XIV

... Que direz vous de l'indigence?

MONTAIGNE (Essais.)

Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens livres não valiam as hypothecas, e os vinculados não se remiriam com os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a juizo. Miguel de Sotto-Mayor disse a sua mulher: «olha que não tens nada; teu pae não tem um tecto que o cubra se os credores lh'o não quizerem dar por caridade.»

Leonor doeu-se do modo secco d'estas palavras, e respondeu:

—Meu pae não acceita esmolas de ninguem, nem tuas.

O marido achou bonita a reflexão; mas accrescentou que a verdade era aquella.

Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde tinham sido grandemente rebatidos no espaço de dous annos de emigração. Feridos de morte já elles estavam quando o fidalgo foi aos Olivaes procurar o balsamo que tão escasso lá era. Os arrendatarios da terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos, descontando n'ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados.

Isto, vertido á lettra, quer dizer que Leonor podia replicar assim ao seu marido: «Olha que não tens nada. Não tens um tecto, que te cubra, se os credores t'o não quizerem dar por caridade.»

Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no Além-Tejo. Breve tempo exerceu o lugar: minguavam-lhe paciencia, habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa, requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no livro da secretaria.

N'este tempo conjuravam os credores na total ruina de Sebastião de Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos, e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o bastardo, solteiro ainda, não cuidava em saldar contas com seu irmão por um enlace matrimonial dos filhos ambos.

Os homens, que parece gozarem-se em coadjuvar a má fortuna empurrando ao abysmo os que para lá pedem, não queriam que Sebastião de Brito podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho, respondeu:

—Quem castiga é Deus.

O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob condição de ficarem n'elle como inquilinos por tempo de tres annos os devedores. A mobilia contheuda foi tambem penhorada, e Sebastião de Brito depositario d'ella.

N'estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da inquietação ao desespero. Leonor tragava as impaciencias do marido, e enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.

Aqui temos face a face estes dous infelizes. Afigura-se-nos que o severo anjo do castigo os está contemplando com formidavel silencio. Miguel tem um cavallo, que o leva para longe do semblante amargurado e desbotado de sua mulher. Leonor tem no jardim uns caramanchões, que a escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso d'aquelles caramanchões estão os bancos rusticos em que Alvaro se assentava. Alli á beira do lago está o escabello de cortiça em que ella ficara sentada, quando Alvaro foi buscar a capa. Por que não creremos na muita dor e muita saudade d'aquellas lagrimas, que Leonor está chorando!?

Ahi estava sósinha ao entardecer, quando uma sege entrou no pateo.

Leonor admirou-se: já ninguem a visitava de carruagem. A nova criada não conhecia as relações antigas. Disse-lhe que a procurava uma mulher, que não tinha geito de senhora.

—Isso me quiz parecer...—disse Leonor entre si—mas de carruagem!... Alguma nova credora, a quem eu hei-de pagar a carruagem...

—O boleeiro traz libré—disse a criada.

—Libré!—murmurou Leonor—Então enganei-me...

Era Eufemia, a ama de leite de Alvaro.

Fitou com espanto a sobrinha de sua ama, e pediu-lhe licença para a abraçar!

—Abraça-me, Eufemia! e deixa-me chorar no teu seio, que não tenho mais ninguem!—disse a soluçar Leonor.

—Está muito infeliz, minha senhora?!—perguntou Eufemia.

—Estou pobre: escusas de perguntar-me mais nada. E minha tia vive feliz?

—Feliz, não! Com aquelle filho sempre triste, como ha-de ella ser feliz!... Pobre menina! Quem a viu e quem a vê! Era tão linda!...

—E achas-me feia, Eufemia?!—perguntou Leonor com um triste sorriso, expressão talvez da vaidade ferida, da vaidade, extremo reducto em que a mulher, que foi bella, ainda affronta a desgraça.

—Feia, não, minha querida senhora... Acho-a mais magrinha, e sem aquellas côres de roman, que pareciam dar saude á gente... Em fim, é conformar-se com a vontade de Deus, e pedir á Virgem Maria que dê saude a sua tia, que é uma santa. De mando d'ella é que eu vim aqui trazer-lhe uma encommenda, e dizer a vossa excellencia que, nos fins dos mezes, cá venho trazer-lhe outra assim.

Eufemia depositou sobre uma mesa um rôlo de dinheiro.

