XIII

«Adeus!»... palavra fatal!

BYRON (O Corsario).

Um mez ao certo, depois da plantação do alamo symbolico de eterna alliança, e do entalhe das iniciaes, desembarcou no Mindelo a annunciada expedição do duque de Bragança. Miguel de Sotto-Mayor era um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e linhagem para occupar entre os homens de porte uma apreciação distincta, sendo que o facto do exilio por amor á legitimidade, depois dos carceres de S. Julião, lhe bastaria a merecel-a.

Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca chegariam ás mãos de Leonor, se as escrevesse. Apenas saltou em Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso ella estivesse fóra do convento. O enviado devia aventurar-se a entrar em Lisboa, e levar-lhe a nova ás commendadeiras. O habil confidente pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira desembarcar o exercito, e conseguiu entrar á presença do morgado e de sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala gesticulando, o hospede, que o applaudia, deixou cahir no regaço de Leonor a carta, e pronunciou subtilmente a palavra Sotto-Mayor.

A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada alegria e convulsões de louca.

Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua esperançosa posição e dos grandes destinos a que o chamavam os seus talentos. Se não era modesto, seria injusto acoimal-o de visionario. Capacidades somenos o igualavam no immoderado das ambições, e lograram realisal-as muito além do escopo em que punham o fito. Dizia, porém; elle que renunciava á gloria, se Leonor a não quinhoasse com elle, e que poria o peito ás primeiras balas dos inimigos, se a encontrasse infiel aos juramentos.

Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu coração tinha gemido até aquella hora. Louvava-se da sua constancia, attribuindo-a mais á dôce fatalidade que os aproximava, do que ás debeis forças de mulher. Pedia-lhe que a salvasse sem demora dos últimos assaltos do amor do primo e da ambição do pae. Sujeitava-se a fugir para o Porto, com qualquer pessoa da confiança de Sotto-Mayor, e ser sua esposa lá, como da alma o era desde a primeira vez que o vira.

O portador da nova, sem o menor empeço, entrou no Porto, e sahiu dias depois a nova commissão para os Olivaes, onde a anciedade de Leonor alongava as horas interminaveis. A resposta correspondeu á ancia. Na sahida da aldêa estavam as cavalgaduras, tomadas em povoação fóra da estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta, e planeara o momento da fuga.

Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832.

Alvaro Teixeira e sua mãe sahiram de Lisboa n'uma tarde de muita calma, e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um casal, que não via desde que fora enclausurada.

A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o morgado, se a cunhada não viesse, iria para Lisboa, curioso de saber se os rebeldes tinham sido espingardeados no Porto. Como, porém, Alvaro dissesse que se movia o exercito em direcção á cidade heroica, Sebastião de Brito esfregou as mãos, e disse que os malhados áquella hora de certo já tinham embarcado para salvarem as orelhas. Leonor intimidou-se, mas o seu brilhante futuro não lh'o empanou sequer uma sombra de desistencia.

Ás onze horas, disse-lhe Alvaro:

—Vamos ao lago, Leonor? Vejo-o d'aqui tão lindo e prateado pela lua!...

—Vamos—respondeu ella após curta hesitação.

E Alvaro replicou:

—Parece que não vaes de vontade!

—Vou; mas deixa-me ir buscar um chale, que estou levemente constipada.

—Então não vamos, não, minha prima... Eu não sabia...

—Havemos de ir...—tornou ella—Espera um pouco...

Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era franjada de festões curvados e espelhados na agua morta e limpida. Entre os arbustos relampejavam os vaga-lumes, e á flôr da agua saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A espaços, resaltavam os escallos á tona, e abriam muitos circulos e em cada circulo uma zona de prata.

—É dizem que não ha felicidade n'este mundo?...—murmurou Alvaro, tomando nas suas as mãos de Leonor—Que é isto que eu sinto, e tu deves sentir agora!...

Leonor não respondeu, e Alvaro proseguiu:

—Estás em extasis diante d'este formoso quadro, prima? Tens razão! Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem...

—Isto é bello!...—disse Leonor machinalmente, e ouviu, ou não ouviu o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que nunca eloquente; e amante.

Soaram os tres quartos depois das onze.

—Ó primo, disse Leonor inquieta, vaes tu buscar-me a minha capa de capuz?

—Vou; mas tens frio?

—Receio têl-o e não quero sahir d'aqui...

—É melhor irmos, vamos, prima...

—Não vamos: vai buscar a minha capa, sim?

Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor correu ao longo d'uma alea de acacias em direcção opposta. Da extrema d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da abertura d'um aqueducto uma pequena caixa, e um chapéu de velludo emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena janella de umas poucas eminentes á estrada, e saltou, auxiliada por um homem que a esperava, e a quem entregou o cofre das joias de sua mãe. A poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada fugida.

Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha Leonor; e, como o primo não respondesse para ganhar tempo, vieram depós elle Sebastião de Brito, Cecilia, e Maria da Gloria.

Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor.

—Onde está ella!?—perguntou o pae—Falla, Leonor, não andes a fazer fosquinhas!...

—O local é proprio para jogar as escondidas...—acrescentou Maria da Gloria.

—Eu vou dar com ella—tornou o morgado, batendo os caramanchões, e dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina.

N'isto demoraram alguns minutos, até que Alvaro disse:

—Leonor já não está aqui.

—Pois onde ha-de estar? essa é boa?—replicou o tio. Vamos dar com ella no laranjal.

