amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem com ella e outras religiosas de mais graduação. Ao mesmo tempo, os poetas, que o não eram senão de noite, comeram durante o dia como quem não fora alli senão para versejar, e honrar o refeitorio das monjas. Estas, porém, de ricas e generosas que eram, não se queixaram, como as do tempo d'el-rei D. Diniz, do muito que os ricos homens e infanções lhes comiam[9].
Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do pateo. Era um formoso intardecer de estio o d'aquelle dia de Setembro. Maria da Gloria não respondia ás alegrias de tanta gente que a felicitava, e não sabia entender a tristeza d'ella. Fallavam-lhe da sociedade de Lisboa as suas amigas desejosas de lá se verem. A melancolica senhora respondia:
—Que tenho eu que vêr com a sociedade!... O braço, que fere com a infamação jamais recua arrependido sem deixar ferida incuravel. Eu não detesto, mas desprezo o mundo. Dêem-me uma casinha e o meu filho, que eu não quero mais. Se este menino tivesse morrido, ha muito que eu dormiria na claustra d'esta casa; ou, se Deus me quizesse provar até mais tarde, nunca sahiria d'aqui.
Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita amargura:
—Tens-me em conta de nada na tua vida, Maria?
—És o pae de Alvaro: estimo-te e respeito-te, hoje como sempre. Que mais queres de mim? A felicidade da mulher é muito fragil, e de certo irreparavel, depois que a matam com a peçonha da ingratidão... Desculpa-me, meu amigo. Não queiras milagres, que as orações das servas de Deus não conseguiram. Houve ahi muito quem pedisse ao Senhor um raio de conforto e de alegria para mim: o que o céo me concedeu foi a conformidade, e o amor d'este menino.
Maria já evitava o praticar a sós com seu marido. Magoavam-na os termos amorosos com que elle enfeitava a sua paixão para dar lenitivo aos pungimentos do seu remorso. Não o amava ella: afoutamente o digamos em nome da verdade e da natureza: não podia amal-o. Deveria perdoar e perdoou á paixão do ciume, enfurecido pelo orgulho; mas ao pertinaz desprezo de onze annos, ao silencio affrontoso áquellas apaixonadas cartas de mãe, que implorara em vão deixar no rosto de seu filho as ultimas lagrimas, não, não podia perdoar a virtuosa mulher.
Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da Gloria.
Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas encarregaram-se de espancar o somno dos viandantes até essa hora, e galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a poesia era inimiga do somno!
Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde excedeu-se a si proprio no mimo, na doçura, no amoravel dos seus sonetos e decimas. A paixão palpitava em todas as metrificações: no soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades. O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n'um soneto, que, a meu pesar, me não repetiram completo:
Que dôces rullos rulla aquelle pombo
A pomba enamorada e toda secia!
Cuidado! que a virtude soffre um tombo,
E vamos ter alguma peripecia!
Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas, dizendo em voz de quem manda e não pede:
—Faça o que eu lhe digo, senão não sou sua amiga.
Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam, apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria:
. . . . . . . . . . . . . . . . . .
Tão negro quadro meu pincel não toque!
Calcarem do perdão as santas leis,
Matarem-me por causa d'um remoque!...
Que homem tão cruel, ó Deus, fazeis!
Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque,
Que diluvio de vinho e de pasteis!
Não averiguei as innocentes manhas de que usou Leonor para sahir da roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos. Miguel de Sotto-Mayor devia ter aviso d'esta mudança, porque desalojou tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:
—D'aqui a uma hora vamos para Lisboa—disse ella.
—Para nunca mais nos vermos?!—respondeu elle—Este outeiro foi-me fatal! Permittisse o céo que os meus olhos se fechassem antes de eu vos ter visto, Leonor!
—Póde ser que eu vos torne a vêr; mas vós me esquecereis quando me não virdes!
—Primeiro esquecerei a vida, sentirei morrer o coração devodo de saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta, que, d'ora em diante, contará pelas lagrimas os minutos da existencia.
—Juro amar-vos eternamente...
—Juraes?! mas esqueceis que já sois a esposa promettida de vosso primo?
—O meu coração é livre—replicou ella...—Adeus, que me procuram; adeus, amai-me, e tende esperança!
Estavam as senhoras já na portaria, quando Leonor desceu. Faltava Maria da Gloria, e havia no convento, além do reboliço, afflicção em muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna das Cinco Chagas, a dar-lhe o ultimo beijo, e desfallecera nos braços da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a partida fosse um arrancarem-na á felicidade. Alvaro chorava ao pé d'ella. Eufemia já pedia que a deixassem alli ficar com sua ama e com o menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o semblante para alegre, e feliz do bem-estar de seu marido. A força dos acontecimentos venceu a final; e Maria da Gloria, abraçando com phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica d'aquellas senhoras.
Rompia a luz da manhã, quando partiram, caminho do Porto. Tocou a matinas o sino de Vairão. As religiosas entraram no côro, e já encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos, a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d'um anjo, e disse:
—Suppliquemos á Misericordia Divina que aceite o calix da innocente Maria da Gloria, como desconto ás futuras amarguras d'esta familia, se os mysteriosos juizos de Deus lh'as reservam.
Quaes seriam as tuas visões, ó santa!?
[9]Aos leitores da Introducção ao Diccionario dos nonymos, de Fonseca, é bem conhecida esta antigualha, divulgada por João Pedro Ribeiro: Dom Danys, pela graça de Deus, Rey de Portugal... A vos meu Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer que Ricos homens e Infançoens, etc. que son naturaes do dito moesteyro veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras Donas, que iam a servir a Deus, não podem i viver, nem manter o dito moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que não sofrades aos desusuditos, etc. Unde al non ffaçades se não a vos me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos, etc. Que fidalgos aquelles que iam de caso pensado albergar-se no mosteiro para comerem as naturas (quer dizer—os rendimentos) das monjas!