IX
Proichè suo fui, non ebbi ora tranquilla,
Nè spero aver...
PETRARCA (Rime).
Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma supposta deshonra devêra ter instillado no animo do banqueiro. É um engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha, nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho para lhe immolarem sem piedade as victimas, a si se golpêam, e tal chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.
Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem testemunhas:
—Recebes em tua casa uma tua irmã, meu amigo. D'esta casa dá-me um quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches o meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a acceitar mais do que isto é mortificar-me. Acostumei-me á clausura: hei-de continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho commigo tudo que me prendia á vida pela esperança. Não me leves á sociedade, nem me peças que a receba n'esta casa. Ser-me-ia doloroso contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas: basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que, ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me assim a vida, que te peço, de portas a dentro?
—Vive como quizeres, Maria—respondeu Teixeira com semblante magoado—Hei-de obedecer a quantas condições estipulares, se d'ellas depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente minha irmã.
—Tua irmã.
—Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para mim.
—Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa has-de conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.
—Comprehendi... Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o castigo: descontar em amarguras a culpa é allivio de remorso nas almas, que não estão de todo pervertidas. Acceito tudo.
E cumpriu religiosamente.
Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se até alli a perfidia fôra clandestina, d'alli em diante até por soberba se patenteava. O novo amante orgulhou-se da substituição, e ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel Teixeira tomar conta dos filhos; ella, porém, respondeu que as velleidades da mulher não tinham nada commum com o coração de mãe; e não lhe deu os filhos.
Alvaro não voltou ao collegio, a não ser para ir mostrar ao seu mestre e amigo as lagrimas de alegria.
—Minha mãe—dizia-lhe elle—é agora a minha mestra. Tudo o que eu sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina. Disse-me que as horas de resignação, que teve em onze annos, as dera ao estudo. É um prazer ouvil-a discorrer a proposito de qualquer passagem de historia; mas o que mais me prende é o que ella diz da vida.
—Seu pae—disse o professor—deve sentir-se feliz, ouvindo-a...
—Meu pae raras vezes entra n'estas nossas conversações. Ha dous annos que minha mãe veio do convento, e desde então não sei como explicar o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella; mas, se o encontro sósinho no seu gabinete, parece que vejo estarem-lhe os cabellos a embranquecer, e não tem ainda quarenta annos, penso eu. Começo a entender tudo, e o meu amigo ha-de dizer-me o que eu não souber. Lembro-me que meu pae é desgraçado porque minha mãe involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a obrigou. Ella é que envelheceu, e está para pouca vida. Muitas vezes me diz a chorar: «Quererá Deus que eu não vá d'este mundo sem te vêr homem, e no caminho da felicidade?» Receio muito que ella succumba aos effeitos dos padecimentos passados...
Um dia, Alvaro Teixeira encontrou João de Mattos, sentado ao lado do conde de Basto, na carruagem d'este. João de Mattos viu-o, e fez parar a carruagem. O ministro da justiça apeou, e abraçou Alvaro.
—Nunca mais se lembrou de mim?—disse-lhe elle.
—Lembro sempre; mas não me atrevi a procurar vossa excellencia.
—Pois procure-me, e nunca esqueça as minhas ultimas palavras.
Este encontro é posterior cinco annos á visita do intendente geral da policia a Manoel Teixeira.
Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial. Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos Olivaes, a horas em que não podesse ser observada. Alvaro, e só elle, era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de Vairão, umas da santa, outras de Cecilia, e muitas de todas as religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao cabo de cinco annos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos, e a ouvia do céo. Depós ella, como se a santa fosse eleita para guia da bemaventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno. Os dias d'estas novas eram celebrados com muitas lagrimas de Maria. «Se tu não existisses, dizia ella ao filho, estas santas creaturas teriam expirado nos meus braços.»
Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta, sendo esse não só o dever d'ella, que tambem a sua mais ardente vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou a lembrança e Alvaro não soube esconder a alegria que lhe ella dava. O morgado dos Olivaes folgou tambem com o convite; Leonor, porém, nem sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pae inventasse desculpas que dispensassem a filha.
Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe assim:
—Alvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito annos: posso fallar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima?
Alvaro corou, e balbuciou.
Maria proseguiu:
—Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a.
—Por que, minha mãe?!
—Aquella menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a educação degenerou-lh'os. Pódes tu imaginar que espaço vai abrir-se diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu has-de ser, se ajuntam os thesouros mais raros, e tu escolherás então o mais primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora enroscada entre as flores, que amavas desde a infancia. Um dia verás seccas as flôres, e a vibora em toda a sua peçonha. Perguntarás então á imagem de tua mãe que voz do céo lhe disse á alma a prophecia, que te faço hoje.
Alvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacencia, triste sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais:
«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa familia. Meus paes amam-te muito, e eu... bem sabes quanto te amo. Não és grata ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida.»
No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.
—Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivaes?!—disse Sebastião de Brito a Maria da Gloria—A mana lembra-se d'aquelle poeta, chamado Miguel de Sotto-Mayor?
—Perfeitamente... Está nos Olivaes?!
—O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por alli, e elle respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dous bonitos cavallos. Pelos modos, ha poetas que tem libré e cavallos.
—Isso que admira?!—acudiu com azedume Leonor—O pae não ouviu dizer que elle era filho segundo da casa mais antiga de Villa do Conde! É boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque Camões, Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavallos nem a libré; o que mais notavel vejo no poeta é o seu talento!
—E o fogo que tu tomas n'estas cousas da poesia, minha sobrinha!—disse Maria da Gloria.
—A pequena é maniaca por versos—replicou o pae—E o mais é que já os faz tambem. Tu ainda não fizeste versos a teu primo, Leonor?
—Meu primo não gosta de versos...—respondeu ella com fastio.
—Eu não desgosto;—disse Alvaro—e, se fossem teus, gostaria muito, prima...
—Ora! não ha muitos dias que eu estava a lêr-te o Oriente, e tu disseste que os versos do padre José Agostinho eram gordos e atoucinhados como o author.
—Pois sim, eu disse isso a brincar; mas, se não gosto do Oriente, poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.
O coração de Alvaro estava cheio de lagrimas. Fizera-se-lhe uma luz súbita no espirito. Recordou-se do enthusiasmo pueril de Leonor pelo poeta de Villa do Conde, e concluiu d'elle para a visita aos Olivaes. Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A paixão deu-lhe o desembaraço, e a dor a eloquencia. Buscou ensejo de estar só com Leonor, e disse-lhe com os olhos marejados de pranto:
—Tu de certo não vens comnosco para Italia?
—Que pergunta! Eu já disse que não ia.
—E por que não vaes, Leonor?
—Porque não quero deixar meu pae, nem troco os regalos de ver mundo pelos afagos d'elle.
—Mas teu pae tem vontade que venhas...
—Deixal-o ter; se elle não présa a minha companhia, préso eu a d'elle.
—Ha outro motivo, minha prima—redarguiu Alvaro com muita tristeza corada por um suave sorriso de artificio.
—Qual?
—Tu amas o poeta, que hoje viste nos Olivaes.
Leonor descompôz-se n'uma risada toda da garganta, e disse a final:
—Tens graça, primo! Estou eu agora feita castellan, com trovador debaixo do balcão do castello a chorar amores!... Valha-te Deus, Alvaro! A mim importa-me cá o homem de Villa do Conde!
—Mas elle de certo alli foi por tua causa...
—E, se foi, que culpa tenho eu! Os poetas tem aquellas cousas, e eu não posso ser responsavel das tolices alheias...
Leonor lançou mão do primeiro pretexto para rematar o dialogo. Alvaro, quasi repellido quando ia a fallar, foi ter com sua mãe, e desabafou por estas palavras no seio d'ella:
—Tem razão... devo esquecer minha prima.
—Menos, quando ella fôr desgraçada...—disse Maria da Gloria—Lembre-te isto sempre, meu filho.
Sahiram para Veneza.
Auras bonançosas lhes assopre brandamente as vélas, e renasçam para elles debaixo d'outros céos as lagrimas do coração!