E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e viram aberta uma janella.

—Aquella janella aberta!—disse Sebastião de Brito.

—Foi por alli que ella sahiu—ajuntou Alvaro; mas a ultima palavra proferiu-a tão afogada, como se fosse a ultima da sua vida.

O morgado debruçou-se no peitoril da janella, e viu um lenço branco. Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna esquerda conteve-o em contemplação arquejante. Chamou a altos brados os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto Maria da Gloria e Cecilia perguntando ambas por Alvaro. O morgado não lhes respondeu, de açodado que ia, caminho de casa. Correram o pomar, e acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno. Pôz-lhe a mão na testa a mãe, e sentiu-a fria de marmore, tirou por elle para o seio, e dissereis que a estatua cahia hirta e inteiriça, impulsada pelos braços de Maria da Gloria.

—A maldita de Deus matar-te-ia, meu caro filho—exclamou a mãe.

Alvaro desligou-se dos braços de ambas, pediu que o deixassem, e sentou-se, escondendo nas mãos a face.

—Por que não ergues as mãos a Deus, Alvaro?—tornou Maria da Gloria—Vês agora o abysmo de que tua mãe te queria salvar?

—Não me falle, minha mãe—disse Alvaro com energia—A que vem Deus aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.

Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de Vairão, e pediu a Cecilia que orasse com ella. Eram passados minutos, quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a Cecilia que mandasse pôr a parelha á carruagem. Alvaro ouvindo esta ordem, ergueu-se, e disse chorando:

—Tenho ainda minha mãe... Bemdito seja Deus!...

Maria, abraçando-o com transporte, exclamou:

—E que coração de mãe tu tens aqui, meu querido filho!... Não morrerás, não, Alvaro?

—Morrer!... Não se morre assim, minha amiga... Os seus onze annos de martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe... Hei-de viver, minha mãe...

Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e articulou:

—Adeus!...

Depois, fitou os olhos em sua mãe, e acrescentou:

—Ora veja que mocidade a minha!... Estou no principio da vida!...

Não lhe respondeu a mãe: os soluços cortavam-lhe a palavra. A carruagem veio tomal-os no pateo. Sebastião de Brito acudiu á portinhola perguntando se o deixavam sósinho com a sua afflicção: Maria disse lhe que não havia alli ninguem que podesse consolal-o.

O cavalleiro, que seguiu estrada do Porto, só de madrugada encontrou almocreves que não tinham visto senhora alguma. No decurso de algumas leguas nenhum viandante lhe deu melhores noticias. Retrocedeu á noite, ignorando que as pessoas, que fogem, só aproveitam o melhor caminho, quando não tem o peor atalho. Ora o confidente de Miguel de Sotto-Mayor tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por povoações menos praticadas até Coimbra. D'ahi passou a Aveiro onde tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius, defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso.

Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus camaradas, attonitos da formosura d'ella. O titulo com que a apresentara foi d'ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno. Miguel não daria grande valor sacramental ao acto mas entendeu que pendia d'elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio.

Não direi que a apaixonada e viril senhora seguisse o esposo ás trincheiras, ou fizesse ondear as plumas do seu chapéo ao sopro das batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta seriedade de espirito como escreviam a «Harpa do Crente» ou «O Arco de Sant'Anna.» O fidalgo de Villa do Conde, oferecendo os seus talentos especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d'aquelle grande apparelho de guerra; e, tão acrisolado foi nas funcções do espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande fama de prudente. Os bravos, que o viam com mulher tão bella, achavam-lhe racional o medo, e diziam que por tal preço todos aceitariam o estigma de cobardes. Os assustadiços cogitavam na traça de salvarem as immunidades pessoaes, á sombra de tão bella egide, sem damno da sua reputação patriotica. Os casamentos, porém, eram difficeis n'aquella época, e o imperador costumava dizer que a namorada dos valentes era sua filha.

Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel de Sotto-Mayor, com quanto não assistisse á victoria de Cacilhas, foi um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do Além-Tejo, logo que a tropa liberal estanceou em Leiria. Escreveu ella a seu pae, em termos que os não diria mais amaveis uma boa filha. Convidava-o a aceitar a validissima protecção de seu marido, e recolher-se a Lisboa, sem temor de desfeita, ou desforço de antigos odios politicos.

Sebastião de Brito era um tolo com uma boa alma, amigo extremoso de si mesmo, apegado á vida por muitos, posto que apodrentados liames do coração, e namorado ainda de algumas velhas matronas da corte, que tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas, pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.

Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e rematou pedindo-lhe novas de seu primo.

—Nunca mais o vi—disse elle—consta-me, porém, que vive muito triste, e que passa a maior parte do tempo com a mãe no valle de Santarem. Pobre rapaz!...

—Mas não morreu!—acudiu Leonor.—Todas as paixões assim são, meu pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino para se inundar a um homem, cuidando que o matará, se não renunciar á vida, ao coração, á gloria, e ás imperiosas exigencias da sua indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo, não reconhece o sacrificio, nem se julga devedor da abnegação da martyr. E o que me estava reservado com meu primo, cujo genio é perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa que não tem tempo de calcular quantos contos de reis necessita para comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no coração; mas estas duas dores, quando se juntam, lá se curam uma á outra. Ora aqui tem, meu pae!

—Parece-me que tens razão, filha...—disse Sebastião de Brito, tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao escarlate.