XVII

Un groupe de Dalila et de Sanson
avec celui de la farouche Judith serait
toute la femme expliquée.

BALZAC.

Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza d'este espaço e quasi no termo d'elle, falleceu Sebastião de Brito, legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus desvarios senis. De paixão d'alma diziam os facetos que elle tinha acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do hospedeiro e luxuoso conde d'aquelle titulo. Não devem esquecer alguns desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada, confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo, não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados.

Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder lh'a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de sua prima.

Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas, tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam.

Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha, e communicou-as a Alvaro.

—Pois a mãe que esperava!?—disse este—Leonor teve treguas de dous annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta.

—E qual achas tu que é o nosso dever?

—Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não podér nada com ella, ampare-a como até aqui.

—E se eu lhe retirasse os meios—replicou Maria da Gloria—crês tu que o segundo calculista a não deixaria em paz?

—Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um indigente como ella.

—Á vista d'isso, filho, julgas incurável tua prima!?

—Julgo, mãe.

Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.

—O teu mau anjo não te deixa, Leonor?

—Porque falla assim, minha tia?

—Dizem-me que estás á beira d'um segundo abysmo. São falladas as tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha? Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d'essa miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege!

Leonor sahiu d'uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua tia, soltando estas palavras:

—Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. Agora fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem sabia que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.

—Explica-te, Leonor...—atalhou Maria da Gloria estarrecida de espanto.

—Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa vista para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração, teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente, humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido, eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade, e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam «cynismo»; é aquillo que eu já disse—o despreso de mim propria. Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós. É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola, beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus. Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha, que os credores de certo não querem; irei lá viver.

Calou-se Leonor.

Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e disse:

—Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo», foge para mim que eu te abrirei os braços.

Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.

Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava casar-se.

Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam sobre o mesmo motivo, disse:

—Esse homem julgará rica a prima Leonor?

—Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia dos seus parentes.

—Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta com o beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem...

—Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?

—Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto no collegio, nos meus ultimos tempos.

Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo, professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim ao encargo, que recebera:

—Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é romantica, terceiro porque é romantica.»

—E porque é rica—atalhei eu.

—Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões...

—Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma sem-razão. D. Leonor é pobre.

—Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!

Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos inconvenientes das suas parentas necessitadas.

—Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui vêr—redarguiu elle—e aquell'outro de ruinas tão poeticas; e aquellas duas quintas que se espreguiçam na margem do aurifero Tejo... que me diz o senhor a isto?

—Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c. Mas—conclui eu—as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu, prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres vezes romantica.

—Diz muito bem—acudiu elle:—o casamento ha-de fazer-se, quando eu for tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o meu caro mestre e amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.

—Quer dizer...

—Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui estou ás ordens.

—Aqui tem o senhor Alvaro—continuou o professor de inglez—o que passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão da liberdade com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.

Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do mestre de inglez, disse:

—Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.

Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados. Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:

—Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O cavalheiro de certo não falta.

—Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria dignidade!?

—E por que não diz «ao seu proprio coração...»?—retorquiu ella com despeitado sorriso.

—O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se atreve a entrar nos juizos do espirito...

Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou anciosa o dia seguinte.

—Vou responder—disse ella—cathegoricamente ás suas cartas. O pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas cartas, não é assim?

—Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!

—Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso.

—Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?

—Elucide-me...—atalhou Leonor—A sua linguagem é escura!

—Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha senhora. Eu sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem da amisade d'uma tia millionaria, que vossa excellencia tem.

—Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que me dotava com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o nobre trabalho da intelligencia.

—Tambem é certo—redarguiu algum tanto confuso o jornalista—era, porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade em relação áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não está vossa excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a felicidade real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de philosopho. Todavia...

—Queira dizer-me—interrompeu a viuva—a quem pediu informações dos meus recursos?

—Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as; não as averiguei; deram-m'as.

—Quem?

—Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!?

—Conheço.

—Como conhece, minha senhora?

—Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo?

—Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia não tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.

Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira sahir.

Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:

—Sua excellencia manda sahir.

Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.

Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.

Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.

—A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!—disse a criada—Que tem, senhora D. Leonor?! a menina tem febre!

—Trazes-me a esmola?—disse Leonor com desabrimento—Leva-a a tua ama, e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa encerra. Tudo isto não vale um terço do dinheiro, que recebi; mas é honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre desgraçada repelle a mão bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que o rotulo da sua caridade é um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu ouro, ganhado sobre o balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude não está sómente nos temperamentos de gelo, que facilmente são virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.

Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege de praça, e deu ordens ao boleeiro.

Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração.

—Esperemos...—disse elle a sua mãe.