—Dirás a minha boa tia—disse Leonor com as lagrimas estancadas nas palpebras—que a pobre Leonor acceita a sua esmola, e lh'a agradece com este pranto que vês.

Eufemia pediu nova licença para abraçal-a, e disse-lhe por ultimo:

—D'hora a hora Deus melhora, minha menina. Lembre-se que sua tia padeceu onze annos...

—Minha tia era um anjo de innocencia, e eu estou expiando culpas enormes: ella consolava-se com a mesma injustiça, eu sinto que mereço o castigo.

Eufemia deu conta da sua commissão a Maria da Gloria, e retirou-se quando Alvaro entrava.

—Olha que está muito infeliz a pobre Leonor!—disse a mãe.

—Não lh'o tinha eu dito?! Acceitou?

—Acceitou, e agradeceu com lagrimas.

—Deve de estar muito quebrado aquelle genio pela desgraça!—tornou Alvaro—Acceitou a esmola!... Pobre mulher!... Deve estar mudada tambem de rosto...

—Diz a Eufemia que muito, e até trajada com pouco aceio.

—Perguntaria por mim?

—Não sei, filho... Eu presumo que não teria força para tanto!... Fiz-te a vontade, Alvaro?

—E a sua vontade, minha mãe, não era soccorrer tambem a infeliz?

—Era, era, meu filho...

—Pois não se esqueça de lhe mandar todos os mezes o que a mãe julgar necessario á decencia d'ella.

—Mas tu não pensaste ainda na parte que o marido ha-de tomar n'este soccorro?

—Que importa, minha mãe? O nosso fim é melhorar a situação de minha prima, e só o podemos conseguir melhorando a situação de ambos.

—Esperava essa resposta: a tua generosidade, Alvaro, é desinteressada, e nobre. Vejo que não pode nada comtigo o ciume...

—Não, minha mãe—disse Alvaro n'um falso tom de verdade, movimento de feições que não enganaria olhos e ouvidos mais amestrados.

—Assim é que eu entendo a virtude—continuou Maria da Gloria—são estas as joias de puro ouro que trazem do céo o signal da sua valia. Se te deixasses levar d'um calculo, o mesmo seria lançares á balança das culpas estes punhados de ouro, Alvaro. Da antiga Leonor o que resta para ti é a mulher desgraçada, não é assim?

—De certo... Que mais pode restar?!...

—Mais nada... O Senhor te abençoe o coração, e t'o encha de alegria e de santos estimulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem orgulho das boas acções.

Alvaro, logo que pôde estar sósinho com Eufemia, perguntou:

—Minha prima não lhe perguntou por mim?

—Não, meu senhor.

—E Eufemia proferiu o meu nome?

—Sim, senhor, disse-lhe que o menino andava sempre triste... e ella... ficou assim pensativa... e fallou n'outra cousa.

—Mas ficou pensativa? e viu-lhe lagrimas?

—Ora, se vi!... quando lhe dei o dinheiro, as lagrimas rebentavam-lhe dos olhos como punhos.

—Mas a Eufemia não lhe disse que eu sabia d'estas cousas de minha mãe?...

—Nada, não disse, porque o menino e a mãesinha assim m'o ordenaram.

—Fez bem, e nunca lh'o diga, e escusa de dizer a minha mãe que lhe fiz estas perguntas.

—Não digo, esteja o meu filho descançado.

—Olhe, Eufemia... Leonor está muito acabada?

—Se está! nem parece ella! lembra-se d'aquellas rosas que ella tinha no rosto? Nem signal d'ellas! Está muito magrinha, e tem á volta dos olhos umas pisaduras que parecem de tisica...

Alvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas paginas d'uma saudade tão triste que, se a mãe as visse, cuidaria que seu filho amava Leonor.

Aqui vai trasladado um fragmento:

«Que sentes, que recordas tu hoje, ó desventurada, quando a minha imagem te contempla? Perguntarás a ti mesma o que fizeste de tua belleza, e o que serás ámanhã aos olhos d'esse homem que te encravou na fronte os espinhos da coroa, que eu, a victima das tuas proprias dôres, te arrancaria, se podesse!? Ó Leonor, que supplicio tu mesma escolheste! Por que não foges d'ahi onde estão as flôres da nossa infancia! Com que alma podes tu olhar aquelle lago, aquelles bosques, e aquellas arvores da collina!? Foi o teu demonio que te acorrentou á sepultura onde enterraste o meu pobre coração!?

