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Se alguem provou já o golpe d'um
desprezo aconselhe á minha dôr os
remedios da sua.

D. F. MANOEL (Epanaphoras).

Não estava em si Leonor em quanto se não viu nos Olivaes. A olhos enxutos vira ella sumir-se o navio, e já dizia ao pae que lhe doía o braço de agitar o lenço para responder ao adeus de Alvaro.

Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de Sebastião de Brito, offerecida no primeiro e casual encontro, casual digo com respeito ao morgado.

Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em Vairão aos quatorze annos, não tinha sido ainda quebrantado aos dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na esperança de ser um dia, embora tarde, sua esposa.

Havemos de esboçar a indole d'este moço, se trinta e dous annos podem adornar-se com as graças da mocidade.

As freiras tinham dito que Miguel de Sotto-Mayor era mau filho; péssimo devia elle de ser, quando as virtuosas linguas do mosteiro não escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e injurias aos paes e irmãos. Entendêra elle que o éstro da poesia carecia a confirmação da extravagancia. Lêra de Byron os atrevimentos do genio conformados com os desvarios da vida, e não achou cousa impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as musas não lhe eram avêssas; mas, posto que na desordem se avantajasse ao lord inglez, o genio ficava-lhe áquem, na distancia que vai d'um soneto de abbadessado ás «Peregrinações de Childe-Harold».

Por vezes alcançára a casa de seus paes, exigindo dinheiro para excursões ao Porto: davam-lh'o para se livrarem dos escandalos na terra, e tinham muitas vezes de ir resgatal-o á cadêa onde o levavam os escandalos de fóra.

Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providencia dá aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger o infinito dos juizos divinos.

Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de despezas necessarias á sustentação da dignidade de seus maiores e sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.

Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de Brito, o coração era estranho áquella constancia, umas vezes passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pae. Informára-se, e sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna. N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e em menos de dous annos—eram-lhe escassos para viver limpamente os rendimentos d'ella.

No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao vêr-se assim repellido das ricas herdeiras, e ameaçado d'uma fidalga pobreza, reaccendeu a poesia das cartas, e afogueou á mais alta temperatura o coração da donzella. Animou-o ella a pedil-a ao pae, ainda que não asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava d'elle, e tão livre se sentia n'essa escravidão que, no dizer d'ella, quando o pae a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pae.

Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e consequencias d'ella.

Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro, desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da pintura.

No dia immediato, fallaram em casamentos desiguaes, e prostituição da nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala cios, á custa de dotes ganhados ao balcão e na balança.

Brito foi remisso nos gabos á soberba de Sotto-Mayor, por que tinha de lhe dizer que sua filha ia casar com o filho d'um negociante seu irmão bastardo, e d'uma filha d'outro negociante de Macáo. Dito isto, perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal consorcio. O morgado dos Olivaes deu a sincera explicação do casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum tanto o poeta-fidalgo; mas a subita apparição de Leonor, linda como ouro aos olhos d'um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a idéa sordida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel pedir a filha ao pae, na propria presença d'ella. Sebastião de Brito disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.

Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com approvação da sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pae, e nunca o ella vira tão mal assombrado e iroso. Mandou-a sahir da sua presença, e disse ao hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não traziam planos de completarem sua ruina.

Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capellão de Brito:

—Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de hospedagem, por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.

Isto entendeu elle que era puro byronianismo; o dono da casa, porém, é que deu á cousa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em lençoes de vinho.

Ao romper da manhã do dia proximo, Sebastião de Brito foi com Leonor para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas acções. D'ahi a dias, foi ella intimada para recolher-se ao convento das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para se realisar o casamento. Leonor ostentou brava reacção; mas cedeu, por fim, á força, dizendo que o tempo era a arma e a victoria dos fracos.

Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do proprio morgado dos Olivaes as razões da sua negativa, afastou de si o pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha rebelde, e concital-a a reservar o coração para Alvaro, que, no dizer do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae e do angelico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumacia á dissimulação, e prometteu submetter se á vontade paternal.

A traça ardilosa d'esta condescendencia fôra-lhe suggerida por Sotto-Mayor. João de Mattos era barreira mais insuperavel á primeira tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e, delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.

Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis mezes, sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Ha-de sobejar-te tempo de seres feliz—dizia-lhe o pae—Teu primo não póde demorar-se... Que te diz elle nas cartas?»

—Diz que o tio está cada vez peor.

—Pois ahi tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa vem, e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro.

—E que dirá meu primo—replicava ella—vendo-me reclusa n'um convento?! O pae não receia que elle me rejeite, sabendo os motivos que eu dei para ser aqui encarcerada? Se elle tiver dignidade, não me quer; e, se a não tiver, não o devo eu querer a elle.

—A tua fama não está manchada—volveu o pae—Teu primo de certo perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um homem matreiro, ou apaixonado por ti. Não ha dama da corte a quem não tenham succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a sua reputação illesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito noviço, incauto, e impersistente d'uma menina da tua idade? Se toda a gente te desculpa, que fará Alvaro que te ama desde criança?!

Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pae, mais digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado dilatava a época da sahida. Leonor, levada da sua irritabilidade, resolveu fugir, e preveniu Sotto-Mayor. Não era sujeito de emendar desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Mayor, horas depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao castello de S. Julião da Barra.

João de Mattos fôra estranho áquella vil arteirice do morgado dos Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter; chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso, e chamal-o á sua presença.

Miguel de Sotto-Mayor teve uma hora de lucidez, na presença de João de Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica sahida por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos tormentos que elle testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois, sem demora para França, onde então o nucleo do partido liberal fomentava a restauração dos legitimos poderes. No entanto, João de Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia honrada, attrahia sobre si accusações, que mais tarde lhe sortiram a deportação para Abrantes.

Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:

«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n'um lethargo para vir escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu pae morreu, nos braços d'esta santa. Como ella o amava, ou como é o amor das martyres n'este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em cada dia:—Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim, quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe, Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho, d'este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe, minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes que eu perca a fé na misericordia Divina.» «—Minha mãe debulhava-se em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas amarguras, minha prima. Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor, porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!... Não te accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae... Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.

«Napoles—Maio 15 de 1831.

«Do teu

Alvaro.»

Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh'as o odio ao pae, e o anceio da vingança.

Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro violento de Miguel de Sotto-Mayor.

As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares phreneticos da morgada.