XVI

Suadeo tibi emere à me aurum ignitum
probatum, ut locuples fias.

Admoesto-te a que me compres o
meu ouro de fino quilate para te locupletares.

APOC. 3. 18.

Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria. E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n'uma, loja de capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama, repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da criada com um sorriso, e estas palavras:

—Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que não mata a honra de ninguem.

Ficou Leonor com seu pae.

Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a lançava de si:—a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto a seiva que as alindava.

Em que pensava Leonor, n'aquella sua rapida mudança de vida? Parecia não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa, menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar que hoje.

Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher, que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos, Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave tristeza da musica.

Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:

—A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não encontrarmos.

—E, todavia, meu filho—replicou a mãe—estás sempre perguntando-me se a mezada será sufficiente para o bem-estar de Leonor!...

—Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas, signal é de que não representa algum affecto de coração a minha prima.

—E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um homem que a expozesse a novas miserias?

—Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar contra a estrella fatal d'aquella infeliz.

—E crês tu na fatalidade, filho?...

—Creio, minha mãe.

—E a virtude que fica sendo?

—A fatalidade do bem.

—Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?!

—Eu—disse Alvaro com profunda amargura—não sei o que é melhor, nem mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que sinto... o melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que é a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento?

—Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem religião?...

—Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe...

Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava fallar a Alvaro.

—A mim!?...—disse elle, admirado—e foi á sala onde o esperava a senhora.

Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.

—Não a conheço, minha senhora—disse Alvaro.

—De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu pae—respondeu ella em italiano—sou a desgraçada que acompanhou seu pae do theatro de Milão para Lisboa ha dezeseis annos. Vi o snr. Alvaro criancinha ao peito de sua ama, e torno a vêl-o homem com a reputação igual á das virtudes de sua nobre mãe.

A italiana enxugava as lagrimas.

—Queira continuar—disse Alvaro.

—Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz, era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos delirios d'uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos meus pobres filhos: sustentei-os n'um collegio, até 1832, época em que eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa, roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d'um homem, que me conhecera em tempos felizes... felizes!... que falsa apreciação!... Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores, valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta por toda a vida.

A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:

—Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.

Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:

—O nome de seu filho?

—É Julio de Macedo.

—Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa dos meus esforços.

A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza d'aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da escada.

Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher, tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e disse-lhe risonha:

—Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia procurar-te em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!...

Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a sua mãe.

—Em que pensas, filho!?—tornou ella rindo em gargalhada—Estás ainda arrobado na visão da deidade, que te veio roubar o socego?!... Diz o que sentes, Alvaro!

—Logo, minha mãe, logo...—respondeu Alvaro, cada vez mais enleado.

—E por que não ha-de ser já?!—redarguiu Maria da Gloria com gravidade—Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa arvore produziu fructos tão maus!?

Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns monossyllabos.

—São aberrações—proseguiu ella—Não lhe ouviste dizer á pobre mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a fortuna te dá.

Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo. O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia. Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço. Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre; a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.

O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da antiga locataria do palacio de Belem:

—Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e levem as lições da desgraça para a conservarem.

D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com exclamações e lagrimas.

—As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos—disse Alvaro—Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe vejo no rosto.

D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho, partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me respondeu:

—A fortuna de duas familias independentes.