«Eu não sou mais feliz que tu, Leonor! O tedio da existencia é a maior das tribulações. Tu desejas, talvez, a antiga felicidade, e gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do passado, é um novo trago de peçonha, que bebo das tuas mãos.»

Quer-me parecer que ha ahi expressões indicativas d'um sentimento que não é desprezo, nem sequer desamor. Sem medo de errar, affirmo que só a amisade, paixão muito mais entranhada que o amor, poderia exprimir-se assim. A mim me tem acoimado de paradoxal n'este meu sentir sobre a amisade: que monta isso? quero-me até ao fim com o paradoxo; e terei sempre em cousa de pouco o amor, que não enraizou na fibra mais nobre do coração: esta, a meu ver, é a que se diz «amisade» e nada se me dá que a lingua humana por ahi traga a palavra envilecida nos enxovalhos de falsos affectos, com que a civilidade e a conveniencia infamam aquelle divino dom da alma humana.

Por me não distrahir em dilações impertinentes, irei aos Olivaes.

Miguel de Sotto-Mayor, recolhendo noite alta do seu passeio, achou Leonor a pé.

—Esperei-te—disse ella—para te contar que minha tia me remetteu este dinheiro, e a promessa de me dar uma mezada. A nossa posição melhora, e o teu espirito, se me não engano, está livre das afflicções da desfortuna domestica.

—Sendo assim, de certo!...—disse Sotto-Mayor com alegria—Bem sabes que felicidade e pobreza não se compadecem. Quem teve muito e aspirou a mais, por grande que tenha o coração, esmorece ante o aspecto da miseria. Eu espero a independencia, quando entrarem no ministerio outros homens; e não me pejo de acceitar de tua tia este dinheiro como emprestimo.

—Agora, outra cousa—proseguiu Leonor—Que fazes tu fóra de casa até estas horas, Miguel?

—Que faço!? divago sem destino, fatigo o corpo e alma: são exigências do soffrimento, minha Leonor.

—Pois bem—replicou ella entre ironica e meiga—agora que o soffrimento deve ser menos exigente, vive mais commigo.

—Viverei, filha, e compensar-te-hei dos dissabores que te dei involuntarios.

Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivaes: cresceram os criados; cuidou-se no aceio da casa; emparelhou-se outro cavallo, com o que existia, para uso da carruagem; sacudiam-se as librés do pó de quatro annos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o proprio Sebastião de Brito voltou á casa de seus avós, com os cabellos cada vez mais variegados de côr do barro e azeviche. Trezentos mil reis mensaes, entregues no principio de cada mez, davam que farte para satisfazer as necessidades do luxo.

Maria da Gloria disse uma vez ao filho:

—Tua prima não aprendeu nada no infortunio.

—Por que, minha mãe?

—Não a vês toda embebida em pompas, e visitas, e jantares?

—E será ella feliz?

—Parece que é.

—Pois é esse o fim para que minha mãe lhe dá dos seus sobejos. Desgraçada era ella antes dos seus soccorros.

—Mas eu achava acertado que Leonor não gastasse em frivolidades o que recebe de esmola.

—Não digamos esmola, minha mãe: a palavra é humilhante... Leonor é sua sobrinha; e meu pae daria tudo para não vêr em miseria aquella familia. Deixai-os ser felizes, que, por mais que o sejam, não nos roubam o nosso quinhão de felicidade que é o melhor.

—Que alma a tua, Alvaro!—exclamou Maria da Gloria, abraçando o filho—E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e tres annos, e vives como aos dezoito! Por que não compras um trem novo? Por que não vaes aos salões, onde um coração perfeito como o teu faria a maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou comtigo, filho?

—Não, minha mãe—respondeu Alvaro—Tenho tudo, que mais quero, n'este estreito recinto: aqui, minha mãe; alli, os meus livros. As viagens instruem; mas a minha ambição de saber está limitada no que posso aprender lendo e pensando; tambem distrahem; mas, se ha magoas na minha vida, são ellas de tal natureza, que o remedial-as seria igual a renovar o coração. Esta obra ha-de fazel-a o tempo. Não se é feliz em parte alguma, quando se não póde ser entre as reliquias da infancia, e os braços de uma mãe como a minha. Continuemos assim a vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que soffrem mais que nós.