XII
Como se é criança!... como se é
criança!
GOETHE (Werther).
Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia admirada, a vêr se surprehendia o coração do filho. Mallogrados estes meios, foi em direitura à chaga suspeita, e descobriu-a.
—O teu sofrimento são saudades de tua prima, Alvaro.
—Eu não posso mentir a minha mãe...
—São?—interrompeu Maria.
—Saudades, e duvidas que me atormentam.
—Que duvidas? se te ama?
—Penso que temos sido injustos com ella, minha mãe...
—Diz-me o que te faz assim pensar, Alvaro.
Não se fez rogar o moço: contou a scena das «memorias da infancia» e mostrou o acrescentamento escripto da mão de Leonor. Maria leu, sorriu, e disse:
—Tanta palavra! tanta palavra!... Crês isto, filho?
—Diga-me a minha mãe se não devo acreditar.
—Não deves. Vai ao convento das commendadeiras e pergunta o que fez alli tua prima, durante oito mezes.
—Minha prima esteve no convento das commendadeiras!?
Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta, recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a predispunha contra o enlace de seu filho e uma douda furiosa, dizia a carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor, desde a entrada e tentativa de fuga, até ás contorsões de possessa que a fizeram suppôr demente.
Alvaro dobrou a carta, e encostou a fronte á mão para esconder de sua mãe as lagrimas.
—Crês no arrependimento de Leonor?—continuou a mãe serena e affavel—É possível; mas o segredo que teu tio escondeu de nós, e o ar de candura com que ella se tem offerecido á nossa estima, qual provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se, confessando-se. Estas palavras são uma hypocrisia, e o beijo d'essa menina é...
Maria da Gloria susteve a palavra que era a própria, e córou-a assim:
—É uma liberdade que deve magoar um coração delicado como o teu.
Seguiram-se alguns segundos de silencio, e, após elles, Maria continuou com vehemencia e magestade:
—Alvaro! tu és um homem. A tua dor é questão mais de honra que de coração. Eu tenho ciumes dos bons sentimentos da tua alma, e, por vontade minha, hei-de cedel-a unicamente a quem te chamar «esposo» com o extremoso amor com que te eu chamo «filho». Se Deus não quer que as minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor. Não te lanço da minha alma; mas não contarei mais com a tua. A minha vida não alcançará a tua desgraça. Morrerei a tempo de ir pedir a Deus que te dê forças para ella.
Alvaro ergueu-se de golpe, e apertou nos braços a mãe lavada em lagrimas.
—Não me falle assim, minha mãe!—exclamou elle—Perdeu a confiança no poder da sua vontade?! Eu não lhe disse que casava com Leonor, nem mesmo lhe disse que a amava com paixão... Deixe-me ser para ella o que minha mãe uma vez me disse que eu fosse:—amigo d'ella, quando a visse desgraçada...
—Seja assim, filho!—disse Maria com desafogo e alegria—seja assim, converte em sentimentos de bom irmão esse amor, cuja profundeza tu não sabes sondar ainda... Ainda mais te cede a tua boa mãe... Escuta, meu querido Alvaro... Fazes-me a vontade?... Olha... estuda dous annos o caracter de Leonor, espera-lhe o desenvolvimento que ella ha-de ter n'este praso; e, se, decorridos dous annos, a vires igual, toda absorvida na esperança de ser tua, e tão amante como virtuosa, dá-m'a como filha, e eu do amor que te tenho farei um segundo coração para lhe dar a ella.
Desanuviou-se por momentos a fronte do moço; mas a tempestade lá estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a banca, e contra a exactidão d'aquella historia é que o praso do estudo não podia prevalecer.
Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar seu sobrinho para festejar os vinte annos de Leonor. Não trocaram palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou differença.
Alvaro é que notou magreza e pallidez no rosto da prima. A natureza tem ás vezes a caprichosa benevolencia de entrar n'estas comedias humanas. Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de certo é, não ter parte o espirito nas contingencias do ar atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão phantasiosa, que quer ver, nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si mesmo com as presas da sua propria paixão.
Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira? Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento e as do amor sem esperança. Se, porém, ia no exordio d'uma falla carinhosa, assalteavam-lhe a lembrança as palavras d'aquella carta da commendadeira, e o coração retrahia-se-lhe sobre si, como se o sangue congelasse subito.
Estavam sósinhos na janella de uma saleta. Leonor apoiara a testa na mão e o braço no peitoril. Alvaro tinha os olhos no céo estrellado, e ouvidos e coração banhados das ondas de harmonia que vinham das salas.
—Por que me não amas tu?!—disse Leonor encarando repentinamente no primo.
—Que fizeste tu no convento das commendadeiras, Leonor?—respondeu serenamente Alvaro.
—Expiei um desvario do espirito em que o coração não tinha parte alguma; obedeci á fatalidade, e abrandei-a com as agonias que padeci. Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta educação que me deram. Paguei amargamente a culpa de perder minha mãe aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras, Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta, responde-lhe pela minha bôca.
Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura:
—Tu não amavas aquelle homem, Leonor?
—Não o amava; via n'elle a minha desgraça; obedecia-lhe á fascinação; sentia de antemão o prazer de me sentir despedaçar na queda ao meu abysmo. Poupa-me, Alvaro; não festejes assim os meus annos. Tenho vinte; e, se podesses vêr a minha alma, tão extenuada, tão envelhecida, chorarias, e dirias ás virtuosas do convento que o seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem chora... Vamos para a sala, que é tempo.
Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois, áquella janella, quando o eu contemplava na outra das ruinas. Era alli!... que tristeza para quem tiver de Deus ou da desgraça o condão de compadecer-se nas dores alheias!
«Não serão precisos dous annos para te estudar o lento supplicio da tua purificação, minha pobre Leonor!» Isto dizia Alvaro em si, quando Sebastião de Brito o chamou para pedir á inflexivel Leonor que dançasse um minuete da corte. Alvaro pediu, e foi obedecido com um ar de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se junto á prima, e disse-lhe:
—Amas minha mãe, Leonor?
—Affiz-me a julgai-a tambem minha: queria poder... e cuidei que devia chamar-lhe mãe.
—Has-de chamar, Leonor... Por que não vaes vêl-a?! por que lhe não contas esses desgraçados desvarios, que se deram durante a nossa ausencia?!
—Quiz contar-lh'os, antes que a sociedade lh'os dissesse; mas a minha confissão devia ser do coração, e esse não tinha que confessar, e, se tivesse, só a ti se confessaria. Além de que, tua mãe deve ter vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.
—A mãe não tem vaidade da sua virtude, prima!—redarguiu mansamente Alvaro—Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que tu o conseguirás, se quizeres. Vai ámanhã vêr-nos, conversa muito com ella, e não te molestes, se a vires menos risonha que de seu costume, não?
—Irei lá ámanhã; mas não me peças o supplicio de relatar extravagancias, que me envergonham. Sei que tua mãe m'as perdoaria aos meus annos; sei-o porque ella é boa, e padeceu. Os felizes é que não perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de mais...—continuou ella passando da brandura á irritação—Que crime foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?
Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de sua prima. Era o natural colerico de Leonor superando os empeços do artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os espartilhos. Este accesso durou minutos, e tamanha força teve com ella que a obrigou a ir raivar sósinha no seu quarto, em quanto Alvaro, procurando o tio lhe dizia que a prima Leonor sahira de ao pé d'elle incommodada.
Voltou já outra, depois de meia hora, e explicou o accidente com dores de peito causadas pela compressão do collete.
Alvaro contou na manhã do dia seguinte estes acontecimentos a sua mãe, sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.
Maria da Gloria respondeu a tudo n'estes termos breves e sêccos:
—Muito bem, meu filho. Principiaste os teus estudos: continua-os. Tens dous annos, e vagar para estudal-a.
Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo as sabidas inconvenientes da natureza; e os reparos do moço desvaneciam-se. N'este longo intervallo, Sebastião de Brito fallou á cunhada na realisação do casamento, e esta decidiu-se pela vontade de seu filho: tão segura estava da palavra d'elle. O morgado, porém, infatigavel em desbaratar a casa, e forçado não tanto pelos credores como pela vocação do desperdicio, pediu dinheiro avultado á viuva, e obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a Leonor.
Em Março de 1832, foi Maria da Gloria com seu filho e Leonor a Vairão visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre a sepultura de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, e apresentar á prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.
Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira, d'onde o duque de Bragança brevemente sahiria com uma expedição para desembarcar em Portugal. Alvaro, durante a narrativa, não desfitou os olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia. Interrogou-a particularmente, e recebeu como explicação uma casquinada de riso, com que o seu coração, absurdo como todos, se deu por satisfeito.
De volta de Vairão, dous mezes depois, Leonor e Alvaro subiram á collina dos arvoredos dos Olivaes, onde estão aquelles escabellos de pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um álamo para plantar, e, segundo elle, essa arvore era o symbolo da alliança eterna. Mal escolhida arvore, cuja folhagem tão movediça é! N'outro já mais entroncado talhou elle as duas letras: L. A. e dos sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as deixou pendentes dos braços tenros da arvore.
Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e coração. Chorou, e disse:
—Quem me déra ser feliz, meu Deus!
Nunca da consciencia e coração de mulher sahiu tão sincero grito! Se ha fatalidade, era aquelle presentimento da desgraça que lhe fazia tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo sacratissima poesia, pacto do coração confirmado por Deus, e uma festa de anjos celebrada com a innocencia da mais santa fé e esperança.
—Pois não és tu feliz, Leonor!?—exclamou o apaixonado moço, apertando ao seio a incomprehensivel mulher.
—Sou feliz, sou, primo... Tenho momentos de louca, de perdida... Nem sei o que quero, nem o que digo!... Talvez que o mais acertado fosse desejar a morte...
—A morte!...—atalhou com espanto Alvaro—E eu a amar-te tanto, e a não pensar senão na vida, na felicidade d'este mundo, em que eu creio como nas palavras de minha mãe...
Leonor não replicou: tomou-lhe o braço, e desceu para o palacete, onde os esperavam Maria da Gloria e Cecilia.
Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena do bosque, Maria sahiu d'um recolhimento profundo, e disse:
—Já lá vão dezenove mezes de estudo, e parece que não estudastes ainda nada, meu pobre filho!... Espero que a Providencia te abra os olhos... Foi o que eu pedi á alma da santa de Vairão, e descancei na efficacia da supplica. Has-de vêr Leonor como eu te vejo a ti Alvaro.